Maranhão quilombola: olhares do cinema na década de 1970

[Não costumo pendurar releases acá. Mas quebro a regra, pois o assunto vale a pena e estes dias a correria não tem sido pequena]

Mostra de documentários de Jean-Pierre Beaurenaut e Murilo Santos

Nos dias 20 (quarta) e 21 (quinta-feira), às 19 horas, na Aliança Francesa (Rua do Giz, Praia Grande), o fotógrafo e cineasta Murilo Santos apresenta dois documentários realizados em meados da década de 1970 sobre comunidades negras rurais. No primeiro dia será exibido o documentário Le Bonheur Est Là-bas, em face, um média metragem (filmado em película 16mm) do cineasta francês Jean-Pierre Beaurenaut e, no segundo dia, A festa de Santa Teresa, um curta metragem de autoria de Murilo Santos, filmado em película Super-8 – ambos os documentários podem ser considerados as primeiras obras cinematográficas a abordarem comunidades negras rurais no Maranhão.

Em 1975, Murilo Santos, então cinegrafista da TV Educativa do Maranhão, teve como professor de cinema Jean-Pierre Beaurenaut, cujas influências o inspiraram em seu trabalho no que tange à forma de fazer documentário, num período também de grande culto ao etnólogo e cineasta francês Jean Rouch. Jean-Pierre filma alguns personagens da comunidade de Ariquipá, antigo engenho e fazenda de cana de açúcar no município de Bequimão, que se deslocam para São Luís em busca de melhores condições de vida – o subemprego surge como única alternativa.  O título Le Bonheur Est Là-bas, em face traduz a frase de um dos personagens ao justificar seu êxodo para a cidade: “a felicidade está lá na frente”.

O documentário de Murilo Santos foi realizado no município de Alcântara, na comunidade quilombola de Itamatatíua – não muito distante de Ariquipá – e aborda a tradicional Festa de Santa Teresa. Ao contrário do filme anterior, este documentário enfoca a comunidade num período em que seus moradores, residentes em São Luís, retornam ao seu local de origem para a festa.  O documentário A Festa de Santa Teresa conta com a participação da antropóloga Maristela de Paula Andrade e de Joaquim Santos que, nessa época, iniciava suas pesquisas no campo da etnomusicologia. A equipe de Jean-Pierre Beaurenaut teve como diretor de fotografia o cineasta Yves Billion, autor de Guerra de Pacificação na Amazônia (1973).

Os dois filmes trazem em seus cenários reais algumas preciosas particularidades. No filme de Murilo Santos o destaque, quanto à raridade de imagens, vai para as cenas do baile em Itamatatíua, ao som de uma das primeiras radiolas de reggae. Em Le Bonheur Est Là-bas, em face Jean-Pierre mostra um antigo engenho de cana de açúcar na baixada maranhense, cujas máquinas vindas de  Liverpool na Inglaterra ainda funcionavam. Outras imagens preciosas em seu filme são locais da capital, hoje completamente transformados, como a região do cais da Praia Grande, o bairro do João Paulo com o Cine Rex ainda em funcionamento e o trem trafegando pela antiga Estrada da Vitória, desde a estação da Rffsa (Rede Ferroviária Federal S/A) na região, onde hoje se situa a Praça Maria Aragão.

Desde então, Murilo Santos não teve mais contato com seu ex-professor Jean-Pierre Beaurenaut, embora tenha estado no Brasil em 1990 para filmar, juntamente com Jorge Bodanzky e Patrick Menget, A Propos de Tristes Tropiques, documentário sobre Claude Lévi-Strauss, com foco em sua presença no Brasil entre 1935 e 1939.

Durante anos Murilo Santos alimentara a esperança de obter uma cópia do filme francês e exibi-lo em Ariquipá, porém, recentemente soube do lançamento na França do documentário de Beaurenaut e conseguiu adquirir uma cópia em DVD. O interesse de Murilo Santos com a comunidade de Ariquipá se dá a partir de um documentário sobre o reggae, para o qual filmou em 1996 os funerais de Antônio José, até então um dos mais famosos Djs de radiolas de reggae, morto em acidente de trânsito. Além disso, Antonio José – “O Lobo” da radiola “Estrela do Som” – era sobrinho de Pedro Silva “Calango”, líder sindical que Murilo Santos conhecera na década de 1970 quando produzia materiais audiovisuais para as ações educativas da Comissão Pastoral da Terra.
 
Pedro Silva e outro companheiro de Ariquipá aparecem ao lado do cineasta Jean Pierre Beaurenaut, na fotografia deixada pela equipe francesa durante as filmagens 1975. Esta imagem, ainda hoje existente na comunidade, é uma espécie de relíquia, que durante décadas parece corporificar a esperança de seus moradores de um dia ver as imagens filmadas pelo francês, especialmente os mais antigos.

A programação do evento na Aliança Francesa inclui fotografias e outras peças audiovisuais que ilustram o relato da experiência empreendida por Murilo Santos ao levar, de forma voluntária, esses dois filmes às comunidades, em 2008 e 2010, possibilitando um encontro dos personagens com suas imagens “congeladas” em películas cinematográficas por mais de 30 anos.

Festival Lume de Cinema segue até dia 23

Muita gente, este blogueiro, inclusive, reclamou do sigilo em torno da programação do I Festival Internacional Lume de Cinema. Explico: na sessão de abertura do citado festival, no Teatro Arthur Azevedo, quinta-feira passada (14), recebemos um panfleto com a programação que aconteceria nas dependências do Teatro Alcione Nazaré. Faltavam detalhes, que não eram conseguidos sequer acessando o site da Lume Filmes, produtora do evento e administradora do Cine Praia Grande, outro espaço em que aconteceria o festival.

Posto abaixo a programação que recebi por e-mail, ainda insuficiente. Não basta saber o nome do filme e a hora e o local em que o mesmo será exibido: carece uma sinopse, o nome do diretor, elenco, classificação indicativa, o cartaz do filme, e chamegos outros etc., etc., etc. No mais, louvável e corajosa a iniciativa de Frederico Machado, sempre homem de frente nas trincheiras que buscam levar cinema de qualidade ao povo cada vez mais refém dos espaços contíguos às praças de alimentação de shopping centers.

Clique para ampliar

(Só) até amanhã

Só mais hoje e amanhã aos que quiserem (e ainda não o fizeram) ver Maus hábitos, de Pedro Almodóvar, em cartaz no Cine Praia Grande. Sessões às 16h, 18h15min e 20h15min. Ingressos: R$ 10,00 (meia para estudantes). Só mais hoje e amanhã, repito, por que dia 14 começa o I Festival Lume de Cinema, mais uma “presepada” de Frederico Machado e cia.

Doc de Murilo Santos tem pré-lançamento em Alcântara, hoje

A alcunha de “divino artista”, usada por Murilo Santos para definir Antonio de Coló, protagonista de seu mais novo documentário, cabe também a ele. O cineasta e professor universitário tem no amor com que realiza suas coisas o segredo de seu sucesso.

E entendam sucesso aqui, caros leitores, num sentido mais amplo, esqueçam o mundinho podre das celebridades: Murilo Santos ainda consegue fazer supermercado em paz, sem ter que parar a cada passo ou dois para dar autógrafos e não é retuitado ad infinitum a cada bobagem que diz no tuiter – onde nem sei se ele tem conta.

O sucesso de Murilo Santos reside em chegar onde ninguém chega, em mostrar o que ninguém mostra, na dignidade e prazer com que faz isso. Há coisas que só estão na memória desse craque do documentário brasileiro – como muitos outros em outras artes, infelizmente ainda pouco conhecido lá fora, apenas por ter nascido e escolhido viver no Maranhão.

Ou nas memórias, que ele tem muitas: a sua própria, que ele exercita em longos e prazerosos papos por telefone ou quando nos encontramos pessoalmente – ou quando me responde um e-mail quilométrico onde resgata grande parte da história do cinema no Maranhão –, ou seus muitos HDs, onde ele armazena um sem número de filmagens e fotografias que ele realizou e sabe que um dia usará.

Murilo documenta o Maranhão há pelo menos 40 anos, quando participou da fundação do Laboratório de Expressões Artísticas, o Laborarte, de onde se desligaria depois. Semana corrida, poucos mas fieis leitores, vocês devem ter acompanhado o trabalho deste blogueiro na cobertura do Acampamento Negro Flaviano, talvez nem dê tempo de vocês pegarem a lancha para Alcântara, ‘tá em cima da hora, sei: mas lá, hoje (11), às 21h, na Igreja do Carmo (após a missa), acontece o pré-lançamento de Divino Artista: Antonio de Coló, novo doc de Santos (cujo release que recebi por e-mail colo logo abaixo da peça de divulgação), selecionado em edital da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão na gestão Jackson Lago/Joãozinho Ribeiro.

Este, aliás, é outro segredo do sucesso de Murilo: o devolver aos retratados seus retratos. Parece simples, parece básico, mas há documentaristas e fotógrafos incapazes deste gesto, ao mesmo tempo tão pequeno (para quem retrata) e tão grande (para quem é retratado). Viva Murilo Santos!

Divino Artista – Antônio de Coló | Documentário de Murilo Santos | 30 minutos
Apoio:  SECMA (Edital de Apoio à Formação, Produção e Circulação Cultural/2008)

Antônio do Livramento Boaes Tavares, o Antônio de Coló, faz altares e centros de mesa da Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara. Também prepara as salas das cerimônias nas casas de festa. Sua preferência pelo estilo que denomina genericamente de “barroco”, faz sua obra espelhar símbolos, ícones da cultura e visualidade de seu habitat, a histórica cidade de Alcântara no Maranhão.

Antônio é também mestre-sala da Festa do Divino Espírito Santo, ou seja, aquele que conduz as diferentes etapas do ritual. Antônio é um dos filhos de Seu Coló, que foi artesão e mestre-sala da Festa do Divino até o final da vida.

O documentário mostra um pouco do universo de nosso personagem: sua história de vida e seu talento nas artes visuais. Narra uma faceta da festa do Divino Espírito Santo sob o ponto de vista de um mestre-sala, trazendo uma nova abordagem acerca do tema.

Céu alcantarense

O lançamento de O céu sem eternidade em São Luís acontece dia 1º. de junho (quarta-feira), às 19h, no Cine Praia Grande (no cartaz acima, o restante da agenda).

O filme foi rodado em Alcântara, e contou com alguns estudantes/bolsistas da UFMA em sua realização. Por falar em UFMA, o pedaço ilheu da programação integra a programação de sua 11ª. Semana de Comunicação (o que me leva a crer que não será cobrado ingresso).

Após a exibição do mesmo haverá um debate, que incluirá questões como a base espacial de Alcântara e a vida de suas comunidades tradicionais, entre outras, com atores do filme, membros da equipe de produção e sua diretora Eliane Caffé. Pra quem não tá ligado, ela dirigiu o ótimo Narradores de Javé.

Expressões da questão social

Curta-metragem de Francisco Colombo, Reverso, filme que abre este post, integrou a brevíssima programação da minimostra que o batiza (ao post), dentro da programação do 32º. Encontro de Assistentes Sociais do Estado do Maranhão, na manhã de hoje (o encontro continua amanhã (19) e depois, no Quality Grand São Luís Hotel, quando será encerrado com a festa Dancing Days, capitaneada pelo DJ Salim Lauande, no Armazém da Estrela, Praia Grande, para os participantes do encontro).

Os outros dois curtas que integraram a minimostra foram O incompreendido, também de Colombo, e Aperreio, de Doty Luz e Humberto Capucci, já exibido neste blogue. As ficções de Colombo e o documentário da dupla Café Cuxá Filmes retratam diversos temas cujos debates do encontro dos profissionais do Serviço Social abordarão: direitos humanos, ética, violência urbana e meio ambiente, entre outros.

A seleção da minimostra Expressões da questão social ficou a cargo deste que vos tecla. Os filmes foram escolhidos por sua relação com as temáticas que serão debatidas ao longo do encontro, como já disse. Mas cumpriu também a função de divulgar algumas das boas realizações recentes da sétima arte no Maranhão.