maranhensidade(s)

e então o carnaval chegou. você já escolheu o que fazer? pra onde ir?

então… provavelmente todos os poucos mas fiéis leitores deste blogue já sabem que estou trampando na secretaria de estado da cultura. assim, prometi de mim para mim, não transformar este blogue num espaço da assessoria do órgão. ou não somente. há mais de uma semana, recebi, por e-mail, do jornalista, professor universitário (ufma/imperatriz) e amigo ed wilson araújo, o texto abaixo, que já deveria estar pendurado no quer dizer (não creio em censura, nem farei teoria da conspiração). antecipo-me aqui, pois, ao tempo em que, na contramão, coisas como essa aqui ganham as páginas dos jornais.

Maranhensidade

por Ed Wilson Araújo

A gestão de Joãozinho Ribeiro na Secretaria de Cultura pode vir a ser um marco na política de desenvolvimento do Maranhão, na perspectiva da inclusão dos atores sociais no trabalho de fazer cultura. O abre alas, pelo que está dito, será o Carnaval da Maranhensidade. As interpretações deste termo evocam um conjunto de ações do poder público, dos produtores culturais e seus diversos parceiros em tentar definir as marcas simbólicas que distingüem o Maranhão, sua gente e suas festas, das demais aldeias do mundo.

A Maranhensidade busca apreender e fortalecer uma estética local no contexto global das manifestações artísticas ou daquelas vendidas como arte na cadeia produtiva da indústria cultural, alicerçada nos meios de comunicação.

É significativo que o Carnaval 2007 priorize os fazeres e saberes elaborados nos batuques, nas cores e nos movimentos emanados das raízes da cultura maranhense, colocando em segundo plano os artifícios importados: a mesmice midiática dos abadás e das coreografias que automatizam os foliões. Chega de axé!

Este Carnaval é da casinha da roça, do baralho, do tambor de crioula, dos blocos tradicionais e alternativos, dos fofões, dos corsos, das escolas de samba e de tantos outros bambas das nossas marcas culturais. São ritmos enraizados na composição econômica, política e cultural do Maranhão, fruto das influências africanas e européias aportadas na ilha e interiorizadas, miscigenadas com as outras formações culturais da Baixada, do Litoral, dos Cocais, do Sertão e do Sul do Estado.

A Maranhensidade está também na gula, no arroz de cuxá com peixe-pedra, no sururu e no caranguejo, na “arte” de fazer farinha, na roça de toco, no manejo do babaçu, nos apetrechos de pescaria, na carpintaria dos barcos, nas múltiplas formas de sobrevivência e entretenimento, na cachaça e na dança, nos azulejos, nas pedras de cantaria, nos casarões, na rede, na sesta depois do almoço, nas praias, nos rios e nas cachoeiras; enfim, numa alquimia resultante das múltiplas formas de ser do nosso território.

Estes componentes, elevados a uma dimensão estética, fazem a base da produção cultural característica da Maranhensidade. Trata-se da demarcação de um campo simbólico que nos protege e delimita uma fronteira com os outros campos, com os quais devemos interagir, influenciando e sendo influenciados. A Maranhensidade está, ainda, no desafio dos novos descobrimentos que devemos fazer para tentar definir a nós próprios.

Porém, a Maranhensidade não pode ser entendida por uma ótica etnocêntrica que se recolha aos preconceitos e estereótipos sem interagir com os demais movimentos da indústria cultural. Nesta perspectiva, devemos nos afirmar para influenciar esta dita indústria, agendando uma produção cultural autêntica no circuito nacional dos meios de comunicação.

A Maranhensidade deve ser buscada no sentido fortalecer aquilo que nos identifica e também o que nos distingüe dos outros territórios. O desafio é saber caminhar no terreno adubado pelo tradicional e incrementado com o moderno, sem medo das inovações. As festividades são apenas um aspecto do conjunto de formulações e práticas que envolvem a Maranhensidade. No sentido primeiro de cultivar, produzir, cuidar, o termo cultura remete-nos de imediato à noção de trabalho (cultivar a terra). Neste momento, abrimos parêntesis para refletir sobre a enorme quantidade de maranhenses que foram trabalhar em outras terras, expulsos ou por falta de oportunidade no seu próprio território. Outros tantos vivem escravizados, sem sequer receber pelo seu trabalho.

A Maranhensidade precisa ser ampliada para além das festividades, dentro de um projeto político de reordenamento econômico e social do nosso território. É um caminho longo e difícil, ainda a percorrer, mas que já deu um passo importante com a nova concepção do Carnaval. Joãozinho Ribeiro defendeu o seu pirão primeiro. Pena que no governo faltem outros tantos ribeiros para arribar as bandeiras e ajudar a sonhar.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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