CHAPEUZINHO VERMELHO

 

por Frederico Luiz (*)

 

“Começo por avisar: não assumo qualquer responsabilidade

pela exatidão dos fatos, não ponho a mão no fogo, só um louco o faria.

Não apenas por serem decorridos mais de dez anos,

mas sobretudo porque verdade cada um possui a sua,

razão também e no caso em apreço não enxergo perspectiva

de meio-termo, de acordo entre as partes.”

(Tieta do Agreste – Jorge Amado, 1977)

 

“Um santo é um pecador morto, revisto e corrigido.”

(Ambrose Bierce, jornalista americano)

 

Certo dia, uma menina muito bonitinha e ardentemente vermelhinha tomou de um balaio de delícias que sua mãe havia prometido a vovó Ingrácia. Como fosse uma garotinha muito prestimosa e filha dedicada, a menina saiu em fogo pelo mato a cumprir prontamente sua obrigação de neta provedora e feliz. Mas Chapeuzinho era já também, em alguma medida, bem escolada nas artes da vida, e quando passou pela Vereda do Papagaio apanhou ali, junto a um pé de umbuzeiro, um marafo de catuaba que havia escondido para beber sob as estrelas, numa dessas noites de frio na floresta, namorando os periquitos. Entre as doçuras que levava, incluiu logo a garrafa do caloroso licor, para presenteá-la – pensou – a sua vovozinha, que já contava 70 anos e havia muito não acendia o facho.

Nem se fala, ainda mais, que entre suas trigueiras virtudes, a meninota tinha uma insaciável curiosidade por flautear entre caminhos escondidos, escuros e duvidosos. Vinha meio distraída, pensando no significado de palavras esdrúxulas – tais como concubinato, chumbregância, virilidade, libido e outras bocarras – quando o Lobo Mau a surpreendeu com esta cantada: “Onde vais, gracinha, nesse vestidinho tão elegante?”. Mas ela se fez de desentendida. Era sonsa. Esticou o pescoço, como para capturar melhor as palavras do carnívoro, e redargüiu: “Falou comigo, gatinho?”. Ele consertou: “Lobo, madame”. Nesse instante, cometas riscaram o senso da pequena, seu juízo saltou ligeiro para fora da caçola e a razão escapou-lhe velozmente feito lebre perseguida. Foi aí que Chapeuzinho Vermelho caiu na floresta. No desatino, amaram-se.

No caminho comeram os doces: bicaram a cereja, gostaram o mel, provaram o beijo de limão e o quebra-queixos, chuparam cajus, mangabas e pitombas. Se lavaram no rio. Na parada, armaram uma travessura para pegar a velha. Foi quando, por um momento, o bicho-da-consciência quis morder o remorso na cabecinha dela, cismou arrepender-se. Mas seu companheiro de caçada lhe sugeriu que a vó era diabética… e além do mais não gostava de confeitos, pois preferia pastéis. Então seguiram.

Bateram à porta. Dominaram a provecta. Sendo hábil nos esforços marciais, depois que o monstro peludo enclaustrou a vovó no banheiro da casinhola, os amantes puseram-se a brincar, entre gostosas e demasiadas gargalhadas. Ela começava:

– Que mãos de macho você tem!

– São pra te tocar seguro, minha flor.

– E que belos ombros são os seus!

– São pra envolver o teu corpinho, boneca.

– Que par de olhos vivos, meu Lobo malvado…

– São para espiar tua nudez de menina, Chapeuzinho.

E foi assim que a vida antes monótona de uma simples filha de lenhador transformou-se numa picante aventura. Encerro neste ponto da narrativa porque daqui já se imagina o desfecho da estória. Pois foi na presente versão dos fatos, sem tirar nem pôr um acento, que o lobo carniceiro “comeu” a Chapeuzinho Vermelho. Nunca tal biografia seria útil para adormecer uma criança.

 

(*) Frederico Luiz quer ser escritor quando crescer, improvisa um pouco no violão vadio desde os 13, e ficou lembrado na família por haver publicado, aos dois anos de idade, este merencório e amargurado canto: “Ai, papai! o qu’é que eu faço da minha vida…?”. O pai não o entendeu naquela ocasião. O poeta daquele tempo fez o menino que hoje ele é.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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