“O micróbio do samba” e a pulga tirada de detrás da orelha do blogueiro

[Este texto (resenha? Crítica?) é dedicado a Alberto Jr., André Sales e Reuben da Cunha Rocha, que me instigaram a ouvir mais e melhor o disco novo de Adriana Calcanhotto, em provocações via tuiter, blogue e messenger. E a Silvério Pessoa, que em 2002 lançou O micróbio do frevo, por sua vez dedicado ao genial Jackson do Pandeiro, cuja obra foi ali regravada.]

O micróbio do samba [Minha Música/Sony Music, 2011, R$ 24,90 em média], novo trabalho de Adriana Calcanhotto, como o título entrega completamente dedicado ao gênero de Noel Rosa e Cartola, para citar apenas dois de uma constelação de craques, é um dos mais instigantes discos recentemente lançados nesse Brasilzão de meu Deus.

Não é um disco fácil, daqueles pelos quais você se apaixona à primeira audição. A primeira sensação, surgida antes mesmo de ouvi-lo, é de ansiedade: a gaúcha demora a lançar discos, quiçá maturando-os, e qualquer anúncio de disco da autora de Esquadros causa rebuliço, seja voltado ao público infantil, seja inteiramente dedicado ao samba.

Você ouve falar ou lê um texto sobre e fica naquela, enorme vontade de ouvir logo o tal disco, no rádio, baixando na internet, pegando emprestado ou comprando – este escriba baixou, teve sua relação de amor e ódio, não necessariamente nessa ordem, depois comprou o original. Como um remédio controlado – embora O micróbio do samba não careça de receita –, várias doses diárias.

Adriana Calcanhotto é artista completa: compõe bem, canta idem, toca violão ibidem. Admirador de seu trabalho desde Enguiço, a estreia de 1990 – quando o blogueiro era então apenas um menino –, disco que trazia uma regravação de Disseram que voltei americanizada (Luiz Peixoto e Vicente Paiva) e Naquela estação (parceria inusitada de Caetano Veloso, Ronaldo Bastos e João Donato), e lhe garantiu comparações à Elis Regina, e apreciador de samba desde sempre, a receita só podia ser infalível.

Se “se faz samba com pandeiro/ com cavaco e cuíca/ com retinta, tamborim e violão/ entra o surdo, reco-reco/ o afoxé e o apito/ os sambistas, as cabrochas e animação”, como receitava o sábio e saudoso Mestre Antonio Vieira (1920-2009) em Ingredientes do samba, Calcanhotto bota pra quebrar – literalmente – e causa-me a primeira estranheza: um disco de samba quase sem instrumentos/ingredientes de samba.

Aparecem aqui e acolá um cavaquinho (Davi Moraes em Tão chic, a faixa “mais samba” do disco – não por acaso uma de minhas prediletas), um violão (a própria Adriana ao longo do disco, novamente Davi Moraes em Deixa, gueixa), uma cuíca (a própria Adriana em Vai saber?), um prato e faca (Moreno Veloso em Você disse não lembrar); mas predominam o contrabaixo de Alberto Continentino e bateria e percussão de Domenico Lancellotti – Calcanhotto ainda empunha, além de voz, violão, e da já citada cuíca, piano, guitarra, caixa de fósforos e bandeja de chá. Outros convidados são Rodrigo Amarante (guitarra em Já reparô?) e Nando Duarte (violão em Deixa, gueixa).

Dedicada a Marisa Monte, Beijo sem, já havia sido gravada por Teresa Cristina em Melhor assim (2010); a que recebe a homenagem, em Universo ao meu redor (2006), havia gravado Vai saber?, em O micróbio do samba dedicada a Mart’nália. Ouvi-las com pressa nos induz a crer que as gravações das intérpretes de Calcanhotto são melhores; (re-)ouvi-las com atenção nos faz percebê-las apenas diferentes. Se as gravações da autora soam mais “secas”, aplaudamos o “charme da compositora” – talvez aquilo que nos faz adorar gravações de músicas de, por exemplo, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues em suas próprias vozes.

Adriana Calcanhotto assina todas as faixas do disco, Vem ver em parceria com o lendário Dadi (baixista d’A Cor do Som). Outro grande trunfo deste belo disco é tirar as mulheres dos papeis subservientes a que desde sempre estiveram relegadas no universo em geral machista do samba, Ai, que saudade da Amélia (Mário Lago e Ataulfo Alves) e Amor de malandro (Francisco Alves e Ismael Silva) talvez os exemplos mais emblemáticos. As letras de O micróbio do samba dão voz e vez às mulheres, talvez até demais. Alguns marmanjos certamente não gostariam de ouvir versos como “te deixo a geladeira cheia e sem promessa/ que findo o carnaval eu tô de volta/ não chora, neguinho, não chora/ o meu coração é verde e rosa/ (…)/ tá na minha hora” (Tá na minha hora) nas bocas das suas meninas.

http://www.zemaribeiro.wordpress.com

Gente dizendo que eu ‘tava há dias sem escrever. Não ‘tou. Só não escrevo mais aqui. Mudei de endereço, esse aí que batiza o post. Já tinha avisado, basta clicar, ‘tá ligado?

Pra que não restem dúvidas: eu agora escrevo no http://www.zemaribeiro.wordpress.com (um cliquezinho resolve).

Sobre anjos musicais

O cantor e compositor Bruno Batista acaba de lançar Eu não sei sofrer em inglês, seu segundo disco. Via Facebook ele conversou com o Vias de Fato.

Maranhense nascido em Pernambuco, Bruno Batista (foto) já morou no Piauí e no Rio de Janeiro antes de cravar residência em São Paulo, onde vive hoje. Na terra de São Sebastião gravou seu primeiro disco, que levava apenas seu nome no título, Bruno Batista (2004), elogiado pela crítica. (Re-)gravado por nomes como Cecília Leite, Cláudio Lima e Lena Machado, é um dos principais nomes da cena musical contemporânea do Maranhão.

Na terra da garoa Bruno Batista gravou seu segundo disco, o belíssimo Eu não sei sofrer em inglês (2011). Se no primeiro disco já eram surpreendentes suas elaboradas letras e melodias, neste segundo o cantor e compositor se supera. “O primeiro era um disco sem pretensão nenhuma”, afirma modesto o jovem de fã-clube cada vez maior.

O novo disco ainda nem estava pronto e só chegou às lojas pouco antes deste número do Vias de Fato, já neste maio. Pode ser encontrado nas lojas Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande) e Playsom (Tropical Shopping), além do Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais) – onde a reportagem tentou encontrá-lo por duas vezes, conversa adiada diante de problemas na agenda ou do artista ou do repórter.

“Esse jogo não pode ser um a um”, diria outro poeta da canção. O desempate aconteceu via Facebook: pelo site de relacionamentos, entre os dias 7 de abril e 11 de maio, Bruno Batista concedeu a entrevista abaixo ao Vias de Fato.

ENTREVISTA: BRUNO BATISTA
POR ZEMA RIBEIRO

Vias de Fato – Quando é que, de fato, Eu não sei sofrer em inglês será lançado? Bruno Batista – O Eu não sei sofrer em inglês, que já deveria ter sido lançado no fim do ano passado, deverá chegar nas lojas no início de maio [chegou]. O atraso todo se deu no processo de mixagem, que se prolongou além do previsto. Atualmente ele ‘tá na fábrica e, só pra não deixar dúvidas: há realmente um disco no forno, chamado Eu não sei sofrer em inglês, que, muito em breve, estará circulando por aí . Não é lenda urbana, não [risos].

A que se deveu a demora entre a estreia e este segundo trabalho? O primeiro disco, muito embora seja muito importante pra mim pessoalmente, não tinha nenhuma pretensão. A proposta inicial era apenas registrar aquelas canções, de uma forma cuidadosa, claro, com as minhas ideias na época. Mas o fato é que, a partir dele, eu peguei gosto pela coisa – a experiência em estúdio e a troca com as pessoas que ouviram o disco me contaminaram – e passei a considerar, realmente, seguir no terreno musical. Esse tempo sem gravar me permitiu conhecer mais profundamente o mundo da música no Brasil, a enorme quantidade de artistas independentes que faz um trabalho incrível, e me deixar influenciar por eles. Muito embora no Eu não sei sofrer em inglês haja canções feitas há nove anos, além de duas regravações, eu esperei a minha própria música se modificar e se estabelecer em mim pra fazer um novo registro.

Eu não ouvi todos os discos [título de uma das faixas do primeiro disco] não é, mas bem poderia ter sido o título de teu primeiro disco. Eu não sei sofrer em inglês, título do segundo, tem a mesma quantidade de letras daquela faixa que Ricarte Almeida Santos referenciou em artigo de relativa fama no meio jornalístico e intelectual da capital maranhense. Para além dessa coincidência, digamos, numerológica, que diferenças e semelhanças entre um e outro tu poderias apontar? Sério? Que coincidência maravilhosa [risos]. Não tinha atentado para isso. Mesmo. Na verdade, Eu não ouvi todos os discos deveria, sim, ter sido o nome do meu primeiro disco. Não lembro mais a razão de não tê-lo batizado assim. Muito provavelmente se deveu à tal despretensão de que falei. Mas o fato é que, se fosse hoje, esse teria sido o nome do disco. Tanto que é o nome do meu blog [o desatualizado http://www.batistabruno.wordpress.com]. Quanto ao outro ponto, vejo mais diferenças que semelhanças entre os dois álbuns. A começar pela concepção: enquanto aquele recebeu arranjos de um maestro sofisticado – e saudoso – Alberto Farah, este foi gravado em três sessões, com uma banda tocando ao vivo e sem conhecimento prévio das canções. Além disso, penso que também ficou flagrante a inclinação mais “pop” do trabalho, com maior espaço para guitarras, bateria, coros. Mas, sobretudo, acho que ter gravado em São Paulo, com essa geração muito especial de músicos que forma a atual cena paulistana, deu um sabor bem distinto ao disco.

Seu blogue anda meio parado. Como já aconteceu com outra experiência, de blogueiro do jornal O Imparcial, e como aconteceu com o próprio curso de Comunicação Social, que tu abandonaste sem concluir. Podemos dizer que tu abandonou tudo pela música? Ou o cantor e compositor Bruno Batista se conciliará em breve com as letras, passando a trabalheira de “parir” um novo disco? Acho que não tenho muita vocação pra blogueiro, né? [risos]. Mas o instinto jornalístico é muito presente em mim. Vou conciliar as duas coisas, sim, e tem novos projetos vindo por aí.

Sobre estes novos projetos, podes adiantar alguma coisa? Tenho conversado muito com o Pedro Henrique Freire [editor-chefe de O Imparcial] sobre um novo projeto jornalístico. É uma proposta bem legal, mas ainda não posso adiantar muita coisa. E, musicalmente, após passar esse primeiro momento de lançamento do novo disco, quero muito viabilizar o meu trabalho de músicas infantis, além de um grupo de baião. Este último é um desejo antigo, que recrudesce à medida que meu trabalho autoral vai se distanciando dos signos nordestinos. É meio louco isso, não? Mas é o que acontece.

Entre as feras que estão em Eu não sei sofrer em inglês, como foi chegar a nomes como Chico Salem e Marcelo Jeneci, ambos da banda de Arnaldo Antunes, mais Estevan Sinkovitz, da de Kléber Albuquerque, Guilherme Kastrup, que já tocou com Zeca Baleiro, que participa de regravação de Acontecesse, mais Rubi, Juliana Kehl e Tulipa Ruiz? Na verdade, tudo começou quando assisti ao Partimpim, da Adriana Calcanhoto. Lá tinha um percussionista que tirava som de tudo, com muita graça no palco. Foi assim que cheguei ao nome do Guilherme e o procurei pela internet. Mandei algumas canções, ele curtiu, e começamos a pensar no trabalho. Em princípio, ele iria fazer só as percussões mas, ao ouvir o disco Vol. 1, da Andréia Dias, percebi que ele também era um puta produtor e o convidei pra produzir também. Pra minha sorte, ele aceitou e convocou esse time maravilhoso. O curioso é que, exatamente nessa época, eu estava ouvindo muito o Ao Vivo no Estúdio, do Arnaldo, e entusiasmadíssimo com o Jeneci, o Chico Salem. Foi demais poder contar com todos eles. Quanto às participações, uma das coisas mais gratificantes desse disco foi poder dividir uma faixa com o Zeca. Ele sempre foi um dos meus grandes mestres, lembro de ter ouvido um milhão de vezes o [Por onde andará] Stephen Fry, o Vô Imbolá, e acho mesmo que, ele e o Chico César, foram os responsáveis por eu ter me tornado compositor. Isso em falar no prazer de conhecer o Rubi, um dos timbres mais especiais da música brasileira, a Tulipa, que é uma fofa e tem uma personalidade artística incrível. Ambos foram muito generosos e me emocionaram enquanto gravavam. Mas, talvez o mais bacana de tudo, foi a relação que construí com o Guilherme e o Chico. Depois de tanto tempo depurando o disco, burilando, refletindo acerca de todas as questões, ficamos amigos. São músicos fantásticos e pessoas raras.

As referências trazidas por ti, aqui, são bastante contemporâneas: Chico César e Zeca Baleiro não têm, ainda, 20 anos de carreira. Partimpim e Ao vivo no estúdio são discos novíssimos, embora estes conceitos estejam cada vez mais dissolvidos, em tempos de produção musical cada vez mais efêmera, onde tua música não se insere, obviamente, dado o apuro, a preocupação, o cuidado com cada detalhe. Teu blogue homenageia na definição Zico, Kusturika, Oscar Wilde e Waldick Soriano. Tarantino, Marley, Lennon, Bowie, Morris Albert, Bob Dylan, Joan Baez são outras personalidades que passeiam pelas letras de Eu não sei sofrer em inglês. Gostaria de citar outras influências e referências? Sim, eu citei algumas referências contemporâneas porque, atualmente, é o que tenho ouvido com mais frequência. Mas minha memória afetiva, inelutavelmente, me remete a Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Gonzaguinha, Amelinha, Egberto Gismonti, que era o que meu pai ouvia quando eu era criança. Minha casa sempre foi muito festiva e musical, e se consumia, fundamentalmente, música brasileira. Além disso, havia a casa da minha avó, em Teresina, onde passava as minhas férias ouvindo o violão dos meus tios, sobretudo o do meu tio Naeno. A minha maneira de tocar, meu dedilhado, advém dele. É um artista maravilhoso. Quando citei o Zeca como responsável por me tornar compositor foi, além de todo o entusiasmo e impacto que sua música causou em mim, ele ter provado que um artista saído dali, da cidade em que eu vivia, podia, sim, ser bem sucedido, construir uma carreira além muros. Mas, com relação estritamente à herança musical, o meu maior credor, provavelmente, é o Naeno. Um dos meus grandes desejos é, um dia, gravar um álbum só com suas canções.

Se teu primeiro álbum não tinha pretensões, podemos dizer que este segundo te consolida como cantor e compositor, além dos planos e sonhos para o futuro: um disco infantil, outro com canções de Naeno, de quem tu herdas também uma doce melancolia. Em que momento, antes do primeiro disco, tu te sentiste artista? E quando, talvez na feitura do segundo, tu pensaste em fazer deste o teu principal ofício? Na verdade, esta sempre foi uma questão pra mim. Antes do primeiro disco eu nunca me senti, de fato, artista. Não percebia em mim a necessidade de dialogar com as pessoas através da música, nunca tive um fascínio especial pelo palco ou encantamento pela carreira artística. Tanto que as canções que fazia ficavam restritas ao ambiente familiar e, não fosse a iniciativa dos meus pais e irmãos, talvez repousassem lá ainda hoje. Mas, para citar um momento importante, lembro de quando ouvi pela primeira vez a gravação de Já me basta, feita pela Cecília Leite. Ali percebi que eu tinha uma voz e que ela poderia encontrar eco em algumas pessoas. Foi, talvez, a minha primeira afirmação enquanto compositor.

Outros nomes que já te gravaram são Lena Machado e Cláudio Lima. O último, com quem já dividiste o palco em shows, assina o projeto gráfico de teu novo disco. Em tempos em que é possível baixar discos em qualquer esquina virtual, informação e um bom projeto gráfico são, a meu ver, fundamentais. O disco, além de aos ouvidos, precisa agradar aos olhos. Como foi dialogar com Cláudio Lima neste sentido, de dar a cara a Eu não sei sofrer em inglês? Trabalhar com Claudio é sempre um privilégio, é um dos artistas mais sensíveis que eu conheço. A arte gráfica é apenas uma de suas facetas. A de cantor, mais conhecida, dispensa comentários – é um dos melhores do país – mas, além disso, ele escreve, compõe e anda de monociclo [risos]. É de um perfeccionismo comovente, tende a ruminar muito antes de apresentar qualquer trabalho e eu compreendo isso muito bem. Já foi uma delícia poder dividir o show Hein – que fizemos em São Luís em 2008 – e ainda iremos gravar um disco juntos.

Dá para culpá-lo um pouquinho pela demora do Eu não sei sofrer em inglês? Brincadeira [risos]. E aqui o Vias de Fato, novamente, apresenta em primeira mão outro projeto de Bruno Batista: um disco com Cláudio Lima. Ficando no disco novo, vamos ao repertório: por quê abri-lo com regravações de Já me basta e Acontecesse, músicas de teu disco de estreia, a primeira agora ganhando uma levada bumba meu boi, ainda que deixando a tradição de lado, a segunda com participação especial de Zeca Baleiro? [Risos]. Dá sim, ele também tem culpa nisso. Quando fomos selecionar o repertório, acabei apresentando 18 canções para os produtores que iriam comandar o processo. Entre elas, Acontecesse e Já me basta. Pensei: “Já que estou encarando este como meu primeiro trabalho, por que não mostrar tudo o que tenho?”. Eles acabaram escolhendo as duas e, num primeiro momento, eu hesitei. Mas depois veio a possibilidade da participação do Zeca, a gravação de Já me basta foi um dos momentos altos daquele processo, passei a me entusiasmar com os novos arranjos. No fim, elas iriam abrir o disco numa, digamos, coincidência intencional.

Encarar Eu não sei sofrer em inglês como primeiro trabalho não significa renegar Bruno Batista, o disco de estreia, ou significa? E seguindo no faixa-a-faixa: e a faixa-título, soma de referências em música de ninar gente grande? Não, não. Tem a ver, apenas, com a tal despretensão que já mencionei. A faixa-título foi composta na bacia das almas, praticamente dentro da cabine de gravação. Ia gravando os takes e alterando a letra [risos]. Mas tinha tido a ideia uns dois anos antes e sabia que seria o título do disco. Tem uma candura na própria melodia que acabou contaminando o arranjo. Mas gostei da tua definição “música pra ninar gente grande”. Talvez seja isso mesmo, muito embora eu já recebido alguns e-mails do tipo “Bruno, meu filho, sempre que entra no carro, pede pra colocar aquela música do sofrer em inglês”.

A faixa seguinte, Tarantino, meu amor é uma desbragada declaração de amor ao ator, diretor e roteirista, certamente outra referência, um tango, digamos, impuro… Sim. Na verdade, antes de uma declaração de amor, é uma alegoria, uma sacanagem. Acho que tem a ver com ele. É um diretor que eu gosto muito e, na canção, trato de alguns temas que são caros a ele, como a personagem feminina, alguma violência e humor. Ele tem um humor sádico incrível. Originalmente tratava-se de um xote, que era pra dar uma coisa mais louca na canção – um sujeito tão cosmopolita como o Tarantino ser tratado num xote e chamado de “quentín”. Mas o arranjo tomou outro caminho com a banda e acabou, sim, transformando-se num quase tango. Quase.

Depois vem Vaidade, samba-choro modernoso de letra belíssima, com a participação de Rubi, uma das mais belas vozes do Brasil… Sim. A melodia deste samba foi composta em Recife há alguns anos. Lembrei dele quando estávamos selecionando o repertório e fechei a letra. De cara, sabíamos que ela seria uma faixa que teria participação especial, mas faltava definir quem convidar. Foi o Gui Kastrup quem sugeriu o Rubi e eu pirei na ideia. A gravação foi muito especial, o Rubi interpretou magistralmente e, ao final, sem que nos déssemos conta, estávamos todos chorando. Lindo e inesquecível.

Sobre anjos e arraias te devolve ao Nordeste, entre o Pernambuco de nascença e o Maranhão e Piauí da infância e adolescência… Sim, acho que é a faixa mais “nordestina” do disco. A influência pernambucana é mais consciente que atávica, uma vez que não lembro da minha vivência no Recife. Mas ouvi muito Chico Science e toda a geração do mangue beat. Tem o lance do acordeom, a percussão que assume o papel do baixo. Curioso é que essa canção foi criada para ter um único acorde, queria que ela soasse renitente, como um filho que não larga as saias da mãe. O arranjo final amenizou um pouco isso, o que, no fim das contas, acabou me deixando contente.

Quem é a Bonita? Na verdade, Bonita não foi feita especificamente pra ninguém. Partiu de uma imagem, do verso “Que te fez, Bonita!”. Depois, fui delineando a letra.

E Hilda Regina? Hilda Regina já foi inspirada numa amiga que adorava viajar, era castrista e fascinada por música cubana. Por isso, fiz uma salsa em que a personagem passeia pelo mundo.

Para um amor em Paris evoca dois compositores: Paulinho da Viola, por seu Para um amor em Recife e Zeca Baleiro, pela mistura de línguas da letra, o que já ocorria em Hilda Regina Sim, O título de Para um amor em Paris é uma alusão clara á obra-prima de Paulinho da Viola, uma de minhas preferidas da sua obra. Já o uso dos estrangeirismos tem ligação, sobretudo, com os poetas brasileiros modernos, como Jorge de Lima, que se valiam muito desse recurso.

Em Nossa paz, a participação especial de Tulipa Ruiz, personagem de um novo momento da música brasileira que merece ser descoberta por mais e mais gente, tal qual Bruno Batista, que devagarinho vai conquistando seu espaço… A Tulipa é, definitivamente, um novo momento na música do Brasil. Acho que há tempos não aparecia alguém com uma personalidade artística tão singular. E com tanto carisma também. Nossa paz é uma canção terna, cotidiana, que foi composta com essa intenção mesmo. Acho que acabou tendo uma boa aceitação porque muita gente se identifica com aquele sentimento.

E a mulher a quem você aconselha em Lia, não vá? É uma música otimista, esperançosa que, ao suceder Nossa Paz, cria certo momento de aconchego dentro do disco. A Lia, especificamente, não existe, mas talvez tenha inspirada numa antiga namorada que passou por um momento difícil.

E fechando o disco a densa e bela As cigarras As cigarras é meio tropicalista, rápida, esquizofrênica. É o único rock do disco e, por isso, foi até difícil encaixá-la. Quase não entra. Mas acho que ela, também por isso, acaba fechando bem os trabalhos.

Todas as músicas são assinadas por ti, o que também aconteceu no primeiro disco. Compor sozinho é uma opção? Acho que por muito tempo foi uma opção, sim, porque é mais fácil. Não há embate de ideias ou propostas. Mas, com o tempo, você acaba se tornando refém de si mesmo e ter parceiros que possam te desamarrar parece ser o melhor caminho. Tanto que já tenho algumas parcerias com o Chico Salem, Djalma Lúcio e, no próximo álbum, quero explorar bastante essas novas influências.

[Vias de Fato, maio/2011]

Esse cara é massa!

CELSO BORGES*
ESPECIAL PARA ESTE HUMILDE BLOGUE

Xico Sá (foto) tá em São Luís. E isso não é pouco. É difícil a gente encontrar um profissional do nível dele, que combina bom texto + humanismo + ironia + 1 dose de pinga + Waldick Soriano na vitrola + Dom Quixote no coração. Esse cabra do Crato (CE) é um craque da palavra. Desses raros que a gente anda atrás pra saber o que anda escrevendo. E não é pouco. Em 26 anos de jornalismo espalhou seu estilo muito pessoal prum mundaréu de jornais e revistas e ganhou os prêmios Esso e Abril. Na TV faz parte da equipe do programa Cartão Verde, da TV Cultura/SP, ao lado do ex-jogador Sócrates.

Além disso, tem parcerias musicais com o grupo Mundo Livre S/A, é coautor de roteiros de longa-metragem, fez pontas como ator em Crime delicado e O cheiro do ralo. Mas quem disse que é só isso? Xico é também um grande escritor. Nem vou citar todos os títulos. Eu já li dois e adorei: Chabadabadá e Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente. A mim resta incitá-los a procurar nas casas do ramo. É provável que não se ache aqui em São Luís. Grande novidade. Alô livreiros, pelo amor à literatura, peçam os títulos de Xico Sá!

Nunca é demais repetir: Xico é um craque da palavra. Só que ao invés de vesti-la com paletó e gravata, vai buscar excelência de linguagem na poeira das ruas. Em lugar de cátedras, mesas de bar. Cita do suicida da esquina que acabou de tomar formicida e se matou por amor ao valente e essencial Nietzsche. Sabe que no balde da vida a sabedoria tá num e noutro. Em lugar de Mahler, Magal, ou melhor, Mahler e Magal. É antológica sua apresentação ao lado de Sidney Magal.

Diferente de intelectuais e jornalistas formados (alguns deformados) dos anos 50 e 100 (sim, eles continuam vivos), Xico também bebe com prazer do lixo pop. No seu caldeirão de referências coloca o que seria incabível para os letrados de araque. Sou fã da coluna que ele escreve sobre futebol na Folha de S. Paulo. Depois de À sombra das chuteiras imortais, de Nelson Rodrigues, eu pensei que nada fosse me comover tanto.

Eu encontrei Xico umas três, quatro vezes, duas delas em lançamentos de livro, mas é como se fôssemos velhos conhecidos. Tasco-lhe sempre um abraço enorme, que é uma forma de expressar a alegria por tê-lo perto dividindo espantos. Dessa vez não será diferente. Pena que não vai dar tempo de levar esse cara pruma rodada dupla do campeonato maranhense no Nhozinho Santos. Logo ele torcedor do Ibis (PE) e do Santos (SP), amante e devoto de peladas homéricas. Salve, irmão! Seja bem-vindo!

*Celso Borges é jornalista e poeta. Seus títulos mais recentes são Belle epoque (2010), Música (2006) e XXI (2000).