serrote ajuda a pensar o bolsonarismo

Serrote. Capa. Reprodução
Serrote. Capa. Reprodução

Notícia nem tão quente para alguns, mas com certeza interessante para os/as que valem a pena: a revista serrote, do Instituto Moreira Salles, publicou uma edição especial quarentena, com download gratuito em seu site.

Escrevo em meio à leitura, chamando a atenção especialmente para dois ensaios do volume: “O líder fascista como encarnação da verdade”, de Federico Finchelstein (professor de história na New School for Social Research, em Nova York, autor de Do fascismo ao populismo na história e A Brief History of Fascist Lies); e “Homo bolsonarus“, de Renato Lessa (professor de filosofia política da PUC-Rio, investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e pesquisador visitante do Centre Roland Mousnier, da Lettres Sorbonne Université (antiga Paris IV) em 2020-2021. Publicou recentemente O cético e o rabino: breve filosofia sobre a preguiça, a crença e o tempo (LeYa, 2019).). Ambos, a seu modo, didáticos e bem-humorados.

Destaco trechos de um e outro, respectivamente:

Uma das lições centrais da história do fascismo é que a mentira leva à violência política extrema. Hoje a mentira voltou ao poder. Esta é, agora mais do que nunca, uma lição-chave da história do fascismo. Se quisermos compreender o nosso problemático presente, temos que prestar atenção na história dos ideólogos fascistas e no modo e no motivo pelo qual sua retórica levou ao Holocausto, à guerra e à destruição. Precisamos que a história nos lembre como foi possível haver tanta violência e racismo num período tão curto de tempo. Como os nazistas e outros fascistas chegaram ao poder e assassinaram milhões de pessoas? Espalhando mentiras ideológicas. Numa proporção significativa, o poder político fascista surgiu da cooptação da verdade e da disseminação generalizada da mentira.

Hoje assistimos à emergência de uma onda de líderes populistas de direita em todo o mundo. E, como no caso dos líderes fascistas do passado, grande parte do seu poder político provém da impugnação da realidade, da defesa do mito, da raiva e da paranoia – e da promoção da mentira.

Um eixo central dessa história, que parece se repetir em países como os Estados Unidos e o Brasil, é a ideia de um líder que se considera a encarnação da verdade e, com suas mentiras, enfraquece a democracia e chega até a estimular a expansão da covid-19. Essa crença tem consequências letais e nos ajuda a entender melhor a situação do Brasil. Isto é, a partir da análise das mentiras do fascismo no passado podemos entender melhor nosso estranho presente. O passado e o presente apresentam odiosas convergências na forma como o poder nega a realidade e como essas negações acabam transformando-a, provocando e até mesmo ampliando desastres. Os fascistas fantasiaram novas realidades e depois transformaram a verdadeira. Seus sucessores, como Donald Trump e Jair Messias Bolsonaro, querem fazer a mesma coisa.

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O Homo Bolsonarus é, também, um fundamentalista do caso concreto. Embora possa abrigar alucinações paranoides – aliás, quem não? –, como animal ativo, orienta-se pelos inimigos e alvos a abater. No combate, dado o horror à mediação, as abstrações não são bem-vindas. A bem da verdade, as duas modalidades de horror alimentam-se reciprocamente, já que mediações são materializações de abstrações. Daí a dificuldade em compreender como instituições desprovidas de poder material – cortes constitucionais, por exemplo – podem sobrepor-se a mandatários populares e à força das armas. Isso é virtualmente inconcebível aos olhos do HB. Creio mesmo tratar-se de um limite cognitivo a ele inerente.

(…)

O HB quer fechar o STF e o Congresso, empastelar a imprensa, ocupar militarmente o Poder Executivo e criminalizar os adversários políticos. Tudo isso em nome da liberdade. Antes de julgá-los inconsistentes, importa indagar pelo que tomam a liberdade. Um indício: o HB ama pescar em águas proibidas, odeia pagar impostos e obrigações trabalhistas, deseja dar curso livre e inculpado a seus preconceitos e às ações que eles autorizam e, por vezes, exigem andar sem máscaras em plena pandemia e usufruir do direito de se contaminar com o coronavírus. A liberdade natural, desejada pelo HB, exige a desativação das instituições e normas que garantem toda e qualquer liberdade política e civil. Embora represente-se como uma rocha impermeável, o HB é, no fundo, muito confuso. A tal índole libertária é o complemento comportamental – ou momento subjetivo – do desvínculo entre vida social e estrutura normativa da esfera pública.

É preciso ter muito cuidado. O homo bolsonarus, embora sujeito à ironia e ao humor corrosivo, é hospedeiro da violência. Temo que tenha necessidade imperiosa de exercê-la, como condição de integridade existencial. A reinvenção da democracia entre nós, se e quando vier, não poderá evitar a difícil tarefa de neutralizar as possibilidades de expansão e reprodução do homo bolsonarus. Julgo, no entanto, que em alguma medida ele permanecerá entre nós, como contribuição indelével do consulado corrente da extrema direita ao longo passivo das iniquidades brasileiras. Para tal semeadura, há húmus mais do que suficiente.

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Para baixar a revista, clique na capa.

Em tempo: o terceiro concurso de ensaios da serrote segue com inscrições abertas até 1º/9; serão selecionados três textos, com prêmios entre R$ 4 mil e 10 mil. Saiba mais no regulamento.

O jornalista bolsonarista

No dia seguinte ao AI-5 a genialidade de Alberto Dines (1932-2018), então editor-chefe do Jornal do Brasil, driblou os censores de plantão. Reprodução
No dia seguinte ao AI-5 a genialidade de Alberto Dines (1932-2018), então editor-chefe do Jornal do Brasil, driblou os censores de plantão. Reprodução

 

Jair Bolsonaro sequer sabe que ele existe, mas o jornalista bolsonarista insiste em bajular o presidente, fazendo malabarismos argumentativos para justificar atos desastrados ou falas idem do invasor do Palácio do Planalto.

O jornalista bolsonarista, como de resto qualquer outro profissional bolsonarista (ou bolsonarista profissional), acredita estar acima do bem e do mal. Como seu ídolo (ou “mito”, como prefere/m) se elegeu e governa a partir de uma onda de mentiras – fake news é eufemismo! –, ele acredita que o fato de divulgar “informações” que interessam ao regime lhe dá alguma espécie de cumplicidade ou intimidade com o mandatário e seus asseclas.

Ilude-se o jornalista bolsonarista ao acreditar fazer parte de uma espécie de clube vip – nesse caso, o important da sigla pode ser substituído por idiot.

O jornalista bolsonarista acredita que nada o atingirá. Ele bate palmas para a censura, sem se importar que um dia pode ser ele o amordaçado. Ele aplaude o ataque sistemático à cultura, às artes e ao pensamento. E até mesmo ao jornalismo, em si.

O jornalista bolsonarista nada contra a corrente. Está sozinho, isolado. Os colegas de firma riem de sua cara, diante dele ou em sua ausência. Obviamente o jornalista bolsonarista já percebeu que o governo naufragou, mas aferra-se ao fato de ele ter sido “legitimamente” eleito.

O jornalista bolsonarista chega mesmo ao ridículo de recomendar a colegas identificados como “de esquerda” ou progressistas que guardem seus argumentos, que haverá novas eleições em 2022. Mas disso nem mesmo o jornalista bolsonarista tem certeza.

Na contramão da média, o jornalista bolsonarista parece querer comprovar a tese de Nelson Rodrigues, de que toda unanimidade é burra. Ele é o burro, a confirmar a regra rodrigueana, a livrar a firma da unanimidade.

O jornalista bolsonarista esquece, não sabe, ou finge não saber que o cronista genial só bateu palmas para os generais até o dia em que teve um filho preso e torturado, quando mudou o tom ao opinar sobre aquela outra ditadura brasileira.

O jornalista bolsonarista não sabe escrever sequer em português, mas recorre a termos em latim para dar um ar de sofisticação aos textos que escreve. O que é raro: em geral o jornalista bolsonarista prefere copiar textos prontos.

O jornalista bolsonarista é desonesto: às vezes copia textos alheios sem dar o devido crédito. É desleal mesmo com os que defendem os mesmos ideais que ele.

Talvez por isso os ataques do caudilho ao pensamento não lhe incomodem: ele já não consegue pensar, quanto mais sozinho. O ato de encaminhar mensagens que defendam o governo é automático.

Mas não digo que o jornalista bolsonarista seja uma piada. Ele é parte de uma engrenagem muito maior e nociva, um idiota útil a serviço de um projeto de destruição. Tão útil e tão idiota que cumpre seu papel voluntariamente. E sente-se satisfeito e recompensado por isso.

O jornalista bolsonarista é, como qualquer bolsonarista, um covarde. Um cão que só late por detrás de uma tela de computador ou celular, de onde profere impropérios contra qualquer um que ouse discordar de suas opiniões, mesmo que elas não se baseiem em nada além de convicções frágeis como um dente-de-leão.

Outro dia topei com um jornalista bolsonarista. Ele sequer me deu bom dia, empurrou a porta entreaberta cuja maçaneta eu segurava e passou zunindo, bufando, franzindo o cenho e derramando boa parte do café que trazia, obrigando a moça da limpeza ao serviço extra de limpar sua sujeira, pelo que certamente não lhe agradeceu, afinal de contas, para ele, ela estava apenas fazendo sua obrigação. Segundo sua lógica, ela é quem deveria agradecê-lo, afinal de contas, se ele não sujasse, ela não teria emprego.

Porque o jornalista bolsonarista é orgulhoso de sua própria ignorância e arrogância, que ele confunde com ser inteligente – mas nisso só ele mesmo acredita.

Tanto é que o jornalista bolsonarista é, ele também um, o típico eleitor, defensor e adorador do “mito”, que protestava contra o preço da gasolina a menos de três reais, mas nada diz quando esta custa quase cinco. Tampouco escreverá uma linha contra o anúncio do fim do seguro DPVAT e o consequente efeito sobre o orçamento do SUS. Ou sobre a ideia do mandachuva de fundar um novo partido, o nono ao qual se filiaria ao longo de sua errante trajetória política.

O jornalista bolsonarista não deixa de sair em defesa de seu ídolo nem quando este supostamente o prejudica: o presidente acabou com a necessidade de registro profissional para jornalistas, publicitários e outras categorias, mas para o abjeto objeto desta antiode, obviamente o “mito” agiu certo, afinal de contas, tratava-se apenas de mera burocracia.

Conheço a história de alguns ídolos do rock’n’roll que morreram asfixiados pelo próprio vômito após uma overdose. Parece uma morte mais digna que terminar afogado na própria baba hidrófoba.