MAIS UMA TAPETADA DE SARNEY

Tá chegando a hora
a hora de derrubar
o curral da oligarquia
pro povo se libertar

Quarenta anos de fome
no Maranhão eu passei
é hoje que a vara come
no couro de Zé Sarney

(Toada de Cesar Teixeira, feita para e cantada pelo movimento Vale Protestar, de resistência e combate à oligarquia; entre seus frutos, hoje, o valoroso Vias de Fato)


[Hupper. Via Leandro Fortes]

Copa do Mundo de um lado, festejos juninos do mesmo. Como a maioria absoluta dos brasileiros, não consigo não pensar nestas duas grandes festas, embora com ressalvas.

Se para a Copa do Mundo o técnico Dunga não fez a melhor escalação possível, o que não nos faz acreditar que a selecinha traga o caneco, para o São João o governo Roseana, em ato costumeiro, amplia o volume de recursos da cultura para o período junino em ano eleitoral, numa estratégia já bastante conhecida de muitos (este ano 19 milhões de reais foram gastos no carnaval; para o São João estão previstos 20 milhões, o que supera em muito o orçamento da pasta). Batismo de bois, cooptação de grupos e artistas, com raríssimas e honrosas exceções. Se showmícios são hoje proibidos por lei, em palcos juninos o nome da governadora-madrinha é repetido exaustivamente, como a grande mecenas de São Luís. “Quem atira com a pólvora alheia não mede distância”, reza o dito popular. Mas o “novo governo” do Maranhão ainda centra os fogos na ilha capital.

O povo pinta o asfalto de verde, amarelo, azul e branco e tapa o céu com as mesmas cores, tantas são as bandeirinhas penduradas. E ainda lota os arraiais já em funcionamento na capital maranhense. Não consigo compartilhar integralmente da alegria – ou pseudo-alegria(-temporária) – por conta das ressalvas já apresentadas aqui.

Fora isso, a intervenção do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores – ainda merece ser chamado assim? – na decisão estadual pelo apoio a Flávio Dino. Lula e companhia, desrespeitando a história, estrela e bandeira do partido, representadas, com honra, pela brava figura do maranhense Manoel da Conceição – um de seus fundadores nacionais – (tenta) entrega(r) o partido em definitivo à família Sarney.

Como se o PT fosse um brinquedo, tal qual parece ser o governo do estado: ora, a filhinha mimada do coronel teve devolvido o trono do Palácio dos Leões após as manobras do presidente do senado e de Eros Grau, ministro do STF, um imortal da ABL, o outro quase. Como daquela feita, no tapetão também, agora o oligarca garante o apoio do PT à reeleição da filha.

Não sou nem nunca fui – e diante do atual quadro tragicômico posso afirmar: nunca serei – filiado ao PT, partido do qual era simpatizante de primeira hora. Não sei o que se passa na cabeça de Lula e de seus “companheiros” de primeiro escalão de partido e pouco entendo de política, ou ao menos desse pragmatismo desgraçado que tomou conta dela, mas penso humildemente que o presidente-operário não precisa(ria) do apoio do presidente-“coroné” para fazer um bom governo.

Em nome da tal “governabilidade” Lula tem ressuscitado o que há de pior na política brasileira, nomes que não citarei para não desviar o foco da espúria aliança entre “o filho do Brasil” e “o filho de Kiola”. Do que Lula tem medo? Não seria difícil ser o melhor presidente da história do país. Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco, Fernando Collor, José Sarney… e continue desenrolando a lista, de trás pra frente, da frente pra trás, de onde para onde, como quiser. O homem de bigode, outrora criticado pelo homem de barba, a este se atrelou como fez com quase todos os listados, tendo estado alinhado também aos militares. Ou seja: sua ideologia é a da conveniência, pura e simplesmente.

Eleito em 2002, Lula levou às lágrimas – de emoção e alegria – milhões de brasileiros que viam, ali, a esperança vencer o medo. Um sonho acalentado pelo menos desde 1989 enfim se realizava. Reeleito em 2006, muitos destes milhões já viam em sua reeleição apenas a alternativa para não devolver o país ao tucanato vendilhão, para que os privatistas de carteirinha não terminassem de entregar o patrimônio nacional aos interesses do capital transnacional. Agora, nenhuma esperança resta e o PT do Maranhão é trocado por entre dois e três milhões de votos para a “companheira” Dilma. Ora, sobretudo graças a políticas assistencialistas que têm como carro-chefe o bolsa-família, o Maranhão é, proporcionalmente, o estado que mais vota em Lula no Brasil – e provavelmente será, idem, o estado que mais votará em sua candidata.

Lula (e Dilma) precisa(m) d(o palanque d)e Sarney, seja pai seja filha? Só se for para a manutenção do quadro de o Maranhão figurar entre os estados com os piores indicadores sociais e econômicos do país – o ciclo se repete ad infinitum: o Maranhão “ocupa a zona de rebaixamento” – para usar uma metáfora futebolística como tanto gosta o presidente –, o que lhe faz um dos estados com a maior população beneficiária do bolsa-família, o que garante reeleições (ad infinitum idem) de Lula ou de quem quer que ele decida seu/sua candidato/a, que alinhado com Sarney mantém os indicadores etc. repete tal qual terço de uma igreja política que tem um papa de bigode. O povo-gado confinado à eterna miséria absoluta: homens e mulheres que poderiam ser críticos/as do processo histórico são transformados em animais – não cabem eufemismos aqui: satisfeitos com a ração diária (embora muitos maranhenses sequer consigam-na) pouco importam as fomes de educação, saúde, cultura, justiça, participação política (crítica), dignidade, a fome de ser cidadão e cidadã, a fome de ser… humano.

A imposição ao PT maranhense de seu apoio à candidatura da filha do coronel pelo diretório nacional do partido contraria a democracia, já que a decisão do PT local, de apoiar a candidatura de Flávio Dino (PCdoB) ao governo do estado, foi legítima, decidida em votação aberta e democrática – apesar do loteamento antecipado de cargos e da tentativa ou compra dos/as petistas que estavam à venda.

Contrariados os maranhenses Domingos Dutra (deputado federal pelo PT) e Manoel da Conceição (presidente de honra do partido no estado, foi uma das sete personalidades que assinaram a sua ata nacional de fundação) estão em greve de fome no plenário Ulisses Guimarães, na Câmara dos Deputados, em Brasília/DF, desde o último dia 11.

O primeiro tem sua trajetória política estreitamente ligada ao combate à última oligarquia do país, no que outrora teve o apoio de Lula, “velhos tempos!”; o segundo, teve uma perna amputada pelo sarneysmo: ferido por um tiro da polícia do coroné, então governador do estado, Mané – como gosta de ser chamado, rima involuntária – foi atirado aos porões da ditadura militar, onde sofreu torturas as mais diversas; com a gangrena na perna, sem tratamento, não lhe restou outra opção que não sua subtração. Saiu no “lucro”: a intenção era matá-lo. De lá para cá, manteve-se firme, forte, bravo e de pé, sem medo dos poderosos, menos ainda de Sarney.

“Mané fez da perna/ uma queda de braço/ um dedo em riste/ ao rei do pedaço”, dizem os versos de Batalha do cerrado, do compositor maranhense Gildomar Marinho, faixa inédita de Pedra de cantaria, seu segundo disco, a ser lançado ainda em 2010. A homenagem a Manoel da Conceição, a que um pequeno grupo de amigos já teve acesso, soa profética. Aos versos-pergunta “Me diz, ó, Mané/ o que é que tu quer?” talvez o compositor acrescesse o verso-resposta “que o PT não se entregue para o coroné”, adivinhasse o trágico desfecho da reunião de cúpula do partido no último dia 11, à qual humilhantemente, de início, Mané teve acesso negado – entraria depois, sem direito a voz e voto, para tornar-se tão somente testemunha ocular do último prego enfiado no prepúcio do partido – tortura também sofrida por ele: “nem na ditadura fui tão humilhado”, afirmou.

Outros petistas ameaçam juntar-se a Dutra e Mané no protesto-greve de fome contra a imposição da aliança entre o PT e o PMDB de Roseana Sarney no Maranhão. Com a bênção de Lula são mais maranhenses relegados à fome por Sarney. Nem a política cachaçorum et circenses de sua filha conseguirá, com o brilho das festas juninas, disfarçar a vergonha dos milhares de cidadãos e cidadãs que ainda a têm, apesar dos sexos explícitos e das alianças espúrias, circo freak na TV – como o PT, a Ilha de Curupu e tudo o mais no Maranhão – da família Sarney.

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