O lixo é nosso!

[Vias de Fato nº. 34, julho/2012]

Cesar Teixeira e banda apresentam Shopping Brazil, show que leva nome do único disco do compositor, lançado em 2004. Espetáculo acontece 3 de agosto, no Trapiche (Ponta d’Areia)

Em abril de 2004, no dia em que o compositor presenteou-me com seu disco autografado

POR ZEMA RIBEIRO

Em 2004 Cesar Teixeira já contava mais de 30 anos de carreira, se considerarmos suas primeiras participações em festivais de música ou em salões de artes plásticas, datadas ainda do fim da década de 1960, com bons resultados em ambas as categorias. Ou mais de 25 anos, se levarmos em conta seus primeiros registros em disco, as músicas Boi da Lua, Flor do Mal e a faixa título do antológico Bandeira de Aço, lançado por Papete em 1978, pela gravadora Marcus Pereira, que trazia também composições de Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe – não por acaso a expressão “Compositores do Maranhão” aparecia na capa do vinil sob o nome do intérprete de Bacabal.

Naquele ano – 2004 – Cesar Teixeira lançaria Shopping Brazil, seu disco de estreia – e até aqui seu único gravado. Aos admiradores do compositor nascido no Beco das Minas, coração da Madre Deus, berço de bambas e palco de velha guarda boêmia da capital maranhense, pode ter soado estranho o título do trabalho: ele, tão brasileiro, tão maranhense, estampava a miséria com s de um Brazil com z, batizando o disco com o nome de um templo do consumo e da diversão fácil. O autor prefere as feiras e mercados.

Cesar Teixeira não é artista de obviedades. “Um artista de quitanda/ faz um samba no balcão/ Cesar é vida, César é arte/ Cesar é pura emoção!”, dizia eu na letra de um samba enredo com três títulos, tentativa de abarcar vida e obra do homenageado para o concurso da Favela do Samba que o homenagearia nalgum carnaval, de onde fomos, eu e Gildomar Marinho, autor da melodia, desclassificados na primeira eliminatória. Hino Latino (Oração Favelense) (A Cesar o que é de Cesar) tentava traçar uma espécie de “linha do tempo”, para usar o jargão do Facebook em que o autor de Oração Latina não tem perfil, de seu nascimento até a gravação de Shopping Brazil.

“A minha dor é artista” – Se o título soava estranho é por que precisaríamos desvendá-lo, conhecer melhor artista e sua obra, até ali gravada por diversos outros nomes da música brasileira, entre os quais cabe destacar Alcione, Célia Maria, Chico Maranhão, Chico Saldanha, Cláudio Lima, Cláudio Pinheiro, Cláudio Valente, Dércio Marques, Fátima Passarinho, Flávia Bittencourt, Grupo Fuzarca, Gabriel Melônio, Gerô, Lena Machado, Papete, Rita Ribeiro [hoje Rita  Beneditto] e Rosa Reis, para citar apenas alguns. Não que Cesar Teixeira seja um artista hermético, muito pelo contrário. Mas à época pegar o disco – hoje esgotado – e ler na capa o nome do artista, seu título e ver uma garotinha palafitada segurando uma boneca já nos obrigava a pensar. Na contracapa, uma foto de Márcio Vasconcelos (que assina as fotografias e o projeto gráfico do disco) captava Cesar Teixeira e Faustina, a mona lisa da Praia Grande, como ele batizou-a em samba inédito, entre botas de policiais, numa clara alusão à ditadura militar que tentou persegui-lo – o compositor chegou a ditar outra letra para Bandeira de Aço a um delegado de plantão em um departamento de censura da Polícia Federal; no outro dia, em um show no Teatro Arthur Azevedo, a letra cantada foi a mesma composta, o clássico que conhecemos hoje. A quem interessar possa, a fotografia da contracapa de Shopping Brazil foi publicada no primeiro número da revista Pitomba!, acompanhada da letra de Faustina, Mona Lisa da Praia Grande.

“Ninguém vai ser torturado com vontade de lutar” – “Eu já nasci sem gravata”, canta Cesar na faixa título, que abre seu disco. No texto-manifesto O lixo é nosso!, no encarte, ele dá uma geral no conceito do trabalho, demonstrando mais uma vez o seu compromisso com os direitos humanos, já conhecido dos que conheciam seu trabalho jornalístico e/ou músicas suas gravadas anteriormente, sobretudo Oração Latina, hino de resistência à ditadura militar, originalmente escrita para uma peça de teatro em 1982 e defendida três anos depois por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, em que levou o troféu de melhor música do Festival Viva Maranhão de Música Popular. Hoje em dia não há, no Maranhão, ato de trabalhadores e movimentos sociais em que não seja cantada.

Sua atividade jornalística merece detida atenção: formado pela UFMA em 1984, foi editor de Cultura de O Imparcial entre 1986 e 88, assessor de comunicação da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) entre 1989 e 2002, ano em que integrou a equipe que fundou o Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, então encartado quinzenalmente no Jornal Pequeno, onde escrevia sobre música, cultura popular, teatro e artes plásticas. Uma série de matérias sobre Zé Igarapé, cantador do Boi da Madre Deus, rendeu-lhe prêmio da Fundação Municipal de Cultura; outra, sobre Cristóvão Alô Brasil, outro compositor madredivino, seria compilada e reproduzida anos depois por este Vias de Fato, de que figura como um dos fundadores em 2009.

“Mamãe eu tou com uma vontade louca de ver o dia sair pela boca” – Em meados do ano passado, Cesar Teixeira apresentou, sob a lona do Circo Cultural Nelson Brito, o Circo da Cidade, o show Bandeira de Aço, sucesso de público e crítica. Rara oportunidade de vê-lo em ação fora dos períodos carnavalesco e junino, em que o repertório fica restrito às festividades. Para um artista de raras aparições públicas e com apenas um disco gravado, uma chance do público ver e ouvir, mais que sambas, marchinhas e toadas, toda sua versatilidade, para além da já registrada em Shopping Brazil, que trazia a linguagem do hip-hop, choro, samba, coco, boi de zabumba, xote, baião e até mesmo ladainha cantada em latim, além das participações dos hoje saudosos Antonio Vieira e Dona Teté.

“Meto a mão no bolso e o troco não dá pra embriagar” – A dose será repetida. Cesar Teixeira apresenta Shopping Brazil, o show, 3 de agosto, às 22h, no Trapiche (Ponta d’Areia). No repertório músicas do disco que empresta o título ao show, sucessos da carreira e inéditas. Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes com carteira) e o público pode doar lixo reciclável, que será vendido e a renda revertida em favor das crianças atendidas pelo Centro Beneficente da Paróquia Nossa Senhora da Glória.

“Zema, enfim o lixo vira música”, avisa o autógrafo irreverente em meu exemplar do disco. Se é do “imenso Shopping Brazil” (de novo meu samba enredo desclassificado) que parte da população brasileira tira sua diversão, moda e alimentação, o disco e o show são pirões musicais de farta sustança. Para consumir in natura e reciclar a alma. Divirta-se!

Shopping Brazil tem patrocínio do Banco da Amazônia (BASA) e apoio da Fundação Municipal de Cultura (FUNC), Serviço Social do Comércio (SESC) e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH).

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

2 comentários em “O lixo é nosso!”

  1. cesar teixeira já era pra ti, pena. vais ver o rubens salles no teatro da cidade (antigo cine roxy), dia 4; 7 tem jussara silveira no arthur azevedo; e 14, tulipa ruiz, idem. abração!

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