A garçonete que odiava big brother

Pior que bares que tocam aqueles DVDs ruins de bandas ruins são bares que exibem o big brother brasil. Se você sai de casa para beber – ou comer – na hora do programa apresentado por Pedro Bial, já sabe! – não, não sei, a que horas passa? – vai dar de cara com o bbb na tela do estabelecimento.

Ainda passava a novela, pedi um x-calabresa e uma coca-cola – “pode trazer logo!” – e minha mulher um caldo de ovos. Subiram os letreiros, fim do capítulo, eu esperava por um filme, a vinheta do big brother invadiu a televisão. Éramos só nós dois à mesa, pude tranquilamente trocar de lugar, ocupando uma cadeira da qual eu não via – embora ouvir ainda seja demais – nada do reality show.

Menos rápida que minha mudança de lugar, a garçonete trocou o canal, um filme qualquer em outro canal qualquer. Quase volto a meu lugar original, mas uma idiota, agora sentada à minha frente, muxoxou, pedindo à garçonete para voltar a TV ao pior programa da tevê brasileira. “Big brother? Ninguém merece!”, muxoxou de volta a garçonete, mas “o freguês sempre tem razão”, o pedido da cliente idiota foi prontamente atendido.

De minha mesa ainda esbocei gestos e caretas rápidos dando a entender que detesto big brother – mesmo sem nunca ter assistido a sequer 30 segundos de qualquer capítulo dessa escória televisiva. Nossos pedidos chegaram e me concentrei no sanduíche, pedindo uma segunda lata de coca-cola para acompanhá-lo.

Esse tipo de gente que pede para ver o big brother em um estabelecimento é o mesmo que não hesitaria em esculhambar o garçom – ou a garçonete – caso, por exemplo, o seu macarrão viesse sem o queijo ralado por cima – mesmo que isso não fosse culpa do garçom ou da garçonete: até o queijo ralado ser devidamente colocado no lugar, como mandam a receita e o figurino, o garçom ou garçonete já teria sido xingado e amaldiçoado por três gerações, mesmo tendo resolvido o problema do freguês – ocasionado por uma cozinheira ou balconista meio desatenta – quiçá por estar com o sentido no big brother (outra televisão na cozinha?). “O freguês sempre tem razão” não deveria, nunca, ser desculpa para quem quer que seja, em qualquer lugar, ser ríspido ou descortês. Afinal de contas, mesmo tendo razão sempre, nem sempre o freguês – ou a freguesa – tem bom gosto.

A TV ainda estava ligada no “Bial e suas feras” quando saímos. Mas meus ouvidos se ocupavam com a música que saía de um aparelho de som, abaixo do televisor pendurado na parede envolto por uma grade. Do micro-system vinha uma coletânea do Nirvana, que a garçonete pôs para passar o tempo do bbb, o movimento fraco para uma noite de sábado sem chuva, a lanchonete quase tão vazia quanto a cabeça da freguesa que mirava o televisor.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

4 comentários em “A garçonete que odiava big brother”

  1. É bom saber que ainda existem pessoas fora do senso comum.
    BBB é mais uma das manifestações da “Sociedade do Espetáculo”. Incrível com Debord é atual, né? Mentes alienadas – esvaziamento, intinidades banalizadas!; consumo alienado – o merchan ditando todas as regras!
    Como diz Debord: “O espetáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta em sua plenitude a essência de todo sistema ideológico: o empobrecimento, a sujeição e a negação da vida real”
    Abração,

    PS. Já estou com 1 exemplar da publicação que te falei que ia te entregar. Chama-se: “O Anil dos anos 30” – autor: Sylvio Barbosa cardoso.

  2. Na verdade, trata-se de um livreto onde o Senhor Sylvio narra suas memórias sobre o Anil daquela época. Uma publicação sem pretensões, distribuida gratuitamente aos amigos.

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