Quanto mais mano, mais humano

O cantor e compositor Claudio Lima. Foto: divulgação
O cantor e compositor Claudio Lima. Foto: divulgação

Uma feliz coincidência paira no meio musical maranhense: semana passada o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro lançou, em seu canal do youtube, o reggae “Ser o mano”, interpretada pelo baterista e cantor George Gomes.

Neste sábado é a vez do cantor e compositor Claudio Lima lançar o samba “Ser o mano”.

Joãozinho, que celebrou ano passado as quatro décadas de carreira musical, aprofundou a usina produtiva após a aposentadoria – era funcionário da Receita Federal –, como prova sua produção mais recente, destaque para o “Frevo desaforado”, interpretado por Zeca Baleiro e lançado no último carnaval, e “Amor maior”, balada gravada por Rita Benneditto, lançada em live no último dia dos namorados, já sob o signo da pandemia.

Claudio Lima reprisará – “com alguns retoques no repertório e na interpretação” – o show “Com a lira”, bisado ano passado, sucesso de público e crítica. Desta vez ele troca o feliz trocadilho pelo explícito “Qualhira”, título de canção que Zeca Baleiro fez para ele. No repertório, canções de temática homoafetiva ou de compositores assumidamente homossexuais, entre nomes como Angela Ro Ro, Caio Prado, Chico Buarque, Gilberto Gil, Johnny Alf, Milton Nascimento e Renato Russo – de minha parte torço para que, como disse-lhe nalgum bastidor, some-se a eles o Mário Manga de “Rubens”, sucesso do Premeditando o Breque e Cássia Eller.

O single estará disponível nas plataformas de streaming neste sábado (3) e o show/live de lançamento acontece sábado que vem (10), às 17h, na Casa d’Arte (Raposa), com participação especial de Zeca Baleiro.

“Mano meu/ que na diáspora se perdeu/ mas o que foi que aconteceu?/ Com os filhos teus?/ Mano meu/ que Mama África esqueceu/ e na senzala escorreu/ todo sangue seu/ ser mano é ser livre/ ser mano é ser banto/ ser mano é ser canto/ Benin, Daomé/ ser mano é ser rasta/ e nunca ser casta/ orgulho da raça/ e o que mais quiser”, diz a letra do reggae de Joãozinho Ribeiro, aludindo à escravidão e a seu herdeiro, o racismo nosso de cada dia.

“O que adianta ser o mano/ se os mano não tá bem?/ nem mesmo pra lutar?/ O que adianta ter dinheiro/ e ser um prisioneiro?/ morando numa bolha/ de falsos privilégios?/ Dia após dia resistindo/ contra essa crueldade/ de quem só quer ver à margem/ os que lhe são diferentes?/ Olho no olho/ gente é gente”, começa o samba de Claudio Lima, com citações de Caetano Veloso e Torquato Neto.

Rebobina a fita para 2005: após participar do show de aniversário de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), Gildomar Marinho compôs “O mano”, que se soma a esta luta, causa, tema e quase ao trocadilho.

Após dividir o palco do Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) com Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Lena Machado e o Bloco Afro Akomabu, Gildomar escreveu: “O mano quer ser ser humano/ e é do ser humano merecer ser humano/ e ser humano é poder ter nome, lar, sobrenome/ e com os seus conseguir matar a sede e a fome/ ter paz, ter pão e ser muito feliz”, diz a letra que aponta direitos humanos fundamentais, como a vida, alimentação adequada, moradia digna, liberdade, sonhos e futuro.

A música foi registrada em 2006, no disco “Regar a terra”, que reúne diversos nomes da música popular brasileira produzida no Maranhão e celebrou os 20 anos do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no estado; o autor a regravaria em “Tocantes” (2012), seu terceiro disco. As três obras contribuem com a reflexão acerca dos direitos humanos pela via do lúdico.

Quanto mais mano, mais humano. Claudio Lima, Gildomar Marinho e Joãozinho Ribeiro são três artistas que nos representam na luta contra o triste estado de coisas que assola o país (e o mundo), diante do avanço da extrema-direita e de suas pautas reacionárias, que não admitem qualquer ideia de diversidade.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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