Uma crônica de Yanna Nóbrega, minha namorada, em Brasília-DF

7235km de (re)encontros

Para Ingrid, Iana, Sara, Gabriel, Eduardo, Samara, Bruno e Zema, minhas crianças

Meu coração navega solitário as primeiras quietudes de dias de felicidade e plenitude muito recentes.

Ando inquieta pela casa… sento, deito, levanto, caminho! Caminho como se não coubesse em mim, como se todos os sentimentos que me percorrem não mais encontrassem as trilhas que os levam aos seus devidos lugares, como se tivesse que me catalogar pra ser encontrada em mim, como se me recomeçasse e pudesse ser reinventada.

Cansada das minhas rotinas e dilemas, acordei bandoleira, descortinei estradas e saí mundo afora à procura de mim. Parecia loucura, mas pela primeira vez em três anos e meio de Capital Federal, me permiti finalmente férias de destino incerto.

O primeiro “insight” da minha incerteza me fez viajar por 36 horas, de ônibus, 2500km, cortando GO-BA-PE-CE até chegar ao meu torrão PB (Patos, Vale das Espinharas, Sertão da Paraíba). Experiência tranqüila pra quem precisava exercitar a paciência e olhar a paisagem na janela mudar, como quem bebe as memórias de infância e embriaga-se com as lembranças.

Interessante me dar conta de que a viagem traz um limite de exaustão exato, e cada cidade torna-se o banheiro mais próximo e a distância de casa menor, pacientemente exercida à adaptação do momento temporário. E, enfim, dois dias e duas noites depois, respirar, como se diz na terrinha “o pingo da mei-dia” traz o alívio limite do reencontro com as raízes da minha gente, com “a gente” que me habita. “Agora pense, numa satisfação arretada da porra!!!”

Passado o cansaço inicial, o corpo já nem sente tanto porque a alma levita como as palavras que adentram os ouvidos e “puxam do juízo” a memória do dialeto próprio do meu povo, que é tão grandioso que faz com que “minha natureza não abaique” o alcance que pode atingir.

Minutos depois da chegada, em casa, sou surpreendendida por três pares de olhinhos curiosos no portão de casa (Ingrid, Iana e Sara), e recepcionada pelo abraço carinhoso de mainha e o cheiro de painho, tão esperados naqueles dois últimos dias. E aí tudo vira festa, comida boa, familiar e memorável, banho, cheiro de infância, casa com o sentido mais próprio de lar que se pode compreender.E o encontro mais esperado dos últimos anos, Alexandre, meu primo querido, depois de mais de dez anos sem contato, indescritível… e muito bom.

Dias de aconchego para uma alma solitária, cochilos no quintal, beijo de vó e vô, de tia, de tio, de primo, de criança. Fim de tarde ensolarado, calor, sorvete, pôr-do-sol na morada do sol, nascer da lua na caatinga braba do meu sertão ressequido, e muita, muita, muita comidinha caseira, feita com carinho do jeito que só mainha faz, e não há quem nesse mundo substitua.

Uma semana depois, já bem recuperada e acarinhada, pronta para novo trecho da viagem, destino João Pessoa, estrada e mais 300km pra frente. Chegar na minha capital querida, terra de boas energias e grandes “criaturas”. Rever amigos que há muito não via, reencontrar Artur e Amanda, e finalmente conhecer Gabriel, poder abraçar meu amigo Ricardo e conversar sem pressa, reencontrar os fotógrafos amigos de guerra e o nosso “Imagine”, David, Mônica, Helder e Amilton. Rever Adeildo, Déa, Nara e o meu querido clã Limeira, com as crianças crescidas. Sentar na sala de casa com Renato e Juciano como nos velhos tempos de universidade. E conhecer meu mais novo sobrinho, Bruninho! Mamãe Mana, minha velha e fiel amiga de muita estrada, feliz! Quantas lembranças boas preenchidas… saudadas com o pé na areia, um banho de mar em águas quentes, um pôr-do-sol e um nascer da lua nas areias do cabo branco. Três dias de emoções fortes e mais 300km pra casa.

Chegada em fim de tarde no sertão, “arribaçãs” em vôos, andorinhas e um céu sereno alaranjado, de encher a alma de qualquer sertanejo que já bebeu da água do jatobá e partiu da sua terra por circunstâncias necessárias.

Noite estrelada, conversas na calçada de vovó como em velhíssimos tempos, e na cozinha de casa com mainha e Alexandre, cheia de crianças, que se descobrem e me descobrem em suas vidas. Sono calmo…

Dia cheio, nova estrada, 1600km de “ôins” novamente, férias solitárias, destino São Luís do Mara. Um dia depois, e boas surpresas. Novos, previsíveis e imprevisíveis encontros! Grande descoberta: Zema; melhor prazer: resgatar vovô Peri em Mestre Vieira; grande achado: Lincoln. Melhor paisagem: Raposa; companhia inesperada: Cesar Teixeira em mesa de boteco; experiência de coletivismo: hospedar-se no albergue da juventude no centro histórico de São Luís e fazer amizades; trilha sonora: “Como dois animais” com direito a bis e sem escolha de caso pensado; trilha sonora escolhida: show de mestre Vieira; prazer gastronômico: sorvete de cupuaçu com casquinha caseira vendida nas ruas do centro histórico da Ilha do Amor, doce de espécie em Alcântara e o arroz de cuxá de dona Solange; novo vocabulário: xiri e bezerra ( pra ser entendida só pelos maranhenses, que me perdoem se a escrita não tiver correta). Momento paisagem: caminhada pelas dunas de Raposa; Momento eterno: Será ouvida em trio elétrico nas ruas de Madre Deus com Zema. E há mais espaços não coletivos na minha memória: olfativa, gustativa e emocional…

Estação de trem, segunda de manhã, silêncio de despedida, andar “sentido” de Zema ao me ver partir. Dez horas seguintes, 637km e muitas paisagens pelas janelas do trem da estrada de ferro de Carajás. A vida dos ribeirinhos à espera do trem, a comida colorida à venda pelos nativos, as frutas, as crianças em banhos de igarapés, o apito longe do trem que se despede e chega, o balanço gostoso do trem como sensação recém descoberta, e as lembranças felizes dos últimos dias a se acomodar no juízo. Estação final, Açailândia, sul do Maranhão, e lá está dona Antonia, mãe de Monice (velha amiga de faculdade) a minha espera. Chegada a Imperatriz.

Primeira volta na cidade, e o reencontro com Tia Luíza (amiga de Titia Neném) e longa prosa sobre a vida… Rever a pequenina Samara, crescida, o nosso bêbê embalado nas aulas da faculdade, conhecer Dudu, o menino levado. Andar pela vida da minha amiga e dos seus, e ser bem acolhida…

Destino final Marabá, 208km, desta vez de vam, e muita estrada de terra, sensação de terra sem lei, Amazônia, chão vermelho, gente explorando e sendo explorada, descaso, realidade forte, vida real do lugar. Duas da tarde, reencontro com Lincoln e nova diversão no sul do Pará.

Cidade de ritmo próprio, arquitetura própria, que se inunda uma vez a cada ano, com direito a mão inglesa em estrada férrea e tudo. Paisagem própria, comida e casas de identidades marcantes, habitantes de jeito peculiar na aparência e no comportamento, estrutura do lugar.

Para não esquecer a agradável companhia de Lincoln: tucunaré na beira do rio Araguaia, açaí no fim de tarde pra refrescar, farinha de tapioca, remendo de mapa, conversas na calçada do condomínio com Roberto e Rodrigo, passeio na feira, fotos na cidade, gasolina no aeroporto, como aprender a comer castanha-do-pará na feira, ver filme e conversar “psicologicamente”. Tomar tacacá como iguaria gastronômica da viagem e descobrir a “tremidinha” causada pelo jambu do tacacá à moda e tradução paraense.

E para não parar de rir usar a classificação de Lincoln nas seguintes situações: primeira, o Pará é a terra de “ALÁ”, não o substituto de Deus para o mundo oriental, mas a contração de “olha lá” que os paraenses tanto usam para mostrar ou indicar algo próximo. A segunda, no Pará as mulheres adoram calcinhas vermelhas, explicação observacional feita pelo meu querido amigo, que depois de ver mulheres em bicicletas e motos desfilando as tais calcinhas já não as vê com sensualidade alguma, mas talvez os homens paraenses sejam atraídos assim, vai entender?! Terceira e última, herança de São Luís em noite a caça de reggae, explicação pra gringo entender, “como identificar azulejos portugueses na cidade? Muito simples, se quatro se juntarem e formarem desenho, é português! Basta lembrar da piada simples de português, quantos deles são necessários para trocar uma lâmpada? Quatro, um na escada de lâmpada na mão, e três para girá-la”.

Volta a Brasília, vôo de duas horas, abaixo 1590km de chão, vontade de novas aventuras, próxima viagem, adeus real de aeroporto pra guardar o sorriso e as últimas palavras na memória, regressar…

Dias simples, pessoas reais, sentimentos verdadeiros, exercício de viver a verdade em plenitude, amar e compreender as várias formas de amor que somos capazes de ilimitar!

Saudade gostosa, serena, resolutiva para o recomeço!!!

Yanna

(regurgitando as lembranças em 26 e 27/01/20005)

Pequeno auxiliar de tradução:

“o pingo da mei-dia” : sol quente do sertão na moleira do cristão em pleno meio-dia

“minha natureza não abaica” : expressão de beradêro para explicar aquilo que ele é incapaz de compreender e assimilar pra si, de tão grandioso que representa o feito. E se não entender beradêro, mais uma chance, matuto!

“criaturas”: expressão usada para se referir a pessoas fantásticas que conhecemos na vida, seja pelo jeito pitoresco ou por estima de personalidade. Pode ser jeito carinhoso de se chamar pessoa íntima, próxima.

“ôins”: em bom paraibanês, ônibus em português!

“sentido”: andar sentido ou estar sentido, o mesmo que, estar magoado, triste, sentindo falta. Expressão do paraibanês.

“tacacá”: comida típica do Pará, espécie de caldo, servido em cuia, com uma espécie de goma servida ao fundo, mais folhas de jambu e camarão (pra se pescar com palito de dente).

“jambu”: como citado acima, folha que deixa a boca anestesiada servida no tacacá

“tremidinha”: expressão explicativa da vendedora de tacacá, que me disse que minha boca iria tremer. Depois de cinco minutos procurando explicação e tentando não ter medo da experiência, descubro a tradução, tremer para os paraenses é sentir a boca anestesiar ou adormecer. Muitos risos…..

“doce de espécie”: maravilha vendida em Alcântara (que fica a uma hora de barco de São Luís), principalmente nos festejos do Divino. Doce de côco muito parecido com doces portugueses, vendido a R$0,50 nas casas da cidade histórica.

“arroz de cuxá”: maravilhosa iguaria da ilha maravilha, tão bem cantada por Zeca Baleiro. Feito com uma planta nativa, a vinagreira (que tem um sabor azedinho) e camarão seco. Não se pode deixar de provar.

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