Mercadoença

Mais uma da máquina de moer gente que é o mundo cada vez mais capitalista (apesar das crises, cujos mais fodidos é que sempre pagam a conta) e cada vez mais selvagem: um interessante artigo de Martha Rosenberg traduzido por Daniela Frabasile revela os bastidores da indústria farmacêutica para fabricar e vender remédios. Ou, melhor dizendo: fabricar doenças e vender remédios.

Sou o tipo do cara que só consulta médicos em última instância e, não fosse a insistência de minha esposa, provavelmente sequer teria plano de saúde. Ignorância? Não sei. O ideal era termos um sistema de saúde público que funcionasse e garantisse atendimento rápido a qualquer um que dele precisasse. Como estamos bem longe disso, melhor garantir, apesar do SUS ser, do ponto de vista da garantia do direito à saúde, um dos sistemas mais avançados do mundo (não do ponto de vista técnico, obviamente).

O que quero dizer com isso? Duas coisas: que pago plano de saúde para não usar, por falta de necessidade ou de vontade: resolvo não frequentes dores de cabeça com dorflex ou neosaldina, compradas em qualquer farmácia ou boteco, embora não recomende aos poucos mas fieis leitores tentarem repetir isso em casa; e que acredito muito que a grande maioria dos problemas de saúde, digamos, mais simples, tem origem psicológica: você está doente, mas acredita que está mais doente do que realmente está e a tendência é piorar; como se parte da cura se devesse à crença de que você é mais forte que o mal que te aflige ou que você acha que te aflige. Placebo?

Sei que meto o bedelho bem fora da minha seara, mas fiquei perturbado com o artigo citado no início deste blá blá blá. Imaginemos uma conversa entre amigos: “o quê? Você não sofre disso? Que demodê!”. “Ah, mas eu sofro daquilo, que me causa isso, isso e isso”. Doença enquanto sinônimo de moda, sacam? Preocupante? Demais! Há gente para sucumbir à mídia farmacêutica, como há quem compre carros, roupas, comida e mesmo livros, discos e jornais apenas por que a propaganda lhes ordena.

“Como a indústria farmacêutica conseguiu que um terço da população dos Estados Unidos tome antidepressivos, estatinas, e estimulantes? Vendendo doenças como depressão, colesterol alto e refluxo gastrointestinal. Marketing impulsionado pela oferta, também conhecido como “existe um medicamento – precisa-se de uma doença e de pacientes”. Não apenas povoa a sociedade de hipocondríacos viciados em remédios, mas desvia os laboratórios do que deveria ser seu pepel essencial: desenvolver remédios reais para problemas médicos reais”, diz o primeiro parágrafo do artigo, cuja íntegra pode ser lida no Outras Palavras.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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