Mais com menos

Still: Evandro Filho. Divulgação

 

De algum modo acompanhei a feitura de Avesso, novo curta-metragem de ficção do premiado diretor Francisco Colombo.

Digo de algum modo por não ter estado no set no dia da filmagem, e simplesmente por isso. De resto, acompanhei o amadurecimento do roteiro, as primeiras versões brutas do filme, um dia de edição etc.

Avesso foi filmado em um dia, durante as férias de Colombo, então residindo temporariamente em Portugal, onde cursava mestrado, valendo-se da “dramaturgia da pobreza”, um tema sobre o qual, conforme anunciou em entrevista, um dia escreverá. Mas que consiste basicamente no seguinte: fazer o máximo com o mínimo.

Impossível não ligá-lo ao neorrealismo italiano e particularmente ao Vittorio De Sica de Ladrões de bicicleta (Ladri di Biciclette, 1942), bonito filme rodado na bombardeada Itália do pós-guerra. Colombo lembra que tanto o neorrealismo italiano quanto o por ele influenciado cinema novo brasileiro lhe inspi(ra)ram.

Entre Reverso, seu filme anterior, e Avesso, nove anos. Entre um e outro, filmes feitos às próprias custas s/a, como diria Itamar Assumpção. Entre aquele e este, a violência, tema que permeia a obra de Colombo como um todo: de sua estreia, No fiel da balança (2002), que abordava a sofrida por quilombolas em Alcântara com o deslocamento para as agrovilas após a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara, passando por O incompreendido (2008), que toca na violação de direitos de crianças e adolescentes, ao citado Reverso (2009), sobre a violência urbana, até este Avesso.

Escrever sobre curtas-metragens é sempre correr o risco de spoilers. O que posso afirmar é que não é um filme fácil, no sentido de entregar de bandeja as coisas ao espectador, o ouro ao bandido, como no linguajar popular. O espectador precisa pensar – e repensar, diante das reviravoltas contidas em seu enredo. É outro filme em que o diretor e roteirista não hesita arriscar-se ao não rezar pela cartilha do politicamente correto, outra característica marcante de seu trabalho: Colombo vem da escola de Murilo Santos e sua veia de documentarista permeia a faceta ficcionista, neste caso, o vídeo imita a vida, contrariando a banda gaúcha oitentista.

Avesso marca ainda a estreia de Beto Ehongue como ator. O músico, autor das trilhas sonoras de Avesso e Reverso, convence ao interpretar Mathias. O elenco, enxuto como exige a citada dramaturgia da pobreza, se completa com Daniel Sam e Gil Maranhão.

Avesso foi selecionado para a Mostra Competitiva de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema, promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão (DAC/UFMA). O festival acontece entre 9 e 16 de junho, no Centro Histórico da capital maranhense.

O novo filme de Francisco Colombo está concorrendo, por voto popular online, para participar do 13º. Festival de Cinema de Taguatinga, no Distrito Federal. Avesso pode ser assistido e votado no site do festival.

José Sarney e sua síndrome biográfica

José Sarney continua obcecado com a ideia de fraudar a história e reinventar sua biografia. A ladainha do mitômano já é conhecida. O livro de Regina Echeverria, por exemplo, lançado há um ano, foi uma evidente compilação de patranhas.

O último ato decorrente desta síndrome, veio à tona no último dia 27 de março. Nesta data, foi anunciado na TV Guará (repetidora da Record News, no Maranhão), a estreia do programa Avesso, trazendo “uma entrevista com José Sarney”, cuidadosamente divulgada (e depois repercutida) no sempre governista O Imparcial. O entrevistador, propagado com relativo estardalhaço, foi o escritor, cronista e teatrólogo Américo Azevedo Neto, confrade do entrevistado na Academia Maranhense de Letras (AML).

No discurso de Sarney, no lugar do ex-presidente da ARENA, aparece de súbito “um democrata”; em vez do afilhado e ex-correligionário de Vitorino Freire, surge um “oposicionista firme e corajoso”; o notório corrupto torna-se o intelectual de “prestígio internacional”; um inescrupuloso e burlesco Odorico Paraguaçu posa de “estadista”; o aliciador odiento e vingativo se disfarça numa figura “generosa” e “sem ressentimentos”; o aliado visceral de torturadores é “quase um comunista” e o protetor de latifundiários assassinos, quer se passar por um “cristão radical”, a “nossa” Madre Teresa de Curupu…

Quanto à tertúlia na TV Guará, a emissora do opulento Roberto Albuquerque (agora, bem cevado pelo governo Roseana e por “generosas” empresas), ninguém falou da famosa “universidade da fraude”, nas urnas de “Zé meu filho”, nas diabruras do desembargador Sarney Costa, nas velhas chicanas jurídicas, no golpe de 64, no AI-5, na construtora Mendes Junior, nos ilícitos junto ao Diário Oficial, no processo contra Ribamar Bogéa e Freitas Diniz, na Lei de Terras, nas baixarias do Jornal de Bolso, na brutal grilagem ocorrida no Maranhão, nos inúmeros assassinatos no campo, na Fazenda Maguari, na tortura, no atentado contra Manoel da Conceição, na inflação de quase 100% ao mês, no desastre da Nova República, na CPI da Corrupção, na distribuição de concessões de TV, no Caso Reis Pacheco, do Convento das Mercês, etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc.

A entrevista foi apenas uma sequência das velhas e surradas mentiras do entrevistado, que a TV Guará “esqueceu” ser hoje uma das figuras mais desmoralizadas do Brasil (uma chacota, de cabo a rabo do país). Ao final, não podia ser diferente, ficou tudo muito ruim… Num programa batizado como Avesso (o oposto, o outro lado), o que se viu nesta edição de estreia foi mais do mesmo: a velha propaganda sarneyista que não convence rigorosamente a ninguém.  Como disse o ex-senador Artur da Távola, sobre o discurso de Sarney no “Caso Lunus”: “A montanha pariu um rato…” E acreditem!: hoje, é bem possível que até Dona Marly tenha vergonha deste tipo de presepada do filho do desembargador…

E roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão…

[Editorial publicado no site do Vias de Fato. Detalhe curioso pra quem não tiver se ligado: Américo Azevedo Neto é pai de Emílio Azevedo, um dos editores do jornal, cuja edição de março já está nas melhores bancas da Ilha. Honra em colaborar com um jornal em que o departamento comercial não se sobrepõe à redação, em que laços políticos e/ou familiares não interferem na informação e na verdade; a charge de Nani eu já havia publicado aqui]