Pitomba! e Resistência Cultural

Minha primeira reação é catar numa estante o segundo volume dos Ensaios reunidos [Topbooks, 2005] de Otto Maria Carpeaux, que há tempos comprei usado no sebo Papiros do Egito. Lá está a assinatura indicando-lhe o antigo dono: Lorêdo Filho, a quem não conheço pessoalmente mas aprendi a respeitar como grande leitor, já que além da obra citada, comprei vários outros usados seus, a preços quase sempre salgados, porém, em perfeito estado de conservação.

Amigo de Moema, a proprietária do Papiros, desde meus dez ou onze anos, quando fui morar na Rua de Santaninha e seu sebo se localizava na Rua dos Afogados (hoje fica na da Cruz, depois de herdar o nome do tempo em que funcionou na do Egito), uma ida até sua loja nunca é apenas o vasculhar de algum título e/ou sua compra: é sempre uma visita, quase sempre com longas conversas sobre os mais variados temas – das últimas vezes conversamos bastante sobre os usos úteis do facebook e ela, blogueira “novata”, contava-me de sua vontade de recontar a história de Pinheiro, sua cidade natal, sobre o que tem lido bastante e publicado, vez por outra.

Nessas visitas, sempre vi a indefectível assinatura de Lorêdo, acompanhada da data, nos livros usados que ele ali deixava – ou ainda deixa? – para que Moema os revenda. Minha curiosidade era despertada sobretudo pelo fato de os livros serem novíssimos, o que me fazia deduzir que ele, grande leitor, repito, não sofria do “acervismo” que me acomete – e agora olho para pilhas de livros, jornais e revistas espalhados no quarto enquanto escrevo, a ansiedade de minha esposa para que eu dê-lhes logo o destino e a plena arrumação do cômodo que chamo pretensiosamente de biblioteca.

Moema me dizia também que Lorêdo abriria uma livraria, o que me entusiasmava, já que São Luís padece da quase inexistência desses espaços – e não vi ninguém chorar o fechamento (espero que temporário) da Athenas. Alô, Arteiro! Caso tu leias isso, dá um alô que eu tou querendo falar contigo. Mas estou, como diria Luiz Gonzaga quando achava de contar causos em shows, entre as músicas, levando vocês na conversa. Soube, da pior maneira possível, que a livraria de Lorêdo, a Resistência Cultural, já está aberta e funcionando: num texto dele sobre a revista Pitomba!.

Embora se justifique, afirmando de cara que não defende um retorno a práticas medievais – de tortura, inclusive – Lorêdo evoca um “ordonnance” (decreto) de Carlos VI, rei da França, para comentar a revista Pitomba!, em que deu “uma breve folheada”.

Católico fervoroso, Lorêdo julga o todo pela parte e, a seu ver, a revista editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha é simplesmente torpe, execrável, repugnante e depravada – para usar adjetivos colhidos ao longo de seu texto. O livreiro-editor, ao se reportar apenas aos quadrinhos Cuidado! Jesus vai voltar, esquece o trabalho de todos os envolvidos – ops! – na feitura do segundo número da publicação: as fotografias de Marilia de Laroche, os textos de Celso Borges e Flávio Reis, os poemas de Dyl Pires, os quadrinhos de Bruno Azevêdo, as traduções de Reuben da Cunha Rocha – o Sensacionalista certamente não hesitaria em dizer que os editores da Pitomba! temem a excomunhão.

A ação do trio Pitomba! despertou a ira – sei que é pecado capital, mas na falta de palavra melhor – de Lorêdo, que chega a sugerir que um conhecido mostre a revista ao arcebispo de São Luís, D. José Belisário, que a meu ver tem mais com o que se ocupar.

A reação de Lorêdo foi a pior possível: uma reação reacionária, com o perdão do trocadilho infame, com argumentos vazios – qual teria, aliás, sido sua reação se, em vez de com o catolicismo, o autor dos quadrinhos e os editores tivessem feito piada com, por exemplo, a umbanda ou o budismo? Desqualificar a revista, pura e simplesmente, não a mantendo nas prateleiras de sua livraria é agir como algumas igrejas: não ouvir música e/ou não ler literatura “do mundo”, como eles dizem, é apenas garantir um nicho de mercado.

Sou católico, vou à missa uma vez por semana e creio mesmo que meu trabalho ajude – ou tente ajudar – a construir mundo e sociedade mais justos, um dos propósitos, aliás, de Nosso Senhor Jesus Cristo, com quem nem de longe quero me comparar, mas cujos ensinamentos procuro seguir.

Como leio Cuidado! Jesus vai voltar? Como uma piada, livre de patrulhamentos, quiçá uma crítica à fé cega que permite que o povo “se deixe enganar por falsos líderes”, contrariando a letra de Zé Geraldo. Talvez a piada-crítica seja direta demais – algo a que não estamos (tão) acostumados – e choque. Nada que ainda assuste a quem já tenha assistido a um episódio de South Park, por exempo.

O tiro de Lorêdo vai terminar saindo pela culatra: seja pelo título equivocado de seu post, Pitomba neles! – afinal de contas, ele ‘tá vendendo a revista ou queimando-a em praça pública? – seja pela reprodução das três páginas da revista ocupadas pelos quadrinhos de Rafael Rosa, a mente criativa de Cuidado! Jesus vai voltar.

Lorêdo erra ainda ao dizer que o trio de editores quer apenas “lavar a burra”, sinônimo de “encher os bolsos”: quem ganha alguma coisa vendando 500 exemplares de Pitomba!? Prazer e sensação de missão cumprida são as moedas de seus salários. Ao menos em uma coisa Lorêdo acerta: quando afirma que eles “bem ou mal, estão criando numa terra onde as ideias em geral jamais vicejam” (aqui em grafia já atualizada de acordo com o novo acordo ortográfico).

Assim, resta-nos desejar vida longa à Pitomba! e à livraria-editora Resistência Cultural, de preferência com Pitomba!s em suas prateleiras.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

39 comentários em “Pitomba! e Resistência Cultural”

  1. Prezado sr. Zema Ribeiro,
    Antes de mais, obrigado por se ocupar com meu texto.
    Amanhã tentarei, dentro do possível, refutar item por item do que escreveu a respeito do meu texto.
    Só queria deixar claros dois pontos:
    I – Quando usei a expressão “lavar a burra”, de forma alguma quis insinuar uma cupidez por dinheiro da parte dos editores da Pitomba. Como deixei claro, usei a expressão “lavar a burra” tal como a usou o meu amigo Ângelo Monteiro, em seu livro “Tratado sobre a lavação da burra”, no qual tece numerosas críticas ao “jeitinho” brasileiro de ser superficial, gratuito e leviano;

    II – A meu ver, sua ponderação no sentido de que os quadrinhos “Cuidado! Jesus vai voltar!” poderiam ser vistos “Como uma piada, livre de patrulhamentos, quiçá uma crítica à fé cega que permite que o povo ‘se deixe enganar por falsos líderes'” não tem cabimento. Se assim fosse, por que não ter como objeto dos quadrinhos figuras de hoje e de ontem, membros do clero, e não só da católica, notoriamente corruptas e hipócritas? Mas, não. Preferiram alimentar sua virulência e leviandade se ocupando do próprio Cristo, que é sagrado e intocável e cuja dignidade, mesmo para os não-crentes, é historicamente comprovada (II – Não usar o nome de Deus em vão; VIII – Não levantar falsos testemunhos). A sátira não pode prescindir da veracidade dos fatos, sob pena de se transformar em mera piadinha de mau-gosto. E foi o que aconteceu.

    Bem, é isso. Como lhe adiantei acima, tentarei amanhã refutar ponto por ponto o que o senhor escreveu. Tenho certeza que nossas divergências não atrapalharão a possibilidade de uma amizade sincera. O seu texto me deixou impressão de grande honestidade intelectual e desejo sincero de esclarecer. Obrigado pela atenção. Boa noite.
    Cordialmente,

    José Lorêdo de Souza Filho

  2. lorêdo, não vou alongar a polêmica. dei minha opinião sobre o assunto e considero-o encerrado. mas fique à vontade para refutar ou tentar refutar o que quer que seja. sei irá fazê-lo com o devido respeito. repito minha admiração por ti como grande leitor e hora dessas apareço para conhecer a resistência cultural. abraço! (trouxe teu comentário para o post, lugar mais adequado para ele).

  3. Essa polêmica me fez lembrar do trecho do filme “Malditos Cartunistas”, no qual o trio de cartunistas foi interrogado pelo tom ‘pornográfico e de mau gosto’ das charges, cartuns e quadrinhos publicados em jornal do Rio Grande do Sul.

    Discussão torpe e boba.

    1. era, na verdade, a revista ‘dum dum’, editada por adão e outros, e o lance é que ela havia sido financiada (papel) pela prefeitura. mas nem de longe defendo a discussão torpe e boba gerada à época. ri um bocado das cenas no filme. abraço!

  4. Além do mais, é óbvio que o objeto da piada não é propriamente a pessoa de Jesus, mas O DISCURSO DA VOLTA de Jesus, sustentado pelas religiões ditas cristãs para atrair/converter fiéis.

  5. Prezado Zema, quero antes de tudo dizer que não o conheço, não sou leitor do seu blog e só vim a ele hoje por conta da gravidade do assunto abordado. Tenho que lhe confessar que costumo desconfiar de quem solta um “vou à missa uma vez por semana” imediatamente após se anunciar católico. Ao longo do tempo, percebi que muitos dos que falam assim consideram que ir à missa semanalmente seja o suficiente para cumprir nossos deveres como seguidores de Jesus Cristo, filho de Deus, que veio ao mundo, morreu e ressuscitou por nós.

    Está entre nossas obrigações condenar quem difama e injuria o nome do Senhor, da Virgem Maria e os santos da Igreja de Pedro, a Igreja de Cristo. Acho correta a atitude de José Loredo Filho por isso. Aliás, você não conseguiu refutar absolutamente nada do que o sr Loredo escreveu. Mas não quero dizer porque acho isso.

    Venho aqui somente pedir a você que aceite realmente Nosso Salvador na sua vida e não venha mais defender, dando status de inteligência ou sagacidade a quem difama infantilmente Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles só merecem nossa reprovação e nossa pena por permitirem que blasfêmia desta seja publicada. Nada mais.

    1. francisco, não disse que ir à missa semanalmente encerra as obrigações de católico; tanto que cito crer que meu trabalho, como jornalista mesmo, segue os ensinamentos de cristo, em quem acredito e a quem, há muito, já aceitei (não preciso ser novamente convertido). eu não preciso dar status de inteligência, sagacidade ou o que quer que seja aos editores da pitomba!: bruno azevêdo, celso borges e reuben da cunha rocha (este último atualmente morando em sp) são três dos melhores e mais produtivos cérebros do maranhão. abraço!

  6. O maranhense, ludovicense, mesmo os mais esclarecidos nao estao preparados pra ler, ver ou ouvir os “escritores da terra” ou “artistas da terra”, somos todos minhocas que vivem afundadas na terra e apenas de quando em vez saimos a superficie para respirar.Essa mania de separar os escritores e artistas em da terra ou de fora ja mostra exatamente o naipe provinciano. Estou com a revista Pitomba em maos e sinceramente achei genial, desde a capa ate a capa da parte de tras, com aquele texto de extrema lucidez do nosso poeta Celso Borges. Sou catolica, vou a missa uma vez por semana, fiz a crisma e me faltam apenas dois sacramentos(casar e morrer-extrema uncao) ja que nao vou me ordenar pra algum cargo da Igreja Catolica, mas os quadrinhos nao me incomodaram, nao me causaram repulsa, pois entendi essa piada sem patrulhamento e mais, uma critica nao ao Cristo em si, mas da instituicao que ele carrega consigo que eh formada por seres humanos comuns e que ja errou e continua errando muitissimo.Visto o comeco do texto do Resistencia Cultural que mostra com clareza leis severas, desnecessarias e MEDIEVAIS. Nunca podemos esquecer do que foi a Igreja Catolica Medieval e todas as injusticas que cometeu.
    O grande problema eh que aqui em Sao Luis se sai apenas pra observar o erro alheio, nunca acreditamos que alguem sem ser nos, faremos um bom trabalho. A Pitomba num panorama geral eh genial, principalmente tendo em vista a capacidade de FAZER nessa cidade feudal onde se encontra dificuldade e desculpa para quase tudo e quase sempre pq a politica do estado nao deixa. Me senti incomodada sim, ao saber que ainda hoje alguem fale que quem “blasfeme” pode ter o labio queimado ou a lingua cortada.Cruzes!E os que blasfemam mesmo enaltecendo o Cristo mas na verdade quer eh se dar bem e encher o bolso de dinheiro enganando fieis?Isso pode?
    Vida longa a Pitomba!Quero todas as ouras edicoes!

    1. tássia, lorêdo se contradiz ao evocar o decreto e dizer que não defende o retorno à práticas medievais. e a pitomba! é genial, sim. há ali um trabalho sério, de gente competente. eu já tou ansioso pela terceira, a sair em dezembro, se tudo correr bem. abração!

  7. Concordo com o Zema Ribeiro quando diz que Dom Belisário tem mais o que fazer. A Igreja não quer alimentar estas polêmicas que não levam a nada. Se a Igreja for ocupar-se em refutar todas as manifestações negativas que se façam à pessoa de Jesus Cristo, ela não fará mais nada, porque, nos dia de hoje, o achincalhe a Cristo ( inteligente ou não, sagaz ou não, em referência a Igreja Católica ou a outra denominação cristã) é uma constante em todo lugar e em toda hora. A Igreja tem mais o que fazer, tem a sua ação pastoral e social que é muito mais importante que rebater quadrinhos que, provavelmente, a maioria dos católicos nem tomarão conhecimento.Sou o seminarista citado no texto do Loredo, que conheço de vista, e de trocar bom dia, no sebo Papiros do Egito, da minha amiga de muitos anos Dra. Moema ( amiga de minha família e de meu avô, seu colega de profissão farmacêutica e de magistério na UFMA). Não concordo também com o texto que cita ao tal decreto do rei francês que é fora de lugar, anacrônico e qe não reflete o pensamento da Igreja.

    1. joão dias: tu cita uma coisa fundamental: a ação pastoral e social da igreja, onde meu trabalho se insere (o que venho citando há um tempinho, seja em meu texto, seja nas respostas a alguns comentários). abração!

  8. Não concordo também com o texto que cita ao tal decreto do rei francês que é fora de lugar, anacrônico e qe não reflete o pensamento da Igreja. A frase acima ficou truncada o correto é:Não concordo, também, com o texto que cita o tal decreto do rei francês que é fora de lugar, anacrônico e que não reflete o pensamento da Igreja.

  9. Muito barulho por nada, principalmente vindo de alguém que cita uma frase de Benito Mussolini no campo “quem sou eu” da sua página no Facebook. E outra: apesar do traço bonito, o quadrinho é ruim.

  10. Tô em Sampa tentando ganhar a vida (e até que tô me saindo bem). Fim de ano planejo dar uma passada na ilha e tomar umas cervejas na Praia Grande! Te aviso!

    Abração!

  11. Zema,

    Mais uma vez tu estas de parabéns pelo texto em defesa da ARTE. Vida longa á Pitomba.Que mais escritores possam seguir o exemplo.
    Abraços fraternos.

    Aline.

  12. Olá! A pior coisa que poderia acontecer seria não haver a Pitomba. Mas como ela existe e continuará a existir me parece que temos uma chance. Quero dizer que os meus amigos pensantes, e só por isso gêniais, continuarão a fazer sempre o que há de melhor, pois, é deles – e faço minha também – a iniciativa de liberdade de que tanto precisamos na ilha do atraso. Quanto aos quadrinhos: adorei o humor refinado e cortante. Pitomba tem poesia fascinante, fotografia de qualidade e textos reflexivos. Aos pobres de Espirito que não alcançam a ARTE aguardem: Jesus Vai Voltar!

    Edu Cordeiro
    Paulistano à dois anos na Ilha.

  13. como disse tom zé há uns anos no encarte-manifesto de “com defeito de fabricação”: pensar é perigoso! viva a pitomba!! (disponibilizei os dois números para download posts acima). abraço!

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