Quarentena, amor e arte

Aquarela de Carolina Graça Mello fotografada por Zema Ribeiro
Aquarela de Carolina Graça Mello fotografada por Zema Ribeiro

“O valor de uma fotografia só o tempo dirá”, dizia o reclame de um foto, uma espécie de estúdio em cidades do interior onde a tecnologia da revelação ainda não havia chegado, em tempos pré-qualquer celular fotografa qualquer coisa e posta em qualquer rede social.

A frase, pintada na lateral da casa de Papai Rui (ou de alguma casa próxima à dele, caso me falhe a memória), foi minha primeira, digamos,lição de fotografia. Eu era um moleque a passeio por Carema, povoado de Santa Rita/MA, terra natal de mamãe. Só quase 30 anos depois viria a ser aluno de Francisco Colombo na disciplina da graduação em Jornalismo.

Gosto de fotografias não posadas. Captam, a meu ver, mais espontaneidade. Para o bem e para o mal. Para alegria ou tristeza dos retratados.

Um dia, num sarau de RicoChoro ComVida na Praça, no Desterro, o amigo Targino fez um clique que me/nos surpreendeu. Já havia sido fotografado por ele anteriormente e tecido elogios a seu talento, prontamente respondidos com a sincera modéstia de que as virtudes eram da máquina fotográfica (nunca são).

Targino fotografara a mim e a namorada num sorriso lateral cuja espontaneidade é garantida em parte pela falta de aviso. Estamos ambos, um olhando para o outro, cada qual a seu posto ou ângulo evocando a “vaca olhando cuia”, expressão com que tão poeticamente Elizeu Cardoso traduziu nossos olhares cúmplices, não necessariamente naquela ocasião.

Resumindo: adoramos aquela foto.

Corta para a pandemia de coronavírus que assola o mundo e nos confina em casa no presente ano da graça de 2020.

A jornalista Carolina Graça Mello, para sobreviver mentalmente saudável à quarentena, pintou um autorretrato em aquarela e postou numa rede social. Conhecia seu trabalho de ilustradora desde quando ela mesmo desenhava as imagens que acompanhavam textos postados em um blogue que ela alimentava há já nem lembro quantos anos, mas menos do que vocês imaginam e pensam em fazer piada com nossas idades. Lembro-me somente de serem textos de tom confessional, com pendor para a poesia, de que nós, adolescentes ou pouco mais que isso, não escapamos. Ao menos não na nossa época de adolescentes ou pouco mais que isso, quando a vida não se resumia a uma cara abaixada enfiada num visor de lcd.

Gostei da aquarelautorretrato e encomendei a minha. A nossa. Mandei dois retratos a ela, com a recomendação de que o presente para a namorada fosse surpresa para mim também.

Qual o retrato de Targino e o autorretrato de Carol, também gostamos bastante do retrato de nossos sorrisos em aquarela.

Dito isto, e com a preocupação de qualquer cidadão razoavelmente sensato, não posso me esquivar de tornar este texto uma espécie de panfleto sobre a importância do isolamento como forma de frear a propagação do vírus, ainda uma incógnita para a comunidade científica mundial. Parodio aquela frase lida na infância e afirmo, entre a dúvida e a esperança, mas sempre com amor: o valor de um sorriso só o tempo dirá.

Aquarela será exibido hoje em São Luís

Curta-metragem maranhense venceu dois kikitos em Gramado e é um dos favoritos na mostra competitiva do festival Maranhão na Tela

Aquarela. Cartaz. Reprodução

Por detrás da fragilidade e inocência de uma criança (Clarinha, interpretada por Maria Helena De Dea), que envia um desenho para o pai, os diretores e roteiristas Al Danuzio e Thiago Kistenmacker estabelecem a trama alicerçada em flashbacks do curta-metragem Aquarela [drama, Brasil, 2018, 15 minutos].

As tintas da delicadeza para pintar um retrato do em geral trágico e brutal sistema penitenciário brasileiro. Inspirado em fatos reais, avisam, de início, dando ares de documentário à ficção.

“Uma denúncia revela que mulheres de detentos estão sendo abusadas dentro da penitenciária nos dias de visita. Líderes de facções criminosas obrigam as mulheres a manter relações sexuais com eles sob ameaças de matar os outros detentos, parentes ou maridos das vítimas”, uma locução de telejornal nos esfrega a triste e trágica realidade ao final.

Al Danuzio (que interpreta o detento Marcelo, pai de Clarinha) e Thiago Kistenmacker abordam o horror do sistema prisional por um ângulo inusitado. Quem não ler a sinopse e cair em uma sessão poderá se dizer enganado pelo título, que remete ao que o filme tem de poético, embora seja impossível escapar da violência.

A cena em que Ana (Luna Gandra) é enquadrada através dos cobogós é de uma beleza ímpar, em metáfora (também presente no cartaz) que sintetiza a opinião de muitos agentes de segurança pública, sobretudo policiais: mulher de malandro é malandra, filha de malandro é malandra, sentenciam, às vezes justificando a pena de morte a que os mesmos condenam sumariamente quem quer que orbite um detento.

A pergunta de Ana a Marcelo, durante a visita, é emblemática sobre o inchaço dos presídios brasileiros: “e o advogado? Disse quando é que vão te julgar?”. O que o filme tem de poético não disfarça os problemas do sistema nem joga tintas de pieguice em um dos maiores dramas não só do Brasil, mas com que, particularmente aqui, muito pouca gente se importa, apesar de seus reflexos para muito além dos muros de penitenciárias e que tais.

Cabem destacar ainda as atuações de Rosa Ewerton Jara (Dolores, mãe de Marcelo) e Urias de Oliveira (Diabão). Aquarela voltou do Festival de Gramado com dois kikitos na bagagem: melhor desenho de som (Fabio Carneiro Leão) e melhor montagem (Thiago Kistenmacker).

Serviço

Aquarela será exibido hoje (19) no festival Maranhão na Tela e certamente é um dos favoritos na mostra competitiva de curtas-metragens. As sessões acontecem às 19h (Kinoplex Golden Sala Platinum) e 21h15 (Kinoplex Golden Sala Kinoevolution), no Golden Shopping (Calhau). Toda a programação do festival é gratuita.

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Veja o trailer: