Brevíssimo panorama cultural da capital no período eleitoral

Já não há circo, mas os palhaços continuam por aí…

São Luís é uma Ilha. Não sai do lugar. No entanto, parece andar em círculos. Como se quisesse evitar que a cabeça da serpente lhe toque o rabo. Autoridades anunciam e iniciam obras como se estas fossem, num passe de mágica, melhorar a vida da população, tudo a toque de caixa – e não falo aqui do Divino ou do cacuriá –, sem a participação popular. O povo só participa na hora do voto, e olhe lá!

O mais novo anúncio é o de construção de um veículo leve sobre trilhos, que deverá resolver – ou amenizar – os problemas do trânsito, carregando passageiros do São Cristóvão até o Centro da cidade, ao menos em uma etapa inicial. Resolver, ou ao menos tentar, o problema do trânsito, nada mal. O problema é começar justamente desalojando um palco privilegiado, referência na cena cultural ludovicense.

O Circo Cultural Nelson Brito, popularmente conhecido por Circo da Cidade, deixará o Aterro do Bacanga para dar lugar a uma estação do VLT. Futuramente o equipamento cultural será reinstalado na área entre o antigo Espaço Cultural e a Praça Maria Aragão, nas imediações da Avenida Beira Mar. Se o Brasil é mesmo o país da piada pronta, conforme achincalha o colunista, que dizer destas plagas? Resolver um problema de trânsito criando outro, já que grande parte das vagas de estacionamento que passarão a servir os três espaços será ocupada pelo último. Isto é, quando hastearem a lona do Circo, sem data de previsão.

Os contentes dirão que choro de barriga cheia, que a municipalidade pode “matar” o Circo, afinal de contas “ressuscitou” o Cine Roxy, agora Cine Teatro Cidade de São Luís. Falta algo ao “milagre”: um equipamento cultural sem programação, uso e circulação de pessoas nada mais é que um prédio. E isso o Roxy já era antes de adquirido e reformado pela Prefeitura da capital maranhense.

São Luís carece de palcos, formação e sensibilização de plateias para uma cena que tem se virado para fazer (e) acontecer, quase completamente sem apoio dos poderes públicos e da iniciativa privada.

Atualmente dois bons exemplos têm movimentado esta cena. O primeiro, o BR-135, capitaneado por Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, espaço que tem mostrado o que há de novo em música e mais, integrado artistas de diversos gêneros e expressões (música, poesia, teatro, artes plásticas etc.). O segundo, o Papoético, debate-papo semanal articulado pelo jornalista e poeta Paulo Melo Sousa, que tem botado na roda os mais variados temas relacionados à arte e cultura, além de produzir shows e realizar festivais – depois de realizado um de poesia, um concurso de fotopoesia que tem como tema o Centro Histórico de São Luís está com edital aberto.

Não são os únicos acontecimentos, mas suas feituras, na raça, na cara e na coragem, merecem destaque pelo alcance e repercussão, por mostrar que é possível fazer algo se movendo pela simples vontade de ver esse algo acontecendo, de dar a cara para bater, mostrando que isso é melhor que ficar pelos cantos se lamuriando ou pelas repartições correndo o pires em busca de migalhas.

A estas iniciativas é preciso que se somem outras. Estas e outras carecem do incentivo do Estado e da iniciativa privada, em relações republicanas e transparentes e não na manutenção do clientelismo e da obscura política de favores.

A cultura precisa ser cada vez mais entendida como um importante elemento de desenvolvimento, gerador de emprego e renda. Em época de campanha eleitoral precisa ser mais debatida – mas não apenas nesse período. No controverso aniversário de 400 anos de São Luís é preciso potencializar a vocação cultural de nossa capital. E isto não se faz passando trilhos por sobre uma casa de espetáculos.

*

Textinho que escrevi a pedido, às pressas, em julho passado, um pouco antes da reunião da SBPC em São Luís. Deveria ter integrado uma revista do Observatório Cultural da UFMA (não tenho certeza se é este o nome). A revista não saiu (ou saiu e eu não vi?), então resolvi pendurá-lo aqui. Já passaram os shows pelos 400 anos de São Luís. Logo, logo, passadas as eleições, o VLT vira uma realidade ou não. O tapume e a placa do “novo” Circo Cultural Nelson Brito já estão dispostos ao lado do Espaço Cultural, onde o mesmo será (?) instalado. O cirquinho vai ficar espremidinho, grande por aqui só mesmo a palhaçada.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

6 comentários em “Brevíssimo panorama cultural da capital no período eleitoral”

  1. Uma curiosidade: se os dois espaços para eventos vão ficar tão coladinhos significa que quando um for usado o outro não poderá sê-lo. Sim, porque com 105 decibéis de cada lado, como costumam ser os espetáculos por aqui… Ou será que a partir de então o som será mantido baixinho para não interferir no vizinho?

    1. com certeza as agendas da maria aragão e do espaço cultural interferirão na do circo, isto é, de nada adianta três equipamentos culturais colados um ao outro se não puderem ser, quando necessário, usados simultaneamente. a informação do fechamento da escola municipal de música eu não tinha, soube por teu facebook. e me espantei: joaquim santos não é(ra) seu diretor? e ele ainda assina manifesto de “artistas” e “intelectuais” em apoio a castelo? abração!

  2. é tanto desassossego, tanta arte desabada no chão
    vamos esbravejar, a luta não pode ser em vão
    é circo sumindo no ar, pro trem da alegria passar
    cheinho de passividade, parece até almaria no mar
    mas não se engane meu povo, tem leão em pele de cordeiro
    ou tu usa o teu poder, ou vai se danar por inteiro!

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