Sérgio Sant’Anna (1941-2020)

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

 

Os últimos contos que Sérgio Sant’Anna (30/10/1941-10/5/2020) publicou em vida, Das memórias de uma trave de futebol em 1955, no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo em 26 de abril passado, e A dama de branco, em 1º. de maio, na revista Época, atestavam que o peso dos anos não lhe afetou a qualidade da obra. O par de contos podia figurar em qualquer de seus livros mais recentes, Anjo noturno: narrativas (2017), O conto zero e outras histórias (2016) e O homem-mulher (2014) todos publicados pela Companhia das Letras.

O escritor faleceu nesta madrugada, vítima do coronavírus. Era merecidamente considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade, com sua prosa elegante entre o conto e o romance, povoada de tipos urbanos, violência, sexo e em diálogo permanente com outras linguagens, como a música, as artes visuais e o cinema, arte a que teve adaptadas algumas de suas obras, com destaque para Um crime delicado (Companhia das Letras, 1997), que ganhou a tela grande pelas mãos do diretor Beto Brant em 2005.

O declínio do Rio de Janeiro (e do Brasil) também estava entre seus temas prediletos. Lembrava com solenidade os bares de paredes espelhadas que podiam se tornar o paraíso de quem queria flertar ou o inferno de um cônjuge eventualmente acusado de algo que sequer estava fazendo. Também as apostas no turfe, frequentado por homens elegantemente vestidos, como se, justamente, para figurar em sua prosa, além do futebol, sobretudo os jogos e treinos do Fluminense, seu time do coração, que nos legou obras-primas como Páginas sem glória (Companhia das Letras, 2012).

Quando descobri seu perfil no facebook, a princípio desconfiei, como daquele lendário perfil de João Gilberto entrevistado pela revista Trip – um dos livros mais festejados de Sant’Anna é justamente O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982). Perderia Sérgio Sant’Anna tempo em redes sociais, sempre burilando um próximo conto genial com que nos deleitaríamos quando do lançamento de uma próxima coletânea? Sim, e mesmo fora da página no livro, o capricho de sempre com as letras: escrever confundia-se com sua própria vida, entre o ganha-pão, a diversão e o descanso.

Era um ardoroso combatente do bolsonarismo e de toda a desumanidade impregnada e exalada pelo regime neofascista tupiniquim. Na rede social chegou a escrever que “o Brasil é um filme de terror”, entre suas manifestações diárias de preocupação com os rumos do país, desgovernado por gente que nunca leu uma linha escrita por ele e tampouco dirá qualquer coisa sobre seu falecimento, aos 78 anos, com um legado monumental.

Pela rede social também, anunciou a suspeita de ter contraído a covid-19, o que viria a se confirmar com sua internação. “Hoje pra mim foi barra, tive vários sintomas e achei que estava com o vírus. Mas meu clínico veio aqui e me receitou antibióticos. Estamos vivendo no fio da navalha”, manifestou-se em 28 de abril.

Atencioso, um pouco antes, me respondera um e-mail, negando um pedido de entrevista que lhe fiz. A ideia era que ele falasse ao Radioletra sobre o conto recém-publicado na Folha. “Agradeço o convite, mas estou com problemas de saúde e não posso aceitá-lo. Um abraço. Sérgio”, escreveu.

A morte era também uma das obsessões do escritor. Como lembra este parágrafo de “Lencinhos”, conto de O homem-mulher, um de meus prediletos, entre tantos: ““Vou contar uma coisa para vocês”, eu disse. “Às vezes imagino que renasço numa vida futura e encontro meu pai já falecido e outros amigos mortos e todos nos regozijamos, e é como se não houvesse passado tempo nenhum desta vida para a outra.””. No facebook escreveu, em 23 de abril: “A gente morre, mas se diverte”.

Mas sua obsessão mesmo era escrever e reinventar-se. Como revelou ao jornalista Alvaro Costa e Silva em um perfil publicado no jornal Cândido, publicação mensal da Biblioteca Pública do Paraná: “A cada nova obra, procuro fazer alguma coisa diferente. Do contrário, perderia a graça”. Ou como se manifestou pela rede social, também a 23 de abril: “Meus queridos e minhas queridas, não quero assustar ninguém, mas acho a peste que nos assola simplesmente aterrorizante. Não encontro outro modo de reagir se não escrevendo”.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

Uma consideração sobre “Sérgio Sant’Anna (1941-2020)”

  1. Zema, não esquece as lorotas blasfemas ditas pelo finado Sant’Anna antes de morrer…

    Inclusive Sant’Anna colocou em xeque a Justiça Divina porque Bolsonaro e alguns aliados não morreram de Coronavirus.

    Colocar em xeque a Justiça Divina é coisa de pessoa séria, Zema?

    Mas contra Bolsonaro tudo é válido para a ESQUEDALHA PSICÓTICA.

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