Cardume de talentos

Baiacu. Capa. Reprodução

 

O espírito libertário da poeta Hilda Hilst ronda a Casa do Sol, em Campinas/SP. O espírito libertário de Hilda Hilst e de seus 150 ou 160 cachorros, ninguém sabe ao certo.

A Casa do Sol abrigou uma residência artística, capitaneada por Angeli e Laerte, dois de Los Tres Amigos, grupo de quadrinhistas que a seu modo reinventou o panorama das HQs no Brasil entre o final da década de 1970 e início da de 80, com revistas como Chiclete com Banana e Piratas do Tietê, na ativa até hoje – Glauco, el tercer amigo, foi assassinado, junto a seu filho Raoni, em 2010.

A residência artística reuniu, além dos pais de Bob Cuspe e Muriel, artistas dos traços e das letras. 10 participaram da residência, e a eles se somaram os editores e outros escritores e poetas. A escalação completa: André Sant’Anna, Anna Cláudia Magalhães, Bruna Beber, Daniel Galera, Diego Gerlach, Fabio Zimbres, Gabriel Góes, Guazzelli, Ilan Manouach, Juliana Russo, Laura Lannes, Mariana Paraizo, Mateus Acioli, Paula Puiupo, Pedro Franz, Powerpaola, Rafael Sica e Zed Nesti.

Esse timaço deu na Baiacu [Todavia, 2017, 320 p.; R$ 84,90], bonito livro (ou revista?), batizada pelo peixe (venenoso) que “tem essa propriedade de inchar e ficar maior e assustar o tubarão que vem devorá-lo”, como afirma Laerte no editorial, um texto adaptado da abertura da residência artística, em 2017. “Mas o baiacu tem uma outra coisa, que é maravilhosa. O bicho faz uma mandala. No fundo do mar. Ele fica raspando a barriga na areia, horas e horas… Depois, visto de cima, é uma mandala, um círculo perfeito, com linhas geométricas indo para todos os lados. E ele faz aquilo por quê?… Por tesão”, continua.

Ou seja: a revista (ou livro?) já transpira arte desde o batismo, desde a capa (de Zed Nesti).

Na Baiacu a noção de autoria está diluída: são poucos os trabalhos assinados. É claro que há um índice ao final e você não é obrigado a lê-la (ou lê-lo?) na sequência. É possível saltar artistas, ir direto ao/à seu/sua predileto/a. Ou tatear às escuras: ler sem saber quem desenha ou escreve (é claro que, por exemplo, Angeli e Laerte, entre outros/as, têm traços característicos), tentando adivinhar.

Há cadernos de esboços, estudos, Mauricio de Sousa desquarado, ilustrações da casa, prosa, poesia. Arte e ficção dialogam e, imitando a vida, debatem, aqui e ali, o Brasil contemporâneo. A função da arte (ou sua inutilidade), o deslumbramento de novos ricos, o empoderamento de mulheres, negros/as e homossexuais, a violência, o Brasil sob a égide do golpe político-jurídico-midiático e machista que toma o país de assalto há quase dois anos, ideais de consumo como sinônimo de felicidade (enquanto humanos perdem empregos para máquinas), a própria dificuldade com os processos criativos ao longo da residência, direitos humanos, drogas, religião, vasto leque, sem abrir mão da ironia e do bom humor.

Gerações e vozes distintas numa encruzilhada artística cada vez mais rara. Não é todo dia que se vê um livro (ou revista?) tão volumoso(a), com (tanto) conteúdo (de qualidade), se inchando contra o vazio, o mau gosto, o bom mocismo, a isenção e nossas tristes mazelas. O agradecimento a Toninho Mendes, entre muitos/as outros/as, é mais que justo.

E a Baiacu ainda traz encartado o hilariante zine Pirarucu, argumento e arte de Diego Gerlach, complemento à altura, outro peixe poderoso, tirando onda com a residência, o ofício do artista de quadrinhos, o governo ilegítimo, sem poupar sequer o editor André Conti.

Após a/s leitura/s, a pergunta que não quer calar é: terá a revista (ou livro?) uma segunda edição? Quando?

Por que O Brasil é bom é tão bom

O Brasil é bom. Capa. Reprodução
O Brasil é bom. Capa. Reprodução

 

O André Sant’Anna é filho do Sérgio Sant’Anna, mas querer explicar todo seu talento pela genética pode diminuí-lo. Os dois são dois dos maiores contistas brasileiros em atividade, o que mostra que Deus é injusto: como pode tanto talento numa só família? Coisa assim só se viu, talvez, na família do Caetano e da Bethânia. Ou na família Sarney, mas esta não fez nada de útil pelo Brasil ou pelo Maranhão, apesar de tanto tempo no poder. Esta última família seria uma espécie de família de anti-talentosos. Mas o que importa mesmo, aqui, agora, são os Sant’Anna. Na verdade, o Sant’Anna, o André. E seu livro novo, nem tão novo assim, já com quase um ano de lançado, O Brasil é bom [Companhia das Letras, 2014, 190 p., leia um trecho] – o título do livro –, o Maranhão é uma província e às vezes o, digamos, crítico, pode demorar a ler e resenhar coisa ou outra. Está lá, embalado por aquele prato com uma banana espetada por um garfo, o Campo de batalha 5, óleo sobre tela de Antonio Henrique Amaral, de 1974, a prosa elegante e mui característica de um, repito, dos maiores contistas brasileiros em atividade. Sim, o André, que já havia provado isso em livros como Inverdades [7Letras, 2009], Sexo e amizade [Companhia das Letras, 2007] e O paraíso é bem bacana [Companhia das Letras, 2006], mesmo este último sendo um romance. O André, que é escritor, mas também mexe com música e publicidade, sabe utilizar muito bem a ironia, ou vocês não notaram isso a começar pelo título? O Brasil é bom tem um conto chamado O Brasil não é ruim, que ele enxerta o texto inteiro com vários “nãos” para terminar por dizer a verdade. Começa assim: “Os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte e cinco mil reais por mês mais uma série de ajudas de custo como passagens aéreas, casa, comida, roupa lavada etc., não passam só três dias da semana em Brasília, onde não atuam somente em causa própria, comprando e vendendo favores e outras paradas que não os tornariam cada vez mais ricos ilicitamente”. E termina assim: “Por isso é que o Brasil é bom”. O primeiro conto do livro, Deus é bom Nº 8, começa tirando uma onda com Lula e a guinada à direita dos governos petistas. O presidente é Cristo e Judas negocia com o centrão e o livra da crucificação, mas o afasta de todos os ideais que moviam o partido antes do mesmo chegar ao poder. É claro que o André Sant’Anna adverte que “os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles” e aí está outra coisa muito interessante na prosa de Sant’Anna, o André, de mesclar ficção e realidade e tornar pessoas reais personagens de ficção, tipo a Glória Peres, no conto inicial, que quando “Jesus nasceu num barraco bem pobrinho […] falou: esse menino vai se chamar Jesus. Jesus Cristinho”. Ou o George Harrison que ele foi. Todo mundo foi, um dia, na infância, um ídolo. O beatle aparece em vários contos, os últimos do livro, A história da revolução, A história do rock, A história do futebol e A história da Alemanha. No penúltimo, dedicado a Sérgio e Ivan Sant’Anna, “quando o futebol foi inventado, em 1969, o George Harrison era de Belo Horizonte, e no prédio dele, na escola dele, na rua dele as pessoas ou eram Atlético ou eram Cruzeiro. O primo do George era Atlético. O George era o Tostão do Cruzeiro”. Há ainda contos intitulados O futuro vai ser bom, Nós somos bons, O brasileiro é bom e Amor à pátria. Tudo ironia pura, fina ironia. Duas aspas, o começo e o fim deste último: “Porque eu sou assim: a nível de futebol, a pátria em primeiro lugar”. “A nível de futebol, o que importa é o sangue”. Comentário na rede sobre tudo o que está acontecendo por aí ironiza o discurso de ódio da classe média e da polícia sobre militantes e movimentos de defesa dos direitos humanos. Antológico, este conto mereceria transcrição integral, mas fiquemos com uns trechos, apenas, até para vocês se interessarem pela parada, digo, a prosa do André Sant’Anna, e comprarem o livro – e lerem, que é o que realmente importa: “A culpa é toda do direitos humanos, que vem aqui se meter no Brasil e não cuida dos problemas deles mesmos, desses países que se acha. Porque lá todo mundo faz o que quer, faz terrorismo, fuma drogas, anda pelado com os seios de fora e até faz sexo com homens do mesmo sexo. […] Aí, quando vem um bandido e pega o seu carro no farol e dá um tiro na sua cara, você que é um cidadão de bem, com a sua família, o que é que acontece? Vem o direitos humanos e protege os bandidos e quer que a gente que é homens de bem, que não temos direitos humanos nenhum, fique quieto vendo os estupradores todos levando boa vida lá na cadeia, comendo comida que a gente paga e até levando mulher lá prá dentro, prá fazer sexo. […] Brasileiro não precisa nada desses gringos. Esses gringos é que fazem esses terrorismos. Pode ver que aqui no Brasil não tem terrorismo, não tem terremoto nem nada disso. […] Os gringos vêm aqui e ficam querendo botar esse direitos humanos aqui prá soltar os bandidos todos da cadeia. Mas eles lá prendem bandido de menor. Lá na terra deles pode até pena de morte. Só aqui é que não pode porque os gringos do direitos humanos não deixa. […] Eu sou igual o velho lobo Zagallo, totalmente verde e amarelo”. Na história mais longa do livro, Lodaçal, um par de amigos tem várias vezes seu futuro interrompido, sempre de maneira trágica, tudo narrado com a categoria futebolístico-literária de André Sant’Anna, mineiro que hoje vive em São Paulo e talvez não torça pelo Fluminense, como o pai dele, não sei. Toninho e Chiquinho, os personagens, se alimentam, entre outras coisas, de papel higiênico usado. Há sexo, drogas, violência, “o Toninho engolindo os próprios dentes, a visão toda turva, mas pelo menos não saiu pedaço de cérebro pela orelha, coisa que ia acontecer se o Chiquinho deixasse o Toninho nas mãos dos cidadãos de bem”. É irônico, e talvez por isso engraçado, que a ficção de André Sant’Anna revele tão bem o Brasil cotidiano, com seus problemas, sua ignorância, seus preconceitos, o que deveria ser papel da imprensa, mas esta, na maior parte do tempo e das vezes, prefere praticar ficção para agradar aos patrões, e o André é competente também ao escrever não-ficção, que eu já li, aqui e acolá. “Vou dizer uma coisa pra você, uma coisa que, no país da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e das instituições de espancar crianças seria considerado uma blasfêmia absoluta: a Alemanha é muito melhor do que o Brasil. Pode crer.”, termina o livro A história da Alemanha, o livro escrito e publicado antes da Copa do Mundo de 2014, antes da reeleição de Dilma Rousseff, antes, portanto, do panelaço e do “impítima”. Qual a capa de seu livro – quem vê de longe e ligeiro pensa em retrato, mas é uma pintura – o que André Sant’Anna faz é pintar um quadro – futurista? – do Brasil, um Brasil em que a Lei de Murphy devia ser artigo da Constituição. É por isso que a literatura de André Sant’Anna é tão boa!