TRIBUNA CULTURAL

por Zema Ribeiro

O DESASTRE DE ESCREVER RESENHA SEM EFEITO

É quase unanimidade que Lourenço Mutarelli é um dos mais geniais desenhistas já surgidos em Pindorama. Vencedor de vários HQ Mix – o troféu mais cobiçado no segmento – o homem plural quis explorar outros talentos. “Virou” escritor – entre aspas: ninguém vira – e depois ator: prende a atenção do espectador em suas aparições em O cheiro do ralo (adaptação de seu livro homônimo) e é protagonista de O natimorto (outra adaptação de outro homônimo), entrando para a história do cinema brasileiro: é o primeiro escritor a atuar em uma história adaptada de um livro escrito pelo ator principal, como é que diz, o galã?, o anti-galã?, círculo que não se fecha: já não sabemos se Mutarelli é desenhista, escritor, ator ou as três coisas em tempo integral. Só uma certeza: tudo o que faz, faz muito bem.


[reprodução capa]

Enquanto O natimorto não estréia, Mutarelli não para quieto: está escrevendo um novo livro (a sair em 2009, dentro do projeto Amores Expressos) e acaba de lançar A arte de produzir efeito sem causa [Companhia das Letras, 2008, 206 páginas, R$ 39,90 em média], livro que dá filme, arrisco de já. Um mistério sem (re)solução ao longo da história, talvez explique seu título: aos 45 anos de idade, Júnior separa-se da esposa, fica desempregado e volta a morar com o pai, Sênior, que aluga um quarto para Bruna – estudante a quem o velho espia nua por um buraco na parede. Júnior dosa o tempo entre cigarros, álcool, muito sono e a tentativa de resolver um suposto enigma criado com o recebimento de um recorte de jornal, datado de 1951, noticiando o crime cometido pelo escritor William S. Bourroughs, que assassinou a própria esposa com um tiro.

A arte de produzir efeito sem causa é repleto de tiradas geniais, aforismos sem moral, que as lições de Mutarelli são outras, tipo: “O importante é não demonstrar o fracasso”; ou “Casa é qualquer lugar onde se vive”; ou ainda “Corpo são em um mundo enfermo. A máxima dos nossos dias: o importante é morrer com saúde”. Tá bom? Tem mais: “Artista é assassino em série. Analisando bem, nada que é em série é arte”, “A extorsão é uma forma de arte”, entre muitas, muitas outras.


[auto-retrato de Lourenço Mutarelli. Reprodução]

Também nos deparamos com situações que de tão absurdamente reais, beiram o surreal: o personagem cuja inércia seguimos ao longo das páginas, por exemplo, deixou a esposa após esta tê-lo traído com o melhor amigo de seu filho. O efeito que nos causa essa leitura é a vontade de não parar antes do fim, e quando nos deparamos com o auto-retrato do escritor – créditos do filme literário? –, pensa(r)mos: esse cara é foda!

[Tribuna do Nordeste, 7 de dezembro de 2008]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

5 comentários em “TRIBUNA CULTURAL”

  1. o “a arte…” já foi lançado sim. o que falo que ainda vai ser lançado é o do amores expressos, projeto em que mutarelli e uma pá de escritores brasileiros viajou para escreverem uma história de amor. abração!

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