PRÉ-CARNAVAL

[Reflexões estéticas despretensiosas de botequim, sem ter bebido nada (ainda), antes de ir ao Baile do Bigorrilho]

Então, em plena sexta gorda de carnaval eu ‘tava aqui preparando a Tribuna Cultural do domingo gordo – haja folia para pular e eliminar essas gordurinhas, essas gorduronas –, a janela do quarto aberta, a lua tomando o lugar do sol, eu ouvindo – mais uma vez, que eu não canso – o disco novo de Ana Salvagni, que é sobre o que escrevo na próxima coluna, lindo, irretocável – para adiantar-lhes um dos adjetivos que uso no texto –, todo dedicado à obra de Hekel Tavares, compositor alagoano imerecidamente obscuro. Alma Cabocla – As Músicas de Hekel Tavares, o nome do disco.

Aí o barulho invade minha casa pela janela e, fosse só pelo clima de carnaval, vá lá. Mas a turma ouve o tempo todo – inclusive na folia momesca – a mesma música. A mesma música horrível com o mesmo ritmo, a mesma voz (sim, de uma banda de forró, brega, o escambau, para outra, impossível distinguir diferenças) e até mesmo a mesma letra, já que invariavelmente fala de “corações partidos”, mas sem classe nenhuma, ah!, saudades das dores lupicínicas, hoje nos resta apenas o cinismo.

O cinismo de quem diz que isso é música, o cinismo de quem diz que isso toca por que o povo gosta, por que o povo quer. Já está provado por a + b que “o buraco é mais embaixo”, para usarmos o jargão popularíssimo. Como é que eu vou gostar de algo que eu nunca vi, que nunca ouvi? Tirando Deus, que às vezes é também empurrado goela abaixo, o ser humano é, quase sempre, um São Tomé. Como é que alguém vai achar bonito um disco da Ana Salvagni – e todos os que conheço são – se nunca ouviu? Entendem o que quero dizer? A moçada jovem é, na verdade, refém de só ouvir essas porcarias, seja carnaval, seja São João, seja qualquer dia santo ou pecador. O ouvido vicia, o cérebro vicia. A comparação talvez seja simplória, simplista, sei lá, mas é como uma droga: depois de um mergulho profundo e constante, tanto mais difícil arrancar, como a saudade prego parafuso da Brigitte Bardot de Zeca Baleiro.

Não sou ranzinza nem intolerante, mas essa música me faz mal. Sinceramente. Teclados repetindo a mesma nota surrada – até parecem só ter aprendido essa – eternamente, vozes que sequer agradariam em banheiros cantando as letras mais cretinas possíveis, coreografias infames num mundo cada vez mais visual, DVDs nos botecos hipnotizando marmanjos, caixas de som tomando porta-malas inteiros, atualizando Caetano, mais de 40 anos depois: é por isso que a gente ‘tá ferrado. Se essa juventude é assim em estética, imagina em política.

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