Croniqueta em tempos de pandemia

De den’do hospital ela me fotografa à sua espera. Foto: Guta Amabile

Um segurança do hospital impediu minha entrada, em nome das restrições impostas pela prolongada pandemia. Fiquei do lado de fora, em pé, envergando o tijolo “Menino sem passado”, do Silvano Santiago. Havia cadeiras vazias, que o distanciamento social e as marcações recomendavam não usar. Encostei-me no corrimão da rampa por onde sobem veículos e pedestres e lia, enquanto táxis, ubers, carros de passeio e ambulâncias deixavam e levavam passageiros e pacientes.

Um homem cuja idade era difícil precisar, trajando máscara, camisa do Flamengo e luvas, entregou-me um papel. Desavisado, peguei, mesmo contra a recomendação dos protocolos de segurança sanitária. Interrompi a leitura para ler: era um apelo para ajudá-lo a construir sua casa, ele, mudo de nascença, como dizia no pequeno pedaço de papel, como aqueles que inspiraram Valêncio Xavier em “Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros”. Indicava os valores de um, dois ou três reais para a contribuição. Enquanto ele distribuía e recolhia dos outros acompanhantes, devolvi-o quando de sua passagem, sem colaborar. Eu realmente estava sem trocado nem lenço, nos bolsos só havia documentos.

Uma senhora encostou a meu lado, aproveitando uma pausa na leitura para checar o celular. Por ele me comunicava com ela, lá dentro fazendo os exames. “Seu celular faz ligação para qualquer operadora?”. “Sim”, respondi imediatamente, me arrependendo tão ou mais rápido e pensando: “ela vai pedir o celular para ligar para alguém e eu vou ter que pegar de volta, sem álcool em gel. E se ela estiver com covid?”, perguntei-me, paranoico – ou não. Bingo! “O senhor pode fazer uma ligação para minha filha? É para ela pedir um uber pra mim, eu saí de casa e esqueci o celular”. Já ia entregar-lhe o aparelho quando ela mesmo sugeriu: “o senhor mesmo liga” e me deu o número e o nome da filha. Liguei um par de vezes e em ambas a ligação caiu na caixa postal. “A senhora vai pagar o uber em dinheiro?”. “Sim”. “Posso pedir um para a senhora”, ofereci-me, no que ela concordou, me passando o endereço. Aguardamos o carro, de que lhe indiquei modelo, cor e placa, apontando-lhe quando ele chegou. Ela agradeceu e me estendeu um papel, com 50 centavos. “Se o moço aparecer o senhor entrega para ele”, pediu e me agradeceu mais uma vez. Fiquei vendo-a pegar o uber de volta para casa com o marido adoentado e esperei mais um pouco por ela, que terminava de coletar sangue para os exames.

O homem não voltou e não o alcancei, mesmo lançando meu olhar a 360 graus, procurando-o. Quando ela saiu, descemos a rampa até onde o carro estava estacionado. Coloquei o papel amarrotado no bolso de trás da calça idem e paguei o flanelinha com os 50 centavos. “Obrigado e vá com Deus!”, ainda consegui ouvir antes de subir o vidro da janela e ela ligar o rádio.

Pena capital ao genocida

Em memória dos mais de 255 mil brasileiros vítimas da covid-19 e da irresponsabilidade do presidente genocida de extrema-direita Jair Bolsonaro

“O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”
Bertolt Brecht

“Se números frios não tocam a gente/ espero que nomes consigam tocar”
Bráulio Bessa/ Chico César

Uma estaca cravada no prepúcio
ainda é pouco pra este genocida.
Se a facada não lhe tirou a vida
é preciso tirar-lhe já o poder.
Quantos ainda precisarão morrer
no Brasil, hoje sinônimo de desgraça?
Bolsonaro, vá embora e leve a sua raça!
Meu povo não aguenta mais sofrer.

Uma corda em volta de seu pescoço,
um patíbulo, um grito desumano:
será que ao morrer faria o gesto insano
da arminha e elogio a torturador?
Quero que Bolsonaro saiba o que é dor
pra que enfim, acabe de vez a nossa.
Que o Brasil volte a ser o país da bossa,
do samba, do carnaval e não mais do horror.

Um tiro no meio de sua testa
distanciando seus olhos de facínora
sem empatia, cujo significado ele ignora.
Haverá quem chore por este desgraçado?
Milhares de corações dilacerados
pelas mortes de pais, mães, filhos e avós.
Precisamos, e logo, desatar os nós
da cilada em que nos meteu seu gado.

Cínicos, uns dizem “eu não sabia”.
Não foi falta de aviso, digo e repito.
Todos sabíamos no que daria falso mito
em lugar que deve ser ocupado por gente,
não por falso herói nada eloquente.
Faltará borracha pra apagar tamanho erro
e aqui e acolá ainda se ouve o berro
do gado que aplaude quem fode a gente.

Impeachment é nada e cadeia é pouco:
Bolsonaro merece passagem só de ida
para sofrer por toda eterna vida
em companhia de ídolos como Hitler e Ustra.
Nem no inferno o diabo quer esses filhos da puta
que tanto mal fizeram à humanidade.
Nem na lata de lixo da história lhes cabe.
Contra suas fake news, eis a verdade absoluta.