Leia Raul!

Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução
Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução

 

Parafraseando Belchior, o outro biografado de Jotabê Medeiros, não espere que eu lhe faça uma resenha como se deve. Ora, o autor de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida [Todavia, 2019, 413 p.; R$ 69,90] é meu amigo pessoal, colega de Farofafá e não raro repito: meu maior professor de jornalismo fora da sala de aula.

Talvez isto devesse me afastar da tarefa de comentar seu livro. Mas não seria justo, tampouco honesto. O livro acaba por marcar, por assim dizer, o encontro de dois heróis meus, um no jornalismo e um na música. O elepê Maluco beleza, uma coletânea de hits daquele que acabou rebatizado pela faixa-título, foi um dos primeiros vinis de minha coleção (que o advento do cd acabou por fazer se perder no tempo) e ainda lembro de quando comprei Gita [1974] numa promoção da saudosa Lobras, com vinis vendidos a preços mais baratos justo por conta da popularização das bolachinhas lidas a laser.

Acompanhei as agruras, perrengues, negociações, bastidores, enfim, da escrita de Jotabê das biografias do cearense Belchior e do baiano Raul Seixas, tendo o privilégio de ser dos primeiros a saber que o jornalista se movimentava em seus por vezes pantanosos terrenos, mas perdendo o furo em nome da amizade.

Acompanhei o linchamento virtual de que Jotabê Medeiros foi alvo pouco antes do lançamento de seu novo livro, em novembro passado. Gente que sequer tinha lido a obra (pois ainda não havia sido lançada, frise-se) e passou a atacar o biógrafo por uma suposta acusação de dedo-durismo do biografado em relação ao escritor Paulo Coelho, seu mais famoso parceiro musical.

Demorei a mergulhar na leitura de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida por saber, antecipadamente, tratar-se de livro que mereceria a atenção que eu queria dar em tempo quase integral, no que foi bem vinda a quarentena diante da ameaça mundial do coronavírus, pelo que a profecia do cantor e compositor tem sido sempre lembrada e O dia em que a terra parou quase alçada à condição de clichê.

Poderia dizer que Jotabê Medeiros reinventou, em seus dois livros do gênero, a escrita de biografias. Seus mais de 30 anos de jornalismo cultural – com foco na crítica musical – garantem um profundo mergulho na pesquisa e nas entrevistas com fontes, a checagem a que o simplificador control c control v nos desacostumou como leitores e não raro mesmo como jornalistas – há exceções, é claro, e o jornalista-escritor é uma delas.

Mas a reinvenção da escrita de biografias não se dá por isso, o que deveria ser obrigação de qualquer jornalista, escreva ele uma biografia de mais de 400 páginas ou uma resenha, como tento aqui, ou uma nota ou o que quer que seja. Se dá pelo fato de Jotabê Medeiros, com sua habitual escrita elegante, buscar equilibrar vida e obra, através da narrativa dos fatos daquela e da análise desta; sobre a primeira, não emite juízos de valor; sobre a segunda, pode eventualmente apontar desníveis onde o fã-clube enxerga apenas perfeição.

Se Roberto Piva, outro personagem cultural da predileção de Jotabê Medeiros, dizia que não existe poesia experimental sem vida experimental, e a vida de Raul Seixas foi marcada pela brevidade (morreu aos 44 anos, vítima de pancreatite decorrente do abuso de drogas lícitas e ilícitas) e intensidade – deixou obra fecunda, a provar o que quero dizer aqui e o autor demonstra, tanto biografando Raul quanto Belchior: uma e outra se cruzam, em seus altos e baixos.

Guardadas as devidas proporções, Jotabê Medeiros sabia dos riscos que correria ao encarar o fã-clube mais chato do Brasil (expressão que usei quando eu e Suzana Santos o entrevistamos para o Radioletra, na Rádio Timbira, e negada por ele): qual um Philippe Petit ao realizar sua façanha-obra de arte, o autor não recuou diante de temas mais espinhosos, no entanto sem correr outros riscos: ele nunca é deselegante ou sensacionalista em nome de “vender a porra do livro”, como acusou-o numa rede social o autor de O alquimista.

Existem por aí muitos livros escritos sobre Raul Seixas, fora e dentro da academia. Boa parte escorada na suposta perfeição do mito (aqui na acepção real do termo, é preciso explicar nestes tempos) construído em torno do raulseixismo. Quem já assistiu a pelo menos um dos tributos anuais apresentados pelo cantor Wilson Zara em São Luís – a série teve início em Imperatriz, em 1992 – sabe do que estou falando: gente fantasiada, envergando camisas com a efígie do astro ou bandeiras com o símbolo da Sociedade alternativa, louvando acriticamente seu legado (embora o momento seja de festa e a culpa não seja de quem presta a homenagem, realizada sempre em torno do aniversário de falecimento do ídolo).

Um dos méritos da biografia de Raul Seixas escrita por Jotabê Medeiros é mergulhar num ponto quase sempre esquecido de sua trajetória: seu lado hitmaker de brega, que acabou por inventar um estilo até hoje copiado. Não basta lembrarmos de faixas como Tu és o MDC da minha vida, Você ou Sessão das 10, a faixa-quase-título do hoje clássico Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, de 1971, o segundo disco em que Raul Seixas aparece cantando – após a estreia com Raulzito e Os Panteras [1969] – dividido com Edy Star, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio.

É preciso dar os devidos créditos a hits absolutos, até hoje tocados em rádios Brasil afora: Ainda queima a esperança, sucesso de Diana, Doce doce amor, de Jerry Adriani, e Se ainda existe amor, de Balthazar: todos são composições de Raul Seixas – que à época assinava Raulzito (“Raul Seixas e Raulzito sempre foram o mesmo homem”, como cantou em As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor).

Jotabê Medeiros mergulha também no lado produtor do biografado: é importante conhecer o trabalho de Raul Seixas, antes da fama, em estúdios e gravadoras, que viria a ajudar a forjar sua identidade musical, levando-lhe a discos ou shows de Leno (da dupla com Lilian Knapp), Jerry Adriani e Odair José (todas as guitarras de seu primeiro disco são tocadas por… Raul Seixas).

Não hesita o autor em apontar também apropriações indébitas do ídolo, fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, cujo cruzamento explica um bom bocado de sua obra. O livro coloca também em seu devido lugar as relações de Raul Seixas com nomes como Sérgio Sampaio (Raul produziu e assinou arranjos em Eu quero é botar meu bloco na rua, estreia solo de Sampaio, de 1973, que fechava com a vinheta Raulzito Seixas, homenagem do capixaba ao baiano), Cláudio Roberto (parceiro em Maluco beleza e numa pá de composições, O dia em que a terra parou, de 1977, é integralmente assinado pela dupla), Jards Macalé (Raul participou do show coletivo Banquete dos mendigos, posteriormente lançado em elepê, produzido por Macalé no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) e Marcelo Nova (não raro tido como oportunista, mas que acabou reerguendo Raul, dividindo uma série de shows antes da gravação do álbum derradeiro, A panela do diabo, de 1989, ano em que Raul viria a falecer, dois dias após o lançamento do disco), entre outros.

Não afeito a fofocas, Jotabê Medeiros não se furta de tocar em lendas criadas por Raul Seixas, como seu suposto encontro nos Estados Unidos com o beatle John Lennon ou o dia em que comeu lixo com um mendigo em Nova York (episódio cantado em Banquete de lixo), bem como as apresentações do roqueiro no garimpo em Serra Pelada, e a não decomposição do cadáver do artista – provavelmente em decorrência do consumo excessivo de antibióticos em vida –, percebida mais de 20 anos depois de seu falecimento, quando a família tentou transferir os restos mortais para uma urna.

Raul Seixas ganha uma biografia à altura do gênio que foi. Sem entregar o ouro (de tolo) ao bandido, Jotabê Medeiros revela, na introdução, a chave (de leitura e) de seu êxito na missão: “todo o meu esforço foi contar uma história, articular uma coreografia escorada no maravilhoso acervo de canções & riffs dessa figura já lendária, contraditória e deflagradora da cultura brasileira. Não me preocupei em lustrar a lenda, porque essa já é do tamanho da eternidade”.

Zema Ribeiro lança o livro “Penúltima Página” reunindo entrevistas e textos do jornal Vias de Fato

[release por Celso Borges]

Penúltima página. Capa. Reprodução
Penúltima página. Capa. Reprodução

O jornalista foi editor de cultura do periódico que circulou mensalmente em São Luís entre 2009 e 2016. A obra traz 14 entrevistas com artistas e personalidades maranhenses publicadas na página de cultura do jornal, além de seis textos. “Penúltima Página” tem orelha assinada por Jotabê Medeiros, prefácio de Flávio Reis e edição e projeto gráfico de Isis Rost. O lançamento será na terça, dia 11, no Chico Discos, centro da cidade.

O Vias de Fato foi um jornal mensal fundado em 2009 pelos jornalistas Emílio Azevedo e Cesar Teixeira, a pedagoga Alice Pires e o fotógrafo Altemar Moraes. Naquele ano teve início uma experiência ímpar de jornalismo combativo, próximo a movimentos sociais e sindicatos e, sobretudo, aberto à colaboração de professores, ativistas sociais, sindicalistas e artistas. O jornal deixou de circular mensalmente em 2016 e nos três anos seguintes teve algumas edições com periodicidade irregular.

““Penúltima Página” surge da ideia de celebrar os 10 anos que o Vias de Fato teria completado ano passado. O livro apresenta um panorama despretensioso da cultura do Maranhão durante o período em que colaborei com a editoria de cultura do jornal e sai graças aos esforços dos amigos que compraram exemplares antecipados a fim de garantir a impressão de parte da tiragem”, afirma Zema Ribeiro, que é jornalista cultural e atual diretor da Escola de Música Lilah Lisboa. Assina o principal blog cultural da cidade onde se apresenta como “um homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais”.

“Era um outro momento, em relação ao obscurantismo galopante de nossos dias, e por lá desfilaram vários nomes, em geral uma rapaziada mais próxima do experimental, do escracho e não da reverência, do combate e não da submissão. Zema escreve bem, tem lastro de leituras, agilidade e curiosidade para encarar as dificuldades de fazer jornalismo cultural numa terra pouco afeita a debates e críticas”, afirma o professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA Flávio Reis, no prefácio do livro.

O livro começa com uma entrevista de Paulo Melo Sousa, jornalista, poeta e articulador cultural, então às voltas com a experiência do Papoético, uma roda de conversas que acontecia no Chico Discos, local de reunião de alguns boêmios inveterados da cidade. A partir daí, temos uma sucessão de compositores (Gildomar Marinho, Bruno Batista, Marcos Magah e Henrique Menezes); de gente do cinema (Frederico Machado, Mavi Simão, Francisco Colombo, Paulo Blitos); do teatro (Lauande Ayres); da literatura (Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben, então editores da revista Pitomba!); e das cantoras Flávia Bittencourt, Lena Machado e Patativa, além de nomes da militância sindical e dos direitos humanos (Novarck Oliveira e Ricarte Almeida Santos).

“Penúltima Página” inclui também textos sobre os 30 anos do disco “Fulejo”, de Dércio Marques, o lançamento de “Baratão 66”, um quadrinho anárquico de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum, e uma enquete, feita com 11 pessoas ligadas ao meio musical, sobre os 12 discos mais importantes da música maranhense, realizada em 2013, quando se comemoravam os 35 anos do lançamento dos discos “Bandeira de Aço”, de Papete, e “Lances de Agora”, de Chico Maranhão.

A obra marca o quarto lançamento do selo Passagens, de Isis Rost, que abraçou a ideia da edição do livro com entusiasmo, reuniu material fotográfico e elaborou o projeto gráfico. A editora disponibiliza gratuitamente as versões em e-book em seu site.

Serviço

O quê: noite de autógrafos de “Penúltima Página: Cultura no Vias de Fato” (Editora Passagens), de Zema Ribeiro
Quando: dia 11 de fevereiro (terça-feira), às 19h
Onde: Chico Discos (esquina da rua dos Afogados com São João, Centro)
Apoio cultural: Equatorial Energia

No olho do furacão

FLÁVIO REIS

Fotos: divulgação
Fotos: divulgação

Conheci Zema Ribeiro no final de 2009, ao mesmo tempo em que travava contato com Emílio Azevedo. O motivo era justamente adensar a articulação em torno do Vias de Fato, o jornal mensal que havia surgido, puxado por Emílio e Cesar Teixeira, em conjunto com Alice Pires e Altemar Moraes. Era uma atitude quase de guerrilha, ação corajosa de um pequeno núcleo decidido a criar uma fresta que fosse no paredão quase monolítico do jornalismo local, dominado pelo poderoso Sistema Mirante, porta-voz do grupo oligárquico capitaneado pelo clã Sarney. Era o início de uma experiência ímpar de jornalismo combativo, próximo a movimentos sociais e sindicatos e, sobretudo, aberto à colaboração de professores, ativistas sociais, sindicalistas, artistas e qualquer um que tivesse algo a dizer numa perspectiva contrária à barbárie social e política em que vivemos, emoldurada pela utilização mercantil da cultura popular como fonte de legitimação.

O papel de Zema seria tocar a seção cultural do jornal, a “penúltima página”, onde teria liberdade de comentar, entrevistar, agendar, enfim, dar uma ideia do que acontecia em diversas áreas do cenário das artes e da cultura. Nada mais acertado, pois ele já fazia isso no blog, onde se apresenta como “um homem de vícios antigos”, que “ainda compra livros, discos e jornais”.

O material reunido aqui remete a essa página vibrante que pulsou no Vias de Fato entre os anos de 2009 e 2016. Era um outro momento, em relação ao obscurantismo galopante de nossos dias, e por lá desfilaram nomes diversos, em geral uma rapaziada mais próxima do experimental antes do comercial, do escracho e não da reverência, do combate e não da submissão. Zema escreve bem, tem lastro de leituras, agilidade e curiosidade para encarar as dificuldades de fazer jornalismo cultural numa terra pouco afeita a debates e críticas.

O livro inicia com a entrevista de Paulão, jornalista, poeta e articulador cultural, então às voltas com a experiência do Papoético, uma roda de conversas com convidados diversificados, que acontecia no Chico Discos, local de reunião de alguns boêmios inveterados da cidade. A partir daí, temos uma sucessão de figuras variadas da música (Gildomar Marinho, Bruno Batista, Marcos Magah, Henrique Menezes), do cinema (Frederico Machado, Mavi Simão, Francisco Colombo, Paulo Blitos), do teatro (Lauande Ayres), das letras não acadêmicas (Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben, então editores da revista Pitomba!), nomes da militância sindical ou dos direitos humanos (Novarck Oliveira, Ricarte Almeida Santos) e as cantoras Flávia Bittencourt, Lena Machado e Patativa. Um sarapatel da melhor qualidade, feito com os ingredientes do Maranhão, mas aberto a acolher visitantes e temperos de outras plagas. Para arrematar, dois pequenos textos, sobre os 30 anos do disco Fulejo, de Dércio Marques, o lançamento de Baratão 66, um quadrinho anárquico de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum, e uma enquete, feita com onze pessoas ligadas ao meio musical, sobre os 12 discos mais importantes da música maranhense, realizada em 2013, quando se comemoravam os 35 anos do lançamento de dois discos fundamentais, Bandeira de Aço, de Papete, e Lances de Agora, de Chico Maranhão.

A ideia da reunião desse material em um volume liga-se à comemoração dos dez anos do Vias de Fato, que tornou-se uma referência de crítica contundente e ácida de quem não tem medo de chutar o pau da barraca. O jornal deixou de circular, mas a marca ficou e a ação de Emílio se dirigiu para uma rádio web, a Agência Tambor, em conjunto com a jornalista Flávia Regina e o jornalista Ed Wilson, onde a verve do Vias de Fato se mantém viva em entrevistas e enfoques na contracorrente dos discursos oficiais.

Para completar a armação e efetivar essa saudação ao Vias de Fato, Isis Rost abraçou a ideia com entusiasmo, elaborou o projeto gráfico, reuniu material fotográfico e abrigou o livro no selo Passagens, sua pequena editora, que tem o hábito salutar de disponibilizar gratuitamente as versões em e-book. A Equatorial arcou com a maior parte dos custos de publicação e o resto foi levantado entre amigos. Tudo bem ao estilo livre e comunitário do Vias de Fato. As entrevistas aqui reunidas são um registro vivo das perspectivas e impasses que marcaram a cultura maranhense nesta década. Os entrevistados em sua totalidade são figuras da criação, gente inquieta, e Zema consegue mergulhar em cada universo, revelado de maneira direta ao leitor.  É jornalismo de qualidade, feito fora dos grandes holofotes, mas no olho do furacão.

*

Acima, prefácio de Penúltima página, assinado pelo querido Flávio Reis, professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA. Por whatsapp a editora Isis Rost me mandou as fotos que ilustram o texto, anunciando que a edição impressa já saiu da gráfica e está a caminho. Entre o tempo de transporte e o carnaval, logo, logo anunciaremos a data do lançamento. Fiquem ligados!

Um despretensioso panorama

Penúltima página. Capa. Reprodução
Penúltima página. Capa. Reprodução

“Lendo esta série de entrevistas do Vias de Fato, com personagens já tão familiares (Gildomar Marinho, Bruno Azevêdo, Celso Borges, Ricarte Almeida), noto que o amálgama comum a todos eles e a todas as interlocuções é na verdade a ponte cultural que interliga tudo: a curiosidade insaciável de Zema Ribeiro.

Do choro à literatura, do teatro ao boi, da arqueologia cultural à agitação geracional, dos cancionistas aos samurais da edição independente, esgrimindo doses precisas de rigor e senso dionisíaco, os textos nos levam ao bar e à academia, ao terreiro e aos velhos cinemas Éden e Roxy, aos becos e às festas de reggae.

Principalmente, as entrevistas remontam um cenário cultural e social que se mostra imprescindível para compreender a parabolicamará que move o Maranhão, sua antena particular de compreensão do universo pelo filtro da poesia, da linguagem. As políticas da perseverança e da honestidade intelectual permeiam tudo, da compreensão profunda de Ricarte (“As pessoas vivem e morrem à míngua”) à visão cósmica de Celso Borges, leitor de coisas intangíveis, como a revista Coyote.

Haicais e boutades escorrem desses saborosos textos. “Eu não conserto versos por conveniência”, decreta Gildomar Marinho. É uma complexa teia de análise, mas, por um motivo de puro mistério, não é possível, na leitura dos textos, dissociar política de música, literatura de combate, visionarismo de consciência.

Leia e seja mais um destrambelhado conosco.”

*

No dia de meu aniversário, o site da Editora Passagens, da amiga-editora Isis Rost, disponibilizou o texto acima, a orelha de Jotabê Medeiros (CartaCapital, Farofafá) para Penúltima página: Cultura no Vias de Fato, que reúne 14 entrevistas e seis textos que publiquei entre 2009 e 2016, período em que colaborei com o jornal mensal Vias de Fato, um despretensioso panorama cultural do período, não restrito ao Maranhão. O prefácio do livro é de Flávio Reis.

De algum modo, o livro é uma forma de celebrar os 10 anos que o Vias de Fato teria completado ano passado e é publicado com apoio cultural da Equatorial Energia e um punhado de amigos que se dispôs a colaborar, a fazer a ideia ir pro papel. O livro já está disponível para download e o volume impresso chega em breve, cujo lançamento este blogue cabotinamente anunciará. Aguardem! Enquanto isso, baixem o e-book!

O jornalista bolsonarista

No dia seguinte ao AI-5 a genialidade de Alberto Dines (1932-2018), então editor-chefe do Jornal do Brasil, driblou os censores de plantão. Reprodução
No dia seguinte ao AI-5 a genialidade de Alberto Dines (1932-2018), então editor-chefe do Jornal do Brasil, driblou os censores de plantão. Reprodução

 

Jair Bolsonaro sequer sabe que ele existe, mas o jornalista bolsonarista insiste em bajular o presidente, fazendo malabarismos argumentativos para justificar atos desastrados ou falas idem do invasor do Palácio do Planalto.

O jornalista bolsonarista, como de resto qualquer outro profissional bolsonarista (ou bolsonarista profissional), acredita estar acima do bem e do mal. Como seu ídolo (ou “mito”, como prefere/m) se elegeu e governa a partir de uma onda de mentiras – fake news é eufemismo! –, ele acredita que o fato de divulgar “informações” que interessam ao regime lhe dá alguma espécie de cumplicidade ou intimidade com o mandatário e seus asseclas.

Ilude-se o jornalista bolsonarista ao acreditar fazer parte de uma espécie de clube vip – nesse caso, o important da sigla pode ser substituído por idiot.

O jornalista bolsonarista acredita que nada o atingirá. Ele bate palmas para a censura, sem se importar que um dia pode ser ele o amordaçado. Ele aplaude o ataque sistemático à cultura, às artes e ao pensamento. E até mesmo ao jornalismo, em si.

O jornalista bolsonarista nada contra a corrente. Está sozinho, isolado. Os colegas de firma riem de sua cara, diante dele ou em sua ausência. Obviamente o jornalista bolsonarista já percebeu que o governo naufragou, mas aferra-se ao fato de ele ter sido “legitimamente” eleito.

O jornalista bolsonarista chega mesmo ao ridículo de recomendar a colegas identificados como “de esquerda” ou progressistas que guardem seus argumentos, que haverá novas eleições em 2022. Mas disso nem mesmo o jornalista bolsonarista tem certeza.

Na contramão da média, o jornalista bolsonarista parece querer comprovar a tese de Nelson Rodrigues, de que toda unanimidade é burra. Ele é o burro, a confirmar a regra rodrigueana, a livrar a firma da unanimidade.

O jornalista bolsonarista esquece, não sabe, ou finge não saber que o cronista genial só bateu palmas para os generais até o dia em que teve um filho preso e torturado, quando mudou o tom ao opinar sobre aquela outra ditadura brasileira.

O jornalista bolsonarista não sabe escrever sequer em português, mas recorre a termos em latim para dar um ar de sofisticação aos textos que escreve. O que é raro: em geral o jornalista bolsonarista prefere copiar textos prontos.

O jornalista bolsonarista é desonesto: às vezes copia textos alheios sem dar o devido crédito. É desleal mesmo com os que defendem os mesmos ideais que ele.

Talvez por isso os ataques do caudilho ao pensamento não lhe incomodem: ele já não consegue pensar, quanto mais sozinho. O ato de encaminhar mensagens que defendam o governo é automático.

Mas não digo que o jornalista bolsonarista seja uma piada. Ele é parte de uma engrenagem muito maior e nociva, um idiota útil a serviço de um projeto de destruição. Tão útil e tão idiota que cumpre seu papel voluntariamente. E sente-se satisfeito e recompensado por isso.

O jornalista bolsonarista é, como qualquer bolsonarista, um covarde. Um cão que só late por detrás de uma tela de computador ou celular, de onde profere impropérios contra qualquer um que ouse discordar de suas opiniões, mesmo que elas não se baseiem em nada além de convicções frágeis como um dente-de-leão.

Outro dia topei com um jornalista bolsonarista. Ele sequer me deu bom dia, empurrou a porta entreaberta cuja maçaneta eu segurava e passou zunindo, bufando, franzindo o cenho e derramando boa parte do café que trazia, obrigando a moça da limpeza ao serviço extra de limpar sua sujeira, pelo que certamente não lhe agradeceu, afinal de contas, para ele, ela estava apenas fazendo sua obrigação. Segundo sua lógica, ela é quem deveria agradecê-lo, afinal de contas, se ele não sujasse, ela não teria emprego.

Porque o jornalista bolsonarista é orgulhoso de sua própria ignorância e arrogância, que ele confunde com ser inteligente – mas nisso só ele mesmo acredita.

Tanto é que o jornalista bolsonarista é, ele também um, o típico eleitor, defensor e adorador do “mito”, que protestava contra o preço da gasolina a menos de três reais, mas nada diz quando esta custa quase cinco. Tampouco escreverá uma linha contra o anúncio do fim do seguro DPVAT e o consequente efeito sobre o orçamento do SUS. Ou sobre a ideia do mandachuva de fundar um novo partido, o nono ao qual se filiaria ao longo de sua errante trajetória política.

O jornalista bolsonarista não deixa de sair em defesa de seu ídolo nem quando este supostamente o prejudica: o presidente acabou com a necessidade de registro profissional para jornalistas, publicitários e outras categorias, mas para o abjeto objeto desta antiode, obviamente o “mito” agiu certo, afinal de contas, tratava-se apenas de mera burocracia.

Conheço a história de alguns ídolos do rock’n’roll que morreram asfixiados pelo próprio vômito após uma overdose. Parece uma morte mais digna que terminar afogado na própria baba hidrófoba.

Lições de um biógrafo

Francisco Gonçalves e Fernando Morais. Foto: Zema Ribeiro

 

O jornalista e escritor Fernando Morais deu uma aula de jornalismo, ontem (21), no auditório do Palácio Henrique de La Rocque. Sua palestra integrava a série Diálogos Insurgentes, promovida pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop).

Autor de Olga, Chatô – O rei do Brasil e Corações sujos, para citar os que foram adaptados ao cinema, sua bibliografia inclui ainda A ilha, Os últimos soldados da guerra fria (também prestes a chegar às telonas, dirigida por Olivier Assayas, coprodução França/Estados Unidos, com Wagner Moura, Penélope Cruz e Elijah Wood no elenco), e O mago – A incrível história de Paulo Coelho. Ele atualmente trabalha num livro sobre o ex-presidente Lula; a história deve abarcar o período entre sua primeira prisão, em 1980, à atual.

Morais foi deputado estadual e secretário estadual da Cultura [1988-1991] e da Educação [1991-1993] em São Paulo.

A conversa foi mediada pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular Francisco Gonçalves, que apresentou o escritor, lembrando sua relação com os livros dele, desde sua época de estudante.

Fernando Morais, hoje editor do blogue Nocaute, iniciou sua fala lembrando a primeira vez em que esteve no Maranhão: no final da década de 1960, escrevendo uma matéria para o Jornal da Tarde baiano, sobre a Transamazônica – a rodovia de mais de 4 mil km de extensão liga Cabedelo/PB a Lábrea/AM, cortando o Maranhão na altura do município de Balsas. O jornalista e sua equipe, que rodavam num jipe adaptado para enfrentar as péssimas condições das estradas da época, acabaram presos. A reportagem acabou lhe rendendo o primeiro dos três prêmios Esso de jornalismo que recebeu.

“Foi uma noite de cana, nada mais grave. É que quando viram a gente barbudo, cabeludo, num jipe, pensaram que éramos guerrilheiros comunistas”, divertiu-se. Bom humor e críticas ao governo de Jair Bolsonaro marcaram a palestra. Tomei notas, as aspas a seguir. As falas de Morais, uma verdadeira lição, contêm preciosos conselhos a profissionais e estudantes de jornalismo – e de algum modo a brasileiros em geral.

“O Nordeste ensinou o Brasil a votar. O país vive um momento conturbado, o Brasil está à beira do vulcão. O Nordeste reagiu a Jair Bolsonaro”.

“Um dos pré-requisitos para eu escolher um personagem para biografar é através da história dele poder contar um pedaço da história do Brasil não escrita nos livros oficiais”.

“Comecei a trabalhar como contínuo em uma revista de banco aos 14 anos. Comecei na profissão servindo café aos jornalistas”.

“Não conheço ninguém que saiba escrever que não seja um leitor compulsivo. Pode fazer o curso de jornalismo que for, onde for, Harvard, qualquer lugar, seja escritor de livros, de jornalismo, o que for: tem que ler”.

“O jornal, como a gente conhece, de papel, acabou. Essa vaca já foi pro brejo. Livro também, está com os dias contados. A internet substituiu o jornal com uma vantagem muito grande. Vou tomar como exemplo o linchamento e empalamento do [ditador libanês Muammar] Kadafi [1942-2011]. Vi ao vivo no dia, e no dia seguinte nenhuma novidade nos jornais. Houve a migração do jornalismo de papel para o eletrônico. Não estou decretando a morte do jornalismo, mas prevendo a morte do jornal de papel e do livro. A televisão também vai pro brejo: vai virar monitor de internet. Em vez de ver internet numa coisinha desse tamanho, vai ver em 80 polegadas”.

“Há um ditado mineiro que diz: “Chove na frente, chove atrás”. A internet boa e revolucionária é também terreno de crimes. A eleição de Bolsonaro foi fraudada por uma corrente de fake news. Isso está provado. Não é uma fantasia de um cara de esquerda. A Folha de S. Paulo comprovou que uma empresa ofereceu [o serviço sujo] aos tucanos, a Folha publicou a fatura. A empresa vendia por 8 milhões de reais disparos de fake news para 120 milhões de adultos e você podia escolher os filtros: região, renda etc. [Nos Estados Unidos] Milhões de pessoas receberam notícias de que Hillary Clinton fazia orgias quando era casada com o então presidente Bill Clinton. Atualmente é preciso um esforço permanentes para não ser enganado. As pessoas precisam, sobretudo os mais jovens, aprender a distinguir origem e veracidade do que se lê todo dia”.

“Depois da escolha do personagem ou assunto vem um trabalho braçal de pesquisa. Fiz 230 entrevistas para escrever Chatô. Desde entrevistas de uma hora a entrevistas de uma semana de duração. Dona Alzirinha Vargas, a única [filha de Vargas] viva na época, faleceu pouco depois da entrevista. Fumou um maço de continental sem filtro, parecia uma chaminé, uma locomotiva, um cigarro que não existe mais. Falou comigo cinco horas. Falou sobre o pai, coisas saborosíssimas”.

“Recomendo a trilogia sobre Getúlio Vargas escrita pelo Lira Neto. Ele me dá o crédito, por coisas que eu passei pra ele”.

“A gente vai aprendendo a selecionar as coisas. Toda profissão atribui ao profissional uma natureza adicional. Um bom alfaiate é capaz de, pegando no pano, dizer se dá ou não uma boa camisa; um pedreiro, pegando o tijolo, pode dizer se vale fazer uma casa com ele ou se a casa vai cair. O jornalismo acaba nos dando, sobretudo aos mais experientes, a possibilidade de ver coisas que pessoas de outras profissões não veem. Eu sou casado com uma historiadora com pós-doutorado na França e nós temos divergências sobre o que é e não é importante”.

“Não basta empilhar e publicar. Escolher bem o tema, o personagem, ser rigoroso com as informações, mas tem que escrever com elegância, prender a atenção do leitor. Seduzir. Ou você escreve assim ou pode mudar de profissão”.

“Não pode ter preconceito de natureza ideológica. Você não pode virar o autor da esquerda ou da direita, se não você perde o crédito com o seu próprio leitor. Quando eu anunciei que iria escrever a biografia do Antônio Carlos Magalhães [1927-2007, político baiano], as pessoas perguntavam o que eu bebi, o que eu fumei. Mas é o único personagem que ficou no poder de Getúlio a Lula; se você é jornalista e não se interessa, vá vender ações na bolsa, vai ganhar dinheiro e ser muito feliz”.

“Depois de Olga eu ia fazer a biografia do [delegado Sérgio Fernando Paranhos] Fleury [1933-1979], um dos piores torturadores da ditadura militar brasileira. Mas o Percival [de Souza, jornalista] foi antes e fez [Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury].

“Fui o único jornalista brasileiro a entrevistar Julian Assange [ativista, fundador do WikiLeaks]. Contou coisas cabeludíssimas sobre Michel Temer e suas relações com Chevron e Exxon Mobil já visando o pré-sal. Ele ainda era vice da Dilma. Agora, eu sou contra a forma como o Temer foi preso. A polícia avisou a Globo antes da vítima. Não estou defendendo o Temer. Se você acha que pode isso para o inimigo, não reclame quando for contra você”.

“Não pode ter preconceito ao fazer livros de não-ficção. O autor quer ser lido, não por dinheiro nem por vaidade. Eu quero ser lido por muita gente. Eu escrevo para pagar o condomínio, a mercearia, o açougue…”.

“Quem tinha razão era Darcy Ribeiro: o Brasil é uma maravilha. O que falta é gente pra contar isso. Aqui em São Luís, se alguém se dispuser a contar, desde a história de um anônimo a alguém que influenciou os rumos do país. Tem que fuçar, tem que gostar. Tem muita história. Tem história que não acaba mais: dá livro, filme, minissérie. Se a Netflix soubesse o que tem na minha cabeça eles me contratariam. Muita coisa que eu não vou ter tempo de fazer”.

“Minha biblioteca, modesta, de cinco mil volumes será doada à Mariana [cidade mineira em que Morais nasceu]. Junto à biblioteca o acervo de cartas e de fitas com todas as entrevistas. Está sendo montado um centro em Mariana para tornar público esse acervo. Depois de isto anunciado, já recebi doações de cartas de Carlos Lacerda [jornalista e político brasileiro, fundador da Tribuna da Imprensa], depois do Sérgio Mota [1940-1998, ex-ministro das Comunicações]. O Zé Dirceu [José Dirceu, político e advogado, ex-ministro-chefe da Casa Civil] como eu é um guardador de papel: guardou desde o movimento estudantil até a cadeia. Ele doou quatro caminhões baú com os acervos dele. Tudo vai ser catalogado, digitalizado e disponibilizado à população pela internet: o cara acessa em Tóquio ou em São Luís ou em Alcântara. Que agora querem entregar pros gringos na faixa, 0800”.

“Recuperação judicial é o nome tucano da concordata [referindo-se aos calotes de grandes livrarias em editoras – e autores]. Eu estou recebendo direitinho por que a minha editora, a Companhia das Letras, é grande, não está repassando os prejuízos aos autores”.

“[Percebendo que a palestra se aproxima do fim:] Se me deixar eu fico 15 dias [falando], tomando água, tomando remédio, daqui a pouco eu peço para fumar um charutinho escondido”.

“O que seduz o leitor é o humano. Melhor que escrever sobre uma fábrica é escrever sobre um cachorro atropelado na esquina, o dono do cachorro, o motorista que atropelou. A essência do humano está aí nessas histórias”.

“Há três biógrafos muito bons, que eu recomendo: Mário Magalhães [autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo], Lira Neto e Lucas Figueiredo [autor de O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier].

“Quando eu divulguei que estaria aqui, o Eric Nepomuceno, o tradutor do Gabriel García Márquez, disse: “eu quero ir, diz para me convidarem, eu pago minha passagem!”” [risos].

Jornalista Zema Ribeiro celebra 15 anos na blogosfera

[release]

Blogue Homem de vícios antigos tem a cultura como principal pauta. Mesa redonda e festa marcam comemoração.

Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros em Marémemória, encenada pelo Laborarte em 1973, baseada no livro-poema homônimo de José Chagas. A foto de Murilo Santos tornou-se marca do blogue

O blogue Homem de vícios antigos, majoritariamente dedicado a pautas culturais, editado pelo jornalista Zema Ribeiro, completou 15 anos no ar em abril. Para celebrar a data estão programadas uma mesa-redonda e uma festa, que acontecerão no próximo dia 11 de maio (sábado, véspera do Dia das Mães).

“Iniciei o blogue como um exercício, assim que entrei na faculdade. Era um espaço de divulgar agendas de artistas amigos, depois evoluiu, se profissionalizou. Acabou virando literalmente um vício”, conta Zema Ribeiro, que tem 15 anos de profissão, tendo atuado principalmente em jornalismo cultural e assessorias de organizações de direitos humanos.

Além de editar o blogue, Zema Ribeiro atualmente apresenta, na Rádio Timbira AM, os programas Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, de meio-dia às 14h) e Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 22h), é colaborador do site de jornalismo musical Farofafá e diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem). Sua trajetória profissional é marcada também por colaborações com todos os jornais de São Luís, além das revistas Top (São Luís), Overmundo (Rio de Janeiro) e Brazuca (França, bilíngue). O jornalista também foi colunista do site do Instituto Itaú Cultural.

Mesa redonda – O bate-papo terá como tema “Uma experiência de jornalismo cultural no Maranhão: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos” e, além do editor do blogue, terá as presenças de Alberto Jr. (radialista, Mestre em Cultura e Sociedade/UFMA, apresentador do programa Quintal Cultural, na Rádio Timbira AM), Jotabê Medeiros (jornalista, editor de cultura da revista CartaCapital e do site Farofafá) e Polyana Amorim (radialista, Mestre em Cultura e Sociedade/UFMA, coordenadora do curso de Comunicação Social do Ceuma).

“Os escafandristas que virão explorar as ruínas da antiquada civilização na qual vivemos atualmente vão encontrar pouca coisa memorável. O blogue do Zema Ribeiro, Homem de vícios antigos, que professa paixão pela obsolescência tecnológica do ferramental que se alimenta do humano – os livros, os discos, o jornalismo –, certamente será um notável resgate. Porque se nutre daquilo que não envelhece jamais: o espírito. A boa música, a boa literatura, a fabulosa história em quadrinhos, a fantástica cultura popular. No presente, todos os microblogs serão famosos durante 15 segundos, mas o macroblogue do Zema já viveu mais do que 15 anos: viveu para sempre”, declarou Jotabê Medeiros.

A mesa redonda acontecerá no auditório do Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro), dia 11 de maio (sábado), às 16h, com entrada franca. Com capacidade para 180 lugares, é necessário se inscrever pelo e-mail zemaribeiro@gmail.com

Baile de debutante – “Não existe 15 anos sem baile de debutante”, brinca Zema Ribeiro, ao anunciar a festa, que acontecerá no Chico Discos (Rua de São João, 289-A, Altos, Centro, esquina com Afogados), na mesma data, às 19h, e terá como atrações a dj Vanessa Serra e o Regional Choro da Tralha. O grupo é formado por Gabriela Flor (pandeiro), Gustavo Belan (cavaquinho), João Eudes (violão sete cordas), Chico Neis (violão), João Neto (flauta) e Ronaldo Rodrigues (bandolim).

Ao saber do aniversário, completado no último dia 28 de abril (data, em 2004, da primeira postagem), Vanessa Serra se manifestou em uma rede social: “Parabéns! E viva o Jornalismo feito com amor e seriedade! E umas doses de brilho!”.

“O [blogue] Homem de vícios antigos é, sem dúvida, um espaço onde é possível sentir algum alívio perante a desumanização dos tempos atuais. A começar pelo nome, que logo desperta curiosidade naqueles/as que ainda insistem em manter hábitos quase esquecidos, o blogue desempenha um papel que vai além de trazer informação sobre fatos, produções e atividades culturais e artísticas. Informa, mas também forma, mexe com nossas memórias, provoca, diverte, emociona”, elogia Gabriela Flor.

Chico Neis completa: “Além do visível compromisso com a arte e a cultura, vemos também uma forte presença maranhense, em textos apurados, coerentes e bastante acessíveis, o que não é tarefa fácil – o mais difícil é fazer o simples bem feito. Para resumir: um blogue necessário”.

“Desde que o blogue completou 10 anos a gente vinha pensando em realizar algo, mas nunca dava certo, eu mesmo não dava importância e a coisa não andava. Agora alguns amigos somaram, se doaram e a ideia deixou a cabeça e ganhou o Centro Cultural, o Chico Discos, e vai acontecer. Agradeço a todo mundo que embarcou nessa viagem maluca, com destaque para o amigo Otávio Costa, um leitor fiel do Homem de vícios antigos”, agradece Zema Ribeiro.

“Vanessa Serra é uma das djs mais requisitadas do cenário ludovicense e das rodas dominicais do Choro da Tralha, no sebo Feira da Tralha, que acabou por emprestar nome ao grupo, virei habitué. É uma enorme honra contar com suas presenças na festa, além dos amigos que, à tarde, estarão na mesa, meu professor Jotabê, um ídolo que virou amigo, e os amigos Alberto e Polyana, certamente teremos dois momentos com um nível excelente, sem falsa modéstia”, continua. “Todos eles, de algum modo, fazem parte da história do blogue, desses 15 anos de trajetória”, arremata.

SERVIÇO

15 ANOS DO BLOGUE HOMEM DE VÍCIOS ANTIGOS

Mesa redonda

Uma experiência de jornalismo cultural no Maranhão: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos. Com Zema Ribeiro, Alberto Jr. (Rádio Timbira AM), Jotabê Medeiros (CartaCapital, Farofafá) e Polyana Amorim (Ceuma).

Quando: dia 11 de maio (sábado), às 16h.

Onde: Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro).

Quanto: grátis. Inscrições pelo e-mail zemaribeiro@gmail.com (capacidade do auditório: 180 lugares).

Festa

Baile de debutante: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos. Com Regional Choro da Tralha e dj Vanessa Serra.

Quando: dia 11 de maio (sábado), às 19h.

Onde: Chico Discos (Rua de São João, 289-A, Altos, Centro, esquina com Afogados).

Quanto: R$ 20,00 (capacidade do bar: 50 pessoas).

Para mudar concepções e posturas

Auditório da OAB/MA ficou lotado para bate-papo com Marcelo Canellas. Foto: Ascom/OAB/MA

 

Caco Barcelos esteve em São Luís na última segunda-feira (7), quando participou do lançamento do I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos, no auditório da seccional.

Tino Marcos falou para uma plateia lotada de profissionais e estudantes, a quem o prêmio é voltado, em cinco categorias – impresso, rádio, tevê, webjornalismo e fotojornalismo –, com premiações de R$ 3.000,00 e R$ 500,00, para profissionais e estagiários, respectivamente. O edital está disponível no site da OAB/MA.

A comissão julgadora será formada por representantes dos sindicatos dos jornalistas e radialistas, Defensoria Pública da União, Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, e coordenações dos cursos de comunicação da UFMA, Estácio e Ceuma.

Começo brincando com o nome do jornalista a evocar diversas situações em que Marcelo Canellas – uma das reservas morais da Globo, foi ele quem veio, na verdade – foi confundido com colegas de ofício e casa. Contar estes causos foi seu jeito descontraído e leve de extrapolar o tema proposto para a noite, “Jornalismo e cidadania”, e conquistar o público.

Ao citar as “confusões”, de gente anônima e famosa, trouxe à baila a questão da vaidade. Todo mundo tem, é natural, o lance é saber dosar. O jornalista precisa ser movido por outra coisa. “Quando eu comecei, eu queria mudar o mundo. Hoje eu continuo querendo isso, mas sei que não vou conseguir sozinho”, declarou.

Canellas lembrou-se de que uma das motivações que o levaram ao jornalismo – completa 30 anos de profissão em 2017 – foi a leitura do clássico Geografia da fome, do pioneiro Josué de Castro. “Quando eu for jornalista vou fazer uma matéria sobre este livro”, prometeu a si mesmo.

Fez uma série, espécie de Nova geografia da fome – roubo aqui o título do livro de Xico Sá e Ubirajara Dettmar, lançado depois – em tempos pré-Bolsa-família. Canellas lembrou-se de uma entrevistada da primeira reportagem da série. “Quando vi aquela mulher na soleira, era a própria personificação da indesejada das gentes”, comentou, dando um exemplo de como o jornalista precisa também ter faro e acreditar nele. “Quando cheguei com a equipe, a primeira coisa que fiz foi uma vaquinha com os colegas. Fomos à mercearia do lugar e compramos arroz, feijão, açúcar”, ele revelou não ac(r)e(d)itar (em) imparcialidade e neutralidade jornalística.

“A segunda coisa que fiz”, continuou, “foi procurar o orelhão mais próximo e ligar pedindo uma ambulância. Aquela senhora ia morrer. Enquanto a ambulância chegou eu fiz a entrevista mais perturbadora de minha carreira”.

A primeira reportagem da série foi ao ar algum tempo depois e Canellas assistiu, em casa, satisfeito. No dia seguinte, esperou ansiosamente para ver a segunda e, qual não foi sua surpresa, Fátima Bernardes, à época âncora do Jornal Nacional, leu uma nota, ao fim, anunciando a morte daquela personagem, 15 dias após seu depoimento ao repórter.

“Eu sou muito emotivo. Tenho interesse pela vida das pessoas. Com alguns personagens eu chego a manter contato por anos, de outros viro amigo”, revelou, respondendo à pergunta de alguém da plateia.

Provavelmente a grande maioria dos presentes ao lançamento do certame vá escrever e inscrever matérias concorrendo ao prêmio. Canellas, com a leveza habitual, sem posar de “professor que tudo sabe”, deu conselhos, principalmente a quem está começando: “ninguém chega a lugar nenhum sendo vaquinha de presépio, concordando o tempo inteiro com o que o chefe determina”.

Repórter especial do Fantástico há alguns anos, ele citou como exemplo as reuniões de pauta do dominical global: “é a reunião do pau, a reunião em que colega briga com colega e colegas brigam com chefes, tentando convencer o porquê da importância de determinado assunto virar pauta”. Para ele, que quando começou a carreira “passava notícia do orelhão, na ficha, disputando o telefone com a moça que ligava para a tia”, a questão é tirar o máximo de proveito das novas tecnologias, sem descuidar da qualidade da apuração e do texto.

Produto escasso no mercado contemporâneo, abordou a ética na ótica de Claudio Abramo, segundo o qual “não existe uma ética jornalística propriamente dita. A ética do jornalista é a mesma ética do marceneiro. O que ele queria dizer com isso? Que se você for ético e honesto como pessoa, você será um jornalista ético e honesto”. Canellas sabe fazer citações sem nunca tornar sua fala maçante. Lembrou ainda de A melhor profissão do mundo, discurso que Gabriel García Marquez proferiu em 1996 em uma assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol).

Penso que o I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos contribuirá para melhorar o nível da cobertura do tema, em geral pautado pelos jargões reverberados pela “legião de imbecis” (conforme Umberto Eco) que usam a expressão “bolsomito”.

Curioso que parte desse público – talvez até houvesse alguns na plateia, na ocasião – que trata, como ele salientou, “os direitos humanos como uma entidade metafísica ou um departamento do governo”, por vezes bata palmas para as reportagens televisivas do Canellas, sem se tocar que elas, no fim das contas, estão abordando questões de… direitos humanos.

Por exemplo as duas com que ilustrou sua palestra: uma tratava de um esquema fraudulento de adoção de crianças, que, com o verniz legal aplicado por juízes e promotores, beneficiava famílias ricas em detrimento de famílias pobres, nada de novo no front brasileiro; a outra acompanhava a saga de um músico que começou a ensinar música para crianças em instrumentos feitos de material reciclável catado em lixões de Assunção, Paraguai. A orquestra-mirim já rodou o mundo.

Que o I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos, além de qualificar a cobertura das diversas temáticas a que se propõe, consiga contribuir também para mudar concepções e posturas em meio à nossa classe. Oxalá!

“Para cada craque há um escritor ou poeta correspondente” e para todos há Xico Sá

A pátria em sandálias da humildade. Capa. Reprodução
A pátria em sandálias da humildade. Capa. Reprodução

 

Xico Sá é o nosso melhor cronista esportivo desde Nelson Rodrigues – seu padrinho espiritual, ao lado de Edgar Alan Poe, que empresta nome ao agourento corvo com que seca adversários e graúdos.

As linhas entre a literatura e o jornalismo em seu fazer cotidiano são tão tênues que dão nisso: A pátria em sandálias da humildade [Realejo Edições, 2016, 228 p.; R$ 33,60], cujo título obviamente refere-se ao vexame brasileiro em casa, na última Copa do Mundo, os 7×1 da derrota para os alemães.

O livro é uma coletânea de sua produção nos últimos pouco mais de 10 anos, com textos publicados na Folha de S. Paulo e El País, um sobre – pasmem! – uma vitória do Íbis (na extinta revista 10), além de um inédito, incluindo missivas ao jogador-pensador-doutor Sócrates, seu saudoso colega de Cartão Verde, programa da TV Cultura cuja bancada integraram juntos.

Os textos de Xico Sá sobre o ludopédio não se encerram nas quatro linhas e é aí que ele triunfa, como se fosse aquele jogador que além de jogar bonito ainda marca os golaços de uma vitória por goleada.

Para Xico Sá, futebol é sociologia, através do qual tenta explicar e entender o Brasil, é também filosofia e psicanálise de botequim. Ele esbanja categorias ao citar filmes, livros e canções, ao comentar política. Nunca soa pedante, nada soa excessivo neste livro que agradará até mesmo quem não gosta de futebol.

Os textos sobrevivem ao prazo de validade do jornal impresso e ao embrulhar peixes do dia seguinte. Ao relermos, revivemos dramas, na vitória e na derrota. Com a categoria habitual do cronista, que escreve como se, qual Sócrates, desse um passe de calcanhar, deixando o leitor na cara do gol.

Seu consultório sentimental também está aberto ao longo das páginas, seja em cartas abertas que endereça a craques como Neymar, Adriano, Ronaldo e o próprio Sócrates, seja ao tratar do futebol em âmbito conjugal.

A coletânea A pátria em sandálias da humildade acompanha o período de três Copas do Mundo, incluindo o vexame do Mineirão. Xico humaniza a tragédia. Aliás, não é só esta elite futebolística que interessa ao cronista, muito pelo contrário: num livro bom por inteiro, os melhores textos são justamente sobre times e campeonatos menos nobres, a série D, a Lampions League, onde os fracos não têm vez.

“A noite de 10 de novembro de 2016, depois de um 3×0 contra a Argentina de Messi, vai ficar marcada no calendário freudiano do torcedor brasileiro como o dia em que ele jogou fora a tarja preta de um luto que parecia sem fim. Dois anos e quatro meses depois do tragicômico 7×1, neste mesmo Mineirão, mesmo o mais chic dos playbas e a mais grã-phyna das neymarzetes saíram do estádio mascando o torresmo da superação”, anota no inédito Rumo à estação Finlândia, camarada Tite, acertadamente otimista, sobre a já garantida vaga para a Copa na Rússia ano que vem.

Que venham ainda muitas Copas, séries A, B, C e D, estaduais, amistosos e peladas em várzeas. A pátria em sandálias da humildade é um gol de letra, mais uma prova de que Xico Sá é um craque, longe de pendurar as chuteiras.

Jornalismo com J maiúsculo

Reportagens. Capa. Reprodução
Reportagens. Capa. Reprodução

 

A nanobiografia do autor, ao fim do volume, afirma: “formou-se em jornalismo, mas deixou a profissão para se dedicar às histórias em quadrinhos”. A bem da verdade, ele não deixou a profissão: Joe Sacco [Malta, 1960] tornou-se talvez o mais importante autor de jornalismo em quadrinhos e este Reportagens [Quadrinhos na Cia., 2016, 199 p.; tradução de Érico Assis; leia um trecho] é prova inconteste.

Aliás, Journalism é o título original deste álbum, que reúne verdadeiras lições de jornalismo – e geopolítica – em um gênero em geral tido como menor, menos sério ou menos importante. O próprio Sacco assina uma “saraivada introdutória para achacar todos aqueles que se opõem à legitimidade dos quadrinhos como forma eficiente de fazer jornalismo” – lição número um.

Seu trabalho é tão profundo quanto reportagens que se utilizam apenas de palavras e fotografias – aliás, seus quadrinhos deixam no chinelo muitos jornalistas acostumados (viciados) aos ares-condicionados de confortáveis redações e/ou ao copia e cola de releases e opiniões prontas dos patrões.

Joe Sacco não vai apenas para a rua, como é necessário para o bom e velho jornalismo, não apenas enfia os pés na lama: ele vai literalmente para o meio do olho do furacão, retratar dramas humanos em zonas de guerra.

Reportagens é uma coletânea de trabalhos de menor extensão publicados por ele mais ou menos recentemente em revistas e jornais como Boston Globe, Details, Guardian Weekend, Harper’s Magazine, New York Times Magazine, Virginia Quarterly Review e XXI.

O jornalista-quadrinhista é objetivo sem se tirar de cena – por vezes as reportagens têm um quê de making-of (além de um texto ao final de cada uma, detalhando pormenores de suas feituras e opiniões do autor sobre o próprio trabalho, um interessante exercício de autocrítica, inclusive).

O ponto em comum destas reportagens é a violência. O modus operandi militar – igual em qualquer parte do mundo – é alvo de Julgamentos de guerra, que se passa no Tribunal Penal Internacional, em Haia. O preconceito contra imigrantes africanos em Malta – terra natal de Sacco – é retratado em Os indesejáveis. Kushinagar retrata fiel e cruamente as injustiças, desigualdades sociais e a fome na Índia.

Se há quem ainda torça o nariz para o jornalismo em quadrinhos – gênero ainda pouco explorado no Brasil –, há quem reconheça Joe Sacco como um dos maiores correspondentes de guerra de nossos tempos, ele, autor também de Notas sobre Gaza [Companhia das Letras, 2010, 432 p.] e Palestina [Conrad, 2011, 328 p.], temas e geografias que também frequentam Reportagens.

Diante de pautas tão densas e cruéis é impossível falar em ludicidade – mesmo em se tratando de histórias em quadrinhos. Sacco não perde o bom humor e, aqui e ali, tira onda de seus interlocutores, fazendo com isso, críticas a funcionários públicos corruptos e coronéis – tenham os nomes que tiverem em outros países e línguas.

Belchior invocado

Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou "O bisbilhoteiro das galáxias". Foto: Talita Guimarães
Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou “O bisbilhoteiro das galáxias”. Foto: Talita Guimarães

 

Amanhã (23) em São Paulo, o jornalista Jotabê Medeiros reúne diversos amigos para celebrar a obra de Belchior, artista cearense de quem está escrevendo a biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, título de uma conhecida canção sua, parceria com Toquinho.

E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa
E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa

Invocação Belchior – debate-canção sobre a vida e a obra de um grande artista, o evento, reunirá, além do organizador, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, seu colega de Farofafá, o compositor Jorge Mello (parceiro de Belchior e fonte de Jotabê na biografia) e Josy Teixeira, doutora em Belchior pela USP, além de músicos revisitando clássicos e lados b do cearense: Edvaldo Santana, Juliano Gauche, Assucena Assucena (vocalista de As Bahias e a Cozinha Mineira), Mário Bortolotto e o próprio Jorge Mello.

“Eu tenho diversos amigos que partilham comigo essa paixão pela obra do Belchior e pela coerência artística dele. Me ocorreu que é legal manter uma obra como a dele, que está agora, talvez, um tanto quanto esquecida, pelo fato de que ele deu um sumiço, que seria legal reunir as pessoas que têm algo a dizer e fazer umas provocações. Os beatniks faziam muito isso, houve uma tradição uma época no mundo cultural, reunir as pessoas, o dadaísmo se reunia no Cabaret Voltaire, lá em Zurique, e lá eles realizavam suas provocações artísticas. A gente esqueceu um pouco essa tradição, tá tudo muito ligado a questões como showbiz, a realização de um show, achei até que essa coisa da extinção do Ministério da Cultura liberou um pouco pras pessoas fazerem ações coletivas sem fins outros que não a própria ação. Esse encontro, Invocação Belchior, é uma coisa assim, eu até brinquei, como tinha essa coisa lá nos beatniks, os belchniks vão se reunir no dia 23 aqui em São Paulo”, anuncia Jotabê.

Biógrafo e biografado têm trajetórias parecidas, como lembra Belchior na autobiográfica Fotografia 3×4, “pois o que pesa no norte/ pela lei da gravidade/ disso Newton já sabia/ cai no sul, grande cidade”, ele cearense de Sobral, Jotabê paraibano de Sumé, o primeiro desce para o eixo Rio-SP em busca de um lugar ao sol na MPB da época dos grandes festivais, o segundo forma-se em jornalismo em Londrina/PR e fixa residência em São Paulo, onde consolida-se como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no país.

“Belchior tratou em algumas músicas da questão da migração, tem também entrevistas que tratam dessa coisa, o fato do cidadão migrante, principalmente do Nordeste, ser visto como um pária, às vezes, aqui no Sul, Sudeste, ser visto como um ser, eles fazem essa confusão, geralmente é o porteiro ou é o pedreiro, no Rio de Janeiro chamam todo mundo de Paraíba, aqui em São Paulo chamam de baiano, sempre com um tom meio agressivo, e o Belchior sentiu isso na pele e fez algumas músicas maravilhosas sobre esse sentimento. Eu sou migrante, mas vim beber pra cá pro Sudeste, conheço esse sentimento meio transversalmente, mas reconheço a grande poesia que nasce desse estado de preconceito. Belchior fez maravilhas, Fotografia 3×4 é a história de todos nós”, prossegue Jotabê.

A Belchiorgrafia em progresso e o evento de amanhã são exceções no noticiário relativo ao artista nos últimos anos, seu bigode grisalho tingido pelo marrom da imprensa sensacionalista, especulando sobre dívidas, motivações e até seu quadro psicológico. Jotabê trabalha com afinco, em meio a uma agenda intensa de compromissos profissionais, atuando como jornalista independente há pouco mais de um ano, escrevendo regularmente em seu blogue, no site Farofafá e no portal Uol.

“Seria ótimo poder falar com ele, cotejar alguns temas da obra dele, perguntar, por exemplo, eu tou tendo que ir a fontes, parceiros, para chegar, por exemplo, por que o desespero era moda em 73?, um verso famoso dele [de A palo seco]. O desespero era moda em 73 por que naquela época quem mandava no país era um general chamado Emílio Garrastazu Médici, era linha dura, a perspectiva para artistas e pessoas que eram vítimas da censura era muito dura, então ele cunhou esse verso em relação a esse período do Médici, e pouca gente sabe disso. Eu gostaria de falar com ele e perguntar para ele, diretamente. Não vai ser possível”, contenta-se.

Em 2016 Alucinação completa 40 anos. O disco de Belchior foi eleito o melhor da música produzida no Ceará, em enquete do jornal O Povo. Em outubro, o compositor completa 70 anos, quando deve ser lançado Pequeno perfil de um cidadão comum. “Vai estar na mão do editor daqui a um mês, então acho que sai. Tá previsto, vai sair”, garante. Segundo livro de Jotabê Medeiros, o aguardado sucessor de O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop [Lazuli, 2013], será certamente um presente e tanto para Belchior, seus fãs e interessados em música e jornalismo cultural em geral.

Ouça o álbum Alucinação:

*

O texto toma por base entrevista concedida por Jotabê Medeiros ao blogueiro no programa Conversa à Beira Mar da última quarta-feira (20), na Rádio Timbira AM (1290KHz).

Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

Chorografia do Maranhão: Monteiro Jr.

[Última entrevista da série. O Imparcial, 24 de maio de 2015]

Cardiologista de profissão, violonista é o 52º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Cardiologista de ofício, o médico Francisco das Chagas Monteiro Junior nasceu em São Luís em 25 de janeiro de 1960. Após o nascimento, morou em São Vicente de Férrer, na Baixada maranhense, terra natal de seus pais, Francisco das Chagas Monteiro, funcionário público estadual, coletor de renda, e a professora Maria do Rosário Monteiro. Depois, por conta do trabalho do pai, morou em Barão de Grajaú e Timon, antes de fixar-se em definitivo na capital maranhense.

Às margens do Parnaíba o violão entrou em sua vida: sua mãe comprou um instrumento de um rapaz que apareceu tocando em sua porta. Ali o menino começou a se arriscar, mas só deslanchou ao ingressar na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Cursando pós-graduação e residência médica, ele morou ainda no Rio de Janeiro – concentrado na formação profissional, acabou não aproveitando o propício ambiente carioca, embora tenha passeado por suas míticas lojas de instrumentos musicais.

Num fim de tarde no Bar do Léo, o músico “do coração” concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 52º. da série. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Brasileirinho [João Pernambuco], Abismo de rosas [Américo Jacomino] e um trecho de Choros nº. 1 [João Pernambuco].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Você nasceu em São Luís? Minha mãe veio me ter aqui. Depois eu voltei para lá [São Vicente de Férrer], fiquei uns seis anos. Depois fomos para Barão de Grajaú, por causa do lado dele [seu pai], funcionário. Depois viemos pra Timon, três anos lá, até vir para São Luís. Foi lá em Timon meu primeiro contato com violão.

Quem foi a figura? Então, como é que foi isso? Eu tinha uns 10 anos, mais ou menos, nove, 10 anos, apareceu um rapaz tocando violão lá em casa, na porta. Minha mãe, na infância, já tinha tido uma iniciação no piano, mas não continuou, não toca nada, ela tem 84 anos, hoje. Minha mãe já tinha esse contato, eu sou o filho mais velho, foi ideia dela, ela comprou o violão do rapaz, um violãozinho qualquer. Naquela época, interior, não tinha essa facilidade toda que tem hoje. Onde aprender? Com quem? Pegar de onde? Não tinha nada disso. Eu comecei a mexer ali, mas sem nenhuma orientação não rendia nada. Quando a gente veio para São Luís, eu devia ter meus 13 anos, mais ou menos, aí foi que a minha mãe contratou, iniciativa toda dela, um professor de violão. Naquela época nada mais era do que o cara que anotava o braço do violão, as posições. Aprendi os acordes naturais, aquela coisa bem básica, acompanhei umas musiquinhas, fiquei não sei quanto tempo, não lembro. Não estou lembrado o nome dele também. Era uma pessoa que tocava de esquina, tocava acordes naturais. Ficou por aí. Quando eu tinha 17 anos, eu tive a ideia de entrar para a Escola de Música.

Nessa época você já estava morando em São Luís? Já! Eu vim para cá com uns 13 anos, mais ou menos, foi a época que eu tive essa iniciação com esse rapaz, e aí eu fui para a Escola de Música. Na Escola de Música, naquela época, o esquema era o seguinte: você entrava, tinha um semestre, que eles chamavam de musicalização. Você tinha introdução à teoria musical, pegava na flauta, era tudo com flauta. O professor na época era o Gilles [Lacroix]. Ele dava musicalização. Eu vim reencontrá-lo recentemente, eu trabalho no [Hospital Universitário Presidente] Dutra, e ele mora ali por trás. Eu tive esse semestre de musicalização. O semestre seguinte seria pegar no instrumento que a gente escolhesse. Eu escolhi violão. Eu tive um semestre de aula com Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], por sinal eu vim reencontrá-lo na época desses recitais [apresentações de Monteiro Jr. no Teatro Arthur Azevedo], eu fui pedir ajuda para ele num arranjo para violino e tal. Já naquela época dava para perceber que ele é um cara de alto nível. Mas com ele foi só aquela parte bem inicial, “ó, isso aqui é mi”, aqueles exercícios básicos, bem inicial mesmo. No ano seguinte, a Escola funcionava só durante o dia, eu entrei na Faculdade [de Medicina]. Só tinha de dia, e o curso médico absorve demais, é de manhã e de tarde, não tem horário. Aí eu larguei a Escola, fiquei com pena e tudo, mas não tinha como fazer. Embora eu gostasse da música, em nenhum momento eu pensei em ser músico profissional, não houve esse dilema. Eu sabia que eu não ia abandonar aquilo, ia querer sempre ter um contato. Mais ou menos por essa época eu comecei a ter contato, a gostar mais, apreciar mais bossa nova, curti muito bossa nova, e comecei também a tocar. Naquela época eu já tinha as revistinhas, comecei a pegar cifras, aqueles acordes de bossa nova, foi uma coisa bem legal, gostei muito, comecei a tocar bossa nova.

Foi a época em que você formou em Medicina? Mais ou menos. Antes disso, eu achei interessante, acho que foi meu primeiro contato com música instrumental de violão, foi na João Henrique [rua no Centro, ao lado da Igreja de São Pantaleão], a gente morava ali quando veio para São Luís, e meu pai comprou uma vitrola, era um móvel grande, e eu lembro que o lojista deu, como brinde, um elepê de Dilermando Reis. Acho que naquela época, por volta de 13, 14 anos, foi meu primeiro contato, aquele disco Abismo de Rosas, da capa amarela, tem um violão na capa. Foi o primeiro contato, mas foi aquela coisa incipiente, depois veio essa passagem pela Escola, comecei a tocar por cifra, bossa nova, depois os grandes mestres da MPB, sou muito fã de Tom Jobim, Chico Buarque.

Dilermando te deu um despertar? Um despertar, mas eu não lembro no tempo quando eu comecei a esboçar solos ao violão. Depois o contato maior foi com a MPB mesmo clássica, dos grandes mestres, Tom Jobim, Francis Hime, que eu gostava muito, Edu Lobo, esse pessoal.

Na sua família havia músicos? Não, não tinha músico. Assim, até tinha, mas distante, eu não tinha convívio. O que aconteceu? Naquela época, mais ou menos pela faculdade, eu já tinha passado pela Escola de Música, eu começava a encomendar, sempre que alguém ia ao Rio de Janeiro, para ir lá à Rua da Carioca e trazer partituras. Eu comecei desenvolvendo um método próprio de botar aquelas partituras para o violão. Eu lembro que no começo demorava muito, pegar, dividir o compasso, ir colocando aquilo ali, foi mais ou menos assim. Aí eu comecei a pegar, partituras, Dilermando Reis, e mais adiante vieram algumas partituras já de choro, de João Pernambuco, foi mais ou menos esse contato. Quando da conclusão da faculdade eu fui para o Rio de Janeiro, fui morar lá, fiz pós-graduação, residência, mestrado, fiquei nove anos e pouco. Lá no Rio eu não tive nada de contato. A única vantagem foi estar próximo da Rua da Carioca e adjacências, eu adorava passear por ali, ficar garimpando partituras, pelo título. Eu andava por ali pela Guitarra de Prata, Bandolim de Ouro [míticas lojas de instrumentos musicais no Rio de Janeiro]. Eu comecei a comprar partituras por conta própria, fazia minha própria seleção. Fiquei estes anos lá, voltei para São Luís, era 1992, e aqui continuei tocando em casa, em família. Eu acho que aí um marco importante foi meu contato com Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014].

Antes da vitrola e do disco de Dilermando Reis você tem outra lembrança musical, do ambiente? O que se ouvia em casa? Teus pais eram grandes compradores de discos? Não, nada em especial. Inclusive meu pai, que era funcionário público, era um cara muito conservador, eu tive uma criação muito tradicional, ele nunca aprovou essa história de violão. Era coisa da minha mãe. Minha mãe era mais inovadora, mais liberal. Meu pai não aprovava isso, achava que violão, aquele preconceito, talvez hoje menos, aquela coisa, ia desvirtuar, levar para a bebida, afastar da escola, tinha essa ideia. Mas também nunca proibiu, apenas não estimulou. Eu fico pensando, fazendo um paralelo, quando eu me apresentei no Teatro [Arthur Azevedo], eu gostava de pesquisar a vida, algumas curiosidades da vida dos compositores. E eu fiz uma apresentação intitulada De bossa a Bach, e ia de Samba do avião [Tom Jobim] até alguns eruditos, e eu estava pesquisando algumas coisas sobre a vida do Tárrega [o compositor e violonista espanhol Francisco Tárrega], que é um grande mestre. Na vida dele, pela fonte que eu li, o violão foi acidental. Ele quando garotinho teve um acidente com a babá, um afogamento, um negócio, e teve uma deficiência visual. E os pais na Espanha resolveram se mudar para uma cidade onde houvesse um conservatório de música, por que um cego, a única coisa que poderia dar a ele um ofício seria ser músico. Depois ele reverteu o problema na visão, mas mudaram e ele despertou, é um dos maiores músicos de todos os tempos.

Quando você recebeu o disco do Dilermando Reis despertou para o violão além da bossa. Depois de Dilermando quem foram teus principais mestres para desenvolver essa capacidade? Me impressionou muito, aquele violão de cordas de aço. A única coisa formal foi essa passagem de um ano pela Escola de Música. Ali eu aprendi a passar uma pauta para o braço, a base, uma coisa bem básica, não a desenvolver. Nessas aulas eu não cheguei a tocar música nem nada. A partir daí as partituras, aí eu comecei a fazer sozinho, esse período todo no Rio de Janeiro e depois de voltar para cá.

E nessa trajetória autodidata que músicos te impressionaram, te instigaram a buscar mais aprendizado? Não houve uma pessoa que tenha convivido comigo. Nesse período eu comecei a me interessar por comprar discos, cds. Eu tinha partituras e comecei a comprar e ouvir cds. Foi quando eu comecei a conhecer [os violonistas] Baden Powell, Raphael Rabello, já foi até mais para cá, mais pra cá também eu curti muito Paulinho Nogueira, Toquinho. E outros discos de Dilermando Reis.

Que papel teve Biné [do Cavaco] em tua trajetória? Eu acho que ele é um divisor de águas no seguinte aspecto: eu o encontrei a primeira vez na casa do doutor João Bosco Barros Rego [médico, poeta, ex-deputado], um cara multi, hoje está no interior, é meu paciente. Na casa do Bosco, tem uns 15 anos, ele foi meu professor na faculdade, era chefe de meu departamento. Ele tocava alguma coisa e fazia uns encontros musicais na casa dele, acho que no Recanto dos Vinhais. Num desses encontros eu encontrei o Biné, acho que ele dava aula para ele de violão. Biné, é até engraçado, desde o começo houve aquela empatia, e ele costuma dizer, se gabando, que até eu conhecê-lo, eu era um músico de apartamento, de não compartilhar, tocando sozinho. A partir do Biné é que ele começou a me chamar para as rodas, aquele pessoal do Bairro de Fátima, começamos a nos encontrar também na casa do Bosco, e começou a me estimular a tocar com outros, até então eu tocava sozinho. Tinha outros músicos, da família dele, vocês conhecem bem. Seguindo na história, acho que mais ou menos há 10 anos, eu tive contato com [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu, foi outro marco. Eu já o conhecia da infância, eu morava ali pela São Pantaleão. Eu lembro daquela figura, daquela época, magrinho, cabelo black power, mas ele não me conhecia. Eu tive um casamento, tenho dois filhos, já adultos, uma filha médica, um filho vai fazer medicina. Aí eu me separei, estou numa segunda união. Minha esposa atual é enfermeira, e a gente fez uma cerimônia em casa, uma celebração, e Pipiu apareceu. Eu o contratei para tocar, alguém me deu o telefone. Ele foi com o violão, sozinho, depois eu pedi e toquei também. Ele gostou. Eu sabia desse histórico dele, que ele era um grande músico, sabendo disso eu me aproximei mais ainda, houve uma empatia. Aí ele me convidou para ir na São Pantaleão, no estúdio dele, ele já estava com o estúdio montado. Eu gravei um cdzinho lá, uma coisa bem doméstica. Inclusive na época, nem houve um contrato formal, eu ajudei com a despesa, essas músicas, Sons de carrilhões [João Pernambuco], e por aí vai. Quando eu olhei aquilo gravado, até me surpreendi. É aquela coisa de você não dar muito pelo que faz. Quando eu vi gravado eu achei bonito aquilo. Ele estava com tempo e foi uma ideia acho que até mais dele, “Monteiro, vamos apresentar isso aí, vamos levar para o Teatro, eu tenho uns contatos aí, a gente arruma”. A gente começou a trabalhar em cima disso. Na época estava se formando uma associação de cardiopatas, eu uni uma coisa à outra. Já tinha o Biné no circuito, entrou o Pipiu, ele agregou alguns músicos, aí me veio a ideia de fazer um projeto, chama Tocando com o coração. Consiste nisso: a gente faz apresentações públicas, vende cds para amigos e parte dessa arrecadação é transferida, doada para alguma instituição. E assim foi. Teve o primeiro, já foram cinco. Em sequência gravamos outros dois cds, Tocando com o coração, volumes dois e três. O primeiro e o segundo a gente fez na raça, não tinha muita assessoria, Pipiu produzia. Depois entrou no circuito o Mário Jorge [produtor], pegou essa parte de produção, promoção, mídia. Fizemos os últimos três com ele. Mais ou menos por essa época foi que eu tive contato com Márcio Guimarães [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 25 de janeiro de 2015], ele era namorado de minha sobrinha, hoje é casado com ela, a Thaís [Tathy Estrela, cantora]. Márcio fez Escola, é um músico dedicado, muito bom. O Márcio foi muito importante como motivação, aprendi muito com ele. Eu era muito amarrado a algumas regras que eu mesmo me impunha, era muito contido. Ele me libertou um pouco, essa coisa de colocar o dedo no lugar certo, ele me dizia: “o importante é o som, é o que sai”.

Você não vive para a música nem de música, não é? Nunca nem ganhou um cachê? Não, nunca pensei. Não. Quer dizer, uma vez a gente fez uma apresentação com Mário Jorge, no Armazém [da Estrela, extinto bar na Praia Grande], mas o cachê também foi doado, eu não recebi para mim. Os músicos que estão comigo, o que arrecada, a gente os paga.

Você se vê sem a música? Não. Sem o violão, não. É uma coisa que assim, ave maria!, [pensativo] um acidente com as mãos. Eu gostava de jogar vôlei. Minha primeira esposa quebrou um ossinho da mão, jogando, depois disso eu não quis mais. É uma coisa muito importante, independente de apresentar. Uma coisa para mim mesmo, eu pego isso aqui [abraça o violão].

Você já integrou algum grupo de música? Só com essa turma, e em rodas informais. Às vezes, depois que eu conheci o Pipiu, eu fiz saraus em casa, eu tenho alguns registros em dvd disso. A gente chamou muitos músicos, Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], Zezé da Flauta [Zezé Alves, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], essa turma toda já passou, a gente já fez algum encontro.

Eu vi você tocando agora no Dia Nacional do Choro [23 de abril, na sede da Associação Atlética Banco do Brasil – AABB]. Foi um momento muito bonito. Foi. Eu, Pipiu, Nonatinho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014] no pandeiro e o Biné no cavaco. Nessa trajetória, eu acho esquisito chamar de show, mas essas apresentações no Teatro foram muito importantes, muito marcantes na minha vida. Eu sempre fui muito contido, sou uma pessoa tímida. Engraçado, foi um ciclo: a gente fez aquilo ali, veio aquela inspiração, aquela motivação, dá trabalho. Eu levava um ano, escolhendo repertório, ensaiando, dá trabalho, às vezes eu tinha que me afastar de horário de consultório, uma semana, duas semanas, me afastar totalmente para poder ficar dedicado àquilo. Esses cinco recitais, eu não afasto a possibilidade de fazer alguma coisa, mas parece que aquele frenesi, aquela coisa, você realiza, ficou um pouco… [se interrompe] Eu me contento, às vezes faço um sarau em casa, [vou] quando a gente é convidado. Recentemente eu fui numa casa de idosos, um amigo convidou, estava fazendo uma comemoração, já fui na universidade também.

Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Na vida acho que eu devo ter feito umas três ou quatro composições, eu nunca divulguei nem toquei. Uma é instrumental, eu botei Valsinha de Clara, minha filha, tem nove anos hoje, por sinal gosta de cantar também, se apresentou uma vez no Teatro comigo, quando ela fez cinco anos. Mas não tenho essa coisa de compor.

E os arranjos? Eu adapto. Ao longo dessa caminhada eu fiz alguns arranjos, principalmente de música popular, por exemplo, Carolina, de Chico Buarque, é o nome da minha filha mais velha, tem 29 anos, vai casar agora, eu fiz um solo para Carolina. Foi uma experiência muito interessante fazer estes espetáculos, sempre um bom público, claro que muitos amigos. Eu sempre vi nisso, eu nunca pretendi ser um virtuose. Para tocar num nível muito elevado tem que ter dedicação, não há como chegar a este ponto pegando meia hora de violão por dia, não tem como.

Você pega o violão todo dia? Quase todo dia. Não tenho disciplina, “agora é a hora do violão, vou sentar e tocar uma hora, duas horas”, não. É aquela coisa, pega, toca um pouquinho. O propósito sempre foi primeiro compartilhar

Além de violão você toca algum outro instrumento? Não. Nunca quis, nunca me interessei. Nada.

Você já gravou três discos. Já participou de discos de outros artistas? Três discos, Tocando com o coração, três volumes. Sempre priorizando o repertório de violão. Em um a gente colocou Aquarela, de Toquinho, o forte sempre foi João Pernambuco, Ernesto Nazareth, Dilermando Reis. Não, nunca participei. Devo dizer que ao longo dessa caminhada uma coisa muito interessante foi conhecer pessoas. Os shows sempre tiveram parcerias, convidados especiais, Robertinho Chinês, no início, participou, Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Pipiu, Biné, eram mais constantes, teve muita gente boa, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], Talitha e Taynara, aquelas irmãs.

Para você, qual a importância do choro, a importância dessa música? O que eu posso dizer é que eu acho muito bonito. O choro, João Pernambuco, eu sempre fiquei muito encantado com isso, alguns o consideram o pai do violão brasileiro, acho-o genial. As músicas dele, parece até de propósito, têm uma dificuldade.

Quem, hoje, no Brasil, do violão, te chama a atenção? Na atualidade me chama a atenção o Yamandu Costa. Eu acho excepcional. Mas para te falar a verdade eu nem aprecio tanto aquela pegada quanto eu aprecio o violão, por exemplo, de Baden Powell, Raphael Rabello, Sebastião Tapajós, Paulinho Nogueira.

E no Maranhão? Admiro muito o Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], embora também ache que a praia dele é totalmente diferente. Ele é um virtuose. Eu esqueci de citar, mas depois de Biné eu tive um contato com Hermelino Souza [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de novembro de 2014]. Ele era meu paciente, é muito calado. O Hermelino foi muito interessante, ele segue essa linha do erudito, é mais para o erudito, o conhecimento dele extrapola, tem um conhecimento mais vasto na área erudita. Eu fui uma vez na casa dele, ele tem um quarto, como se fosse uma biblioteca, enorme, só de partituras. Inclusive ele me conseguiu algumas partituras, sei lá, Tempo de criança [Dilermando Reis]. Ele me deu algumas que eu não tinha, ouvia em cd e queria. O convívio com ele também foi bem interessante. Eu não tive nenhum convívio com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], chegamos a nos conhecer. Meu filho que mora em São Paulo chegou a ter aulas com ele, no Ceuma, ele dirigiu o Musiceuma. Turíbio [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013] também é uma referência, eu ouvi muitos cds.

Você tem convivido com essa turma mais jovem do Maranhão. Como você avalia o nível do choro praticado no Maranhão? Acho que tem excelentes músicos, excelentes instrumentistas. Naquele dia do choro foi um desfile de virtuoses, o Rafael [Guterres, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o outro Wendell [de la Salles, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de março de 2015], que agora toca com Solano e Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Tem muita gente boa. Talvez o que esteja faltando sejam maneiras de levar isso a um público maior. Você vê que no dia do choro não estava lotado. É isso que está faltando. É uma música de excelente qualidade. Músicos, tem bastante aí.

Você falou da centralidade da bossa nova em teu interesse por violão. Você se considera um chorão? Eu não sei. Eu me vejo assim, o Márcio me diz: “tu é um músico”, e eu penso: “não, eu sou médico”. Eu demoro a me considerar, talvez seja uma modéstia, achar que eu tenho nível, será que posso me considerar? Mas acho que posso dizer que sim, por que eu gosto muito, aprecio muito esse gênero. Independente de eu ser um grande intérprete ou não, eu gosto, gosto de tocar violão, músicas desse gênero. Nesse sentido, sou interessado em buscar, estou sempre pesquisando. É diferente, por exemplo, do samba. Eu gosto, mas não aprecio com a mesma intensidade. É claro que tem o viés do violão, eu não cheguei ao choro por chegar ao choro, cheguei através do violão. É uma via. Ou você chega por influência de alguém. É uma música de qualidade, é muito boa. É a maior parte de meu repertório para violão.

Chorografia do Maranhão: Maestro Nonato

[O Imparcial, 26 de abril de 2015]

Nascido deficiente visual, Maestro Nonato faz jus ao epíteto; o multi-instrumentista é o 51º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Num início de noite chuvoso, a chororreportagem alcançou seu 51º. entrevistado, em sua casa, na Cohab. Maestro Nonato provaria, ao longo da conversa, merecer o epíteto que o tornou famoso.

Raimundo Nonato de Azevedo nasceu em Pirapemas em 1º. de novembro de 1962, filho do vaqueiro Francisco das Dores de Azevedo e da costureira Maria das Graças de Azevedo. É casado com Vera Lúcia, que vez em quando tem que chamá-lo para tomar café, tamanha é sua dedicação à música e ao estúdio que mantém em casa.

A deficiência visual com que veio ao mundo parece, qual um super-herói, ter lhe aguçado o sentido musical. Com entre seis e sete anos, já tocava bandolim, que aprendeu sozinho. Depois do instrumento que deu sobrenome artístico a Jacob, influência confessa, aprendeu também, sempre autodidata, os violões de seis, sete, 10 e 12 cordas, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano e percussão.

O ex-integrante da Tribo de Jah revela estar planejando montar um regional de choro. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Sons de carrilhões [João Pernambuco] e Marcha dos marinheiros [Américo Jacomino], tocadas em um violão seis cordas de estudo de suas filhas, Vanessa e Virlana, além de Bela mocidade [Donato Alves] e Boi de lágrimas [Raimundo Makarra], executadas em ritmo de choro.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Sua casa tinha um ambiente musical? Como você enveredou pela música? Eu comecei muito cedo, com seis, sete anos, tocando bandolim, foi meu primeiro instrumento.

Como foi isso? Eu simplesmente comecei, do nada, brincando. Aos cinco anos, criança tem aquela ideia de fazer aqueles violõezinhos de, na época, era de lata de goiabada, aquele negócio. Fazia aquilo, botava quatro cordas, e começava a brincar. Um vizinho chegou com um instrumento, o bandolim, “acho que a gente consegue pegar isso aqui, por que tu não compra isso aqui pro teu filho?” Papai comprou, eu comecei com aquilo, mexendo. Com sete, oito anos, eu já estava tocando bandolim. Depois mudei para violão, com 10 anos eu tava tocando violão, com 12 comecei a tocar sanfona, aí fui só aperfeiçoando, ganhando experiência e aperfeiçoando as coisas.

Além destes, que outros instrumentos o senhor toca? Violão, bandolim, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, que é quase a mesma coisa do violão, aí vem o [violão de] seis [cordas], o sete, o 10, o 12, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano, instrumento de percussão, tudo. Só nunca me dediquei ao metal, nunca tive paixão. O resto a gente toca tudo.

E estes instrumentos todos, você aprendeu a tocar só? Sozinho.

Todos? Sozinho.

O que você ouvia, quando criança, em termos de música na sua casa? O que tocava no rádio, na radiola de seu pai? Eu nunca parei para definir um estilo musical. Eu acompanhei tudo. A época de chorinho, o Jacob [do Bandolim], o Waldir [Azevedo, cavaquinista], também aquele chorinho de saxofone, essa história eu acompanhei muito. Muito chorinho a gente aprendeu assim, de ouvido. Violão, com Dilermando Reis, aquela galera toda, violão das antigas. Sanfona já foi a época de Gonzagão [Luiz Gonzaga], Dominguinhos, essa rapaziada, Oswaldinho. Foi sempre acompanhando na verdade os caras, Sivuca. Essa rapaziada.

Além de músico você tem alguma outra profissão? Eu fiz rádio-técnico, locução, reportagem, aqui em São Luís, [na rádio] Difusora, 1981, 82.

Nesse período você atuou nessa profissão? Sim, eu gostava muito. Depois não tive mais tempo, entrei em banda.

Se fôssemos definir um instrumento para Maestro Nonato, de que forma você mais se identifica, com qual instrumento? É complicado. Todos a gente procura fazer com perfeição. O que eu mais tenho contato, contato diariamente, são os teclados. Esse é contato direto, todos os dias, a gente está no estúdio. Os outros já é duas vezes por semana, três vezes por semana, agora teclado é direto.

Se você tivesse que definir a pessoa que mais o influenciou para a música, quem você definiria? [Pensativo] Ah, na época foi Sivuca. Eu ouvia muito o Sivuca, nossa! A sanfona perfeita! E a rapaziada do chorinho, Waldir, Jacob.

O senhor sempre viveu de música? Vive até hoje? Sempre! Sempre! Música sempre foi a fonte, o ganha-pão, até hoje. Estúdio de gravação é música direto, de manhã, de tarde, de noite. A gente grava todo mundo, essa rapaziada de bloco tradicional, escola de samba, bumba boi, a gente grava 40 discos de boi por ano. Bloco, nós temos 44 blocos tradicionais [em São Luís], eu gravo 38. Escola de samba nós temos 10, eu gravo oito.

Estes grupos têm uma preferência por seu estúdio. É, já temos alguns anos de estrada.

Dá para viver de música com dignidade? Dá! Os caras reclamam, mas dá, dá sim.

Também tocando tudo desse jeito, né? [gargalhadas dos chororrepórteres e do entrevistado] A atividade artística é uma atividade nem sempre bem compreendida pelos pais. Os seus sempre o apoiaram na decisão de seguir o rumo da música? No início estranharam, mas depois todo mundo chegou junto e acabou. Foi a época que eu tive que vir para cá para estudar e se aperfeiçoar nas coisas.

Você chegou a fazer faculdade? Não. Eu parei antes.

E sua passagem pela Tribo de Jah? Eu fiz a Tribo de Jah. Nós participamos dos cinco primeiros discos. Produzimos vários cantores, Betto Douglas, uma rapaziada boa, Rogéryo Du Maranhão, eu já fiz muitas produções aqui, coisa nossa.

Que fato foi decisivo para você seguir a música? Foi um presente que eu ganhei, uma sanfona, e isso acabou estimulando muito. Eu gostava muito de sanfona e uma freira me deu uma de presente, e isso fez com que eu não deixasse mais a música.

De que outros grupos e bandas você participou? Eu fiz guitarra, na época, no conjunto Transversom, em Coroatá, e aqui em São Luís eu fiz Os Invencíveis, em 1979, guitarra, em torno de dois meses, depois voltei para o teclado. Depois a gente montou o Superstar, o grupo Deliverys, o Superkingsom, a Tribo de Jah, o Jota Som Seis.

Você veio para São Luís quando? Eu vim cedo para estudar, em 1967, fiquei até 1976, por aí. Depois fui para Rosário, que foi minha primeira banda, meu primeiro grupo, onde eu fui tocar teclado. Depois fui para Coroatá, depois vim para São Luís, de novo, aí pronto.

Como era o nome do grupo de Rosário? Era Os Favoritos.

O senhor dá aula de música? Não. Eu não tenho tempo. Eu até gosto.

Além de instrumentista, o senhor desenvolve outras habilidades na música? Composição, arranjos. Eu sou mais arranjador. A minha linha mais é arranjos, eu passo para os meninos e os meninos escrevem. Eu uso uma mesa que elimina o mouse e o teclado [do computador, no estúdio], é uma mesa que a gente usa direto, facilita demais.

Por que o senhor saiu da Tribo [de Jah]? Tempo. A gente começou estúdio, essas histórias, não tinha mais como conciliar. Muita viagem, a galera começou a querer gravar. Eu fiz o estúdio, na verdade, de brincadeira, para fazer uma campanha política. Aí a história espalhou, que eu tinha botado estúdio, e eu não consegui mais parar.

Em que ano o senhor montou o estúdio? Em 2002. Aí eu não tive mais como parar.

Você gosta de tocar violão sete cordas? Gosto. É um instrumento muito bonito. Eu já gosto mais do sete que do seis. É um instrumento que além de ser muito ligado à questão do choro cabe muito bem nessa nossa música carnavalesca, bloco tradicional, escola de samba. A gente trabalha bastante o sete, tem uma pegada mais forte.

Você lembra de que discos já participou? Mais ou menos uns 30 discos diferentes. Cinco da Tribo de Jah, Betto Douglas, Giovani Papini, fiz todos dele, todas as produções, César Nascimento, na época do Reggae sanfonado [composição de César Nascimento, gravada, além do autor, por Alcione], Maguinha do Sá Viana, muita coisa.

Você chegou a integrar algum grupo de choro, algum regional? Não. A gente está com a ideia, agora. Com João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a gente está pensando em montar, a ideia está amadurecendo para fazermos.

Houve um tempo em que os grupos que tocavam na noite abandonaram os instrumentos acústicos e passaram a usar teclados. Você viveu essa transição? É, os instrumentos foram trocados pelos teclados na época. Eu fiz isso também, participei dessa época, mas nunca é a mesma coisa. Os teclados de ritmo substituíram muito, bandas e tal, demorou muito, banda agora é que está voltando. Durante muito tempo surgiram alguns fenômenos, Lairton dos Teclados, Frank Aguiar.

Você chegou a fazer festa nesse modelo? Sozinho, com o teclado? Cheguei a fazer carnaval. Fiz carnaval, grandes carnavais como Cururupu, Itapecuru, Rosário. Carnaval de praça mesmo. Aquela história, sonorização boa, só o teclado falando, era coisa de louco. Sonzão por cima e o cara tá aqui. Só em Rosário eu fiz três carnavais, dois em Itapecuru. Era a época em que o teclado estava no auge. As bandas começaram a tocar por que agora eles estão fazendo muitas variações, não dá para o teclado fazer tudo, aquelas viradas loucas que as bandas fazem. Para o cara fazer aquilo, tem que ser playback, aí não tem graça. Se não for tocando, pra mim não tem graça. Depois que o teclado começou a perder a história, os caras começaram a usar playback, aí eu aposentei o teclado. Não tem graça! Eu não estou mais tocando, agora o cara chega, leva um pen drive, antigamente era uma sacola de disquetes. Perdeu o charme. Eu saí da onda.

O choro, apesar de você não ter integrado nenhum regional, fez parte de sua vida desde o começo, seu primeiro instrumento foi o bandolim, influenciado por Jacob. Qual a importância dessa música para você? O choro é um tipo de música que vai muito fundo. É uma coisa muito certinha, você não encontra barulho em choro, você encontra tudo certinho, aqui [dedilha o violão, apresentando a estrutura de um choro], vêm os acordes, os solos.

O choro não é para qualquer um? Não. Tem que ser estudado direitinho, acordes perfeitos, o choro não aceita você errar. O choro é muito trabalhado.

Você acha que o choro no Brasil representa uma escola de música para o músico brasileiro? Na lógica seria. Para mim, é. Eu vejo o choro como uma verdadeira escola musical.

Há quem diga que quem toca choro toca qualquer música no Brasil. Você concorda com isso? Às vezes. Bom, tocando o choro você pode tocar qualquer coisa, agora quem toca qualquer coisa, nem sempre toca choro. O cara toca um arrocha aqui, se ele tentar tocar um choro, não vai sair.

Você escuta muito choro, hoje? Sempre que tenho tempo.

O senhor falou várias vezes em tempo, parece um homem muito ocupado. Você trabalha muito? Ah, a correria é de oito à meia noite. Época de campanha vai, entra a noite, vem o dia e a gente está lá, é preciso a mulher estar chamando para tomar café. É complicado.

Mas é um trabalho prazeroso? É, ali dentro a gente esquece tudo. A música representa praticamente tudo.

O choro é seu gênero musical preferido, para ouvir, para tocar? O choro, sempre que eu não estou fazendo nada, eu gosto de estar ouvindo. Em rodas de amigos, sempre que estamos reunidos, com João [Eudes]. João é apaixonado por choro.

Se você fosse defini-lo, como você o definiria? João Eudes é muito dedicado, estudioso demais, gosto de ouvi-lo tocar. Ele encara a música de maneira séria e a coisa acontece. Muita gente faz música para brincar, mas não é brincadeira, tem que ser sério.

E Dilermando Reis? O que significou para você? Me inspirou para o violão [Dedilha a introdução de Abismo de Rosas, de Dilermando Reis]. É muito lindo isso, eu gosto bastante.

Você acha que o choro do Maranhão está bem representado? Com certeza! Eu acho que os eventos é que são poucos. Mas já temos uma equipe boa, dava para fazer mais movimento.

E esse regional em que vocês estão pensando, seria você, João Eudes… E João está tentando ver se traz Eliésio [sanfoneiro]. Ele está em Teresina. Grande músico! Toca muito!

Como você avalia a música produzida no Maranhão, de modo geral? Hoje nós temos uma musicalidade boa. Até por que começaram a chegar recursos, equipamentos, para que você tenha uma qualidade boa, bons técnicos, operadores. Ainda está fraco por que agora é que se está começando a ter acesso a equipamentos e as pessoas têm que estudar mais um pouco. Isso de “já sei tudo” atrapalha muito. Tudo tem que ter estudo, tudo tem que ter aperfeiçoamento. Ainda se cometem pecados em matéria de mixagem, masterização. Muita gente pensa que masteriza, mas na verdade, não. Aqui só uma pessoa faz masterização: chama-se Jota Gomes. Não se peca só aqui, mas lá fora o campo é mais aberto.

Além do choro como gênero, você pode ouvir, no choro, um baião, um frevo. O Maranhão poderia tirar proveito de seus ritmos populares nas rodas de choro. Isso ainda acontece pouco. Não seria interessante acontecer mais? Muito! Pode, por que tudo dá certo. Se você quiser fazer [começa a dedilhar Bela mocidade em ritmo de choro, passando em seguida a Boi de lágrimas, também em ritmo de choro]. Dá, tudo vai. Se fizer, dá certo. Nós temos aqui um grupo, do Carlindo, eu não lembro o nome, mas você não o ouve cantar [cantarola, se acompanhando ao violão] “descobri que te amo demais”, ele transforma tudo em samba [cantarola, se acompanhando ao violão, Boi de lágrimas, em ritmo de samba].

Você se considera um chorão? Não tanto, por que eu vivo muito outros estilos. Mas é um estilo que eu gosto demais. Não é a vivência cem por cento.

Quais os seus planos para o futuro? Nosso plano é sempre o trabalho, muito trabalho, dar continuidade à luta pela nossa cultura. Vamos continuar nessa missão. É gostoso!

Chorografia do Maranhão: Paulinho Oliveira

[O Imparcial, 29 de março de 2015]

Flautista, professor da EMEM e membro da primeira formação do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 50º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Seu cartão de visitas é certeiro: “Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Ouvi muita música, batucada, Fuzileiros [da Fuzarca, bloco carnavalesco sediado no bairro], Turma do Quinto [escola de samba idem], os terreiros, [Casa das] Minas, [Casa de] Nagô”. Ainda no bairro boêmio em que nasceu, Paulo Oliveira dos Santos Filho começou a soprar em flautas feitas por seu pai com taboca de mamoeiro.

Seus pais eram operários da fábrica de Cânhamo, nos arredores, onde hoje estão instalados o Ceprama e o Museu do Tambor de Crioula. Paulinho Oliveira nasceu em 26 de julho de 1965, filho do pernambucano Paulo Oliveira dos Santos e Maria José Ribamar Silva.

Sorridente e descontraído, Paulinho deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 50º. da série, na Sala Turíbio Santos, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM], onde leciona. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Corrupião, de Sérgio Habibe [compositor].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Em sua infância, você se lembra do movimento do operariado em torno da fábrica Cânhamo? Não tenho muita lembrança, mas vagamente alguma coisa. Eu ia levar marmita, quando criança, junto com minhas irmãs mais velhas, eu sou o caçula de quatro, dois homens e duas mulheres.

Você tem outra profissão, além de músico? Eu trabalho só lecionando. Estudei no Senai [o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], fiz curso na área técnica, mas não quis exercer a profissão. Na Escola Técnica [hoje Instituto Federal do Maranhão – IFMA] eu estudei na banda, com Maestro Nonato, que foi meu primeiro professor de música, assim em um curso regular, sistemático, né? Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Eu sou uma pessoa que ouvi muita música, batucada, Fuzileiros, Turma do Quinto, os terreiros, Minas, Nagô.

E na sua casa? Teus pais tocavam algum instrumento? Minha mãe participou de baralho, brincadeiras carnavalescas, populares. Meu pai não teve isso. Papai tinha muitos amigos, gostava de encontrar.

Ele conviveu com os boêmios da Madre Deus, de algum modo? Sim, [os compositores] Cristóvão [Colombo da Silva, popularmente conhecido por Cristóvão Alô Brasil], Sapo [Henrique Martiniano Reis], Tabaco [Hermanegildo Tibúrcio da Silva], Bibi [Silva], Patativa [Maria do Socorro Silva], trabalhou na Cânhamo com ele.

A Madre Deus sempre foi um ambiente propício. Eu sou filho da Madre Deus, aquele ambiente, tambores, tinham alguns comércios próximos de minha casa, músicos amadores iam até ali, meu irmão mais velho era músico amador, violonista, tocou muito em bailes. Uma influência muito grande ali que eu tive foi a de conviver com grandes ritmistas, como Welllington [Reis], Amauri, Prio, finado Tião, Eloy, Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], outros que eu esqueci o nome.

Você lembra com que idade começou a tocar? Vem de criança. Eu lembro que na Madre Deus tinha um senhor, ele trabalhava e fazia algumas flautas, pífanos, aquilo foi me levando. Meu pai fabricava instrumentos para mim de cano de mamoeiro, brincadeira de criança. Eu comecei mesmo com flauta doce, houve um tempo aqui em que os jovens tocava muita flauta doce, eu fiz parte de movimento de Igreja, a gente tocava de ouvido, tinha uma musicalidade, eu fui me envolvendo. Na oportunidade em que eu conheci o Gilson [César, ator e mímico], ele me levou para o Laborarte [Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], eu fiz parte do Departamento de Música do Laborarte, ali pela década de 1980.

Quando você fez parte do Laborarte já tinha passado pela Escola Técnica? Pela Escola! Nessa época eu estava estudando flauta transversa. Nesse período, que eu encontro o Gilson, que me apresenta o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Eles foram a ponte para eu chegar até a Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], onde eu cheguei como aluno. Eu já tocava um pouco de flauta doce. Tive aulas com professor Vanilson [Lima], Wolf Clemmens [Hilbert], alemão, foi o cara que trouxe a flauta doce para cá para o Maranhão, para São Luís. Eu tive aulas particulares com ele, ele já não era mais da Escola.

Teus principais mestres seriam estes? Sim, na área de flauta doce. Eu tive aulas com Lisiane [Nina], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], este é o pai dos flautistas daqui. Comecei a estudar teoria musical, eu já tinha começado na Escola Técnica, mas a Escola de Música é que foi mesmo o grande alicerce.

Quando você escolheu seguir a música, teus pais te apoiaram? Naquele período, aqui no Maranhão, não era uma coisa tão bem vista. Tinha aquela coisa, “você vem de uma família de negros, pobre, mora na periferia, olha teu irmão”. As pessoas queriam que eu exercesse uma profissão que me desse um lucro financeiro.

Que músicos você citaria entre suas principais influências, aqueles que te levaram a ser o músico que és hoje? Lisiane foi uma grande figura, Zezé, Raimundo Luiz, Tomaz [de Aquino Leite], muita gente, muita gente.

Como é que você enveredou pelo choro naquele período? A minha linha musical, eu comecei na Madre Deus, ritmista, percussão, a minha linguagem era dentro disso, o samba. Quando eu entrei na Escola de Música foi que eu fui descobrir a música clássica, erudita, comecei a percorrer esse caminho. Meus estudos de flauta doce eram mais relacionados à música erudita. Nesse período, quando eu entrei na Escola de Música, ela não era direcionada à questão da música popular. Essa minha relação com o choro começou através de Zezé, eu comecei a ter aulas com ele. E no Laborarte, no Departamento de Som, a coisa da cultura popular, mesmo.

Você então vivenciou aquele ambiente laborarteano de pesquisa. Sim, tive contato com tambor de crioula, divino, cacuriá, Mestre Felipe, era um laboratório, a gente fazia um trabalho inovador para a época. Foi um período divino! Se eu pudesse voltar eu voltaria.

Apesar das preocupações iniciais de tua família, hoje é possível viver de música? Sim, dá para viver com dignidade. Há poucos dias eu estava conversando com uma aluna, prestes a fazer vestibular, meio em dúvida, ela querendo saber como estava a situação. Hoje nós temos várias escolas, faculdades, o mercado vai se abrir.

Além do [Instrumental] Pixinguinha, de que grupos musicais você fez parte? Do Laborarte, o Departamento de Som, fizemos vários shows, peças de teatro, Jorge do Rosário era o cabeça, Marco Cruz [compositor], Saci Teleleu [bailarino]. Depois eu comecei a trabalhar com o pessoal do choro, antes disso fiz alguns trabalhos com Rosa [Reis].

E o ambiente daqueles shows [Homenagem a Velha Guarda] do [Instrumental] Pixinguinha no [Teatro] Arthur Azevedo? O Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], essa história de vir estudar com o Marcelo [Moreira, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de dezembro de 2014], ali surgiu essa ideia de se fazer um grupo, tanto que o grupo começou com eles e a vontade de fazer a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Eles perguntaram se eu não queria fazer parte, alguns números com eles. Foi aí que eu me integrei, fiz parte da primeira formação.

Como era a rotina daquela formação? A gente ensaiava diariamente, à noite. O pessoal trabalhava, Correios, o Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014], Solano tem a empresa dele, o Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], aliás, começou conosco o Quirino, Carbrasa [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 19 de outubro de 2014] e Marcelo. Passamos praticamente um ano ensaiando para esse trabalho, muita partitura. O objetivo maior do grupo era a Suíte Retratos, e foi quando o Biné entrou. O show foi no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho [no Teatro Alcione Nazaré, então Teatro Praia Grande, que integra o Centro]. Algumas pessoas [em entrevistas à Chorografia do Maranhão] falaram em Arthur Azevedo, mas foi no Odylo. Foi início de 1990.

Depois você saiu do Pixinguinha? Algum motivo em especial? Não, eu continuei tocando. Depois foi que Zezé entrou, eu tive um problema, tive que fazer um tratamento de saúde, me afastei, Zezé foi e assumiu.

Atualmente você integra algum grupo? Não. Atualmente estou só lecionando. Já integrei grupos de câmara aqui na Escola.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? É compositor? Não. Só instrumentista. Nessa praia eu ainda não enveredei.

Você toca algum outro instrumento? Não. Flauta doce e flauta transversa. Violão eu estou estudando na Licenciatura da UEMA [Universidade Estadual do Maranhão], percussão um pouco, mas meus instrumentos mesmo são a flauta doce e a flauta transversal.

Além de Rosa Reis [cantora], com que outros artistas você já tocou? Toquei com Cesar Teixeira [compositor], Josias [Sobrinho, compositor] e outros.

Você participou do Rabo de Vaca? Não. O Rabo de Vaca era Zezé, Omar [Cutrim, compositor], aquela turma.

E participação em discos? Já fiz. Fiz com Cláudio Pinheiro, não lembro agora o nome do CD, fiz a primeira gravação do Cacuriá de Dona Teté, foi um vinilzão, eu fiz aquela flauta. Eu ia gravar com Rosa, mas teve algum problema lá no estúdio. Fiz com Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], aquele disco produzido pelo marido da Zelinda [o falecido folclorista Carlos de Lima], de carnaval das antigas.

Na sua opinião, o que significa o choro? O choro é a grande música brasileira, a música genuinamente brasileira, podemos dizer assim. Uma música já mais elaborada, que vem do século XIX, com Callado [Joaquim Callado, flautista, considerado um dos pais do choro], que foi o cara que formou o primeiro regional de choro, tem uma contribuição imensa.

Entre as linhas você tem uma preferência, erudito ou popular? Ou está tudo misturado? Não, eu não faço distinção. Eu tenho uma formação, o começo, aqui na Escola de Música, foi clássica, tocando música barroca, gosto muito, gosto de fazer, de tocar, [sou] um negro que tem uma veia por essa música, mas não é só esse caminho, eu gosto muito da música popular também.

Você escuta muito choro, hoje? Ouço, ouço bastante.

Você tem acompanhado as mudanças que o choro tem experimentado? Sim. Há poucos dias eu estava ouvindo o Maurício Carrilho [violonista], aquele trabalho que ele fez há uns anos, com choros com compassos alternados, de cinco, de sete, é um trabalho interessante. Eu tenho visto as correntes, vão se modificando, existe uma linha de Brasília, com uns choros mais acelerados, São Paulo, mais cadenciado, Curitiba, Pernambuco, a gente [no Maranhão] já faz um choro mais tradicional.

No disco do [Instrumental] Pixinguinha a gente percebe, por exemplo, entre outras, uma influenciazinha do lelê. É, o nosso choro traz essas informações. O Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], por exemplo, o violão dele já traz informações jazzísticas.

Quem são os grandes flautistas brasileiros, aqueles que você gosta de ouvir, que te tocam? Eu sou um cara que sou apaixonado pela pessoa do Toninho Carrasqueira, é um guru, um cara de uma simplicidade, um coração, um puta músico.

Em que lugar você coloca o Altamiro CarrilhoO Altamiro Carrilho podemos dizer que é um papa, né?, da flauta. É um papa da flauta! A flauta do século XX. A escola brasileira de flauta é uma escola rica, grandes flautistas. David Ganc, o Antonio Rocha, da Escola Portátil, Dirceu Leite, a Odete [Ernst Dias], a mãe dos flautistas brasileiros.

A forma de consumir música mudou muito de uns tempos para cá. Como é que você consome música, hoje? Compra discos, ouve rádio, baixa, vê no youtube, ou tudo isso? Eu compro, continuo comprando. Tem coisas que, baixar, essa parte tecnológica eu ainda sou meio que um dinossauro [risos], eu ainda não sei muito vasculhar. Sei que tem muitos sites, tem muita coisa, eu gosto de ouvir música erudita, eu compro cds, mando buscar em São Paulo, Rio, a gente vai garimpando.

E aqui no Maranhão, quem são os flautistas que te chamam a atenção? Hoje nós estamos com uma safra de bons flautistas. Mestre Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] é uma memória, muito bom, fiz um trabalho com ele ano passado, foi um trabalho que nós fizemos os dois grupos, o Pixinguinha e o Tira-Teima [um show na programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, em 2013, promoveu o encontro dos grupos no mesmo palco, na praça Nauro Machado, na Praia Grande], um trabalho bacana, eu nunca tinha tocado com o mestre, eu me senti muito lisonjeado. Ele é um autodidata, toca de memória. Tem o Lee Fan [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de setembro de 2014], está com um grupo, fazendo um trabalho, teve outros, a Suellen Almeida promete.

O professor fica feliz quando vê essas figuras despontando? Ô! É o que nos alimenta. Tem o Elton, Erivan, Gabriel foi para o Rio, morar com uns parentes. Tem o Neto [João Neto, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Neto agora é quem tá na parada!

Você se considera um chorão? [Pensativo] Eu gosto de choro! Se eu disser pra ti que sou um chorão, um chorão, eu não sei. Eu gosto muito do choro. Taí! Pra ser um chorão, precisaria o quê? Ficou uma pulga [atrás da orelha], o que é ser chorão? [risos]

Hoje nós temos uma escola de música, a escola municipal, que está parada, duas faculdades. Como você vê esse cenário da música, do estudo da música, hoje, no Maranhão? As coisas estão evoluindo, crescendo. Há tempos só tínhamos a Escola de Música, e agora já temos a escola do município, temos a banda do Convento das Mercês, grande formadora de jovens, em sopro, cheguei a fazer parte, dei aula, lá eu tive a oportunidade de deixar um pouco, passar minha semente para algumas pessoas, o Elton é fruto dessa escola, os Carafunim [Hugo e Nelma, primos, trompetista e saxofonista, respectivamente], estes dois cursos que nós temos aí, Pixixita [o músico José Carlos Martins] quando era vivo sonhava com este curso superior, infelizmente não chegou a ver.

Você acha que esse ambiente novo favorece a uma cena melhor, da música instrumental, especialmente do choro, em São Luís? Você gosta do nível do choro praticado em São Luís? A gente trabalha com o que tem, a gente faz o que pode. Eu te digo com certeza: está caminhando. Antigamente não havia escola de choro. O professor Zé Hemetério [multi-instrumentista] foi orientador de muita gente, Elinaldo [Gordo Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Ubiratan Sousa. Mas foi com a história do [Instrumental] Pixinguinha que essa história do choro começou a se disseminar. O Pixinguinha foi talvez o primeiro grupo de música popular dentro da Escola.

O choro tem essa capacidade de construir unidade. A Escola tinha um perfil mais erudito, ele acabou agregando grande parte dos alunos nesse movimento do choro. Exatamente! Hoje eu tenho muitos alunos aqui, a Suellen, é apaixonada por choro. Minha classe de flauta, eu trabalho com música erudita. Mas não tem como focar só nessa parte erudita, os alunos querem estudar outra coisa, a linguagem, mudar um pouco. A gente procura ir ajudando-os a ir por estes caminhos. As pessoas gostam muito de música popular, a gente tem que se desdobrar. Não há como desfiliar a flauta do choro.