Gabriella Lima lança quarto single/vídeo de “Bálsamo”

A cantora e compositora Gabriella Lima em locação do videoclipe. Foto: Leonor Patrocínio

Há seis anos Gabriella Lima chegou a Paris, com a pretensão de permanecer por três meses em imersão artística. Foi ficando, após conhecer o Cabaret Aux Trois Mailletz, com quem assinou um contrato de artista residente – por lá já cantaram, entre outras, Elza Soares e Nina Simone.

A cantora e compositora paulistana acaba de lançar o single e videoclipe Máquina de ilusão (Gabriella Lima), quarto de Bálsamo, disco que tem previsão de lançamento para o início do ano que vem, com produção de Alê Siqueira.

O videoclipe, dirigido por Chico Gomes, com coreografia de Fábio Aragão, foi gravado em Lisboa. Na faixa autoral ela é acompanhada por Thiago Barromeo (guitarra e contrabaixo), André Lima (teclados) e Zé Luís Nascimento (percussão).

Ela comenta o trabalho, no material de divulgação distribuído à imprensa: “Queria abrir uma discussão sobre as desilusões amorosas, sobre o fim das relações. Mas não com uma abordagem triste. Afinal, acabar não significa que deu errado. Existe uma confusão em associar o sucesso de uma relação à durabilidade. Não importa o tempo que durou, a relação foi uma parte da nossa vida que constitui quem somos hoje. Essa aceitação evita a insistência em uma relação que não funciona mais. A ilusão de que se tentar mais um pouco, poderia funcionar. Pura ilusão”, arremata.

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Veja o videoclipe de Máquina de ilusão:

Aniversariantes do dia

Trago ao blogue este quadro do Balaio Cultural, programa que apresento aos sábados com a queridamiga Gisa Franco, na Rádio Timbira AM (1290KHz).

Fariam aniversário hoje:

Joseph Goebells (1897-1945), ministro da propaganda de Adolf Hitler na Alemanha nazista, cuja frase “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade” ajuda a compreender um pouco o atual triste estado de coisas brasileiro;

O compositor Nelson Cavaquinho. Foto: reprodução

Nelson Cavaquinho (Nelson Antônio da Silva, 1911-1986), gênio, cujos versos “o sol há de brilhar mais uma vez/ a luz há de chegar aos corações/ do mal será queimada a semente/ o amor será eterno novamente” nos ajudam a ter esperança de um país e uma sociedade melhores;

e Moa do Katendê (Romualdo Rosário da Costa, 1954-2018), capoeirista baiano, brutal e covardemente assassinado por um bolsonarista após o primeiro turno das eleições de 2018.

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Ouçam Juízo final (Nelson Cavaquinho/ Élcio Soares), com Nelson Cavaquinho:

Ouçam Badauê (Moa do Katendê), com Caetano Veloso:

Réquiem para Maria

Maria Lindoso com o neto e o bisneto. Fotos: Zema Ribeiro

Houve um tempo em que os cromos dos álbuns de figurinhas não eram autocolantes. Lembro-me que endureci um calção limpando cola dos dedos. Não lembro que idade tinha o guri que eu era, mas tinha especial apreço pelo calção azul e vermelho costurado por minha avó, Maria do Rosário Lindoso (8/12/1939-25/10/2020), com quem morei até os sete anos de idade, em Rosário/MA.

13 anos depois de Antonio Viana, meu avô, vovó faleceu, vítima de um câncer de pulmão – foi fumante por mais de 60 anos de vida. Tinha também mal de Alzheimer. Teve seis filhos, pois não fazia distinção da última, adotada: Solange (minha mãe), Sérgio, Silvio, Sara, Susalvino e Silvandira, por ordem de data de nascimento.

Perdi as contas de netos e bisnetos que deixa e, dos primeiros, ao menos a safra inicial de meia dúzia, todos íamos comprar-lhe doses de cachaça (escondidos de vovô), com que costumava se aquecer para os banhos de cuia no tanque, boca da noite. Além de dar os primeiros tragos em hollywoods, carltons, plazas, frees, derbys e que tais, atendendo à sua outra ordem: “menino, vai acender um cigarro pra mim”.

Faleceu justamente no dia do encerramento dos festejos de Nossa Senhora do Rosário, santa padroeira de sua cidade natal e que lhe batizou, ela, nascida, afinal de contas, num dia de Nossa Senhora da Conceição. Não era uma católica fervorosa, mas tinha lá seu altar particular, com umas imagens, diante das quais vez por outra acendia velas e rezava.

Tampouco era politicamente correta e divergíamos em muitos temas, diante dos quais eu geralmente calava, a fim de evitar atritos e não soar desrespeitoso. Lembro-me que no último passeio que fizemos juntos, ela reclamou por eu estar servindo o churrasco à minha companheira, e não o contrário. Dissemos qualquer coisa e tentamos acreditar que tais comentários se deviam a um abismo geracional (embora gente – parentes, inclusive – mais jovem que nós mantenha esse tipo de pensamento e postura).

Mesmo com a vida quase nunca sendo fácil, deixou valorosas lições de honestidade, em espécies de ditados que eu mesmo só ouvi de sua boca. “Homem que é homem caga na mão e come”, dizia, ensinando que problemas têm que ser enfrentados e resolvidos, não adianta ficar choramingando pelos cantos. Ou: “quem não tem, não tem raiva”, advertindo que a inveja, a cobiça e a ganância não são boas conselheiras.

Foi apresentada ao bisneto José Antonio antes de ao diploma de jornalismo, que ela nunca deixou de me cobrar. O homem formado, no fundo, nunca deixou de ser o menino de calça curta e tênis conga, como fotografado a seu lado, um dia, provavelmente o da cerimônia de formatura do ABC, no gramado em frente ao jardim de infância em que aprendi a ler – ao lado da igreja da matriz –, derrubado pela insensibilidade dos gestores públicos.

O mesmo menino que nunca esquecerá o quintal onde tanto brincou, cheio de plantas, cuidadas com extremo zelo, os pés de abacate dos quais ela me enviava os frutos, sabedora do quanto os aprecio, ou do prejuízo nos camarões frescos que me mandava descascar: o ingrediente para a torta sempre acabava em menor quantidade, pois eu já ia me pagando o trabalho com uma porcentagem do aferventado.

Bença, vó!

Chico da Ladeira (6/12/1949-24/10/2020)

[Faleceu ontem (24) em São Luís, o compositor Chico da Ladeira, em decorrência de falência múltipla dos órgãos; na singela e merecida homenagem prestada pelo Balaio Cultural, que produzo e apresento com Gisa Franco, aos sábados, na Rádio Timbira AM, citei, de memória, perfil escrito por Cesar Teixeira e publicado no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, em fevereiro de 2004, que reproduzimos a seguir]

CHICO DA LADEIRA: MEMÓRIAS DE UM EMBAIXADOR

A verdadeira história de um compositor que ajudou a Flor do Samba a conquistar vários títulos no Carnaval, posou ao lado de Garrincha para uma foto, e é capaz de fazer embaixadas com tampinhas, moedas e copos, não só para beber, mas para mostrar a todos os malabarismos que os artistas maranhenses fazem para sobreviver e serem notados.

POR CESAR TEIXEIRA*

O compositor Chico da Ladeira em janeiro passado, durante gravação no estúdio Zabumba Records. Foto: Suzana Fernandes

Na rua Antônio Rayol (antiga São João), subindo a ladeira tangente à Fonte das Pedras, o encontramos na casa nº 240, sóbrio. Fala mansa, de bermudas e sem camisa, exibe uma enorme cicatriz na barriga proeminente. “Não foi nada. Uma operação que fiz há quinze anos. Tiraram só uma úlcera do estômago, a vesícula biliar e o apêndice”.

Francisco de Assis Vieira é conhecido entre os sambistas da cidade, ratos de praia e boêmios em geral como Chico da Ladeira, apelido que recebeu da tia Dodoca. Em 1979, em parceria com Augusto Maia, compôs um samba bastante difundido como “Haja Deus” e considerado um hino daquela agremiação carnavalesca.

“Haja Deus, quanta beleza
a Flor do Samba vem mostrar.
São festejos e motivos
da cultura popular”

A popularidade de Chico, entretanto, vem do tempo da bola de seringa na praça do Mercado Central e das peladas no Portinho, na Maravalha, ao lado de Japi, Djalma, Pindura, Bacurau e Dalmir, entre outros militantes. Logo conquistaria uma vaga nos desafiados da Ponta d’Areia, sempre regados pela chuva etílica que desabava no bar de Dona Nazaré, fazendo curva com o vento.

Os craques Chico da Ladeira e Garrincha, em Imperatriz/MA. Foto: Acervo Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante

Foi várias vezes contratado para integrar seleções do interior do Estado, durante campeonatos regionais. Numa das viagens, em Imperatriz, encontrou-se com Garrincha, ex-craque do Botafogo convidado para fazer uma exibição pública, em fins dos anos 60, na inauguração do estádio Frei Epifânio d’Abadia, jogando pelo Cruzeiro, um time local.

A habilidade de Chico com a bola o levou a ser aspirante de times maranhenses como o Ferroviário e o Vitória do Mar, além do Bola Sete, de futebol de salão, na década de 70.

TESOUROS DA JUVENTUDE

Chico lembra da infância, meticuloso, como quem junta pedaços de um filme. “Toquei sino na igreja de Santana, de calça curta engomada e conga, de manhã cedo. Era só pra paquerar as meninas”. Não fez nem o primário, mas aprendeu a ler e a escrever pegando bolos de Dona Risoleta, na rua das Crioulas.

Tinha outras virtudes: era um exímio driblador de bondes e empinador de papagaios, disputando com Alvinho e Ratinho. Vez por outra, retirava das prateleiras do Lusitana e da Loja 4.400 um pouco da mais-valia, transformando gêneros juvenis de primeira necessidade em justiça social. “Eu não tinha medo de nada”.

Entre 14 e 15 anos, para garantir os ingressos do estádio Nhozinho Santos e dos cinemas Éden, Rival e Rialto (gostava de filmes de cow-boy e karatê), carregava sacolas no Mercado Central, e sacrificava dois ou três meses consertando malas de papelão na Casa Santo Antônio, rua da Paz, depois abandonava o serviço. “Era só pra comprar uma calça e uma camisa”.

Foi o futebol, inicialmente, que lhe trouxe algumas doses de vantagem na vida. Recorda que começou a beber tardiamente, aos 18 anos, e, junto com os companheiros de bola, garantia cachaça e mulher na Zona sob o patrocínio de China, pandeirista que vivia na pensão Crás, e sustentava um time amador do mesmo nome. “Lá tinha até karaokê”, acrescenta.

Chico também costumava, na praia ou no bar, exibir-se descalço, fazendo pezinho – embaixadas – com um limão, suspendendo copo e colocando na nuca uma tampinha ou moeda (oferecida por algum incrédulo), que acabava no bolso para completar a próxima cerveja.

O SAMBA NO PEITO

Chico da Ladeira em reprodução da página do Guesa Errante com o perfil escrito por Cesar Teixeira

Aos poucos ele foi deixando a bola, e, adúltero, mergulhou noutra paixão há muito cultivada: o samba. Não era para menos. A casa onde nasceu, em 6 de dezembro de 1949, e na qual vive até hoje, era um terreiro de bamba. Lá foi sede dos Fuzileiros da Fuzarca (fundado em 1936), e depois do bloco Os Lunáticos.

Por ali passaram figuras relevantes do samba maranhense, como Mascote e o náufrago de águas temperadas Cristóvão Colombo.

Chico não viu a batucada dos Fuzileiros na casa da rua São João, pois o bloco se mudou para a São Pantaleão em 1942, quando ainda não era gente, mas chegou a ser baliza de Os Lunáticos, cujos refrões mexiam sua cabeça. O bastante para arriscar-se a fazer o primeiro samba –“Topless” – para um bloco de brincadeira que criou com outros jovens:

“…que coisa louca, que coisa louca,
é tanto peito que me dá água na boca”

Tudo culpa do pai adotivo, o bicheiro Arnaldo Ewerton Vieira, e dos muitos tios, como Raimundo Ewerton de Souza (Diquinho), poeta e compositor inspirado “que faleceu cuspindo o fígado”, lembra Chico. Depois das lunáticas reuniões, os ensaios passaram a ser na casa de Dona Preta, algumas casas acima.

Com 16 anos, Chico da Ladeira apresentou-se na Rádio Gurupi, cantando uma música de Roberto Carlos, e foi premiado com um kit: tênis Ki-Chut, escova e pasta de dentes.

Seu talento como compositor, porém, só foi descoberto em 1978, quando fez “O Circo” para a Flor do Samba, convidado por Augusto Maia, que depois seria seu parceiro. O tema baseava-se no tradicional refrão circense: “Ô raia o sol, suspende a lua/Olha o palhaço no meio da rua”.

Em 1980, mudou-se temporariamente para a escola Unidos da Camboa, onde compôs “Sonhos”, junto com Zé da Conceição, parceiro predileto: “São dias zodiacais/o destino não se muda/as cartas não mentem jamais”. Com Zé, também fez um samba para a Unidos da Senzala, do município de Pinheiro. Mas logo voltaria para a Flor, e novos sucessos ajudaram a escola a vencer na passarela.

“De Saint Louis a São Luís, enfim uma só Paris”, foi o samba-enredo de 2002, com letra e música de sua autoria. Este ano anunciou “Os Sete Pecados da Capital”, em parceria com Augusto.

FORA DO ESQUEMA

Chico da Ladeira admite que sua popularidade também lhe valeu um emprego de contínuo nas Centrais Elétricas do Maranhão, de onde foi demitido após a privatização da empresa. “Eu e mais de 2 mil pessoas”. Com a grana da indenização, comprou um apartamento no Ipem-Bequimão, que lhe rende de aluguel 150 reais por mês. “Muita gente pensava que eu ia torrar em cachaça”.

A esse preconceito ele atribui o fato de não ter sido ainda apoiado pelas instituições culturais do Estado. “Os órgãos deveriam procurar mais os artistas. Fico com vergonha. Outro dia fui na Gerência de Cultura pedir ajuda pra publicar um livreto de poesia e disseram: – Aqui tu não pode subir, Fulano não deixa!”.

Seus poemas, apesar de sufocados pela precária convivência com os livros, são farpas da experiência humana acumuladas no pâncreas de quem tem que transformar sentimentos em flanelinha para enxugar a sujeira de uma sociedade conservadora. Em “Corvos e Gaviões” vomita:

“É melhor ser coveiro
do próprio cemitério
que abraçar os homens
dos três poderes
onde o mar vira inferno”

Chico, no fundo, é o mesmo moleque, aguardando a hora de driblar o destino e marcar mais um gol. Se tivesse nascido no Cantagalo, talvez ocupasse lugar de honra entre sambistas. Aqui os artistas da gema são condenados a andar de costas para a história. Por isso, quem vê o compositor descendo manhoso a ladeira que o popularizou, imagina que está subindo.

*CESAR TEIXEIRA é jornalista e compositor

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Bonus track: em janeiro o poeta e jornalista Celso Borges e o percussionista Luiz Cláudio levaram Chico da Ladeira ao Zabumba Records e registraram sua voz para um disco. Com a pandemia de covid-19 o projeto foi adiado.

Ouça uma das composições de Chico da Ladeira registradas na ocasião:

Sempre se pode sonhar. Ou: das coisas que fazem 2020 e o Brasil ainda valerem a pena

Sempre se pode sonhar. Capa. Reprodução

Chico Buarque e Paulinho da Viola tornaram cada vez mais espaçados no tempo seus lançamentos discográficos ao longo das últimas duas ou três décadas. O primeiro se divide, com igual êxito, entre os ofícios de cantor e compositor e escritor e tem lançado discos e livros muito bons – acabei recentemente de ler Essa gente (Companhia das Letras, 2019).

Paulinho da Viola, como nos mostra Meu tempo é hoje (2003), o excelente documentário de Izabel Jaguaribe – cuja trilha sonora é um ótimo disco lançado no mesmo ano –, se divide entre hobbies como a marcenaria, a sinuca, sofrer pelo Vasco da Gama, seu time do coração, e shows – com a agenda completamente afetada pela pandemia de covid-19 neste 2020.

Por falar em show, corta para uma lembrança: em 2014 vi Paulinho da Viola ao vivo, em um show prejudicado pela acústica do lugar, o finado Patrimônio Show, ali nas imediações do terminal de integração da Praia Grande. Um dia antes, ou no mesmo dia, cito de memória, compareci à coletiva de imprensa que o príncipe deu em um hotel da cidade. Indaguei-lhe sobre A obra para violão de Paulinho da Viola, disco instrumental gravado pelo maranhense João Pedro Borges (violão), nas companhias luxuosas do próprio Paulinho (violão e cavaquinho) e de César Faria (violão), pai de Paulinho, da formação original do Época de Ouro. Lançado em 1985, o vinil foi distribuído como brinde de fim de ano a clientes de uma mineradora e nunca foi reeditado. Fecha parêntese.

Mas abre outro: apesar de gozar de merecido reconhecimento, fruto da qualidade de sua obra, Paulinho da Viola é um dos mais injustiçados artistas da música popular brasileira. Quase nunca entra em listas de mais ou maiores isso ou aquilo quando se trata da sigla MPB, quase sempre rotulado como mero sambista – como se isto fosse pouco. Fecha parênteses.

Nunca havia escrito sobre um disco sem ouvi-lo e o faço para anunciar: dia 30 de outubro chega às plataformas um novo álbum de Paulinho da Viola. Sucessor do Acústico MTV (2007), Sempre se pode sonhar (2020) é um registro ao vivo, com 22 faixas gravadas no Teatro Fecap, entre 13 de setembro e 8 de outubro de 2006.

A primeira reação, ao ver a capa – mais uma de Elifas Andreato para a discografia do mestre – publicada no instagram de Paulinho da Viola foi: 2020 e o Brasil ainda valem a pena. Depois a ficha foi caindo lentamente e, apesar do Brasil e de 2020, que puta título, hein, seu Paulo César Batista de Faria?

Corta para um clichê: Paulinho da Viola completará 78 anos no próximo 12 de novembro, mas quem ganha o presente, antecipado, é o fã-clube. Fecha clichê.

Como bem cantou Caetano Veloso: “viva o Paulinho da Viola!”.

Dissecando Joãozinho

Ricarte Almeida Santos, Joãozinho Ribeiro e o blogueiro, em alguma edição do Clube do Choro Recebe. Autor desconhecido.

Daqui a pouco, às 16h, participo do “Café com Direitos Humanos – Lives em tempos de pandemia”, atividade semanal que a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) inventou para não deixar cair a peteca dos debates acerca do tema, diante da impossibilidade dos encontros presenciais, em razão do isolamento imposto pela crise sanitária causada pela covid-19.

O tema de hoje é “Cultura e resistência: obra e arte de Joãozinho Ribeiro” e além daquele cujo engenho criativo será dissecado na cerca de hora e meia de programação, estará comigo o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos; ou seja, estou em casa, em vários aspectos: numa live realizada por uma entidade que assessorei e presidi, ao lado de dois amigos de copo e de cruz.

Vida, obra e militância em Joãozinho Ribeiro são praticamente uma coisa só: poeta, compositor, gestor cultural e funcionário público aposentado, seu livro (Paisagem feita de tempo, de 2006, há tempos merecendo uma reedição), seu disco (Milhões de uns – vol. 1, de 2013, há tempos merecendo um segundo volume) e seus poemas e canções (registradas por inúmeras vozes ao longo destes mais de 40 anos de carreira) não raro trazem preocupações e questionamentos políticos e sociais, embora, obviamente, não se limite a estes temas.

A foto que abre-ilustra este post, cuja autoria me foge à memória, é de alguma edição do saudoso Clube do Choro Recebe, que Ricarte Almeida Santos produziu entre 2007 e 2010 no Restaurante Chico Canhoto, de saudosa memória, projeto que assessorei, continuando trajetória iniciada justamente com Joãozinho Ribeiro: meu primeiro trabalho remunerado, como assessor de comunicação, foi justamente seu projeto Samba da Minha Terra (2002-3), que levou o samba e o choro – talvez os “departamentos” mais inspirados de sua música – a diversas comunidades da ilha, com vários convidados especiais a cada edição. Merecidamente vencedor de diversas categorias do também saudoso Prêmio Universidade FM.

Por falar em convidados especiais, arremato com um deles: certo dia, ao fim do expediente, encontrei-o na banca de revistas de Dácio, no estacionamento da Praia Grande. Paisagem feita de tempo, então recém-lançado e ainda encontrável nas melhores casas do ramo, figurava nas prateleiras. O compositor Antonio Vieira, referendando a qualidade da obra poética de Joãozinho, abriu o livro numa página, recitou uma quadra – “Debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida” – e arrematou: “é poeta!”.

A transmissão da live acontece pela página da SMDH no facebook. Até lá!

Serviço:

Divulgação

Uma lufada de alegria, beleza e inteligência

[Com as bênçãos de Celso Borges e Otávio Rodrigues, baita honra e enorme responsabilidade ter recebido o convite para escrever o release oficial deste disco lindo, que chega às plataformas no próximo dia 30]

Maestro Tiquinho em sessão de gravação de "Trombonesia". Foto: Paola Vianna
Maestro Tiquinho em sessão de gravação de “Trombonesia”. Foto: Paola Vianna

O apelido no diminutivo usado como nome artístico não traduz, de cara, a grandeza de Marco Aurélio de Santis. Maestro Tiquinho, como acabou ficando conhecido no meio musical, é um desses arquitetos da música popular brasileira cujo nome quase nunca figura nas placas de inauguração das obras, mas está lá para quem quiser ver e ouvir. Fossem os meios de comunicação mais dispostos ao aprofundamento e os ouvintes em geral mais curiosos, o trombonista seria merecidamente mais conhecido.

De Chico Science a Gal Costa, passando por Chico César e Zeca Baleiro, além de Elza Soares, Marcelo Jeneci, Jorge Benjor, Seu Jorge, Gilberto Gil, João Donato, Tom Zé, Erasmo Carlos, Nando Reis, Skank, Tião Carvalho e Papete, entre outros, além de bandas que integra/ou – Professor Antena, Clube do Balanço, Karnak e Funk Como Le Gusta –, pelo leque é possível perceber a abrangência de seu trombone elegante.

"Trombonesia". Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera
“Trombonesia”. Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera

Tiquinho acaba de lançar o aguardado e merecido disco solo de estreia, “Trombonesia”, título que evoca o encontro de seu conteúdo: o trombone do mago com a poesia, pelas vozes dos dub poets André Abujamra, Celso Borges, Chico César, Fernanda Takai e Zeca Baleiro, convidados mais que especiais que contribuem para o brilho e a brisa dessa tertúlia poético-musical. O álbum foi realizado através do Edital de Apoio à Criação Artística – Linguagem Reggae – da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

““Trombonesia” não é apenas o nome do álbum, mas uma palavra que nasce para unir sons, artes e estilos, sem usar de estereótipos ou padrões definidos”, afirma ele, ao mesmo tempo ourives e alquimista. Produzido por BiD, gravado ao vivo no estúdio Space Blues por Alexandre Fontanetti, e mixado por Victor Rice, todos magos em seus ofícios, o disco é arejado e ensolarado, com ecos de nomes como Don Drummond, Joseph Cameron, Nambo Robinson, Rico Rodriguez e Vin Gordon, para citar alguns de seus colegas de instrumento, em cujas fontes certamente Tiquinho bebeu para embriagar-nos.

Se aqueles foram fundamentais para o que acabamos por chamar de “clima” ou “mística natural” do reggae jamaicano, Tiquinho navega com desenvoltura por estes m/ares, aproximando Jamaica e Brasil – o sopro do paulista de Bauru nos leva a voar e pousar precisamente em São Luís do Maranhão, não à toa alcunhada Jamaica brasileira.

Mas tudo isto é pouco para tentar entender, explicar, rotular ou traduzir sua sonoridade (o que, na verdade, é tarefa impossível): ao mesmo tempo você está em um clube de reggae, em uma festa de sound system, em um baile black. O tempo é tema recorrente no repertório e os tons afogueados do projeto gráfico (de Gian Paolo La Barbera) ajudam a entender imediatamente que a coisa é quente.

Tiquinho assina todas as composições e arranjos do disco, em que é acompanhado por Edu SattaJah (contrabaixo elétrico e acústico), Rogério Rochlitz (piano acústico, órgão Hammond e piano elétrico), Che Alexandre Caparroz (bateria) e Simone Sou (percussão em “Oriente-se”). Em tempos de “duelo de eu e ego” (como salienta Chico César no canto falado de “Oriente-se”) “Trombonesia” é uma lufada de alegria, beleza e inteligência, estes ingredientes de brasilidade que alguns tristes andam querendo caçar nestes tempos de trevas – que Maestro Tiquinho e suas boas companhias teimam em iluminar. Para sorte e felicidade nossa! Jah bless!

Serviço: lançamento de “Trombonesia“, disco solo de estreia de Maestro Tiquinho. Dia 30 em todas as plataformas digitais.

Quanto mais mano, mais humano

O cantor e compositor Claudio Lima. Foto: divulgação
O cantor e compositor Claudio Lima. Foto: divulgação

Uma feliz coincidência paira no meio musical maranhense: semana passada o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro lançou, em seu canal do youtube, o reggae “Ser o mano”, interpretada pelo baterista e cantor George Gomes.

Neste sábado é a vez do cantor e compositor Claudio Lima lançar o samba “Ser o mano”.

Joãozinho, que celebrou ano passado as quatro décadas de carreira musical, aprofundou a usina produtiva após a aposentadoria – era funcionário da Receita Federal –, como prova sua produção mais recente, destaque para o “Frevo desaforado”, interpretado por Zeca Baleiro e lançado no último carnaval, e “Amor maior”, balada gravada por Rita Benneditto, lançada em live no último dia dos namorados, já sob o signo da pandemia.

Claudio Lima reprisará – “com alguns retoques no repertório e na interpretação” – o show “Com a lira”, bisado ano passado, sucesso de público e crítica. Desta vez ele troca o feliz trocadilho pelo explícito “Qualhira”, título de canção que Zeca Baleiro fez para ele. No repertório, canções de temática homoafetiva ou de compositores assumidamente homossexuais, entre nomes como Angela Ro Ro, Caio Prado, Chico Buarque, Gilberto Gil, Johnny Alf, Milton Nascimento e Renato Russo – de minha parte torço para que, como disse-lhe nalgum bastidor, some-se a eles o Mário Manga de “Rubens”, sucesso do Premeditando o Breque e Cássia Eller.

O single estará disponível nas plataformas de streaming neste sábado (3) e o show/live de lançamento acontece sábado que vem (10), às 17h, na Casa d’Arte (Raposa), com participação especial de Zeca Baleiro.

“Mano meu/ que na diáspora se perdeu/ mas o que foi que aconteceu?/ Com os filhos teus?/ Mano meu/ que Mama África esqueceu/ e na senzala escorreu/ todo sangue seu/ ser mano é ser livre/ ser mano é ser banto/ ser mano é ser canto/ Benin, Daomé/ ser mano é ser rasta/ e nunca ser casta/ orgulho da raça/ e o que mais quiser”, diz a letra do reggae de Joãozinho Ribeiro, aludindo à escravidão e a seu herdeiro, o racismo nosso de cada dia.

“O que adianta ser o mano/ se os mano não tá bem?/ nem mesmo pra lutar?/ O que adianta ter dinheiro/ e ser um prisioneiro?/ morando numa bolha/ de falsos privilégios?/ Dia após dia resistindo/ contra essa crueldade/ de quem só quer ver à margem/ os que lhe são diferentes?/ Olho no olho/ gente é gente”, começa o samba de Claudio Lima, com citações de Caetano Veloso e Torquato Neto.

Rebobina a fita para 2005: após participar do show de aniversário de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), Gildomar Marinho compôs “O mano”, que se soma a esta luta, causa, tema e quase ao trocadilho.

Após dividir o palco do Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) com Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Lena Machado e o Bloco Afro Akomabu, Gildomar escreveu: “O mano quer ser ser humano/ e é do ser humano merecer ser humano/ e ser humano é poder ter nome, lar, sobrenome/ e com os seus conseguir matar a sede e a fome/ ter paz, ter pão e ser muito feliz”, diz a letra que aponta direitos humanos fundamentais, como a vida, alimentação adequada, moradia digna, liberdade, sonhos e futuro.

A música foi registrada em 2006, no disco “Regar a terra”, que reúne diversos nomes da música popular brasileira produzida no Maranhão e celebrou os 20 anos do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no estado; o autor a regravaria em “Tocantes” (2012), seu terceiro disco. As três obras contribuem com a reflexão acerca dos direitos humanos pela via do lúdico.

Quanto mais mano, mais humano. Claudio Lima, Gildomar Marinho e Joãozinho Ribeiro são três artistas que nos representam na luta contra o triste estado de coisas que assola o país (e o mundo), diante do avanço da extrema-direita e de suas pautas reacionárias, que não admitem qualquer ideia de diversidade.