LÁGRIMAS POR FAUSTINA


[A Mona Lisa da Praia Grande. Foto: Muriel Lima. A mão que segura o gravador é do blogueiro. Entrevistávamos a personagem para um trabalho da Faculdade de Jornalismo, em equipe que se completava com Andrezza Cerveira. A data que aparece no canto superior direito da foto está errada: a imagem é de 2004 ou 2005, a memória não ajuda]

Eu tenho uma pá de coisas boas sobre o que escrever. Infelizmente, preciso escrever sobre as ruins também. E foi péssimo ter recebido, ainda há pouco, do amigo Gutemberg Bogéa, a triste notícia de que Faustina tinha subido. Fui pego de surpresa e escrevo ainda completamente tomado de emoção. A Praia Grande ganha uma lacuna. A Praia Grande fica vazia.

Há coisas que ninguém nunca conseguirá explicar. A morte, certamente uma delas. E ela chega de repente e leva sem consultar, sem um simples “posso?”. Já era. Nem me venham com “meus pêsames”, “meus sentimentos”… não adianta.

Natural de Alcântara, Faustina Matilde Pereira era resistente comerciante do Centro Histórico ludovicense, onde se confundia, ela própria, com a paisagem. Sentada em uma cadeira no batente do casarão na esquina da Rua do Giz com o Beco da Alfândega, defronte à praça que os boêmios informalmente rebatizaram com seu nome, é essa a imagem que dela quero guardar, junto com seu sorriso.

Cumprimentá-la era como pedir a bênção a uma mãe, profana religião, Faustina era uma deusa. Ou uma Mona Lisa, como cantou Cesar Teixeira em Mona Lisa da Praia Grande, música ainda não registrada em disco. Na Faustina (certos espaços ganham o nome do dono e pronto!) o autor de Flor do Mal realizou um “lava-bruxas”, um dia após o lançamento de seu Shopping Brazil, em agosto de 2004 (com o casarão em reforma e cercado por um tapume, nos espremíamos na outra calçada do Beco, bebendo cerveja tirada de caixa de isopor). Pop(ular), apareceu em videoclipe de Zeca Baleiro: Faustina não precisava de salão de beleza.

Gestos que já lhe garantiriam imortalidade. Mas Faustina não morre, vira azulejo, como decreta Joãozinho Ribeiro, outro poeta-devoto. Nós-todos, santos-sacanas, órfãos de luto e de tantas lutas. Viva, Faustina! Faustina, viva! Faustina, imortal! Faustina, Patrimônio Cultural!

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

6 comentários em “LÁGRIMAS POR FAUSTINA”

  1. zema,a fautina fez sua passagem, está agora em um outro plano astral e passado o impacto ira continuar ajudando e acolhendo as pessoas como fazia aqui na terra. Faustina sempre presente!

  2. Pois veja só, não sabia deste acontecimento com Faustina. Que de fato, é mais do que um paralelepípedo das ruas estreitas da praia grande, ela, alí, era a grande. Sempre a vi com aquele sorriso terno no rosto, o que me deixava mais a vontade ainda entre tantos bêbados e hippies mal cheirosos. Que um azulejo seja pintado, então, e pendurado na esquina da rua do giz.

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