Feliz aniversário, Gisa Franco!

A grife do rádio e o Homem de vícios antigos nos estúdios da Nova 1290. Acervo pessoal
A grife do rádio e o Homem de vícios antigos nos estúdios da Nova 1290. Acervo pessoal

 

Gisa Franco é aquela voz que qualquer maranhense já ouviu no rádio e vai identificar quando ouvir ao vivo, pessoalmente, ainda que sem ligar imediatamente a voz à fisionomia, mesmo em tempos em que locutores podem ser vistos em transmissões simultâneas através das redes sociais.

Eu já a conhecia há muito tempo, ouvinte mais ou menos assíduo de programas como o Santo de Casa, na Rádio Universidade FM, e o Conversa à Beira-Mar, na Rádio Timbira AM.

Há quase quatro anos aportei na Timbira para com ela dividir o Conversa à Beira-Mar, até então diário e apresentado solitariamente pela Locutora, assim mesmo, com inicial maiúscula.

“Grife do rádio” é uma das expressões que uso até hoje para me referir a ela e exaltar suas qualidades profissionais, algo que me fez tremer: estaria eu à altura de dividir um programa com quem eu tanto admirava (e sigo admirando)? Sua postura acolhedora, ao receber alguém que nunca tinha feito rádio na vida, só reafirmou esta admiração.

Além de uma voz que eu ouvia quase diariamente, Gisa Franco logo se tornou, mais que colega de trabalho, uma amiga, irmã, quase sempre professora, às vezes aluna, às vezes mãe, às vezes filha, com quem troco alegrias e tristezas, angústias, delírios, conquistas, conselhos e confidências. Do alto de sua experiência, ela poderia ter achado estapafúrdia a ideia da direção da rádio de botar um “cabaço” para transformar, com ela, o Conversa à Beira-Mar no Balaio Cultural.

Talvez nada tivesse dado certo e eu tivesse desistido de fazer rádio se não fosse justamente sua disposição em trocar experiências, conhecimentos e amor pelo veículo cuja morte tantas vezes foi apregoada e que, mesmo com o advento de internet, das redes sociais e de suas telas virtuais, segue angariando ouvintes, despertando paixões e, muitas vezes, sendo nossa melhor companhia – que o digam estes tempos de quarentena.

Depois de certo tempo o Balaio Cultural e nosso convívio deixaram de ser diários. Por conta da pandemia e do consequente isolamento social, já faz quase dois meses que não a vejo pessoalmente, o que é sempre uma festa, seja quando é para apresentarmos juntos um novo programa ou para uma festa propriamente dita.

Sábado passado retomamos, cada um de sua casa, a apresentação do programa, com uma nova demonstração de aprendizado, nós descobrindo juntos e ao vivo as tecnologias que permitiram que cada um fizesse sua parte de onde está, sem colocar em risco a saúde de ninguém e seguindo, sob as bênçãos de Chacrinha – o programa parece uma bagunça, mas tem toda uma produção para chegar a isto –, firmes com o compromisso de fazer o melhor possível semana após semana.

Hoje (12) é aniversário de Gisa Franco. E este texto é uma tentativa de traduzir um misto de sentimentos que inclui afeto, amizade, carinho, admiração, respeito e, nestes tempos de isolamento, saudade. O abraço e os brindes ficam anotados na caderneta de fiado, para quando tudo isto passar. Pagarei com juros.

Sérgio Sant’Anna (1941-2020)

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

 

Os últimos contos que Sérgio Sant’Anna (30/10/1941-10/5/2020) publicou em vida, Das memórias de uma trave de futebol em 1955, no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo em 26 de abril passado, e A dama de branco, em 1º. de maio, na revista Época, atestavam que o peso dos anos não lhe afetou a qualidade da obra. O par de contos podia figurar em qualquer de seus livros mais recentes, Anjo noturno: narrativas (2017), O conto zero e outras histórias (2016) e O homem-mulher (2014) todos publicados pela Companhia das Letras.

O escritor faleceu nesta madrugada, vítima do coronavírus. Era merecidamente considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade, com sua prosa elegante entre o conto e o romance, povoada de tipos urbanos, violência, sexo e em diálogo permanente com outras linguagens, como a música, as artes visuais e o cinema, arte a que teve adaptadas algumas de suas obras, com destaque para Um crime delicado (Companhia das Letras, 1997), que ganhou a tela grande pelas mãos do diretor Beto Brant em 2005.

O declínio do Rio de Janeiro (e do Brasil) também estava entre seus temas prediletos. Lembrava com solenidade os bares de paredes espelhadas que podiam se tornar o paraíso de quem queria flertar ou o inferno de um cônjuge eventualmente acusado de algo que sequer estava fazendo. Também as apostas no turfe, frequentado por homens elegantemente vestidos, como se, justamente, para figurar em sua prosa, além do futebol, sobretudo os jogos e treinos do Fluminense, seu time do coração, que nos legou obras-primas como Páginas sem glória (Companhia das Letras, 2012).

Quando descobri seu perfil no facebook, a princípio desconfiei, como daquele lendário perfil de João Gilberto entrevistado pela revista Trip – um dos livros mais festejados de Sant’Anna é justamente O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982). Perderia Sérgio Sant’Anna tempo em redes sociais, sempre burilando um próximo conto genial com que nos deleitaríamos quando do lançamento de uma próxima coletânea? Sim, e mesmo fora da página no livro, o capricho de sempre com as letras: escrever confundia-se com sua própria vida, entre o ganha-pão, a diversão e o descanso.

Era um ardoroso combatente do bolsonarismo e de toda a desumanidade impregnada e exalada pelo regime neofascista tupiniquim. Na rede social chegou a escrever que “o Brasil é um filme de terror”, entre suas manifestações diárias de preocupação com os rumos do país, desgovernado por gente que nunca leu uma linha escrita por ele e tampouco dirá qualquer coisa sobre seu falecimento, aos 78 anos, com um legado monumental.

Pela rede social também, anunciou a suspeita de ter contraído a covid-19, o que viria a se confirmar com sua internação. “Hoje pra mim foi barra, tive vários sintomas e achei que estava com o vírus. Mas meu clínico veio aqui e me receitou antibióticos. Estamos vivendo no fio da navalha”, manifestou-se em 28 de abril.

Atencioso, um pouco antes, me respondera um e-mail, negando um pedido de entrevista que lhe fiz. A ideia era que ele falasse ao Radioletra sobre o conto recém-publicado na Folha. “Agradeço o convite, mas estou com problemas de saúde e não posso aceitá-lo. Um abraço. Sérgio”, escreveu.

A morte era também uma das obsessões do escritor. Como lembra este parágrafo de “Lencinhos”, conto de O homem-mulher, um de meus prediletos, entre tantos: ““Vou contar uma coisa para vocês”, eu disse. “Às vezes imagino que renasço numa vida futura e encontro meu pai já falecido e outros amigos mortos e todos nos regozijamos, e é como se não houvesse passado tempo nenhum desta vida para a outra.””. No facebook escreveu, em 23 de abril: “A gente morre, mas se diverte”.

Mas sua obsessão mesmo era escrever e reinventar-se. Como revelou ao jornalista Alvaro Costa e Silva em um perfil publicado no jornal Cândido, publicação mensal da Biblioteca Pública do Paraná: “A cada nova obra, procuro fazer alguma coisa diferente. Do contrário, perderia a graça”. Ou como se manifestou pela rede social, também a 23 de abril: “Meus queridos e minhas queridas, não quero assustar ninguém, mas acho a peste que nos assola simplesmente aterrorizante. Não encontro outro modo de reagir se não escrevendo”.

O manifesto comunista ilustrado

Manifesto comunista em quadrinhos. Capa. Reprodução
Manifesto comunista em quadrinhos. Capa. Reprodução

 

5 de maio marca a data de nascimento do filósofo alemão Karl Marx. Como prazo não tem sido o forte desta quarentena, falemos hoje do velho barbudo – e já começa aí a rejeição de leitores mais à direita: eles detestam barbudos.

Marx, autor, com Friedrich Engels, do Manifesto comunista, é amado e odiado talvez em iguais proporções por quem leu e não leu, entendeu e não entendeu sua obra. Ele, que em outra, disse que a história se repete como tragédia e como farsa, dialoga diretamente com o Brasil pelo menos dos últimos 60 anos, mas não só.

A adaptação do cartunista e escritor britânico Martin Rowson Manifesto comunista em quadrinhos [Veneta, 2019, 88 p., R$ 69,90; tradução: Rogério de Campos] é a perfeita tradução da pergunta que vez por outra queremos fazer ou fazemos a, por exemplo, eleitores de Jair Bolsonaro diante da realidade por eles negada, apesar de escancarada: “precisa desenhar?”.

Se em 1964 os generais de plantão, para barrar a ameaça de uma ditadura comunista implantaram uma… ditadura militar, em 2018 a democracia brasileira, numa de suas inúmeras contradições, permitiu que o voto popular elegesse um (aspirante a) ditador, que até agora, além de não dizer a que veio, tem um comportamento repugnante diante do seríssimo momento que não só o país atravessa com a pandemia de coronavírus – seus atos e gestos irresponsáveis estão transformando o Brasil no recordista mundial de mortos pela doença.

A primorosa adaptação de Rowson (que no texto de abertura não poupa críticas ao comunismo e a alguns de seus ideólogos) torna cada página uma obra de arte, com as severas críticas de Marx e Engels ao capitalismo, com eles passeando por pátios de fábricas, e Marx se apresentando para uma plateia de anticomunistas, um gancho recheado de ironia que surte efeito, entre desenhos que expõem as vísceras do sistema capitalista, uma verdadeira máquina de moer gente, com destaque para o vermelho-sangue de trabalhadores e trabalhadoras explorados/as.

“A história de todas as sociedades até os nossos dias tem sido a história da luta de classes”, diz o texto, a certa altura. E continua: “homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e peão – em resumo, opressor e oprimido –, em constante oposição…”, outra palavra que também dói no ouvido de alguns.

Originalmente publicado em 1848, o Manifesto comunista segue incomodando muita gente, pelos mais diversos motivos. A palavra comunista, em si, chega a causar urticária em alguns. É, no entanto, um dos textos mais importantes da história da humanidade e sua força e atualidade são impressionantes.

Sua leitura, portanto, se faz mais do que necessária, sobretudo em nossos dias. Ilustrado, talvez facilite a vida de curiosos em geral. Outros, certamente continuarão se negando a enxergar o óbvio.

Página do Manifesto comunista em quadrinhos. Reprodução
Página do Manifesto comunista em quadrinhos. Reprodução

5 de maio, dia dela

Familiares e amigos/as presentes ao parabéns virtual. Captura de tela. Reprodução
Familiares e amigos/as presentes ao parabéns virtual. Captura de tela. Reprodução

 

Um passarinho pousou e o outro ficou olhando, nem de perto nem de longe, mas certamente desconfiado. “Essa água é boa?”, perguntou o segundo. “É sim, pode confiar, pode vir”, respondeu o que já se esbaldava, matando a sede numa tarde “quente pra caralho”, como diria o poeta Celso Borges, sobre qualquer tarde em São Luís do Maranhão.

A história dos passarinhos, com o diálogo e a dramatização dos mesmos, quem me contou foi minha namorada, com quem tenho me alegrado ao ver os passarinhos pousando para beber a água – água que passarinho bebe, pura, sem qualquer adoçante, para o bem da saúde dos beija-flores e outros que têm aparecido – em uma flor de plástico que dependuramos na janela da sala, antes de a quarentena não mais nos permitir sair para comprar supérfluos.

Se o “papo de passarim” (evoé, Zé Renato e Xico Chaves!) foi real ou é invenção de sua imaginação fértil não sei dizer. Mas atesto a veracidade mesmo sem tê-lo ouvido – eu não estava na sala quando se deu e temos falhado sistematicamente na tentativa de fotografar algum passarinho bebendo água.

Compartilho esta história da intimidade da quarentena por que hoje é aniversário de Guta Amabile, companheira que me adoça a vida com esse tipo de delicadeza e o mel de seus olhos, que me fazem passarinho sempre embriagado de beber em sua flor.

Insisto em falar em quarentena não para dar um tom melancólico ao texto – do piegas, impossível escapar –, mas para dizer o quanto tem sido um período de aprendizado e ressignificação: escrevo esta espécie de declaração de amor em prosa enquanto asso um bolo de maçã no forno.

Em tempos de normalidade, muito provavelmente teríamos comprado um bolo num supermercado, panificadora ou coisa que o valha. Ou seja, a quarentena tem nos tornado uma espécie qualquer de artesãos nas mais diversas especialidades. Como li outro dia numa rede social: uma geração de chefs está surgindo. Certamente há gente pirando, sem saber lidar com a situação, como li, também outro dia, também numa rede social: vai ser good vibes assim no inferno! Como tudo na vida, cada um lida de uma maneira, da maneira que quer ou que pode.

Obviamente este 5 de maio não saiu como o planejado, mas o que saiu como tal neste 2020 cujo roteirista está caprichando nas surpresas? Lógico que eu adoraria, após nossos expedientes e a aula dela, passar para parabenizar pessoalmente minha sobrinha Mayara, que também aniversaria hoje e, na sequência, encontrar parentes e amigos num bar. Mas termos que nos virar em casa mesmo não significa que o natalício dela tenha sido cercado de menos amor e carinho.

Pela manhã, por exemplo, conseguimos reunir virtualmente alguns parentes e amigos, entre os que iriam ou não ao bar, por um motivo ou outro. Entre os “parabéns a você” e sinceras declarações de afeto, vi a emoção em seu sorriso e me emocionei como se fosse meu próprio aniversário – mas a este cronista, no rumo dos 40, basta um por ano.

“A vida é a arte do encontro”, viva Vinícius, que certamente ergueria o copo, saudando-nos com um brinde e desejando felicidades, após ouvir a história de como nos conhecemos, provavelmente contada conosco sentados às mesas na mesma calçada em que a vi pela primeira vez, quando noutra tarde quente de domingo, vi-a passar, como se desfilasse e transformasse a Godofredo Viana numa passarela, ela desde então miss universo de meu coração.

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

Obra do acaso, este deus que nos rege desde então, hoje um camaleão po(u)sou na árvore que contemplamos “da janela lateral do quarto de dormir” (Lô Borges e Fernando Brant). Se ainda não tivemos sucesso em fotografar as avezinhas, com o réptil a história foi diferente.

Em tempo: o dia ainda não acabou, mas hoje já ouvimos duas vezes o Clube da esquina (1972), o antológico encontro de Milton Nascimento, Lô Borges e toda a patota mineira que deu nome ao disco e ao “movimento”, que tem sua música predileta na história da música popular brasileira: Um girassol da cor do seu cabelo (Lô Borges e Márcio Borges).

RIP Aldir Blanc: “chora a nossa pátria, mãe gentil”

O compositor Aldir Blanc num boteco com João Bosco (E), seu parceiro em tantas obras-primas. Foto: reprodução
O compositor Aldir Blanc num boteco com João Bosco (E), seu parceiro em tantas obras-primas. Foto: reprodução

 

Com Aldir Blanc (2/9/1946-4/5/2020) se vai uma parte da inteligência, da elegância e do bom humor brasileiros. Médico psiquiatra de formação, é um dos maiores letristas da Música Popular Brasileira, assim mesmo com as iniciais maiúsculas.

Cronista também com C maiúsculo, retratou o Brasil como ninguém, nas parcerias musicais principalmente com João Bosco e Guinga, mas também nos textos que publicou em jornais como o Pasquim e O Globo por cerca de meio século. Era também versionista de mão cheia – poucos lembram, mas é dele a versão de Amarillo by money (T. Stafford/ P. Frazer), que virou Entre a serpente e a estrela na voz de Zé Ramalho e um grande sucesso nas rádios, alavancado pela presença na trilha sonora da novela Pedra sobre pedra (a mesma gravação integrou, mais recentemente, a trilha sonora da novela O sétimo guardião).

O êxito radiofônico de letras de Aldir Blanc não era algo incomum. Qualquer brasileiro já assobiou alguma criação sua, às vezes sem saber quem é o autor. Outro ótimo exemplo é Resposta ao tempo (parceria com Cristóvão Bastos), imortalizada por Nana Caymmi, antes de sua adesão ao bolsonarismo – em nome do que chegou a chamar Caetano Veloso, Chico Buarque e seu ex-marido Gilberto Gil de “chupadores de pica” de Lula.

Não me venha o leitor desavisado ou “neutro” – a esta altura do campeonato só itens de higiene de bebês podem se dar ao luxo de sê-lo – achar a citação desnecessária: Aldir Blanc era um esteta da palavra, que passeava com desenvoltura pelo sublime mas que bem podia também beirar o grotesco, a depender da exigência do momento, da circunstância. Além do quê era um libertário que não flertava com o conservadorismo. Em suas crônicas nunca escreveu o nome do golpista Michel Temer, por exemplo, sempre tratou-o como Temerreca – nunca deixou também de chamar Paulo Maluf pelo adjetivo cabível: ladrão.

Aldir Blanc era desses brasileiros que os brasileiros precisavam e deveriam conhecer mais. Como escreveu na letra de Querelas do Brasil, em parceria com Maurício Tapajós: “O Brazil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brazil”. E adiante: “O Brazil não merece o Brasil/ O Brazil tá matando o Brasil”.

Iconoclasta por excelência e princípios, em 2003 compôs uma letra para Bola Preta, choro de Jacob do Bandolim em homenagem ao famoso Cordão carnavalesco carioca, entre o politicamente incorreto, para o qual não dava a mínima, e homenagens (?) a grandes nomes da música brasileira.

Escrever sobre seu falecimento é arriscar-se a chover no molhado (e usar este clichê é desde já uma prova disso): melhor seria se, em vez de um obituário, lêssemos suas crônicas, ouvíssemos suas criações geniais. Ou ainda arriscar-se a soar piegas: este arremedo de cronista, por exemplo, adoraria ter tomado alguns chopes em sua companhia, quiçá entrevistando-o, e chora sua perda como a de um parente mais velho, tão distante quanto querido.

Como Paulo Leminski, Aldir Blanc elevou o chiste de mesa de bar à condição de obra de arte. Dedicou seu Guimbas (Desiderata, 2008) à “memória de Henfil que, em O Pasquim, vivia me dizendo: “Humor é pé na cara””, chutes que ele nunca hesitou em dar. Num dos aforismos do mesmo livro ele anotou: “a distância entre a vida e a morte é do tamanho de um carrapato”.

Aldir Blanc estava internado desde o dia 10 de abril, com infecção urinária e pneumonia, quadro que evoluiu para infecção generalizada. Não tinha plano de saúde e uma campanha que uniu artistas, amigos e admiradores garantiu sua transferência de hospital. Acabou falecendo vítima do coronavírus.

É clichê dizer que artistas não morrem, já que sua obra fica; mas fará falta ao Brasil, sobretudo neste momento ao menos duplamente trágico, a pena mordaz de Aldir Blanc.

O ator Flávio Migliaccio. Foto: Isabella Pinheiro/ GShow/ Reprodução
O ator Flávio Migliaccio. Foto: Isabella Pinheiro/ GShow/ Reprodução

Este blogue lamenta profundamente registrar também o falecimento do ator Flávio Migliaccio (15/10/1934-4/5/2020). O Brasil certamente terá menos graça quando essa pandemia passar. Esta cada vez mais difícil se cumprir o desejo de Nani, expresso no prefácio de Guimbas: “E este livro, Guimbas, no futuro, quando o Brasil for o país que queremos, com certeza vai cair no vestibular”.

A seguir, 13 obras-primas de Aldir Blanc:

O bêbado e a equilibrista (João Bosco/ Aldir Blanc), com Elis Regina

De frente pro crime (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

Nação (João Bosco/ Paulo Emílio/ Aldir Blanc), com João Bosco

A nível de… (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

Resposta ao tempo (Cristóvão Bastos/ Aldir Blanc), com Nana Caymmi

Miss Suéter (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco e Angela Maria

Dois pra lá, dois pra cá (João Bosco/ Aldir Blanc), com Elis Regina

Bala com bala (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

O mestre sala dos mares (João Bosco/ Aldir Blanc), com Elis Regina

Entre a serpente e a estrela (Amarillo by money) (T. Stafford/ P. Frazer/ versão: Aldir Blanc), com Zé Ramalho

Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), com Leila Pinheiro

Me dá a penúltima (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

Bola preta (Jacob do Bandolim/ Aldir Blanc), com Aldir Blanc, Jayme Vignoli e Água de Moringa

Diário da quarentena (mal e porcamente ilustrado)

Desenho de Zema Ribeiro
Desenho de Zema Ribeiro

Para Elizeu Cardoso, grande contador de histórias (e estórias)

Uma das coisas que mais tenho feito nesta quarentena é abrir e fechar janelas. São Pedro ameaça e, mesmo com a chuva fina, fecho a janela de modo a evitar molhar a sala e os quartos do apartamento. Às vezes levantar para fazer isso vale a pena, às vezes a chuva dura nem cinco minutos e lá vou eu abrir tudo novamente.

Há pouco aconteceu isso e, ao reabrir a primeira janela, deparei-me imediatamente com uma cena infelizmente nem tão inusitada no Brasil de 2020, em que dinossauros ajoelham-se para esperar meteoros, baratas votam em inseticidas e há toda a sorte de pessoas que, como diria o poeta Reuben, comprovam a existência da viagem no tempo: há muitas cabeças do século retrasado neste.

Um motoqueiro subia a rua em que moro com um passageiro na garupa; este, usava o capacete corretamente e zuniram tão rápido que não tive tempo de saber se era homem ou mulher – o que pouco importa para este relato.

O piloto usava um capacete com a viseira aberta, o que, por si só, configura infração de trânsito. Mas não foi isso o que me chamou a atenção: para fora do capacete, pendia, pendurada em apenas uma orelha, uma máscara, dessas que há mês e pouco passaram a fazer parte de nosso guarda-roupa diante da pandemia de coronavírus.

Li, outro dia, numa rede social, algo como “máscara no queixo é o novo capacete no cotovelo”. Não estava com o celular na mão, logo, perdi de fotografar a cena, emblemática de nossos tempos – ao menos foi o que considerei.

Abertas as janelas, sentei-me e arrisquei um desenho. Indagado sobre o que eu estava fazendo, contei toda a história acima a ela, destacando, no desenho, as hachuras, que representam os visores dos capacetes e a malfadada máscara.

Ela, obviamente também reconhecendo a minha falta de talento para desenhar, afirmou: “esse capacete do piloto ficou parecendo um pato”. Não perdi a piada, com que ela concordou e ambos rimos: “deve ser mesmo, algum pato da Fiesp, desses que ainda vão em carreata contra o isolamento e, apesar de tudo, ainda defendem o boçal que ocupa o Palácio do Planalto”.

23 de abril: viva São Alfredo!

Pixinguinha fotografado em 1968 por Walter Firmo, cujo acervo pertence atualmente ao Instituto Moreira Salles (IMS). Reprodução
Pixinguinha fotografado em 1968 por Walter Firmo, cujo acervo pertence atualmente ao Instituto Moreira Salles (IMS). Reprodução

Hoje é 23 de abril. Vi, pelas redes sociais, muitas e merecidas homenagens a São Jorge, santo do dia. Inclusive uma ótima do Nando (@desenhosdonando, no instagram), em que o santo guerreiro lutava não contra o dragão, mas contra o coronavírus, acima da qual se lia: “fica em casa”.

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Salve Jorge!

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Mas hoje não é apenas dia de São Jorge. É também dia de São Alfredo. Explico: Alfredo da Rocha Viana Filho, nascido a 23 de abril de 1897, no Rio de Janeiro, e para sempre lembrado pela alcunha de Pixinguinha.

Quer dizer, 23 de abril é a data de aniversário de Pixinguinha e também Dia Nacional do Choro, instituído pela lei federal nº. 10.000, de 4 de setembro de 2000, sancionada pelo então presidente tucano Fernando Henrique Cardoso – Jair Bolsonaro não sabe o que é Choro nem quem foi Pixinguinha.

Pixinguinha hoje é considerado um dos pais do Choro, ao lado de nomes como Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth – para começar citando os quatro movimentos da Suíte Retratos, que Radamés Gnattali compôs em suas homenagens – e, para sempre, um de seus mais importantes representantes, ao lado de nomes como Jacob do Bandolim, João Pernambuco, Maurício Carrilho, Raphael Rabello e Luciana Rabello, entre inúmeros outros.

Digo hoje por que nem sempre foi assim. Quando voltou de turnê com Os Oito Batutas pelos Estados Unidos e trouxe na manga Carinhoso, foi acusado de sucumbir à “influência do jazz”, como cantaria Carlos Lyra anos depois. Imaginem vocês, Carinhoso, talvez o maior clássico do gênero, assoviável (ou cantável na letra que ganhou depois de João de Barro) mesmo por gente que pode até não saber o nome de seu compositor.

Viva Pixinguinha! Viva o Choro! Que a quarentena e a pandemia passem e possamos voltar a frequentar as rodas de Choro. Enquanto isso não acontece, ouçam 13 Choros que selecionei, tentando me equilibrar entre o gosto pessoal e a importância da obra:

Carinhoso (Pixinguinha/ João de Barro), com Yamandu Costa

Loro (Egberto Gismonti), com Trio Madeira Brasil

Choro de mãe (Wagner Tiso), com Camerata Carioca

Choros nº. 1 (Heitor Villa-Lobos), com Turíbio Santos

Brasileirinho (João Pernambuco), com Leandro Carvalho

Brasileirinho (Waldir Azevedo), com Waldir Azevedo

Bambino (Ernesto Nazareth/ José Miguel Wisnik), com Elza Soares

Biribinha nos States (Pepeu Gomes), com Novos Baianos

Ray-ban (Cesar Teixeira), com Cesar Teixeira

Ponto de fuga (Chico Maranhão), com Cristina Buarque

Meu samba choro (Chico Maranhão), com Chico Maranhão

Choro de memórias (Chico Saldanha), com Chico Saldanha

Chorinho inconsequente (Erivaldo Santos/ Sérgio Sampaio), com Míriam Batucada

Os pais de Comichão e Coçadinha

Squeak the mouse. Capa. Reprodução
Squeak the mouse. Capa. Reprodução

 

“Emoções! Risos! Sexo! Sangue!”, lemos, em inglês, na capa de Squeak the mouse [2019], cujas 158 páginas reúnem 15 histórias de gato e rato no melhor estilo Tom e Jerry, mas com muito mais doses do que é anunciado no balão da capa, que diz de cara a que veio o álbum de Massimo Mattioli (1943-2019): os dois protagonistas entre açúcar e pimenta, com um violentando o outro (e este vingando-se na contracapa, onde se lê “impróprio para menores de 18 anos”) com uma espécie de motosserra portátil, em cores vibrantes, como ao longo de toda a publicação.

O volume em capa dura lançado no Brasil reúne histórias publicadas desde 1982 na Itália, além de inéditas. Por aqui a dupla de inimigos íntimos ficou conhecida graças à revista Animal, que circulou entre 1987 e 1991, fundada, entre outros, por Fábio Zimbres e Rogério de Campos, este também fundador e atualmente editor da Veneta, que publica o volume.

“Mattioli optou pela narrativa como sequências de imagens de um eterno retorno, fortemente baseadas nos desenhos animados dos anos 40, 50 e 60. Nesses desenhos (…) dispensava-se a linha do tempo, a narrativa continuada, em busca de um sentido maior para os personagens, que pareciam eternamente aprisionados em um dia de marmota, de gags violentas e pueris. Não é à toa que predadores perseguindo suas presas são um dos temas prediletos das animações dessa época, como o gato que caça o rato e o coiote que caça a ave pernalta”, anota o quadrinhista Rafael Campos Rocha (autor de Magda e Deus, essa gostosa, entre outros), no prefácio do álbum.

A disposição dos quadros nas páginas, todos iguais, e a movimentação e agilidade do enredo, levam o leitor a uma inevitável comparação entre hq e tv. As histórias se dão em looping, sem diálogos, com o gato perseguindo e matando o rato, que ressuscita e se vinga do gato e assim sucessiva e infinitamente – com generosas e muito bem desenhadas doses de sexo pelo caminho, além de citações a filmes de terror.

Não quero atribuir qualquer carga profética ao trabalho de Mattioli, aparentemente desconectado da realidade, de mero entretenimento, mas ele parece ter desenhado exatamente estes nossos tristes tempos: entre o monstruoso e o sublime, como cantaria um antigo compositor baiano, entre corpos decapitados ou cortados ao meio, com muito sangue jorrando, e o humor que emana (ou deveria emanar) de histórias em quadrinhos, ele poderia estar falando de nossa tragédia política em meio à pandemia (e vice-versa), em que às vezes o grau da desgraça é medido pelo volume de memes que é capaz de produzir.

Poderíamos dizer ainda que o gato e o rato de Squeak the mouse são os pais de The Itchy & Scratchy Show, conhecidos no Brasil como Comichão e Coçadinha, protagonistas de uma animação exibida dentro de Os Simpsons, de Matt Groening.

Feliz aniversário, Igor!

Com o amigo Igor de Sousa, o perro borracho DP. Foto: acervo pessoal
Com o amigo Igor de Sousa, o perro borracho DP. Foto: acervo pessoal

 

A primeira vez que eu “discotequei” na vida foi a convite dele. Ele namorava a Clara e a festa foi na casa dela. Era a despedida deles, que iam se mudar para Santa Catarina, onde ambos cursariam o mestrado.

O pai dele estava e elogiou algumas sequências, sobretudo quando eu descambava para a música maranhense – eu me equilibrando entre agradar os presentes, atendendo pedidos, e tentando rolar coisas estranhas, novas, diferentes, enfim, apresentar sons (que nem sempre agradam a todos). “16 toneladas”, “meu velho”, “o botafoguense” – ele também um –, como ele sempre se referia ao próprio pai, primeiro número com rosto e nome que conheci nas tristes estatísticas desta pandemia.

Conheci-o num destes acasos da vida. Eu trampava, à época, de assessor de comunicação na Cáritas Brasileira Regional Maranhão quando ele chegou, estudante de Ciências Sociais, para estagiar. À época, sua concentração total era em livros acadêmicos. Lia basicamente as coisas da área e afins.

Nos papos que não demoraram para acontecer, muitas vezes para além do expediente, entre minha casa e os bares da ilha, ele demonstrou interesse (e conhecimento) em poesia e prosa de ficção, além de música – do que minhas estantes eram abarrotadas. Trocávamos livros, discos e todo tipo de informação.

Exímio analista político, uma vez me ganhou uma grade de cerveja numa aposta: eu havia dito que, em determinada eleição municipal em São Luís, o PSol teria mais votos que o PSTU; ele apostou o contrário e bebemos juntos.

Adotei-o como a uma espécie de irmão mais novo, celebrando suas vitórias, sofrendo com a falta dos encontros quando ele andou morando fora.

“Fundamental!”, ele exclamava quando queria dizer que algo era muito bom. “Rapaz, esse disco é fundamental”, “fundamental esse livro”, etc., espécie de bordão que acabei também adotando.

Juntos éramos Los Perros Borrachos, com erro de espanhol e tudo, e juntos fizemos algumas entrevistas, como, por exemplo, as hilariantes entrevistas (ambas regadas a cerveja, como bons discípulos da patota do Pasquim que somos) de Marcos Magah e com os editores da revista Pitomba!, Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha.

Cato na memória estas lembranças, correndo o risco de soar autoelogioso ou de falar mais de mim que do amigo. Tirador de onda que só ele, acabou apelidado DP, depois de me dizer que o primeiro e-mail de sua vida, ainda ali pelo fim da infância, tinha as palavras desajustado e punk antes da arroba.

Hoje é aniversário de Igor de Sousa, amigo-irmão “fundamental”. Quero desejar-lhe feliz aniversário, apesar da tristeza que, espero, é momentânea.

Que tua gargalhada e gaiatice continuem a ecoar pelas calçadas e noites da ilha!

Isolamento social. São Luís, 17 de abril de 2020

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: GUTA AMABILE

Por absoluta necessidade, precisamos sair de casa hoje. No trajeto, enquanto eu dirigia, ela, com o carro em movimento, fotografava. Era assustador ver o número de pessoas nas ruas, em descumprimento às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Governo do Estado do Maranhão. Nem de engarrafamento na Jerônimo de Albuquerque escapamos.

Feiras, supermercados, bancos: tudo extrapolando o limite do razoável na presente situação, imposta pela pandemia de coronavírus.

É preciso reconhecer: em um supermercado fomos barrados; ela tentou entrar para acessar o caixa eletrônico, mas estava sem máscara. A rede de supermercados se adapta ao disposto no último decreto do governo estadual sobre o tema.

O isolamento social não é uma questão de opinião ou ideológica: é, cientificamente comprovado, o melhor método de diminuir a proliferação do vírus. Não é questão de “eu acho”.

Não sei onde iremos parar, num tempo em que o formato da Terra é posto em questão, um ministro é demitido por fazer o seu trabalho e o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro segue demonstrando sua absoluta incapacidade de lidar com o assunto – qualquer assunto.

Não sei onde iremos parar enquanto a população não tomar consciência e fazer a sua parte, salvando a si mesmo. Aqui, reconheça-se, o governo tem feito seu papel, vide o drible que Flávio Dino deu em Bolsonaro e Donald Trump, ao adquirir respiradores da China.

Como vovó já dizia: esse povo está brincando com a cor da chita! Fica em casa, disgranha!

Agência da Caixa Econômica Federal na Av. São Marçal, João Paulo
Agência do Banco Itaú na mesma avenida
Feira do João Paulo
Parada de ônibus na mesma avenida
Feira do João de Deus
Tráfego intenso na Av. Jerônimo de Albuquerque

 

Agência da Caixa Econômica Federal na Av. Kennedy, onde também é intenso o comércio e serviços de peças automotivas, com a quase totalidade dos estabelecimentos abertos

A lenda Rubem Fonseca

O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação
O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação

 

Como todo escritor (ou artista, em geral) que escolheu viver em reclusão, Rubem Fonseca (Juiz de Fora/MG, 11/5/1925 – Rio de Janeiro/RJ, 15/4/2020) também angariou, ao longo de seus quase 95 anos de vida, certo folclore ao redor de sua vida particular – se é que figuras públicas as têm.

Um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, com seu estilo seco, cortante, lascivo, duro, violento e urbano, autor de uma vasta obra entre contos e romances, adaptada ao cinema (Bufo & Spallanzani, de 1986) e à televisão (Agosto, de 1990), Rubem Fonseca parecia predestinado ao ofício que tão bem cumpriu desde a estreia, com os contos de Os prisioneiros (1963).

Nascido em Juiz de Fora/MG, tornou-se carioca aos oito anos de idade. Sua formação em Direito e atuação como delegado de polícia civil certamente ajudaram a moldar ambientes e personagens de suas obras iniciais e, portanto, a pavimentar sua trajetória, de merecido destaque sobretudo na literatura policial.

Seu livro mais recente é Carne crua (2018) e sua literatura é por demais conhecida – venceu seis prêmios Jabuti, dois APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), um Camões e um Machado de Assis –: influenciou quase todo contista que surgiu depois.

Por livros mais recentes, a crítica costumava dizer que o autor estava se repetindo, imitando a si mesmo; mas mesmo em títulos menos inspirados, ainda era superior à grande parte de seus pares de ofício.

Abordá-lo pelo viés de sua obra talvez tornasse tudo mais fácil ou simples, embora trabalhoso, com sua galeria povoada por Mandrake, José, Morel e tantos outros personagens que marcaram seus leitores.

Fico com duas histórias, digamos, extraliterárias, protagonizadas por Rubem Fonseca – que reconto aqui ao sabor da memória que, obviamente, pode estar me traindo.

Em 1989, já escritor famoso, ele estava em Berlim, na data exata da derrubada do muro. O repórter de televisão que entrevistou o brasileiro que participava do momento histórico não o identificou e caiu no trote do escritor, que não se apesentou com tal e foi veiculado nos lares conterrâneos como um brasileiro comum – era conhecida sua aversão a entrevistas, fotografias e câmeras.

A segunda, mais recente, pareceu um troco da vida. Um repórter, disfarçado de estudante de letras, abordou-o a caminho da padaria, dizendo precisar de ajuda para um trabalho da faculdade. Afável, Rubem Fonseca não se fez de rogado, mas dias depois leria no jornal a entrevista que “havia concedido” num banco de praça. No texto, indagado sobre como queria morrer, não vacilou: “tomara que bem velhinho e abraçado a uma gostosa”.

Rubem Fonseca faleceu hoje (15), no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca. Tinha 94 anos.

Quarentena, amor e arte

Aquarela de Carolina Graça Mello fotografada por Zema Ribeiro
Aquarela de Carolina Graça Mello fotografada por Zema Ribeiro

“O valor de uma fotografia só o tempo dirá”, dizia o reclame de um foto, uma espécie de estúdio em cidades do interior onde a tecnologia da revelação ainda não havia chegado, em tempos pré-qualquer celular fotografa qualquer coisa e posta em qualquer rede social.

A frase, pintada na lateral da casa de Papai Rui (ou de alguma casa próxima à dele, caso me falhe a memória), foi minha primeira, digamos,lição de fotografia. Eu era um moleque a passeio por Carema, povoado de Santa Rita/MA, terra natal de mamãe. Só quase 30 anos depois viria a ser aluno de Francisco Colombo na disciplina da graduação em Jornalismo.

Gosto de fotografias não posadas. Captam, a meu ver, mais espontaneidade. Para o bem e para o mal. Para alegria ou tristeza dos retratados.

Um dia, num sarau de RicoChoro ComVida na Praça, no Desterro, o amigo Targino fez um clique que me/nos surpreendeu. Já havia sido fotografado por ele anteriormente e tecido elogios a seu talento, prontamente respondidos com a sincera modéstia de que as virtudes eram da máquina fotográfica (nunca são).

Targino fotografara a mim e a namorada num sorriso lateral cuja espontaneidade é garantida em parte pela falta de aviso. Estamos ambos, um olhando para o outro, cada qual a seu posto ou ângulo evocando a “vaca olhando cuia”, expressão com que tão poeticamente Elizeu Cardoso traduziu nossos olhares cúmplices, não necessariamente naquela ocasião.

Resumindo: adoramos aquela foto.

Corta para a pandemia de coronavírus que assola o mundo e nos confina em casa no presente ano da graça de 2020.

A jornalista Carolina Graça Mello, para sobreviver mentalmente saudável à quarentena, pintou um autorretrato em aquarela e postou numa rede social. Conhecia seu trabalho de ilustradora desde quando ela mesmo desenhava as imagens que acompanhavam textos postados em um blogue que ela alimentava há já nem lembro quantos anos, mas menos do que vocês imaginam e pensam em fazer piada com nossas idades. Lembro-me somente de serem textos de tom confessional, com pendor para a poesia, de que nós, adolescentes ou pouco mais que isso, não escapamos. Ao menos não na nossa época de adolescentes ou pouco mais que isso, quando a vida não se resumia a uma cara abaixada enfiada num visor de lcd.

Gostei da aquarelautorretrato e encomendei a minha. A nossa. Mandei dois retratos a ela, com a recomendação de que o presente para a namorada fosse surpresa para mim também.

Qual o retrato de Targino e o autorretrato de Carol, também gostamos bastante do retrato de nossos sorrisos em aquarela.

Dito isto, e com a preocupação de qualquer cidadão razoavelmente sensato, não posso me esquivar de tornar este texto uma espécie de panfleto sobre a importância do isolamento como forma de frear a propagação do vírus, ainda uma incógnita para a comunidade científica mundial. Parodio aquela frase lida na infância e afirmo, entre a dúvida e a esperança, mas sempre com amor: o valor de um sorriso só o tempo dirá.

Bolsonaro ontem e hoje (ou: Bolsonaro sempre o mesmo)

O cadete e o capitão. A vida de Jair Bolsonaro no quartel. Capa. Reprodução
O cadete e o capitão. A vida de Jair Bolsonaro no quartel. Capa. Reprodução

 

A terra plana não gira, capota. A frase de efeito, apesar de soar meme, expressa bem um equivalente contemporâneo (e talvez por isso piadista) do marxista “A história se repete como tragédia ou como farsa”.

Transcrevo, a seguir, entre aspas, trecho de O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel [Todavia, 2019, 253 p.], de Luiz Maklouf Carvalho: “A sessão secreta foi suspensa pouco depois das quatro da tarde. Na volta, 45 minutos de intervalo depois, a primeira a falar foi a advogada de Jair Bolsonaro, Elizabeth Diniz Martins Souto, com escritório em Brasília. Embora, dezessete dias antes, ao apresentar sua defesa escrita, ele tenha alegado não ter advogado por “oneroso para minhas condições financeiras” e “desnecessário [para] comprovar-me juridicamente honrado”, algumas semanas antes, no dia 3 de maio, a dra. Elizabeth havia pedido vista do processo e comunicado ao ministro relator que desejava fazer a sustentação oral no dia do julgamento. Ali estava ela, portanto, no final da tarde de 16 de junho, com direito a 20 minutos de fala, aumentados depois para 32 minutos.

“”Este processo constitui uma aberração jurídica”, disse, referindo-se ao relatório do primeiro Conselho de Justificação. Apontou a falta “de um fato causador de ofensa à ética”, acusando o Conselho de decidir não com convicção na prova dos autos, “mas por uma convicção pessoal e parcial”. Seu segundo argumento, calcado no que já dissera Bolsonaro em sua defesa escrita, foi sobre a perícia grafotécnica realizada nos croquis. A dra. Elizabeth mencionou dois primeiros laudos inconclusivos emitidos pela Polícia do Exército, referindo-se em seguida ao da Polícia Federal, que apontou seu cliente como autor dos croquis, classificando-o como “um laudo realmente encomendado” – acusação que nem mesmo Bolsonaro tinha ousado fazer. Por fim, citou que o laudo da Polícia do Exército havia mudado o resultado do laudo anterior, anulando-o, sem dizer, porém, que era um laudo de complementação. Sublinhou que as palavras contidas nele eram as mesmas do laudo da Polícia Federal, voltando a insinuar que tivesse sido encomendado: “não mudaram nem a vírgula”” (p. 219-220).

Quem diria que mais de 30 anos depois fosse justamente uma prisão injusta, seguida por uma avalanche de fake news (expressão modernóide para eufemizar a má e velha mentira), que o catapultaria ao Palácio do Planalto, após 30 anos de inutilidade enquanto parlamentar, primeiro em meio mandato de vereador pela capital do Rio de Janeiro, depois por sucessivos mandatos de deputado federal pelo mesmo estado.

O livro de Maklouf é inspirada e vigorosa reportagem sobre o período pré-política partidária de Jair Bolsonaro. Repórter experimentado, o autor reconta, sem monotonia, o julgamento de que o hoje presidente de extrema-direita sofreu por indisciplina, primeiro ao assinar um artigo na revista Veja, em 1986, reclamando dos baixos salários de militares; depois, a revelação, pela mesma revista, de um plano (incluindo os citados croquis), orquestrado por Bolsonaro e seus pares, de explodir bombas em unidades militares no Rio de Janeiro, como forma de pressionar o governo Sarney.

Curioso é que, à época, Bolsonaro já tenha se valido das estratégias que utilizou para se eleger e usa para governar: primeiro diz uma coisa para depois desdizer e acusar o interlocutor de mentiroso, em atitude claramente fascista (acusar o outro daquilo que ele próprio é): assim, negou as acusações da repórter Cassia Maria, que, ameaçada de morte pelo então capitão, chegou a aceitar um convite e mudar de emprego.

Maklouf teve acesso aos autos do processo, bem como aos áudios da sessão de julgamento e conversou com fontes diversas, devidamente citadas no volume (Bolsonaro e cia. sequer responderam às reiteradas solicitações de entrevista). A partir do episódio, Bolsonaro pavimentou sua carreira política, ainda que sendo um parlamentar medíocre: conseguiu, um a um, infiltrar os três filhos mais velhos na política partidária e, 30 anos depois, chegaria à presidência da República, com Luiz Inácio Lula da Silva, seu mais robusto adversário e líder de intenções de voto em todos os cenários das pesquisas de opinião, retirado do jogo por obra de Sérgio Moro, que nas primeiras horas do governo Bolsonaro, se tornaria ministro da Justiça e Segurança Pública, comprovando o óbvio ao menos aos que ainda querem enxergar.

No livro de Maklouf, um dos superiores de Bolsonaro no exército, em relatório, chega a apontar a ganância e o desejo de realização financeira no então capitão, o que o teria levado a, em férias, ter ido conhecer um garimpo na Bahia, sonhando em bamburrar.

Eleito se valendo de um slogan bíblico que unia verdade e libertação e um discurso que se dizia contra a corrupção, o insubordinado Bolsonaro do passado guarda todas as semelhanças com o Bolsonaro de hoje. Seu comportamento público irresponsável acerca da pandemia mundial de coronavírus é demonstração inequívoca de que o militar da reserva se preocupa apenas consigo mesmo.

Seu apelido no quartel era “Cavalão”, o que também revela semelhanças entre o Bolsonaro de ontem e hoje: se naquela época por conta de seu desempenho em modalidades esportivas, hoje no trato com jornalistas, comunidade científica ou qualquer pessoa que se identifique como de esquerda ou oposição a seu governo.

As memórias elegantes de Nirlando Beirão

Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução
Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução

 

Nirlando Beirão é jornalista raro (ou em extinção, como queiram).

A afirmação entre parênteses não se deve, obviamente, ao diagnóstico de sua Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), pauta de Meus começos e meu fim [Companhia das Letras, 2019, 186 p.; R$ 49,90].

Digo que Nirlando é raro por que, ao mesmo tempo em que se apregoa a morte do jornalismo, ao menos nos termos em que o conhecíamos até aqui, é ele, além de o dono de um dos textos mais elegantes do jornalismo brasileiro, alguém cujos mais de 50 anos de profissão (ou carreira, ou trajetória, como queiram), permitem-no uma espécie de jornalismo de memória, algo que lhe dispensa a consulta a arquivos, fontes ou qualquer investigação. Ele pode escrever, por exemplo, sobre a Copa do Mundo de 1970, o fim dos Beatles ou sobre o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, e tudo que daí adveio, com base apenas em suas lembranças.

“Eu sou assumidamente esquerda-foie gras”, disse, além de tudo aquilo, aos três mosqueteiros do jornalismo cultural na CartaCapital – de que Nirlando Beirão é editor executivo, portanto, chefe de Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches.

Equilibra-se entre a dor e um senso de humor finíssimo que se não lhe agrada, certamente o fará aos leitores (aproveitando para imaginar que a maior parte dos que comprarem o livro acompanham Beirão há mais ou menos tempo na imprensa).

Andar por sobre esta slack line é o que faz com habilidade ao longo do livro, em que mescla a própria estrada que percorre no “País da Doença” – nome com que ele mesmo se refere à ELA, de forma a tornar o convívio menos doloroso – à história de seu avô António Beirão, padre português que, chegado ao Brasil, trocou o amor divino pela paixão terrena, casando-se com a avó do jornalista, Esméria.

Com sua habitual elegância e a habilidade de um jornalista que descansa carregando pedras – como o fazem os jornalistas de verdade –, Nirlando Beirão tece uma colcha de retalhos baseada sobretudo em suas memórias, entre almoços de família, leituras, lições de jornalismo e política, assunto do qual se esquiva o quanto pode, mas do qual é impossível se afastar completamente, ainda mais em se tratando de Brasil.

É tocante, em meio a tudo isso, por exemplo, o breve perfil que faz do amigo Drauzio Varella, o médico, astro de televisão e escritor, mesmo sem citar seu nome, como a querer evitar ser acusado de qualquer vaidade. O doutor Drauzio, como é intimamente chamado por milhões de brasileiros, assina o texto da quarta capa de Meus começos e meu fim.

Nirlando Beirão nega o bom humor, ao revelar como lida com a doença no cotidiano, no trato com visitas e transeuntes, mas em sua narrativa não há espaço, tampouco, para a autopiedade, embora ele escreva, numa passagem, que a de 2018 foi sua “derradeira Copa do Mundo”, para imediatamente se/nos tranquilizar: “Página virada, é hora de despistar as humilhações miúdas do cotidiano não mais com miragens de longo prazo, e sim com tarefas de produtivo diversionismo”, no que parece estar falando do próprio livro, às vésperas de terminar de escrevê-lo.

Em um trecho revelador dos paralelos entre a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) e o atual desgoverno patético de extrema-direita de Jair Bolsonaro, cultor da ignorância, ele nos conta, ao revelar que o bom jornalismo também é feito com uma boa dose de sorte: “O furo que chamo de folclórico aconteceu também por obra do aleatório. Eu estava em Brasília no dia em que o homem pisou na Lua. A embaixada norte-americana preparou um coquetel para convidados, e ali assistimos, uisquinho na mão, ao evento planetário”.

E continua: “Saí de lá conduzido pela curiosidade pessoal e imbuído do dever profissional: o que é que o presidente da República, quero dizer, o nosso, teria a dizer sobre a conquista? Tive de recorrer a sucessivos telefonemas, naquela era pré-celular, mobilizando do porta-voz da Presidência ao ajudante de ordens, para enfim descobrir a verdade. Enquanto Neil Armstrong deixava sua pegada na superfície da Lua, o general Costa e Silva decidia se descartava um valete ou uma dama na animada mesa de jogo do Alvorada. Não deu a mínima para aquela bobagem da Nasa”.

Os dois assuntos se mesclam e retroalimentam, os começos – o pecado e o casamento dos avós, a consequente prole – e o fim – a doença degenerativa que ainda lhe permite funcionarem a mão direita e a cabeça, como ele mesmo anota também. Nirlando Beirão constrói sua narrativa sem grandes preocupações com o rigor jornalístico, mas com as habituais referências às suas paixões de bon vivant, que garantem a leveza que caracteriza seu texto desde e para sempre.

Os cinco melhores álbuns imaginários brasileiros de todos os tempos

É ideia que me persegue há algum tempo, e só agora a falta do que fazer na quarentena, por força da pandemia de coronavírus (covid-19), me permite por no papel – ou melhor, aqui nos bits e bytes da internet.

Falta do que fazer é modo de dizer: tenho conseguido sobreviver à reclusão forçada graças às minhas coleções de discos (reais) e livros (idem), além de serviços de streaming, da internet em geral e, obviamente, da companhia dela.

Mas há tempos penso nestes discos que muito provavelmente nunca serão gravados e consequentemente lançados. Se um dia forem, certamente farão a alegria de muita gente.

Uma vez, numa edição da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, dedicaram uma noite ao choro. Consultado sobre a programação, sugeri dois espetáculos, que acabaram acatados pela curadoria e aconteceram: a Praça Nauro Machado, na Praia Grande, foi palco de uma (quase) reedição do Recital de música brasileira, com Célia Maria (voz) e João Pedro Borges (violão); e do encontro, no mesmo palco ao mesmo tempo, dos grupos Instrumental Pixinguinha e Regional Tira-Teima. Lembro-me da história para dizer que certas ideias, às vezes, podem se concretizar, por mais malucas que possam parecer.

Capa imaginária de disco imaginário. Desenho de Zema Ribeiro
Capa imaginária de disco imaginário. Desenho de Zema Ribeiro

Arari Irará, de Tom Zé e Zeca Baleiro – O maranhense nasceu em São Luís mas passou a infância em Arari, anagrama de Irará, cidade natal de Tom Zé. A primeira é famosa por sua melancia e O abacaxi de Irará mereceu até música do baiano (faixa de Se o caso é chorar, de 1972). A capa do disco evoca a banana de Andy Wahrol na capa do clássico The Velvet Underground & Nico (1967).

Metonímia, de Odair Cabeça de Poeta e Paulinho Boca de Cantor – A figura de linguagem que toma a parte pelo todo, como ensinam os livros de gramática, intitula o álbum dividido pelos baianos, menos conhecidos do que deveriam. Cabeça de Poeta é parceiro de Tom Zé e com o Grupo Capote uniu forró e rock (forrock) antes de Alceu Valença; Boca de Cantor integrou (e integra, nas eventuais voltas que o grupo dá) os Novos Baianos.

Lances de aço (ou Bandeira de agora) – Em 1978, Papete e Chico Maranhão fizeram história ao lançar, pela gravadora Discos Marcus Pereira, discos considerados divisores de água na música popular produzida no Maranhão. O primeiro, com Bandeira de aço, em que cantava composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe; o segundo, com Lances de agora, de repertório completamente autoral. Lances de aço (ou Bandeira de agora) reúne Chico Maranhão e os quatro “compositores do Maranhão” (como grafado na capa de Bandeira de aço) em releituras das 20 faixas que somam os dois álbuns.

Os Novos Novos Baianos, de Pedro Baby, Betão Aguiar, Davi Moraes, Bem Gil e Moreno Veloso – Pedro Baby (filho de Baby do Brasil e Pepeu Gomes), Betão Aguiar (filho de Paulinho Boca de Cantor), Davi Moraes (Moraes Moreira), Bem Gil (Gilberto Gil) e Moreno Veloso (Caetano Veloso)  se unem em um disco coletivo, relendo criações de baianos como os pais, além de Tom Zé, Dorival Caymmi, Riachão, Batatinha, Roque Ferreira e João Gilberto.

Roberto Carlos canta Sérgio Sampaio, de Roberto Carlos – Dois dos mais ilustres filhos de Cachoeiro do Itapemirim (os outros são Rubem Braga e Luís Capucho), no Espírito Santo, unidos em um mesmo álbum. 26 anos após o falecimento do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, finalmente o Rei realiza o sonho do fã: é conhecida por todos a vontade de Sampaio ser gravado por Roberto, para quem compôs Meu pobre blues, que abre o tributo.