O que deveria ter sido o Diário Cultural de terça-feira. Ou de hoje.

[O texto abaixo deveria ter sido publicado no Diário da Manhã de terça-feira, 2 de maio. Deveria. O jornal não circulou. Assim, deveria ter sido publicado hoje, que é dia de minha coluna novamente. Deveria.]

O barulho da navalha na veia da literatura

Quase quarenta anos após ser proibida pela censura, “A navalha na carne”, de Plínio Marcos ganha luxuosa reedição graças ao trabalho do Azougue Editorial. A obra, em capa dura e papel Couché Matte reproduzem o mesmo projeto gráfico dos fins dos anos sessenta do século passado. A peça, clássica à época, clássica hoje e sempre.

Quando me chegou às mãos um exemplar de “A navalha na carne” (Azougue Editorial, 2005, preço sob consulta em http://www.azougue.com.br/), do teatrólogo Plínio Marcos, impressionou-me de imediato, a qualidade gráfica do livro: um ensaio fotográfico com a encenação da peça, proibida, em fins da década de sessenta do século passado pela censura vigente à época. O autor, que teria completado setenta anos em 2005, ano de reedição desta obra prima do teatro nacional, subiu em 1999, vítima de diabetes.

Deparo-me com a peça toda fotografada, dentro do livro, e penso: genial. Faço, de mim para mim, elogios a Sergio Cohn, editor do Azougue Editorial – poeta e editora sobre os quais já falei anteriormente. E descubro – embora isso não lhe(s) tire o mérito – que o que vejo ali no livro, existe desde 1968, quando ele, Cohn, nem era nascido.

A idéia de fotografar a peça e publicá-la em forma de livro foi do jornalista Pedro Bandeira, hoje reconhecido autor de livros infantis. Conforme ele explica em “A navalha na carne: história de uma encenação fotográfica”, depoimento publicado nesta reedição do livro: “(…) na época, a censura era feroz contra os jornais, contra o cinema, e principalmente contra o teatro, mas os livros ficavam mais ou menos de fora da sanha controladora dos novos donos do poder. Então… que tal fotografar a peça inteira, usando as artes gráficas, o tamanho do corpo e a forma dos tipos das letras para dar a ênfase necessária ao embate cruel dos protagonistas, uma prostituta, seu cafetão e um frágil homossexual? (…)”.

Mais à frente, no mesmo texto, Pedro Bandeira observará que a coisa não era tão simples como hoje, onde se obtêm resultados como esse mais facilmente, a partir do advento do computador. Fico ainda mais impressionado com a qualidade do projeto gráfico de “A navalha na carne”.

Enredo

A prostituta Neusa Sueli precisa deitar-se com outros homens para garantir seu sustento e o de Vado, seu cafetão, que precisa do dinheiro dela para divertir-se com outras mulheres; Veludo, o homossexual viciado – também – em maconha, que rouba dinheiro dos dois para garantir as atenções de um rapaz e um cigarro de maconha. Uma rede de dependência entre os personagens, estas figuras marginalizadas que existem aos montes no Brasil – talvez por isso, a peça tenha sido censurada à época. Eis o mote da trama, que pode parecer comum, dadas as figuras que a compõem. Mas não é – ou ao menos deveria ser – essa uma das missões da arte: imitar a vida?

Além da montagem fotográfica e do depoimento inédito de Pedro Bandeira, esta reedição de “A navalha na carne” presenteia os leitores com textos críticos sobre o clássico pliniomarquiano, publicados à época de sua proibição – mesmo exibições privadas não seriam permitidas, absurda e abusivamente, à época –, através das penas de Anatol Rosenfeld, Sábato Magaldi, Yan Michalski, Eneida, João Apolinário e Décio de Almeida Prado.

Há obras que se tornam clássicos instantâneos. Neste rol, podemos incluir “A navalha na carne”. Com a palavra, novamente, Pedro Bandeira: “Que bom que você agora pode ver esta edição histórica!”. E luxuosa, acresço.

Serviço – ficha técnica

Com a censura vigente à época, usou-se o artifício de fotografar a peça “A navalha na carne” e publicá-la em forma de livro. A obra é reeditada agora pela Azougue Editorial (http://www.azougue.com.br/, para maiores informações e pedidos, preço sob consulta no site).

A ficha técnica: Walter Hüne (interpretação e realização gráfica), Yoshida (fotografia e laboratório), Fortuna & Cia.ltda. (tipos), Ruthineia de Morais (como Neusa Sueli), Paulo Villaça (como Vado) e Edgard Gurgel Aranha (como Veludo).

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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