O fôlego musical de Zé da Velha e Silvério Pontes

[sobre o show da dupla, ontem (19), no Clube do Choro de Brasília, em companhia dos amigos Glauco Barreto, Ricarte Almeida Santos, Nelson Oliveira e Paulo Sá ]

Visivelmente mais magro após uma cirurgia, o trompetista Silvério Pontes não deixa nada a dever. Esbanjou boa forma e saúde musical ontem (19) no palco do Clube do Choro, em Brasília/DF.

Ao lado do trombonista Zé da Velha, com quem forma uma dupla – “a menor big band do mundo” – há 28 anos, desfilou um repertório vibrante de choro, acompanhados do quarteto Choro Livre, grupo anfitrião da capital federal, um dos tantos formados no bandolim projetado por Oscar Niemeyer que serve de sede ao Clube do Choro brasiliense.

Abro parênteses: impossível não adentrar o recinto, entre bar e teatro, adornado por um painel com temas chorístico-musicais, o fundo de palco evocando o homenageado do ano, o pianista acriano João Donato, e perguntar quando São Luís, outra importante praça do mais brasileiro dos gêneros musicais, terá uma sede algo parecida. Fecho parênteses.

Foi com música de João Donato que Zé da Velha e Silvério Pontes abriram o show: uma execução primorosa de A rã (letrada por Caetano Veloso). Clássicos do choro, como Cheguei (Pixinguinha), Pedacinhos do céu (Waldir Azevedo), Carioquinha (Waldir Azevedo), misturaram-se a temas menos conhecidos, como Casa nova (Pedroca) e Maxixe da família (Silvério Pontes).

Ainda houve espaço para piadas, entre as declarações da dupla pelo prazer de voltar à cidade em que ainda tocam hoje (20) e amanhã (21), às 21h (ingressos à venda no local, R$ 20,00). “Já são 28 anos tocando juntos, já é Zé da Velha e Seu Velho Pontes”, brincou o trompetista.

Com seus cabelos prateados e timidez característica, além do fôlego para soprar seu trombone, Zé da Velha ainda cantou Ai, que saudades da Amélia (Mário Lago/ Ataulfo Alves), para deleite da plateia.

Para semana que vem a produção do Clube do Choro anunciou apresentações do bandolinista baiano Armandinho Macedo, “depois do turbilhão do carnaval”. Inspirado nos acontecimentos chorísticos em Brasília/DF, Ricarte Almeida Santos, que estava na plateia, estuda a possibilidade de o Clube do Choro do Maranhão tornar às suas atividades musicais em breve.

Um breve encontro com Carrapa do Cavaquinho

A trabalho em Brasília/DF dei de cara com um rosto familiar. A memória funcionou ligeiro e eu gritei, ainda de dentro do carro, “Carrapa!”. Suponho que assustei o senhor que dedilhava um cavaquinho dentro de um Uno Mille, num estacionamento, enquanto Fernando manobrava o carro em que estávamos. Meti a mão na maçaneta e avisei-o que continuasse a manobra, pois eu precisava falar com o músico. Desci antes dele terminar e encarei o sol quente e vento frio da capital federal enquanto me apresentava a Carrapa do Cavaquinho (ao instrumento que lhe dá sobrenome no vídeo que abre este post), músico brasiliense infelizmente ainda pouco conhecido fora dali. Pouco conhecido para alguns muitos; para mim, uma lenda viva.

Ao ouvir meu nome, ele disse não ser estranho, sabe-se lá se por gentileza ou qualquer outro motivo. O fato é que tenho seu em casa, um disco solo autografado, além de um do Liga-Tripa, ouçam o que lhes digo, o melhor grupo surgido em Brasília que já ouvi. Este disco, dividido com o Choro Livre, grupo de choro, como o nome entrega, está autografado a mim pelos membros do Liga-Tripa, de quem também tenho cópia do vinil Informal Ao Vivo, gravado por eles em 1988 em algum teatro da cidade.

Nunca tinha estado com nenhum deles: os autógrafos me foram conseguidos por amigos comuns, Glauco Barreto, também músico, de extremo bom gosto, talvez em articulação com o jornalista-músico Nelson Oliveira, a poeta Noélia Ribeiro e quiçá alguns outros.

Conversei uns poucos minutos com Carrapa do Cavaquinho e ao ser indagado por ele, “você tá no facebook?”, respondi passando todos os meus contatos. “Um dia chegando em São Luís te procuro”, prometeu.

Perguntei se o Liga-Tripa ainda tocava no Café da Rua Oito, onde eu sabia, há alguns anos, que eles se apresentavam mensalmente, se na primeira ou última quinta-feira do mês já não lembro. Ele disse que o café já nem existe mais.

Os três discos acima citados, difíceis de encontrar, recomendo procura e audição aos poucos mas fieis leitores deste blogue. Torço para que o Liga-Tripa volte a gravar, certamente têm coisas novas para mostrar, mas preferi não perguntar isso a Carrapa.

Despedi-me com outro aperto de mão e ainda pude ouvir umas notas do cavaquinho que ele empunhava, gastando o tempo da espera por alguém, o que também fazíamos eu e Fernando, ali, por perto de meio-dia. Do carro em que estava, ainda vi Carrapa guardar no quebra-sol o papel em que lhe dei anotados meus contatos, o blogueiro desleixado nunca carrega cartões de visita ou máquina fotográfica.

Jô e Pedrosa, a quem esperávamos, chegaram. Estacionado imediatamente atrás do de Carrapa, o carro conduzido por Fernando andou e eu ainda acenei para ele num último cumprimento, rumo ao almoço.