Pseudo-concurso público, jornalismo (?), mentira, reitoria, opinião, papado e egolatria

“Confirmado concurso público para o HU”, afirma a manchete de capa de O Estado do Maranhão de hoje (17). No interior do jornal o que se lê é um mega-release (link para assinantes do jornal, com senha), embora o texto não seja tão longo, isto é, nada que justificasse uma manchete de capa, propaganda descarada da gestão do magnífico reitor Natalino Salgado.

Se não se trata disso, o que justifica um jornal anunciar com tamanho destaque um “concurso público” cujo edital só será lançado mês que vem?

Não se iludam a população em geral e em especial os concurseiros de plantão: os aprovados no “concurso público” não serão os novos servidores públicos federais; serão terceirizados, celetistas, com contrato temporário e consequente prazo de validade pré-determinado.

O jornal pode até chamar o “processo seletivo simplificado” de “concurso público”, já que qualquer pessoa que venha a atender os requisitos especificados no edital, quando este for publicado, poderá concorrer ao mesmo; mas não devia criar a falsa ilusão de que tudo corre às mil maravilhas e os problemas que restam serão sanados com “o maior concurso público já realizado na história do Maranhão”, conforme afirmou o megalômano reitor em matéria (link para assinantes do jornal, com senha) do mesmO Estado do Maranhão em 19 de janeiro passado, sobre o mesmo assunto.

Pasmem, poucos mas fieis leitores: a seleção de 3.500 novos servidores do Hospital Universitário, cujo edital somente será lançado em março próximo, já é notícia no jornal da família Sarney há um mês.

A quem interessa toda essa propaganda enganosa? É capaz de o jornal, mês que vem, publicar outra matéria, adiando o lançamento do edital: a adesão do HUUFMA à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) é questionada pelo Ministério Público Federal; isto é, o processo seletivo simplificado pode sofrer adiamento. Ou nem acontecer. É à EBSERH que os novos servidores selecionados no “concurso” estarão vinculados. Serão terceirizados por uma empresa pública de direito privado, isto sim a realização da privatização da saúde usando recursos públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

O texto não foca no processo seletivo, assunto que talvez se resolvesse num parágrafo ou nota, jamais justificando manchete de capa. Alardeia “18 obras (…) em execução no HUUFMA” entre “reformas, ampliações e construção de novas alas” e lembra estar “entre as melhores organizações de saúde do mundo que se destacam na divulgação da produção científica”, conforme ranking do Webometrics Ranking of World Hospitals. Um trecho do texto chega a informar (?) até mesmo quantos acessos teve o site do HU de agosto para cá e o número de profissionais que compõe sua assessoria de comunicação. Estes, certamente empenhados: só assim para conseguir uma dominical manchete de capa com exercícios de futurologia.

O pseudo-concurso público do Hospital Universitário é encoberto por fumaça, não a da inocente diamba desde sempre fumada pelos blocos da UFMA, mas talvez também a do conclave que escolherá o próximo papa com a renúncia de Bento XVI: longe do assunto da capa dO Estado do Maranhão, na página de Opinião do jornal, o sumo pontífice, digo, o magnífico reitor escreve sobre a renúncia papal e a igreja (que frequenta assiduamente). Sob o título Exemplo de abnegação e altruísmo (link para assinantes do jornal, com senha), o texto de Natalino Salgado, imortal da Academia Maranhense de Letras, é só elogios a Ratzinger, cuja renúncia é por ele classificada de “atitude imprevisível e, ao mesmo tempo, corajosa”.

“Estranho ato, muitos disseram, mas que se coaduna com esta época em que a velocidade é o substantivo primordial. Ou, como lembra o sociólogo polonês Zigmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, em que nada é feito para durar. Mal nos acostumamos com o teólogo Joseph Ratzinger a levar sobre si a missão petrina, deparamo-nos com seu perfil sereno a explicar que este seu radical ato é antecedido de demorada meditação e exame de consciência diante de Deus”, prossegue o reitor, parecendo esquecer-se da “solidez” de seus mandatos e dos de outro imortal, o dono do jornal em que escreve, mesmo sustentados por eleições ilegítimas. A última do reitor registrou “uma abstenção gigante, solenemente ignorada pela ASCOM, cada vez mais transformada em assessoria de comunicação do reitor e não da universidade, que alardeou uma vitória esmagadora”, conforme resgatou Flávio Reis em O dono da UFMA.

“As questões em jogo, na Itália e no mundo todo, transcendem a fé, sincera ou não. Vivemos uma época intelectualmente e moralmente pobre, instigada pelos avanços tecnológicos e arrepiada por demandas inovadoras em choque com a doutrina eclesiástica. De aborto a casamento gay. Enquanto isso, a Igreja de Pedro tenta em desespero impor seus vetos e se agarra aos dogmas, cada vez mais inviáveis à luz da razão”, bem lembra Mino Carta no editorial da CartaCapital desta semana, assuntos em que o reitor não toca em seu artigo, mantendo a média do costume bem maranhense de transformar em santo qualquer um que morra ou renuncie.

Voltando aO Estado do Maranhão: a Coluna do Sarney (link para assinantes do jornal, com senha) sobre os 43 anos da ponte do São Francisco é uma imodesta aberração em que ele se põe, por conta da efeméride, a evocar bravatas do tempo em que era governador. Mas Sarney sempre escreveu com o ego, e tão mal, que se seu artigo não fosse, cúmulo da egolatria, publicado na capa do jornal, muita gente sequer o leria ou saberia que existe.

Onde o reggae é a lei

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da música negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de primeiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dançarinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o esquema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os supergraves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas subiam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – os homens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tambor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar referência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Carles Solís fotografou o casal dançando agarradinho da capa

Trecho de Onde o reggae era a lei, prefácio que Otávio Rodrigues, não por acaso apelidado Doctor Reggae, escreveu para Onde o reggae é a lei (cuja capa acima este blogue dá em primeiríssima mão), livro que a Karla Freire lança ainda este ano pela Edufma, com produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, do marido Bruno Azevêdo, que ano que vem lança Em ritmo de seresta: narrativas e espaços sociais da música brega e choperias em São Luís do Maranhão (este o título acadêmico, que deve mudar, para efeitos editoriais). Ambos os livros são frutos de suas dissertações de mestrado em Ciências Sociais (UFMA).

Não tenho culpa se deixo aqui os poucos mas fieis leitores deste blogue com água na boca (o livro tá mais perto do que longe, eu esperei mais, com ansiedade e aflição maiores, podem acreditar!).

O livro de Karla Freire venceu há algum tempo alguma categoria do Concurso Artístico e Literário Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura (Func). Demorou a sair por que seu editor (e marido) não queria engessar os livros como em geral acontece em edições “oficiais”. A espera valeu a pena: fora o texto da autora, há um tratamento caprichadíssimo para quase 70 páginas de fotos, muitas delas de antigos reggaes de São Luís, fruto de uma pesquisa posterior à defesa do trabalho em banca acadêmica.

Em breve este blogue avisa do reggae de lançamento, pra gente curtir umas pedras e as letras da mãe da Isabel.

Notícias do “fim do mundo”

A imprensa noticia que, no Tribunal de Justiça do Maranhão, importantes assessores vendem sentenças, sem cerimônia, a qualquer um que queira e possa pagar o alto preço da tabela. Diante do problema, o desmoralizado governo de Roseana se apressa em dizer, sem convencer muita gente, que “não tem nenhum desembargador envolvido” neste propagado mercado…

Junto ao escândalo, prenderam alguns bois de piranha e o assunto circulou a todo vapor na opinião pública. Mas, na Assembleia Legislativa do Estado – o parlamento maranhense – ninguém teve muito tempo para parlar sobre o caso, afinal, os “nobres” deputados, estavam muito ocupados, em reuniões secretas, decidindo se iriam receber 13, 15, 18 ou 50 salários ao longo de um ano.

Assim tem sido o Maranhão. O estado brasileiro conhecido por muitos como “o fim do mundo”, que vive há quase meio século sob o comando e a influência do atual presidente do Senado brasileiro. Um lugar onde, até hoje, existe todo um ambiente para a encomenda de assassinatos de quilombolas, sem terra, assentados, índios, professores, jornalistas… Em alguns casos, as vítimas são executadas com armas de uso exclusivo da própria polícia.

No mês de abril de 2012, dois desses assassinatos, executados por pistoleiros profissionais, nos chamaram a atenção.  O primeiro, no dia 14, em Buriticupu, quando mataram Raimundo Alves Borges, o Cabeça, um trabalhador rural. Já no dia 23, a vítima foi Décio Sá, conhecido jornalista de São Luís, funcionário do Sistema Mirante (ligado à Rede Globo).

E é exatamente neste oprimido e roubado Maranhão – violento e com os piores índices de Desenvolvimento Humano do país – que a Alumar, a maior produtora de Alumínio da América Latina, neste mesmo mês de abril, sentiu-se à vontade para fazer um grande jogo de cena, para justificar o pedido de mais e mais isenção fiscal. Enfim, combinado com as autoridades locais, querem continuar tirando vantagens desta sofrida população, onde muitos morrem de bala e outros tantos sucumbem à fome.

Trata-se do mesmíssimo Maranhão, onde as casas dos índios Awá Guajá são literalmente queimadas por madeireiros, com indícios de que uma criança teria sido queimada viva! E os madeireiros em questão, em alguns casos, ocupam cargos de prefeito, deputado ou secretário de Estado. E quando a imprensa alternativa trata dessa violência, como foi o caso da pessoa carbonizada, as autoridades, ligadas ao banditismo reinante, se apressam em querer desqualificar a denúncia e fazer o jogo dos madeireiros chapa branca.

Neste mês de abril, houve uma boa notícia, comemorada por todos que são solidários a causa dos índios. O Tribunal Regional Federal (TRF) confirmou a sentença do juiz federal José Carlos Madeira, em favor dos Awá-Guajá. De acordo com a decisão judicial, ficam demarcadas as terras indígenas nos municípios maranhenses de Carutapera, Bom Jardim e Zé Doca. Pela lei, a terra é dos índios.

O problema é que, nesta mesma região, existe o interesse da empresa Agropecuária Alto Turiaçu (Grupo Schahin): cerca de 90% da área que ela ocupa encontra-se nas terras dos Awá. Esta empresa, entre outras coisas, tem ligações antigas com o atual secretário estadual de agricultura, Claudio Azevedo Donizete, da Associação dos Criadores de Gado do Maranhão (por “coincidência”, é a mesma associação a qual é ligado um dos envolvidos no escândalo do TJ-MA).

Está determinado, pela Justiça Federal, que a UNIÃO e a FUNAI promovam o registro da área demarcada, num prazo de um ano, com a remoção das pessoas não-índias e desfeitas as construções edificadas. O que preocupa é, exatamente, o fato do Maranhão ser essa terra sem lei e, em torno do direito dos indígenas, existir este consórcio que envolve figuras da FUNAI, do Grupo Schahin, madeireiros, prefeitos da região e representantes do governo do Estado, enfim, vários tentáculos das organizações Sarney. E, com um time desses jogando junto, tem restado aos Awá a violência e a morte.

Nesta nossa edição, gostaríamos de falar de tudo isso separadamente e não apenas num editorial. Cada um desses assuntos precisa de muita visibilidade, debate e participação da opinião pública. Por isso, cada um deles merecia uma matéria especial, publicada em pelo menos duas páginas. Mas, hoje, no atual estágio em que nosso projeto se encontra, não temos ainda pernas para acompanhar toda a barbárie vivenciada pela sociedade maranhense. Este editorial, então, foi a parte que nos coube, o que nos foi possível neste momento encharcado de sangue e notícias ruins.

Gostaríamos muito, por exemplo, de ter acompanhado de perto e poder participar das manifestações de protesto, ocorridas em Buriticupu, durante o enterro de Raimundo Alves Borges, o Cabeça. O assassinato dele é extremante simbólico, pois está ligado a um dos problemas mais sérios do Maranhão: o velho e dramático conflito pela posse da terra.

Trata-se de um trabalhador rural, que morava num assentamento e esteve, há mais de 20 anos, na grande luta pela terra que deu origem ao município de Buriticupu, numa guerra onde morreram 54 pessoas. Duas décadas depois, ele é assassinado por que estava denunciando a grilagem de sempre e um esquema de compra e venda de lotes para reforma agrária. Foi mais uma vítima de pistoleiros. Os executores chegaram numa moto e deram vários tiros na cabeça dele.

Raimundo era um militante social, fundou um sindicato ligado a agricultura familiar, era das Comunidades Eclesiais de Base e do Fórum de Políticas Públicas de Buriticupu. Sobre o seu caixão, foi colocada uma bandeira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Tinha 53 anos e deixou mais de 15 filhos. O crime se deu bem próximo da sua casa.

No caso do assassinato de Décio Sá, encaramos o assunto como mais um caso trágico, nesta lista de barbaridades que ocorrem no Maranhão. O que causa perplexidade na opinião pública, é que se trata de uma pessoa bastante conhecida, um profissional liberal, que, além de tudo, trabalhava exatamente para a poderosíssima estrutura de José Sarney. Em nossa opinião, o jornalista foi mais uma vítima deste ambiente de impunidade (e de imenso atraso!) que os ex-patrões dele, fazem questão de manter e aprofundar.

Então, caros leitores, neste momento em que o Maranhão vive agitado por tantas notícias ruins (umas mais divulgadas, outras quase omitidas) estamos publicando uma entrevista que consideramos histórica, com o engenheiro e ex-deputado federal Domingos Freitas Diniz. Ele é, sem sombra de dúvidas, uma das figuras mais importantes da política maranhense dos últimos cinquenta anos. Consideramos sua importância, não pelos cargos e funções de poder, mas, tendo como referência, o interesse público.

Os assuntos que nós tratamos com Freitas, nesta nossa 31ª edição, têm relação, direta ou indireta, com todos estes tristes acontecimentos citados por nós e ocorridos neste abril de 2012. É a questão da máfia, da estrutura oligárquica, do latifúndio, dos enclaves, da violência, da intolerância, enfim, do atraso profundo, deste pedaço de chão que alguns insistem em tratar como o lugar onde o diabo perdeu as botas…

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Acima, editorial e capa da 31ª. edição do jornal Vias de Fato, já nas bancas.