ESPERANÇA

Diante da estranheza de minha esposa por um dos muitos discos estranhos que tenho, que pus para trilha do café da manhã de domingo – após inaugurar os ouvidos, aquela manhã, com o Chorinhos e Chorões, hábito dominical, quase vício –, troquei por uma coletânea do Trio Esperança, a Bis, aquela da capa verde e branca, com dois discos, geralmente vendida bem baratinho nas Americanas.

O Trio Esperança, as então crianças Regina, Mário e Evinha (que depois partiria para a carreira solo) todo mundo conhece: do clássico Filme Triste (Sad movies) (Make me cry) (John D. Loudermilk, versão de Romeo Nunes), muito tempo depois regravada por Chico César, tornando-se sucesso novamente.

Uma música triste chamou-me a atenção: O menino do amendoim (José Messias), cuja letra transcrevo abaixo:

Amendoim torradinho
Moço, tenha pena de mim
Sou um pobre vendedor de amendoim

Amendoim torradinho
Dois mil réis o pacotinho
É melhor pedir do que roubar
Compra moço, pra me ajudar

Quem me vê assim tão sujo
Imagina um delinqüente
E evita essa mistura de abandono, trapo e gente
Não, não, não, não me olhe com desdém
Também tenho coração
Pelo menos atenção devo merecer
Não nasci por que pedi
Mas eu peço pra viver

Compra moço, pra me ajudar
Amendoim torradinho

No geral, a coletânea passeia por temas jovem-guardescos, várias, várias versões (como o primeiro sucesso aqui citado) e é um disco alegre. Inocente, eu diria.

De uma inocência que anda em falta na música popular brasileira. Popular no sentido de popular mesmo, não no sentido comumente usado, de antônimo de erudita. Pena que a música popular brasileira de hoje seja/esteja ficando cada vez pior. E isso não é saudosismo barato.

É claro que há gente boa produzindo. Muita. Mas, infelizmente, não é popular. Ainda. Será que um dia será?

Mas é bom que não deixemos o nome do Trio a que tributamos neste post se apagar em nós.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

4 comentários em “ESPERANÇA”

  1. Zema,Bom início de dia esse teu. Estou ouvindo pela memória as músicas do Trio Esperança. A propósito, está à venda nas bancas da cidade o livro do André Midani( Música, Ídolos e Poder: do vinil ao download ) que explica o porquê dos sucessos de outrora se tornarem populares sem deixarem de ser belamente construídos e aonde esbarra hoje os bons valores da música engolidos pela estratégia atual da indústria fonográfica.Também queria te fazer uma provocação.Já faz anos, venho pensando ser mais que oportuno que se produza um livro que analise a produção musical maranhense do final dos anos 1960 até os 80, época em que se rotulou a produção como MPM.O Ricarte postou no blogue dele um artigo seu que tive o prazer de ler no Bar do Léo quando foi publicado em jornal, que, a despeito do lançamento do bom disco do Bruno Batista, iniciava a discussão sobre a MPM. Ele também reproduziu no blogue a réplica de Chico Maranhão que traz novos elementos tentando justificar as formulações da MPM. Isso reabre o debate ou o inaugura, não faz diferença. O fato é que acrédito que tu sejas a pessoa adequada para empreender esse trabalho de pesquisa e para publicar o livro. O laborarte, na sua produção musical, é um bom tema e já e mais que tempo para reflexão sobre a produção desses artistas. Ainda estão todos vivos, o que enriquecerá o trabalho além da audição dos discos.Que tal! Mãos à obra, hein!

  2. celijon, até aceito a provocação, risos. mas antes vou cuidar de minha monografia, que versará sobre um, para usar um clichê, monstro sagrado da música brasileira, mas abordando-o enquanto jornalista, excelente e importante que é: cesar teixeira.agradeço a confiança e o “pessoa adequada”. que responsa tu tá me dando, hein? mas vamos nessa! é só questão de tempo…grande abraço!

  3. Tá, então tá combinado!No que eu poder colaborar, estarei humildemente a seu dispor.No entanto, sem pertubar seu foco na monagrafia, já é necessário ficar bem atento e ir recolhendo as informações, ainda que despreocupadamente, e ir tocando “pari passu” os dois projetos.Que sua monografia saia muito boa, são meus votos,Abraços!

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