Viva São Sebastião!

O jornalista Cesar Teixeira integrou a equipe que, em 2002, há quase 10 anos portanto, fundou o Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, capitaneado pelo professor e escritor Alberico Carneiro e Josilda Bogea Anchieta, recém-falecida. Confesso que, ao saber de sua subida, temi pelo único suplemento literário ora em circulação no Maranhão. Restaria apenas sua boa lembrança, como dela?

Hoje, dia de São Sebastião, como bem lembrou Rielda Alves no tuiter, lembrei de um texto de Cesar Teixeira sobre o santo, publicado na edição 48 (18.jan.2003) do citado suplemento, que republicaremos abaixo. Qual não foi minha surpresa, a página do Guesa Errante na internet está fora do ar. Já teria ido se juntar a São Sebastião e Josilda? (Acabei recuperando o texto, cuja edição impressa tenho em casa, no “em cache” do Google).

Hoje empenhado na consolidação do Vias de Fato (alô, turma!, edição de janeiro/2011 já nas bancas!), projeto alternativo de comunicação, o autor de Bandeira de aço tem o raro dom do que poderíamos chamar de “eternidade do texto”. Ou se eu não tivesse contado vocês diriam que a matéria abaixo já conta oito anos?

ARCO E FLECHA PARA SÃO SEBASTIÃO!
CESAR TEIXEIRA

Amarrado num tronco e crivado de flechas, São Sebastião é festejado em todo o Maranhão, onde é identificado com Oxóssi nos terreiros iorubas. Ele, porém, não foi morto a flechadas, e sim a pauladas, por ordem de Diocleciano, em 20 de janeiro de 288 d.C., aos 38 anos. Na Casa das Minas, porém, o dia do santo é 19, consagrado a Azonce, a quem está ligado.

Recende ainda o cheiro das pa-lhinhas de Reis, mas a cidade já vive os festejos de São Sebas-tião, que também vira Oxóssi no Maranhão. Nas igrejas, terreiros, sítios e casas que devem promessa são feitas homenagens ao santo martirizado durante o Império Romano, que perseguia cristãos tal como se caçam, hoje, cães portadores de cólera nas ruas.

Mas a sociedade moderna continua politeísta, e seus deuses integram o panteão capitalista: o FMI, a Microsoft, a OPEP, a Internet, Walt Street etc. Os justos ainda são torturados e mortos, antes de serem adorados, como se deu no séc. III com São Sebastião, defensor nas guerras, fome e epidemias.

Cenas de martírio – São Sebastião teria nascido em Milão, na Itália, conforme relatos de Santo Ambrósio e Santo Agostinho, mas há a versão de que nasceu em Narbone, na Gália, em 250 d.C., tendo ingressado na carreira militar aos 19 anos. Impressionado com a bravura do jovem soldado, o imperador Diocleciano o nomeou chefe da primeira corte pretoriana.

O tirano, porém, sente-se traído quando descobre que São Sebastião propagava a fé cristã em Roma e o condena à morte. Diante da guarda, o santo foi despido, amarrado a um tronco e atingido por flechas, sendo abandonado para morrer. Por milagre, resiste aos ferimentos.

Irene, viúva de Castulo, também martirizado, vai ao local para remover e sepultar o corpo de São Sebastião. Encontra-o ainda vivo e o esconde em sua casa. Restabelecido, o santo retoma sua luta e apresenta-se ao imperador, censurando-o pelas injustiças contra os cristãos e pedindo que deixe de persegui-los.

Alheio ao discurso, Diocleciano ordena a sua execução por bastonamento e golpes de bolas de chumbo em 20 de janeiro de 288 d.C., aos 38 anos. Para evitar que fosse venerado pelos cristãos, o cadáver é jogado na Cloaca Máxima, esgoto público de Roma.

O corpo de São Sebastião é encontrado por Santa Luciana, para quem apareceu em sonho pedindo-lhe que o sepultasse junto às catacumbas da Via Appia.

Okê, meu santo! – Dizem os cronistas que, durante a batalha triunfal contra os franceses que invadiram o Rio de Janeiro, São Sebastião foi visto lutando ao lado dos portugueses, índios e mamelucos. Coincidentemente, era o dia 20 de janeiro de 1567.

Essa aura guerreira, no sincretismo religioso, o identificaria com o deus ioruba da caça e das florestas, Oxóssi, como ocorre no Rio, no Maranhão e na cidade de Porto Alegre. “Okê!” é a sua saudação, e o grito que o anuncia parece o latido de um cachorro.

O mesmo orixá, no entanto, é São Jorge em Recife e na Bahia, onde Nina Rodrigues, em estudo pioneiro, o encontra assentado no terreiro de Menininha do Gantois. Em Cuba, alguns santeros têm Oshó-Oshi ou Oshosé como São Alberto.

No Maranhão, os festejos de São Sebastião destacam-se nos municípios de maior incidência afro-brasileira: São Luís, Codó, Pedreiras, Caxias, Bacabal, Viana, São Bento, Cururupu, entre outros. A liturgia concentra-se, sobretudo, no tambor de mina e na umbanda.

É grande o legado daomeano e ioruba para a religiosidade local, destacando-se a Casa das Minas e a Casa de Nagô. Na crença jeje-nagô em São Luís foi ainda inserido o ritual do candomblé, adotado pela Casa Fanti-Ashanti a partir de 1976, onde se festeja Oxóssi, também conhecido por Odé.

Assim, São Sebastião sai da Igreja e vai aos terreiros, embora o inverso não seja praxe em relação ao orixá, tão discriminado quanto a sua etnia. Em São Luís, até 1988 os rituais eram controlados pela Polícia, que cobrava taxas de funcionamento dessas casas, prática que fere a igualdade constitucional.

Na Roma antiga, o deus Janus, que dá origem à palavra Janeiro, tinha duas faces: uma que olhava para o futuro e outra para trás. As duas “faces” de São Sebastião miram para o alto.

Porém hoje, a propósito de Diocleciano, ainda há cruzadas contra a “feitiçaria” que utilizam jornais, rádios e canais de TV. Para resistir, o santo vira a pele do avesso, pega o erukerê, o arco e a flecha (ofá), a espingarda e demais apetrechos de caça, incorporando Oxóssi.

O jantar dos cães – São Sebastião fora do dia 20 é uma rara exceção que se dá na Casa das Minas, terreiro jeje-fon, onde surpreendemos o santo camuflado entre voduns. Ali, no mês de janeiro, festeja-se um ciclo em torno de Acossi Sakpatá (não se trata de Oxóssi) e seus irmãos – que não descem no querebentã há décadas.

O dia 19 pertence a Azonce, ligado a São Sebastião; no dia 20 festeja-se Acossi, vodun das doenças e remédios, associado a São Lázaro, e, no dia 21, Azili, que é venerado como São Roque. Azonce, ou Agonço, também é rei e não é doente como ou outros, que dançam com as mãos em garra como se tivessem lepra.

Mas a festa de São Sebastião é para Acossi, chefe da família Dambirá, e no seu dia é oferecido um jantar para os cachorros sobre esteiras cobertas por alvas toalhas bordadas. Sete, nove ou treze cães (depende do modo de contar os parentes de Acossi), acompanhados por igual número de crianças.

A saborosa comida, preparada em fogão de lenha e caldeirões, é feita pelas filhas da casa e servidas em pratos de louça: galinha, arroz, torta, macarrão e farofa, além da sobremesa de goiabada. Durante o jantar os voduns entoam cânticos, até que os pratos sejam recolhidos por pagadores de promessa.

Confesso ao leitor, que, pelo fato de ter nascido ao lado da Casa das Minas, ali na rua São Pantaleão, inúmeras vezes levei um pequeno vira-lata chamado Lord para repastar-se no banquete de Acossi. Sendo inevitáveis as brigas caninas durante o jantar, o que causava grande alvoroço, os pratos eram levados para casa.

Enfim, pouco sobrava para o magérrimo cão. Até hoje, no dia de São Sebastião, lembro do fato e me penitencio. Okê, Caboclo!

2 comentários sobre “Viva São Sebastião!

  1. Anonymous 20 de janeiro de 2011 / 16:12

    Ótimo resgate, Zema. Grande texto, grande César!

    Gerald Iensen

  2. zema ribeiro 20 de janeiro de 2011 / 16:27

    cesar e são sebastião residem em meus altares particulares. abraço!

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