PURGATÓRIO MARANHÃO

Condenar milhões de almas maranhenses a mais quatro anos de domínio oligárquico certamente não foi o melhor gesto de Luís Inácio Lula da Silva em seus oito anos de seu governo, onde reconheço muitos avanços em diversas áreas. O Maranhão tem 3,18% do eleitorado nacional, o que o torna apenas contrapeso no açougue político brasileiro.

Lula elegeu, ainda que muito apertadamente, Roseana Sarney (PMDB) no primeiro turno: a filha de José Sarney teve 50,08% dos votos válidos. Lula reelegeu ainda os senadores peemedebistas Lobão e João Alberto. O presidente é o maior responsável pela tragédia que ora se abate sobre a última capitania hereditária brasileira.

A eleição de Roseana Sarney se dá alicerçada numa série de denúncias de irregularidades fartamente noticiadas local e nacionalmente – e que não deram em nada: troca de promessas de votos por consultas médicas e pagamentos de contas de água e luz, distribuição de combustível para “militantes” irem a carreatas, pagamento de transporte para a emissão de documentos de eleitores, uso da máquina pública e dos programas sociais do Governo Federal etc. História: por menos, Jackson Lago teve seu mandato cassado em abril do ano passado. Link: a devolução do poder no estado a Roseana Sarney, pelo golpe judiciário, dá início ao “arrastão do 15”.

Cumprindo ou não a promessa de pendurar as chuteiras políticas aos 31 de dezembro de 2014 (alguém aí acredita?), a eleição de Roseana Sarney, a meu ver, não traduz a real vontade popular: não houve equilíbrio na disputa, a começar pelo tempo de propaganda na tevê e no rádio de que dispunha a candidata, ao reunir 16 partidos em uma coligação. A ausência de debates também tem peso na história: somente a TV Mirante – de propriedade da família de Roseana Sarney – realizou um, às vésperas da eleição – e denúncias nos chegaram de que o sinal miranteano teria sido cortado em pelo menos 32 municípios maranhenses naquela noite. Além de, em muitos rincões, as antenas parabólicas apenas repetirem acontecimentos paulistas e cariocas.

Roseana Sarney sai vitoriosa de um pleito sem legitimidade: o não-comparecimento às urnas de praticamente um quarto do eleitorado maranhense demonstra um grandessíssimo descrédito de nossa classe política perante aqueles que estão aptos a votar. Esta inércia é, em grande parte, motivada pelos altos índices de analfabetismo (e analfabetismo funcional) e pouca escolaridade da população maranhense. O óbvio e já conhecido círculo vicioso: a oligarquia “confina o povo-gado à eterna miséria absoluta”, o povo mantido analfabeto mantém no poder quem lhes mantêm sem conhecer as letras, impondo uma opinião única, já que emissoras de tevê e rádio, portais de internet e jornais pertencem, em sua grande maioria, à oligarquia ou a seus apaniguados.

Terminadas as eleições no Maranhão, o estado é o grande derrotado: flores a enfeitar as mesas dos lautos banquetes da família na casa grande, espinhos a sangrar os magros corpos dos que ainda passam fome na senzala. Apesar do bolsa-família. Como diria Zeca Baleiro: “Não me espantará se num futuro próximo o Maranhão vier a ser chamado de Uganda brasileira“.

&

Contra o futi!

O longo beijo que uniu as barbas de Lula aos bigodes de Sarney na tentativa de aniquilar o PT do Maranhão em prol da sobrevivência da última oligarquia em voga no país acabou não dando certo por completo: Domingos Dutra foi reeleito deputado federal com uma votação expressiva (81.101 votos), para quem fez uma campanha modesta, em termos financeiros. Dutra teve mais votos que, por exemplo, Ricardo Murad, de campanha milionária, eleito deputado estadual mais votado neste pleito (76.265 votos).

Na assembleia

O Partido dos Trabalhadores elegeu três deputados estaduais: entre eles somente Bira do Pindaré não está a serviço da oligarquia Sarney. Sua eleição e a de Dutra à Câmara Federal são as melhores notícias que tive ontem.

Segundo turno

Declaro, de já: votarei em branco. José Serra é do PSDB: elegê-lo significa devolver o Brasil ao tucanato para que estes terminem de vender o que não conseguiram nos oito anos de FHC. Dilma é a candidata de Lula e, portanto, está com Sarney: este há muito não serve para o Maranhão, nem para o Amapá, nem para o Brasil.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

6 comentários em “PURGATÓRIO MARANHÃO”

  1. Acordei hoje muito triste e pensando nisso. Estamos no purgatório e também como protesto nesse 2° turno, votarei em branco. Creio eu que esses quase 1/4 de eleitores que se abstiveram de votar, estejam em outros estados a procura de emprego. Moro em Imperatriz, se a coisa ficar feia por aqui, farei como eles: pego a canoa, atravesso o rio e vou para o estado do Tocantins. Pobre Maranhão, Pobre Maranhão.

  2. Pai nosso que estás nos céus… e não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal. Amém.
    Abs
    Lena Machado
    (alguém aí duvida que já passou da hora de começar a rezar?)

  3. Como se a desgraça de ter a chefe do arrastão eleita não fosse suficiente, ainda temos que escolher entre o espeto e a brasa pro segundo turno.
    E ai de quem não votar, paga multa (irrisória) por não comparecer a escolha de nossos algozes. Pode uma coisa dessas?
    Bem disse o poeta
    “Eleição é o dia marcado pra esse povo abestalhado escolher na cabina a marca da vaselina com que vai ser enrabado”
    Ah, aproveito pra declarar que se caso, eu comparecer no dia 31(sugestivo né?), pra votar, apertarei bem forte o botão branco, pela falta do foda-se na urna.
    Odeio ter que pagar pelas escolhas erradas dos outros, de novo.

    Aline Coelho

  4. Caro, Zema Ribeiro, pesso que reveja o seu voto, uma vez que votar em branco favorece quem tem a maioria dos votos validos, por isso, sugiro o voto nulo que realmente se faz um voto de protesto consciente!!! Abraços e pense nisso!!!

  5. Direção Nacional do PSTU

    • No segundo turno das eleições vão se enfrentar Dilma e Serra. Vai haver uma pressão grande entre os trabalhadores no sentido de votar em Dilma “para evitar a volta da direita”.

    O PSTU tem total acordo com a luta contra a oposição de direita. Somos radicalmente contra a volta da turma do FHC. No primeiro turno, o PSTU teve seu programa final cassado pela justiça a pedido do PSDB. Isso ocorreu por termos mostrado que Serra- que atacava Dilma por corrupção- também tinha o rabo preso, por ter apoiado o ex-governador Arruda de Brasília. Isso foi parte de nossa batalha contra a oposição de direita, que ocorreu em todo o primeiro turno.

    Mas lutar contra a direita não significa votar em Dilma Roussef. A direita não é representada nessa campanha só por Serra. Direita e esquerda são termos relativos, mas em geral a direita representa a grande burguesia. E hoje, no Brasil, as grandes empresas estão divididas. Um setor apóia Serra, o que é mais que evidente nas empresas de TV e jornal. Outro setor, que inclui uma parte dos banqueiros (talvez a maioria), as multinacionais, os governos imperialistas, apóia política e financeiramente as duas campanhas, com um leve pendor para Dilma.

    Não é por acaso que a candidatura de Dilma arrecadou bem mais que a de Serra junto às grandes empresas. Não é por acaso o apoio dos governos imperialistas para marcar aqui as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Tampouco foi um acaso que a cotação do dólar se manteve estável nas eleições, chegando a baixar um recorde inferior a 1,6 reais.

    Temos duas candidaturas em defesa do grande capital nas eleições, duas candidaturas de direita. Votar por Dilma ou por Serra é votar na manutenção do plano econômico neoliberal aplicado por FHC e continuado por Lula. É votar contra a reforma agrária que foi bloqueada por FHC e também por Lula. É votar na ocupação militar do Haiti defendida por Dilma e Serra.

    Qualquer um dos dois vai atacar os trabalhadores duramente quando a crise econômica internacional voltar a se abater sobre o Brasil. Tanto um como outro já anunciaram sua disposição de mudar a previdência, atacando mais ainda os aposentados. Pense nisso: cada voto em Dilma no segundo turno é uma força a mais para uma nova reforma da previdência. Uma votação em Serra teria a mesma conseqüência.

    Votar em Serra seria votar junto com FHC, Cesar Maia, Yeda Crusius, velhas figuras da direita desse país. Votar em Dilma seria votar junto com Maluf, Collor, Sarney, Jader Barbalho, outras figuras da mesma direita.

    Por esses motivos, votar contra a direita nesse segundo turno é votar nulo. Chamamos os trabalhadores e jovens que nos acompanham a seguir votando em nossa legenda 16, que agora vai significar um voto nulo.

    Direção Nacional do PSTU

  6. jwilson: parte está, mas não representa o todo. grande parte deste quarto está mesmo é desiludico com as opções que se colocam perante o eleitor.

    lena: é rezar e resistir. lutar contra as forças do mal, com as armas espirituais e todas as outras de que dispusermos.

    aline: gostei do verso do poeta. infelizmente ele tem razão.

    iuri limeira e noleto: obrigado! disse que votarei em branco, mas na verdade o que quis dizer foi: não voto nem em dilma nem em serra, não sabendo ainda se voto branco, nulo ou se simplesmente não vou votar. mas, mais uma vez, agradeço a dica.

    abraços a todos e todas.

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