POR QUE VOLTO ATRÁS E VOTO EM DILMA, PARA NÃO VOLTAR PARA TRÁS

Antes, um aviso: isto não é jornalismo.

Outro: esta é a minha opinião, carregada de emoção, imperfeita como o próprio cenário político que se descortina.

E só mais um, este sim necessário: além do escritor Fernando Morais dizendo os porquês de votar em Dilma e não em Serra, ilustram este post charges do gênio Carlos Latuff, sigam-no os bons!

Com o fígado tomado de raiva e ódio após o resultado do primeiro turno das eleições 2010 cheguei a declarar voto em branco cá neste blogue. A razão é bastante simples: 45, o número do PSDB, o número do candidato José Serra, eu não digito nem em telefones; e Dilma Rousseff e Lula, do PT, foram, em grande parte, os responsáveis por Roseana Sarney ter liquidado a fatura contra as oposições, aqui no Maranhão, já na manhã seguinte ao pleito – há indícios de fraude que estão sendo investigados, sabe-se lá quando teremos os resultados, rima involuntária.

Eu, que desde que me entendo por gente, sempre tive uma clara e publicamente exposta postura antissarneysta, não poderia engolir este casamento, dos longos beijos que unem a barba de Lula ao bigode de Sarney. Teria levantado a voz quando o padre dissesse o tradicional “fale agora ou cale-se para sempre”, se eu tivesse sido convidado para “essa festa podre”.

Muita gente opinou sobre minha posição e me alertou sobre votos em branco, nulos e/ou abstenções, minhas três dúvidas iniciais, na verdade. Fui criticado, inclusive, por diversos amigos, por não optar por Dilma. “O Brasil é maior que o Maranhão” (minha raiva com o resultado local não deveria amesquinhar minha compreensão sobre a disputa no plano nacional), “a nossa preocupação tem que ser, para além do Brasil, com a América Latina” (sobre as relações do Brasil com os países e governos vizinhos) e “quem viveu a ditadura militar não pode retroceder e permitir que Serra chegue ao poder” (sobre a falta de participação popular nas gestões tucanas).

A ditadura militar acabou em 1985, em cujo dezembro eu completava apenas quatro anos de idade, mas com estes argumentos, apenas alguns dos que me foram apresentados, concordo – afinal de contas, a História está aí para isso mesmo. Prometi, a cada um, repensar. E dizia-lhes, há poucos dias talvez até em tom de brincadeira: vocês têm até o dia 30 – véspera do 2º. turno – para me convencer.

Não me agrada a ideia de ir para as ruas pedir votos para Dilma, justamente por essa relação nojenta e desnecessária com José Sarney & família. Por isso uso o espaço deste blogue como um pequeno palanque virtual e peço aos poucos-mas-fieis leitores, atenção. O assunto é chato, mas é sério. E quem me acompanha sabe que nunca me furtei a discussões para além de “cultura”, nossa principauta, sempre que isso se fez necessário.

Somos chamados à responsabilidade e esta não é pequena. Dia após dia tenho pensado e repensado no cenário. E faço, publicamente, a opção por Dilma Rousseff para dar meu voto no próximo dia das bruxas – sem trocadilhos infames, por favor! Militantes petistas – da banda que havia decidido por apoiar Flávio Dino (PCdoB) nas eleições estaduais aqui –, militantes dos movimentos sociais e amigos pessoais – não raro as mesmas pessoas figurando nos três grupos –, além da vulgar campanha de José Serra só tem reafirmado esta minha convicção.

A declaração de voto em Dilma, que eu já fazia aqui e ali, para um e outro, em mesas de bar, no trânsito, no trabalho, ou por onde mais eu tenha andado, e por onde mais eu andar, até o dia das eleições, se dá um dia depois de um manifesto de artistas pró-Dilma. Ali estão nomes que, de uma forma ou de outra, têm influência na formação deste humilde blogueiro: Chico Buarque, Ziraldo, Oscar Niemeyer, Leonardo Boff, Beth Carvalho, entre muitos outros. Mas não só por isso.

Com todas as falhas e limitações do governo Lula, basta compararmos e veremos que seus oito anos foram melhores que os oito anos FHCistas. Dilma é a continuidade de Lula. Serra é a continuidade de Fernando Henrique Cardoso e sua política privatista, do neoliberalismo, do Estado mínimo, da insignificância ou ausência de políticas sociais.

Se ficarmos na, digamos, “especialidade” desse blogue, basta compararmos as gestões de Francisco Weffort, ministro da Cultura de FHC, e Gilberto Gil e Juca Ferreira, ministros da Cultura de Lula. A partir do primeiro baiano o Brasil teve, de fato, um Ministério da Cultura de verdade – o MinC, antes um departamento do Ministério da Educação (que até hoje traz o C de Cultura na sigla MEC), é um dos mais jovens ministérios brasileiros, só tendo surgido em 1985. Mas só com Lula é que a Cultura começou a ter a dimensão que hoje tem, sendo pensada inclusive como elemento da agenda econômica, como elemento gerador de emprego e renda e, portanto, de dignidade, cidadania e direitos. Fora muitas outras áreas…

Poderia ter sido melhor? Sem sombra de dúvidas. Aliás, meu amigo Rogério Tomaz Jr., do Conexão Brasília-Maranhão, está escrevendo a série Coisas que o PSDB quer apagar da história. Lá se tem uma visão mais ampla no quesito “comparação entre os dois governos”, o demotucano e o petista.

O debate eleitoral foi da pior qualidade já desde o primeiro turno. Plínio de Arruda Sampaio (PSol), candidato em quem votei na ocasião, era quem garantia alguma qualidade às discussões entre os presidenciáveis – e não falo somente dos programas no formato moderador-candidatos. Agora temos Dilma, Serra e a polêmica do aborto. É muito pouco para o Brasil.

Sobre o assunto: não se trata de fulano ou beltrano serem contra ou a favor do aborto. E descriminalizar o aborto não significa torná-lo obrigatório. E assim como o casamento homossexual, a maconha etc. Isto é, todos os dias, em clínicas clandestinas, em fundos de quintal, mulheres morrem ao realizar abortos “ilegais”. Isso é o que acontece! É fato! É questão de saúde pública, merece o debate, mas não pelo viés religioso, o mais raso possível, como tem acontecido.

Voltando a Sarney: o blogueiro, candidato derrotado ao Senado e colunista do Jornal Pequeno José Reinaldo Tavares, declarou no veículo – há tempos um diário tucano, basta observarmos sua cobertura pró-João Castelo – que votará em José Serra, em artigo intitulado “Votar em Serra é votar contra Sarney” [Geral, página 2, segunda-feira, 18 de outubro de 2010]. Ingenuidade? Tolice? Cinismo?

Se já é perfeita a definição dada ao senador do Amapá pelo deputado federal Domingos Dutra (PT), segundo o qual José Sarney é um “camaleão”, cabe-lhe ainda melhor, a carapuça de “polvo”: o pai da governadora Roseana Sarney tem tentáculos espalhados para onde quer que nos viremos, em todas as esferas de poder – executivo, legislativo, judiciário, meios de comunicação etc. Acredita mesmo José Reinaldo que a vitória de Serra significaria a morte política do imortal? Ou alguém aí duvida que, uma vez Serra eleito presidente – toc, toc, toc na madeira, isola! –, ainda não será dessa vez que veremos Sarney na oposição?

Como liderança do PSB, partido da base aliada do presidente Lula, o ex-marido de Alexandra Tavares deveria declarar apoio a Dilma. No máximo se omitir. Ou, com a declaração de voto em Serra, ser responsabilizado por isso (infidelidade partidária?). Político nascido sob as hostes sarneystas, ungido pelo oligarca, de quem foi ministro dos Transportes quando aquele era presidente da República (1985-1990), José Reinaldo Tavares rompeu com a família Sarney, mas não por motivos ideológicos: uma briga de comadres, entre as “cozinhas” das “vizinhas”, sua ex-mulher e a governadora Roseana Sarney, foi a responsável por essa ruptura, que levou e leva alguns a enxergá-lo como um arauto do combate à oligarquia.

Alguns tucanos certamente me acusarão de patrulhamento ideológico. Mas é impossível negar que José Reinaldo tenha prestado um desserviço ao debate político com seu artigo, sobretudo quando o encerra, panfletariamente: “Votar em Dilma é votar em Sarney. Serra para presidente!!!”

Estamos longe de um cenário ideal. O fator Marina, no primeiro turno, acabou sendo útil ao demotucano Serra, alçando-o ao segundo turno. A eleição tornou-se plebiscitária. Entre as duas opções que se colocam – continuar no rumo iniciado por Lula ou retroceder ao neoliberalismo FHCista – estou com Dilma! Continuo bem longe de Sarney. E Serra nunca!

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

13 comentários em “POR QUE VOLTO ATRÁS E VOTO EM DILMA, PARA NÃO VOLTAR PARA TRÁS”

  1. isso mesmo, Zema

    Chega desse “salvoconduto” pra justificar tudo. O Brasil não pode retroceder.

    Essa corja demotucana com as bênçãos da TFP, da opusdei, dos integralistas e outras excrecências da extrema direita tem que ser afastadas da vida republicana.

    Bom, pra Zé Reinaldo, prejudicado nestas eleições pelo artimanha de Sarney em conluio com Roberto Rocha (o novo?), José Serra já se articula com José Sarney em caso de sua improvável vitória.

    Rocha, o algoz 45 de José Reinaldo, seria a janela para a entrada dos Sarney no grupo de Serra. Seria pois o encontro de Zé Reinaldo com o velho patriarca numa remota corte demotucana???

    Sarney, o camaleão, se adequa a qualquer paisagem, a qualquer coloração. Seja o verde oliva dos militares, seja o vermelho do PT, ou o azul com amarelo dos tucanos.

    Para ele não existe princípios, nem ideologias. O importante é estar perto do poder central, controlando cargos e áreas importantes.

    Sou antisarney e, agora,para o bem do Brasil voto Dilma 13.

    Belo texto, garoto.

    abração

  2. pensei que josé reinaldo, independentemente de ideologia ou coloração partidária, fosse mais inteligente.

    é isso, meu caro ricarte. obrigado!

    45 não é número de partido. é calibre. e eu votei a favor do desarmamento no plebiscito.

    abraço!

  3. Zé Reinaldo ou é estúpido (não acredito nisso) ou hipócrita ou profundamente amargurado a ponto de elevar ao paroxismo a lógica de que o amigo do meu inimigo é meu inimigo também. Lamento por ele. Derrotado pelo povo maranhense, será derrotado pelo povo brasileiro agora. Ele se equivoca ao considerar que Sarney é responsabilidade de Lula. Antes de qualquer coisa, a oligarquia Sarney é o resultado da incapacidade da sociedade maranhense de derrotá-la definitivamente. Assumamos os ônus disso, mas nenhum retrocesso para o Brasil podemos permitir!

  4. talvez o seu rompimento não-ideológico seja frágil, como aponta ricarte no comentário anterior, e o mesmo volte aos braços de sarney a qualquer aceno (embora afirme veementemente votar em serra para derrotar o inimigo). é responsabilidade nossa derrotar a oligarquia em quatro anos (isto se não a derrotarmos logo, caso se confirmem as suspeitas de fraude em urnas nas eleições do primeiro turno no maranhão). abração!

  5. Zema pior que tudo é ainda ter que ouvir as cantadas dos amigos tucanos querendo me convecer a votar no tal do zé,aff!
    Lê as mensagens cheias de boataria e piadas sem graça e preconceituosas que chegam todos os dias na minha caixa de entrada. Ouvir e vê as propagandas tucanas contra o PT(Dilma).
    Sinceramente tô saco cheio disso! Com esse tipo de campanha os tucanos só ganharão meu desprezo e desrespeito, que já é grande coisa pra eles, aff!
    Não aguento mais a baixaria desse processo eleitoral e como disse outro dia aqui neste mesmo espaço, em um momento passional, que votaria branco,( confesso que essa é minha vontade), não o farei pq sou contra a prostituição.
    Não vou aceitar vê mais uma vez o PSDB abrir as pernas do Brasil para os estrangeiros, never!
    Meu voto é no PT, na posição política que o partido tem e como sempre fui da esquerda mesmo, não vai ser agora, por conta do bigodudo e sua gangue que já levaram o mará no bolso que vou mudar de lado. O Brasil ainda é nosso!
    E só não repito que 45 não digito nem no telefone pq ai já estarei mentido, visto que no número 45 é uma dezena que compões o número do telefone de minha casa, rsrs
    Bju!
    Aline

  6. Querido amigo Zemoso, a minha leitura sobre a delicada situação política do nosso Brasil é muito similar à sua (inclusive em relação à votação do dia 1º). Compartilhemos então esta dor de ter que optar entre o ruim, o péssimo ou o pior (Dilma, Serra ou branco/nulo)não necessariamente nesta ordem ou quem sabe talvez.Enfim….. Beijos! Marla

  7. não acho mesmo que votar nulo signifique “não tomar partido”. tá rolando muito maniqueísmo nessa campanha, de ambos os lados, psdb e pt. o psdb é o demônio do pt, e vice-versa. acho péssima a ideia de serra ser presidente, mas também não voto na dilma. lula foi melhor presidente que fhc, com certeza. mas ainda assim o pt não tem meu voto. E discordo de Rogério quando ele diz que “a oligarquia Sarney é o resultado da incapacidade da sociedade maranhense de derrotá-la definitivamente”. Lula tem responsabilidade sobre isso sim. E o que é a “sociedade maranhense”? Tão vago e amplo, como se todos e ninguém fosse culpado.

  8. Enfim… claramente os meus posicionamentos são muito mais próximos do que aquilo que Dilma representa. tenho pensado muito sobre o meu voto e gosto de ler o posicionamento de pessoas inteligentes, como você, sobre porque votar na Dilma. Mas não estou mesmo convencida de que ela mereça meu voto. Eu queria uma terceira opção, mais radical e humana, mais democrática e mais ética. Como não há, voto nulo. E se o voto fosse facultativo, também faria questão de votar, e nulo. Não desconsiderem o que significa votar nulo. Dizer que nulo é ficar em cima do muro ou não se posicionar parece arrogante e autoritário. Isso é uma resposta, com certeza, como o silêncio e a inação são respostas possíveis. Valeu!

  9. tassia: votar nulo é tomar partido sim. eu mesmo cheguei a declarar voto em branco, mas tão confuso pelo ódio do dedo de lula e dilma no resultado das eleições do maranhão logo no primeiro turno, que não sabia se branco, nulo ou simplesmente me abster. o ódio não passou e eu também gostaria de ter uma terceira opção, sobretudo a que votei no primeiro turno: plínio de arruda sampaio. em não havendo, a eleição torna-se plebiscitária e, a meu ver, menos pior ter uma dilma presidente que um serra. o voto em dilma, no caso, é um veto a serra. obrigado pelos comentários e elogios. abração!

  10. Zema, eu vejo esse segundo turno de uma forma diferente da que você vê. Acho que o PT e os petistas deveriam ser um pouco menos arrogantes e a gente, eleitores que entendem que o PT até que tem uma boa proposta pro Brasil mas que estão descontentes com alguns rumos que o partido tomou, sobretudo em relação a alianças políticas, deve dar esse recado de descontentamento. E qual é o recado que você acha que os partidos e políticos ouvem? É o dos resultados das urnas. Ouvi muita gente do PT após o primeiro turno colocando a culpa nos eleitores da Marina pela “derrota” da Dilma. Francamente, o nome disso é autocrítica zero! Vou votar nulo e gostaria que os petistas e o PT entendessem que essa vitória foi/será difícil pq as pessoas não estão tão satisfeitas assim e querem que eles mudem radicalmente. Agora com certeza Serra é uma péssima opção. Mas uma vitória do Serra, que não acredito que acontecerá, teria que ser encarada como descontentamento da população, e não como o fim do mundo. Além do mais, votar na Dilma, pra mim, é votar numa pessoa que pediu abertamente votos pros Sarneys. Indiretamente, claro, é votar na permanência do Sarney no poder. Simplesmente não consigo.

  11. para o pt, a derrotas nas urnas seria bastante interessante: voltar à oposição poderia significar o repensar de algumas atitudes e alianças que o mesmo tem tomado, sem critérios, tudo supostamente em nome de uma tal governabilidade. não sou filiado ao pt, de que já fui simpatizante. no entanto, votar e declarar voto em dilma, é pensar para além do maranhão, é pensar no brasil e na américa latina. poderia até não ser o fim do mundo, mas já pensou nas relações de um eventual governo serra com bolívia, venezuela e outros “hermanos”? mas entendo perfeitamente o seu posicionamento. um abraço!

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s