Sempre se pode sonhar. Ou: das coisas que fazem 2020 e o Brasil ainda valerem a pena

Sempre se pode sonhar. Capa. Reprodução

Chico Buarque e Paulinho da Viola tornaram cada vez mais espaçados no tempo seus lançamentos discográficos ao longo das últimas duas ou três décadas. O primeiro se divide, com igual êxito, entre os ofícios de cantor e compositor e escritor e tem lançado discos e livros muito bons – acabei recentemente de ler Essa gente (Companhia das Letras, 2019).

Paulinho da Viola, como nos mostra Meu tempo é hoje (2003), o excelente documentário de Izabel Jaguaribe – cuja trilha sonora é um ótimo disco lançado no mesmo ano –, se divide entre hobbies como a marcenaria, a sinuca, sofrer pelo Vasco da Gama, seu time do coração, e shows – com a agenda completamente afetada pela pandemia de covid-19 neste 2020.

Por falar em show, corta para uma lembrança: em 2014 vi Paulinho da Viola ao vivo, em um show prejudicado pela acústica do lugar, o finado Patrimônio Show, ali nas imediações do terminal de integração da Praia Grande. Um dia antes, ou no mesmo dia, cito de memória, compareci à coletiva de imprensa que o príncipe deu em um hotel da cidade. Indaguei-lhe sobre A obra para violão de Paulinho da Viola, disco instrumental gravado pelo maranhense João Pedro Borges (violão), nas companhias luxuosas do próprio Paulinho (violão e cavaquinho) e de César Faria (violão), pai de Paulinho, da formação original do Época de Ouro. Lançado em 1985, o vinil foi distribuído como brinde de fim de ano a clientes de uma mineradora e nunca foi reeditado. Fecha parêntese.

Mas abre outro: apesar de gozar de merecido reconhecimento, fruto da qualidade de sua obra, Paulinho da Viola é um dos mais injustiçados artistas da música popular brasileira. Quase nunca entra em listas de mais ou maiores isso ou aquilo quando se trata da sigla MPB, quase sempre rotulado como mero sambista – como se isto fosse pouco. Fecha parênteses.

Nunca havia escrito sobre um disco sem ouvi-lo e o faço para anunciar: dia 30 de outubro chega às plataformas um novo álbum de Paulinho da Viola. Sucessor do Acústico MTV (2007), Sempre se pode sonhar (2020) é um registro ao vivo, com 22 faixas gravadas no Teatro Fecap, entre 13 de setembro e 8 de outubro de 2006.

A primeira reação, ao ver a capa – mais uma de Elifas Andreato para a discografia do mestre – publicada no instagram de Paulinho da Viola foi: 2020 e o Brasil ainda valem a pena. Depois a ficha foi caindo lentamente e, apesar do Brasil e de 2020, que puta título, hein, seu Paulo César Batista de Faria?

Corta para um clichê: Paulinho da Viola completará 78 anos no próximo 12 de novembro, mas quem ganha o presente, antecipado, é o fã-clube. Fecha clichê.

Como bem cantou Caetano Veloso: “viva o Paulinho da Viola!”.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM e reprise na Timbira AM, às 21h). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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