O peso das escolhas

[O Imparcial, ontem]

Michel Laub lança segundo volume de trilogia em que analisa o peso individual de grandes catástrofes. A maçã envenenada relaciona o genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain para contar uma história de amor

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O gaúcho Michel Laub é um dos mais talentosos escritores em atividade no Brasil – e um dos 70 que está representando o país na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. A maçã envenenada [Companhia das Letras, 2013, 119 p., leia um trecho] segue um modo particular de escrever: capítulos curtos e certeiros, espécies de notas numeradas, daquelas que facilitariam ao leitor interromper a leitura, um marca páginas, e continuar logo em sequência – isso se se conseguisse parar.

O título retirado de um verso do Nirvana – de Drain you, do mítico Nevermind, de 1993 – une temas aparentemente sem relação alguma: o suicídio de Kurt Cobain e o martírio de Immaculée Ilibagiza, escritora ruandesa que sobreviveu ao confinamento por 91 dias em um banheiro enquanto sua família era dizimada por um genocídio étnico, ambos em 1994 – a relação entre os dois acontecimentos se dá pelo jornalismo, outro ofício de Laub, e o tom autobiográfico não está aí à toa ou por ego. O título, que caberia a um conto de fadas, deve ser levado a sério.

O que o autor conta é uma dolorosa história de amor, iniciada e terminada nos verdes anos juvenis: uma história de perda. Ou de perdas. A maçã envenenada é o segundo volume de uma trilogia iniciada por Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], em que Laub analisa o peso de catástrofes de repercussão global a partir de um olhar particular, mesclando memória, autobiografia e ficção.

O dilema entre ir ou não ao show do Nirvana no Brasil – que o próprio Kurt Cobain classificaria como o pior show da banda em todos os tempos – por um estudante que cumpre o serviço militar obrigatório – uma aberração que sobrevive aos quase 30 anos do fim do regime militar brasileiro – é o ponto de partida para uma trama bem construída, em que cenários e personagens se alternam para contar uma história acima de tudo humana, o início de uma biografia cujos capítulos juvenis morarão na saudade quando um adulto olhar para trás e se perguntar o que poderia ter acontecido se tivesse feito outras escolhas – ir a um show de rock e desertar ou ficar e não ser punido?

Cadernos de passado e futuro

Michel Laub mistura autobiografia, ficção e memórias em sua novela Diário da queda

POR ZEMA RIBEIRO

A palavra Auschwitz aparece muito em Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], quinto livro de Michel Laub. O autor esbanja talento para tratar de tema tão repisado na literatura e no cinema e ainda assim soar original.

Diário da queda, como entrega o título, é construído em forma de diário, não que saibamos o que o autor/protagonista estava fazendo tal dia e tal hora, mas pela estrutura, em notas breves, conduzindo uma deliciosa leitura.

Trata da descoberta de cadernos do avô e do pai e poderia ser a terceira geração de escritores de diário, tomadores de notas ou coisa que o valha, Laub construindo seu próprio diário a partir das experiências com as leituras dos anteriores, numa ficção confessional.

“As primeiras anotações nos cadernos do meu avô são sobre o dia em que ele desembarcou no Brasil. Já li dezenas desses relatos de imigrantes, e a estranheza de quem chega costuma ser o calor, a umidade, o uniforme dos agentes do governo, o exército de pequenos golpistas que se reúne no porto, a cor da pele de alguém dormindo sobre uma pilha de serragem, mas no caso do meu avô a frase inicial é sobre um copo de leite.” (p. 24).

O avô começou a tomar notas como uma enciclopédia sobre aquilo com que ia se deparando, um copo de leite, o porto, a pousada Sesefredo onde inicialmente se hospedou ao chegar ao país. O pai o faz como um exercício quando é acometido do mal de Alzheimer, como os habitantes da Macondo de Gabriel García Marquez, que anotavam nomes e funções de coisas para não esquecê-las.

Não há limites entre a autobiografia e a invenção na prosa de Laub: não sabemos onde começa e termina uma e outra. No fim das contas ele escreve uma bela carta/declaração de amor a uma quarta geração que vai chegar. Livro e autor merecem cada prêmio recebido até aqui.

[Essa nanoresenha (copyright by Joca Reiners Terron) saiu no Vias de Fato de junho. Leia o primeiro capítulo do livro aqui]