De obituários

[Por ocasião do falecimento de Jackson Lago e de sua respectiva cobertura midiátia. Com o devido respeito à dor de parentes, amigos e admiradores]

Obituários são, em geral, textos fáceis de escrever: informações na mão e/ou na cabeça, basta burilar o texto, trazendo datas de nascimento e falecimento, causa mortis, breve biografia do recém-falecido etc. A dificuldade maior, em geral, é quando o redator tem alguma proximidade com o finado: a emoção toma conta, lágrimas embotam as palavras.

O pecado de quem redige obituários, encomendados ou não, em geral é carregar nas tintas: principalmente em se tratando de políticos, a morte transforma-se em borracha, apagando todas as falhas de tantos anos de vida pública – como se a criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus fosse aqui elevada à sua máxima potência.

Nem tanto ao mar nem tanto a terra, obituários, de resto como quaisquer textos de não-ficção, devem dizer a verdade, embora haja a necessidade, o cuidado e o bom senso de respeitar as dores e os sentimentos da família, amigos, admiradores e outros.

Não fui amigo de Jackson Lago – como de Ivan Costa e Magno Cruz, para citar outros obituários, os mais recentes de que lembro, que escrevi até aqui. Nem era seu inimigo – durante seus pouco mais de dois anos à frente do executivo estadual, chefiei a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, então capitaneada pelo poeta e compositor Joãozinho Ribeiro.

Médico, professor universitário e político, nascido na hoje alagada Pedreiras, no interior do Maranhão, em 1º. de novembro de 1934, e falecido ontem, 4 de abril de 2011, Jackson Lago foi prefeito da capital maranhense por três vezes (1989-1992; 1997-2000; 2001-2002) e governador do estado (2007-2009). Seu último mandato à frente da Prefeitura Municipal de São Luís foi interrompido para que concorresse ao governo do Maranhão, ocasião em que foi derrotado nas urnas. Em nova disputa, eleito em 2006, teve o mandato de governador interrompido por um golpe judiciário.

Ali morria Jackson Lago. O pedetista será sepultado quase dois anos após sua morte, vítima dos tentáculos sarneystas tribunais afora.

José Sarney agora veicula nota de pesar pelo falecimento do adversário, cometendo o ato falho de dizer que Lago dominou a política maranhense ao longo dos últimos 40 anos – sinceramente, soa debochado. Roseana Sarney agora disponibiliza os palácios dos Leões e Henrique de La Rocque para o velório, em ato de cinismo já apontado pela turma do Vias de Fato.

Amanuenses do Sistema Mirante defendem que o corpo do ex-governador fosse ali velado. Ou na Assembleia Legislativa. Os mesmos acéfalos asseclas sarneystas que não hesitavam em tratá-lo pela alcunha de “governador sub-judice” à época em que corria o processo que culminou com sua cassação por motivo que poderia garantir o mesmo destino a quem ora está entronizada, fosse realmente cega e/ou imparcial a justiça deste país.

Seja feita a vontade do pedetista: ser velado na sede do partido que ajudou a fundar. Talvez mesmo ele tenha pensado em só querer voltar ao Palácio dos Leões por via das urnas – derrotado em 2010, “nem morto”.

Jackson Lago, como milhares de maranhenses, é mais uma vítima do mandonismo e continuísmo perverso que massacra e confina o povo-gado à eterna miséria absoluta.

O que Jackson fez, da cassação-morte até aqui, a morte em si, foi, para usar bom “maranhês”, “estrebuchar”. Louve-se o fato de não ter usado sua doença para o marketing político – muitos não sabem, mas Jackson Lago já era vítima de câncer quando governou o Maranhão e tinha o quadro agravado no último pleito.

Cometeu erros? Sem dúvidas, como todo político e, antes, como todo ser humano. O último, bem lembrado pelo jornalista Rogério Tomaz Jr., a eleição de João Castelo.

Seu falecimento não o põe acima do bem e do mal, óbvia e definitivamente. Morreu digna e coerentemente. Ao contrário de boa parte de seus adversários – mortos ou com prazo de validade vencido – e da mídia moribunda que lhe cobre o féretro.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

6 comentários em “De obituários”

  1. Parabéns pelo texto, bem produzido!
    Só um porém…Não foi a Familia Sarney que “tirou” Jackson Lago do poder…Foi a Justiça, que tardou mais não falhou! Corrupção é crime!!

  2. ricardo, corrupção é crime. e se a justiça fosse justa, roseana sarney já teria sido cassada, pelos mesmos motivos que jackson. ou sequer teria sido empossada, tanto quando da cassação de jackson quanto quando da última eleição.

  3. Belíssimo texto…

    Através dele, do texto, dá para dar uma passada d'olhos pela política maranhense…rs. Quando eu deixar de ficar fazendo hora extra por aqui e for cantar nos verdes campos de caça quero algo similar…rs…

    Quinveja!!!

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