CARTA ABERTA À PRINCESA

(texto parido com dificuldades: dúvidas iniciais entre isso aqui ou o silêncio. Texto inevitável, embora talvez desnecessário).

Sou um covarde. Confesso a minha covardia para alguns assuntos. A morte é um deles. Não que eu tenha medo de morrer: sei que isso é inevitável. Mas a morte alheia é algo que me faz fugir. Esse é um problema que eu tenho medo de encarar. O que dizer a alguém que acabou de perder um parente querido? “Sinto muito”. Não, você não sente. Só quem sente é quem perdeu. Alguém a quem se ama(va) e não mais se terá.

Explico o porquê disto – e peço desculpas por tornar público o assunto: semana passada, o pai de uma grande amiga minha se foi. Falei com ela de manhã; trabalhamos na mesma instituição, em prédios diferentes. Quando nos falamos, ela me recomendou algo, sobre trabalho. À tarde recebi a notícia, chocante. Eu não o conhecia. Porém, imagino a dor que ela deve ter sentido. Grávida, o choque deve ter sido maior.

Minha amiga é daquelas amizades sinceras, raras hoje em dia. Mulher que sabe de tudo o que me acontece: as ilusões e frustrações amorosas, paixões platônicas e trepadas homéricas. Quando eu morrer, caso alguém se interesse em escrever uma biografia, pode (e deve) consultá-la. E olhe que nos conhecemos “apenas” desde janeiro de 2004. Ela é tão bonita (na mais ampla acepção que o termo possa ter) que nunca me permitiu (aqui um bloqueio que me impus) uma “tomação de gosto”. Tão bonita – por dentro e por fora – que a chamamos Princesa, no trabalho ou fora dele.

Tentei, pois, com a notícia do falecimento de seu pai – a quem eu havia doado sangue na semana anterior, a pedido dela – colocar-me em seu lugar. Mas como já disse: isso é impossível. Não fui ao velório, não fui ao enterro, não liguei para ela, nem a vi, de lá para cá. Alguns leitores talvez digam que sou um falso amigo. Não sei. Às vezes é melhor calar, que dizer bobagens. Embora às vezes não dizer, seja fazer bobagens, e aí, só o tempo dirá. Espero que a amiga a quem escrevo, entenda. Não, não darei nomes. Quem trabalha/trabalhou conosco na instituição – e alguns amigos mais chegados – que me lêem, saberão quem é. A amiga, também saberá.

Esse blá blá blá todo é só para dizer: amiga, embora eu tenha sumido – talvez no momento em que você mais precisou – saiba que sempre estou/estarei ao seu lado. Para aquilo que precisares. E tenho certeza de que o apoio da família e de alguns amigos que foram dar os pêsames foi importante. Assim como o meu seria, – mais que o meu silêncio – mas como disse: sou um covarde. Espero que me entendas. Fique aqui com o meu abraço e as minhas gaiatices. Elas te fazem rir. E, agora, isso é tudo o que precisas.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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