Entre o riso e a desgraça

Parasita. Cartaz. Reprodução
Parasita. Cartaz. Reprodução

 

Merecidamente o sul-coreano Parasita [Coreia do Sul, 2019, 132 minutos; em cartaz no Cine Lume] figurou em diversas listas de melhores filmes de 2019, uma quase unanimidade ao lado de títulos como Bacurau e Coringa.

A tríade guarda semelhanças: abordam, de maneiras particulares, certa convulsão social, a partir de seus países de origem, mas dando um panorama do mundo, entre a ascensão de governos de extrema-direita e conflitos bélicos.

Parasita. Frame. Reprodução
Parasita. Frame. Reprodução

O filme de Bong Joon-ho é, ao mesmo tempo, comédia, drama e suspense, com suas reviravoltas. Conta a história da família Ki-taek, pobres moradores do subúrbio, que vivem numa casa insalubre, sem trabalhar – roubam o sinal de wi-fi de vizinhos e sofrem com uma inundação. “Eu preferia que fosse comida”, diz a filha em reação a uma pedra trazida de presente por um amigo, com a desculpa de ser um amuleto.

A trama se desenrola a partir de o filho Kim ir dar aulas particulares de inglês à bem nascida herdeira dos Park. A partir daí, em uma sequência surpreendente no roteiro bem urdido, eles começam a se infiltrar na mansão, dando um jeito de forçar demissões de antigos empregados, usando métodos nada convencionais.

Seria mero moralismo barato, no entanto, tachá-los simplesmente de charlatões. É, em certa medida, também, um microcosmo social vingando-se do sistema, do fosso social entre milionários e miseráveis (que no Brasil só aumenta).

Com sua bela fotografia e atuações firmes, Parasita, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, nos coloca diante de dilemas como o limite da dignidade, da paciência, do senso de humor e da tolerância humanos. Seria desnecessário dizer, mas num tempo em que ironias precisam ser anunciadas e piadas explicadas, não é que se ache legítimo o uso da violência ou da vingança, mas a ficção aponta a possibilidade de um colapso. Exatamente como em Bacurau e Coringa, também criticados por isso, aqui e acolá.

Sobram críticas ao vira-latismo em voga (muito comum no Brasil também) entre os que acham que tudo o que é produzido nos Estados Unidos é bom e merece ser copiado. A senhora Park diz algumas vezes ao longo do filme que este ou aquele objeto é bom por que foi importado de lá.

Como seus citados pares de temporada, Parasita é um filme que além de todas as qualidades, gêneros e temas que se propõe a discutir, transita com desenvoltura entre o blockbuster e o filme de arte. Difícil de classificar, mas não de entender, refletir ou simplesmente apreciar, ao menos àqueles que ainda se permitem a isso ou aquilo.

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Veja o trailer:

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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