Para entender Cesar Teixeira

Em determinada altura do dia de ontem, em que aniversariaram meu tio Sérgio Tadeu e meu amigo “presida” Vicente Mesquita (a quem desejo muitos anos de vida e alegrias, mesmo sem ter ligado para nenhum dos dois na data), André Sales, meu amigo editor do caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão, alcançou-me nalgum desses bate-papos a que pass(am)o(s) (quase) o dia inteiro conectado(s). Perguntava se eu tinha alguma boa foto feita durante o show Bandeira de Aço, sobre o que já escrevi aqui. Eu não tinha. Indiquei o fotógrafo Paulo Socha, a quem vi por entre a plateia. Quando o jornalista perguntou-me se eu não tinha uma caricatura, também foi negativa minha resposta. E perguntei: “Salomão não faz?”.

Não perguntei a ele do que se tratava, mas imaginei que algum comentário sobre o show seria publicado na edição de hoje do jornal. Chegando ao trabalho, o exemplar hodierno não fora recebido por nenhum dos colegas. Acessando o site do jornal, li o belíssimo texto abaixo, que tomo a liberdade de copiar, compartilhando-o com meus poucos mas fieis leitores.

Aliás, tem sido uma delícia ler com relativa constância e constante emoção os textos que Alberto Jr. tem publicado recentemente (por exemplo sobre o show de Marcelo Camelo, sobre o disco novo de Chico Buarque, e mesmo o texto que colo abaixo, que André Sales já havia postado em seu Diário do André; o link original n’O Estado do Maranhão é exclusivo para assinantes).

Alô, Salomão Jr., vou pendurar essa caricatura no peito!

Alô, Alberto Jr., nós merecemos mais que uma atualização mensal do Emepebistas!

PARA ENTENDER CESAR TEIXEIRA
Alberto Júnior
Especial para o Alternativo
 

 

Acesse agora o oráculo digital contemporâneo, o Google, e digite o verbete “Cesar Teixeira”. Você vai constatar que existe pouca informação disponível em contraponto à importância que este compositor maranhense tem para a música popular brasileira.

Nem mesmo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira registra algum tipo de conteúdo ou breve biografia sobre Cesar, apenas o cita em composições dele gravadas por outros maranhenses que ultrapassaram o Estreito dos Mosquitos na difusão de suas músicas, como Flávia Bittencourt, Glad Azevedo, Antônio Vieira e Rita Ribeiro.

Contudo, é possível fazer o download do único disco gravado por Cesar, Shopping Brazil (2004), pelo blogue Música Maranhense, uma iniciativa do estudante universitário Victor Hugo, que reúne um bom acervo sobre a música popular do Maranhão, além de encontrar algumas informações esparsas sobre o artista, como um “release” e algumas entrevistas.

A constatação da ausência do nome de Cesar Teixeira nos meios massivos reforça a aura mítica do compositor no Maranhão. Representante de um movimento musical, que gerou uma estética própria da música produzida no Estado, ele não cedeu aos apelos da voz do dono tornando-se o dono da própria voz. Em vez de aprisioná-la em material de acetato, deixou-a livre para fazer coro junto aos seus pares e para ser registrada na memória coletiva de todos nós, tatuada com as cores e as palavras do afeto, da luta e da identidade de uma comunidade.

Um momento – O show Bandeira de Aço, realizado sábado passado (30), no Circo Cultural Nelson Brito (Circo da Cidade), foi a prova de que ele está mais vivo do que nunca. No repertório, novas composições foram apresentadas, além das obras-primas da carreira, como Ray Ban, Parangolé, Flor do Mal, Dolores, entre outras.

Iniciativa da produtora cultural Ópera Night que reuniu os músicos Moisés Profeta (contrabaixo, guitarra), Ribão (percussão), Quintino Neto (bateria), Rui Mário (sanfona, teclados), Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho, percussão), Hugo Barbosa (trompete), Daniel Miranda (trombone), Regina Oliveira (vocal) e Mayrla Oliveira (vocal) para apresentar os diversos ritmos da obra de Cesar e o que ele tem de melhor: a música em formato canção. Como convidado especial, subiu ao palco também o compositor Joãozinho Ribeiro, com quem dividiu a apresentação do divertido Samba do Capiroto.

Mais do que a tentativa de entender a obra de Cesar Teixeira pelo viés da crítica ou da pesquisa – tão necessárias e importantes – está a experiência com o artista em cena e na interação com seu público. A resposta está na pureza das crianças que abriram o show cantando a toada Boi da Lua, na urgência do corpo em rejeitar o comportamento disciplinado pelas cadeiras de plástico levantando-se para a dança, na delicadeza de quem se emocionou com canções do ‘tempo da janambura’ que ressuscitam personagens e cenários de velhos tempos e na força da palavra de ordem repetida em coro por todos no bis: “E diga sim a quem nos quer acolher, mas se for pra nos prender diga não”.

A força de uma poesia que põe em xeque qualquer pretensão buarquiana.

Alberto Júnior é radialista e pesquisador musical.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

5 comentários em “Para entender Cesar Teixeira”

  1. Oi, Zema!
    Adorei a caricatura. Pena não ter ido ao show!
    Acho que sou suspeita para falar de César, apesar de não mais tê-lo visto e do mesmo (acredito) não mais lembrar dessa ‘aspirante da comunicação’ que sobre ele escreveu um dia; um trabalho que poderia ser bem mais do que o tempo permitiu em tempos acadêmicos.
    Semana passada, ao ler alguns textos, lembrava de César (e da mono), sua poesia musical e os grandes autores que o inspiraram em canções como Flor do Mal, Metamorfose e tantas outras e me deparava (de novo) com um César (simbolista) Teixeira. Meio arriscada a denominação, mas o cotidiano de Cesar e sua trajetória tornaram-no signular, essencial, quase espiritual, eu diria, se se pegar mesmo nas ‘aparentemente’ mais simples composições. Um homem às vezes num revés frágil, mas carregado de força poética e simbólica. Enfim…
    Ps: Alberto Jr. está cada vez mais primoroso nos seus textos. Mais que lê-los, privilegiados são os que compartilham tete-a-tete das suas considerações!
    Beijocas

  2. é isso mesmo, milena: cesar está para além do humano, que ele é demais. um ser fundamental, iluminado. teu trabalho merece continuação e publicação, tão pouca é a literatura acerca de cesar e de outros mestres tão próximos da gente e por vezes tão desapercebidos, invisibilizados (por este ou aquele motivo). forte abraço!

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s