todo dia é dia de beber

não por hoje ser sexta. o negócio é como diz o título acima. então, como disse um título abaixo, bóra beber. aí, nosso texto no jornal pequeno (primeira classe, jp turismo) de hoje. (acho que) fui infeliz no título, já que, se há uma coisa com que bb não se preocupa é com rimas. ainda bem! amém!

Outras rimas para “amor”

Falar de amor sem ser piegas. É o que faz a poetisa carioca Bruna Beber em seu livro de estréia.

por Zema Ribeiro*

Recentemente a senhora dona crítica saudou – não sem razão – o aparecimento de Bruna Beber, poetisa carioca de 22 anos de idade, o que poderia, de já, detonar o preconceito guardado em alguns. Antes de mais nada, leiam a moça: “você quer um dia / ser estudado / numa sala de aula qualquer / por uma turma de pirralhos / que vão zoar suas roupas hoje modernas / falar que o que você escreveu é chato pra caralho / fazer chifrinho na sua foto / interrogação. // queira morrer antes / comendo caramelos / a estranha paixão de Hitler / caramelos.” (no poema “A novíssima literatura”). Auto-ironia, tirar onda de si mesmo e de seus pares contemporâneos? Sim, mas com classe.

As referências são as mais variadas, lemos nos títulos dos poemas (fora o que “está dentro” deles): “John Cage”, “Um pop para Aretha Franklin”, “Neil Young”, “Nabokov”, “Graciliano Beat”, “Guess Rô Rô”, “Vladimir Maiakovski” e até mesmo o vídeo-game “Mega drive”. Se você faz poesia – o que não é muito difícil em São Luís do Maranhão – certamente Bruna Beber se tornará influência sua.

De uma pichação em um viaduto carioca, a menina – e “menina” é, aqui, elogio – tirou o título de seu livro: “A fila sem fim dos demônios descontentes[Editora 7Letras, 2006, 60 páginas, R$ 20,00], omitindo o “do amor” da frase original. É que ela fala de amor sem exageros, sem mela-cuecas desnecessários, assim, ó: “se o mundo não fosse / esse aterro de / máquinas / barbas / pilhas // débitos / prazos / e canetas / marca-texto // medos / dúvidas / e embalagens / tetrapak // se o mundo não fosse / um aterro de babacas / ou se o mundo não fosse / um abrangente / e resumido / aterro de sinônimos // e se essa rua / se essa rua / fosse tua / eu ia me mudar pra lá.” (em “Neighborhoods”). Poesia não tem que incomodar, emocionar e outros ares? Pois aí está: Bruna Beber, beba-leia sem moderação – e, não, não se trata de um pseudo-sobrenome artístico, só por a moça gostar de emendar umas, quando em vez: Beber é herança alemã; sua poesia, carioquíssima. A exemplo do conterrâneo-contemporâneo João Paulo Cuenca, Bruna Beber rascunhou na blogosfera (escreve em http://www.badtrip.com.br/bifesujo) até chegar ao livro (não necessariamente “o” objetivo).

O poeta Sérgio Mello, na apresentação d“A fila…”, afirma, já no título de seu texto: “Não é preciso uma bateria no quarto pra incomodar o Rio de Janeiro”. E para ser incomodado, não carece ser vizinho dessa garota recém-saída da adolescência. Não se acomode!

*correspondente para o Maranhão do Overmundo, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

[duas notas enviadas por bb após a leitura do texto acima: 1) a pichação tem autor: é o artista plástico gustavo speridião; 2) e a poesia beberiana pode ser lida no http://www.badtrip.com.br/cutelaria, já que o bife sujo dedica-se a outros fins não tão “menos poéticos” assim]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

2 comentários em “todo dia é dia de beber”

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