tião na praia de joão [bonus track]

Entrevistei Tião Carvalho para o Overmundo. Tião é bastante espontâneo em suas falas. Dá vontade de pegar o texto e publicar do jeito que a gente tira ouvindo a fita. Por conta de espaço, precisei enxugar um pouco a entrevista. O que não saiu lá, segue abaixo, bonus track aos leitores deste blogue. Fica a recomendação: ouçam “Tião canta João” [Por do Som/Atração, 2006, R$ 20,00 pelo site http://www.tiaocantajoao.com.br]. “Ai do brasileiro que não ouvir este disco”, avisa/intima Chico César no encarte da bolachinha.

Com vocês, Tião Carvalho!

(…)

Zema Ribeiro – Essa coisa das raízes acaba traduzindo aquela máxima [de Tolstoi], “se queres ser universal, canta tua aldeia”, não?

Tião Carvalho – É difícil levar este trabalho para uma direção musical, para pessoas que têm uma visão de mercado, enquanto você trabalha com a raiz, que também é mercado. Aí você pensa no mercado brasileiro e pensa lá fora. Aqui no Brasil é algo mais delicado, quando você parte para as percussões, a parte africana, aí você tem que atravessar o oceano e tentar ir vender isso na Europa. Eu quero fazer um trabalho universal quando gravo, pra não ficar bitolado. Já participei de vários festivais no exterior, graças a Deus, já saí do Brasil várias vezes para encontros, simpósios, oficinas, para palestrar sobre cultura brasileira. Isso também é importante, não pensar só no Brasil. Fui tentar ver o país de fora pra dentro, se não eu ficava muito preso aqui e com medo de trabalhar minhas raízes, com medo de não vender, que às vezes eu não vendo, mesmo, aqui; então eu penso em vender fora. Daí, quando eu chego lá para fazer o show, o cara olha e diz “puta que pariu, esse cara é bom pra caralho!, era pra estar em outro patamar”. Já participei de grandes festivais de música no mundo inteiro, Montreux, na Suíça, poucos brasileiros tiveram oportunidade, Holanda, Bélgica, França, Portugal, circuito universitário dos Estados Unidos, são lugares em que já andei e tive o trabalho muito admirado. Muitas das vezes você precisa ficar toda hora falando disso pra o cara ir ao teatro te assistir. Uma vez estávamos aqui fazendo show no Ceprama [centro de comercialização de produtos artesanais, na capital maranhense; por vezes, palco de shows, em especial nos períodos carnavalesco e junino] e o cara foi me apresentar e tinha falado todo mundo e quando ele foi me apresentar, disse; “segundo ele, já tocou em tal lugar”, ou seja, colocou em dúvida uma informação sobre mim.

ZR – É o retorno à competição de que falávamos: não acreditamos em nossos pares.

Tião – É, vai ver que por eu ser maranhense igual a ele, negro, vindo de Cururupu, nordestino igual a ele. Agora deixa chegar um engravatadinho de olho azul, o cara diz que é “a” e o outro já vai botando o “b”, o “c” e o “d”. Mas vamos em frente.

(…)

ZR – Essa coisa de “vai tocar minha música, se não não vai sobrar pedra sobre pedra”. Isso seria uma saída para o fim do jabá?

Tião – Falta organização. Mas acho que falta mais vergonha na cara que outra coisa.

ZR – A gente sabe que o jabá existe e é algo que faz com que as rádios não toquem a música do Tião Carvalho e toque isso que a gente tá ouvindo aqui. [pagodes tocavam nas barracas da Avenida Litorânea]

Tião – ‘Cê quer saber duma coisa? Houve um tempo em que eles pagavam para que tocassem as músicas deles. Hoje em dia eles estão pagando para que não toquem as nossas. Não sei se ‘cê ta sabendo disso. Se já era ruim, agora é pior. [Elias cita outra forma de jabá, dando o exemplo do pai de Zezé de Camargo & Luciano, que comprava fichas telefônicas e fazia a música dos filhos ser pedida nas rádios pela vizinhança, como conta o filme “2 filhos de Francisco”]

ZR – Outra forma de jabá, disfarçada.

Tião – Pois é, mas de certa forma, ele estava abrindo um espaço para se mostrar. Se não se mostra, ninguém vê, e se você não vê, você não gosta.

ZR – Partindo para a política, é como a eleição de Lula para presidente. Ninguém podia dizer, antes, se gostava ou não de sua administração. Só a partir da posse dele, em 2003, é que se pode aprová-lo ou não. Você vota em Lula? Votou em Lula?

Tião – Não ando satisfeito com a política brasileira. Mas sempre peço para que as pessoas me apresentem candidatos melhores que os meus. Eu voto. Apresente um candidato melhor que o meu, que eu voto. Prove que é melhor, eu voto. Me parece, não sei se voto no Lula, muita coisa pode acontecer daqui pra lá [faltavam 14 dias para as eleições]. As pessoas tinham medo de que ele não pudesse estar governando até hoje, mas que bom que ainda tá, assim como eu diria o mesmo se fosse outro. Votar, eu não deixo de votar. Eu sempre me posicionei como esquerdista, mas sempre vi mais pessoas que partidos. É bem possível que eu vote no Lula sim, de novo. Votei no Lula e pode ser que eu vote de novo. Embora eu não goste dessa coisa, como é que chama? [tenta lembrar de um termo], quando o candidato fez um mandato e depois…

ZR – É “reeleito”?

Tião – Não, não é reeleito, é… [Elias sugere “sucessão”] é…

ZR – “Continuidade”?

Tião – É, continuidade, mas a gente tem outro termo, agora fugiu da nossa memória, é “ício”, não sei o quê…

ZR – “Vitalício”?

Tião – Isso! Vitalício, eu não gosto disso. Acho que você chega e diz, “vou fazer esse trabalho aqui, fiz, e vou abrir para outro fazer”. Não gosto dessa coisa de vitalício não. Faz seu trabalho em quatro anos, te prepara e sai, deixa a vaga pra outro. É o mesmo que aconteceu em São Paulo e hoje eu posso falar, que eu sou cidadão paulistano, tenho filho, neto paulistano; o cara vai pra Prefeitura, chega no meio do mandato dele e deixa outro. Pô, eu não votei em ti? Agora tu sai e deixa outro que eu nem conheço! É a mesma coisa de quem contrata um motorista, seleciona entre cinco candidatos, chama um e diz: “olha, tu vai levar minha esposa ao trabalho, minha filha ao colégio”. Aí você é chamado e começa a trabalhar e de repente bota um primo, um irmão, um cunhado no lugar, pra fazer teu serviço. Não dá! [Elias aponta isso como um motivo para seqüestros].

ZR – E sobre Gilberto Gil no Ministério da Cultura, qual a tua opinião?

Tião – Eu não sei muito quais as condições de Gil, o que ele pode fazer como Ministro, mas eu acho que é bom. Eu não ‘tou na pele do cara para dizer “ah, ele poderia fazer isso ou aquilo”. As coisas funcionam melhor, sem dúvidas, o Projeto Pixinguinha voltou. Me parece bom. Ótimo eu não diria. É a tal história, será que eu no lugar dele, faria mais? O que é que ele tem que fazer? É acabar com o jabá? É botar música brasileira tocando no rádio, na novela? É sentar aqui, conversar com a gente e descobrir as necessidades? O diálogo tem acontecido, sim.

ZR – Em tua fala, tu tocas num ponto interessante que é o fazer com que música brasileira toque na novela, que música regional toque no rádio etc. Há uma discussão já bastante antiga, que é a sobre cotas para negros em universidades. Qual a tua opinião sobre o assunto?

Tião – Talvez essa não seja a solução, mas ela é bem melhor que não se fazer nada. O lance das cotas é positivo, sim. Pode ser que existam idéias melhores que essa. Mas tem que acontecer algum tipo de reparação.

ZR – É algo histórico, não? Os negros sempre foram discriminados, escravizados.

Tião – Tem que ter algum tipo de reparação. Se esse é o tipo, então que se faça. O que não se pode é pensar que tá tudo certo e não se discutir essas questões. Agora, cota pra negro na universidade, parece que é só isso, e não é. São várias questões. Há pessoas muito hábeis, muito sensíveis discutindo esse assunto. Eu também faço meu movimento, trabalhando com cultura negra, fazendo isso aqui [aponta o “Tião canta João” sobre a mesa]. Cada um faz do seu jeito, do jeito que sabe, do jeito que dá pra fazer. E só sabe o que é discriminação quem sente na pele. É muito grave. É o que eu sinto quando eu chego num lugar e as pessoas me olham diferente, a conta chega antes de eu pedir, em vez de me responder “bom dia!”, alguém fala “pois não”, sempre um olhar desconfiado. O negro também se sente discriminado quando, por exemplo, vai fazer um concurso e às vezes uma pessoa com menos formação que ele passa e ele não passa, e a gente sabe que isso acontece. As cotas têm que ser debatidas, tem que reparar essas pessoas [os negros]. E os índios. O índio tem um tempão morando em um lugar, de repente o homem branco precisa construir algo e tira o índio dali, manda não sei pra onde. Aí a gente vê índio sendo queimado e tal. Existe coisa que você pode até dizer que há um poder maior e não tem jeito. Tipo “ah, você vai ter que sair daqui, não tem jeito, tu vai ter que sair de tua terra”. Mas tem que perguntar: “o que é que tu precisa? Há quanto tempo você vive na terra?” Então, tem que garantir ao menos um tempo igual. Se não, te tiram daqui, tu só sabe pescar, te botam pra São Paulo pra trabalhar com computador, aí tu vai pedir esmola, pois não sabe fazer isso. Tem que dialogar. Tem que indenizar e não é só coisa de dar sobrevivência por seis meses não. Tem que garantir o cara e as gerações do cara. As cotas vêm de um contexto social antigo. Essa discriminação, essa separação não é de hoje. Eu tava uma vez em São Paulo, com meu filho no braço. Passou um cara num táxi, eu fiz sinal, ele diminuiu, olhou e foi embora. Diminuiu, olhou e foi. Construíram isso na cabeça dele, ele que tá me discriminando.

ZR – Ele acaba sendo tão vítima quanto tu, que ficou no ponto de táxi…

Tião – Se bem que tava chovendo, eu fico gripado e ele não [risos], que ele tá dentro do carro, mas é vítima sim.

(…)

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

6 comentários em “tião na praia de joão [bonus track]”

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