“A minha maior musa é a experiência”: o “punk junk” de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes

Jonnata Doll em foto de Nino Andrés
Jonnata Doll em foto de Nino Andrés

 

Jonnata Doll não tem papas na língua. Seu “rock Fortaleza”, como classifica o som de seu grupo, Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, não se limita ao rótulo. Ele não teme expor, em seu trabalho autoral ou em entrevista, sua relação com o universo das drogas, por exemplo.

Crocodilo. Capa. Reprodução
Crocodilo. Capa. Reprodução

Os Garotos Solventes são Leo Breedlove (guitarra), Edson Van Gogh (guitarra), Saulo Raphael (contrabaixo) e Marcelo Denidead (bateria). Em Crocodilo [2016], segundo disco de estúdio da banda, Jonnata Doll (voz, guitarra e violão) contou ainda com as participações especiais do conterrâneo Fernando Catatau (Cidadão Instigado, guitarra em Cigano solvente) e Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana, guitarra em Swing de fogo e guitarra e violão em Quem é que precisa?).

Com o último e Marcelo Bonfá, participa da turnê que comemora os 30 anos de Legião Urbana [1985], primeiro disco da banda liderada por Renato Russo (1960-1996), de Será, Geração Coca-cola e outros clássicos do brock – Doll canta duas músicas no show e esteve em São Luís, quando a turnê passou por aqui, em junho passado.

Crocodilo é um álbum punk introspectivo, autobiográfico, com direito a um “glossário de gírias” locais, caso por exemplo de Gary, título de uma faixa: “arroz de festa, segura vela, o apaixonado que vira amigo da gata e não consegue ficar com ela”, aponta o encarte. A questão social também é abordada por Doll e Os Solventes: o turismo sexual é tema de Táxi. Engana-se quem pensa num álbum hermético ou “regional”.

Entre a correria das festas de fim de ano e a participação na turnê com os remanescentes da Legião Urbana, Jonnata Doll conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Nino Andrés
Foto: Nino Andrés

De onde vem o Doll de teu nome artístico?
Vem de um dia, há muito tempo atrás quando experimentei o medicamento haloperidol, é segura doido, fiquei travado, músculos retesados e escutando na cabeça dol, dol, dol, dol. Na época tava tentando achar um nome de guerra, aí coloquei mais um L para fazer referência a essa palavra que aparece muito dentro do punk, seja em nome de bandas ou músicas, mas também há motivos secretos…

A gente percebe muito fortemente o tema das drogas em tuas músicas, desde o nome da banda até mesmo ao título do disco, entre outras. Como você lida com a temática?
Eu vim de uma família evangélica pentecostal, aonde era 8 ou 80. Ou tu tava na igreja ou tava “desviado” afundado nas drogas e na cachaça. O resultado é que no início fazia questão de ouvir rock e não usar drogas. Uma vez a polícia me parou quando eu estava com minha primeira gang, os “jack legais”, e começaram a procurar drogas, bater, pressão psicológica, “tu é roqueiro e não usa droga, porra?”, me orgulhava de não usar. Até que minha amiga Érika, judia roqueira funkeira jornalista speedfreak, me convenceu a cheirar cola. Daí eu deslumbrei uma outra faceta da realidade, a noção de tempo se expandiu e daquele dia em diante percebi que só ouvir Pink Floyd e fechar os olhos não me levaria de volta àquele lugar. Virei um psiconauta autodidata, experimentei tudo que podia em diferentes contextos, sempre para ver como seria criar e apreciar arte sob efeito de algum alcaloide, até que encontrei a morfina e aí essa relação de experiência deu lugar a anos de vício, chegando até o fundo do poço, até conseguir sair, quando comecei a compor o Crocodilo isolado em um sítio e apaixonado por uma mulher estrangeira. Mas é isso, o homem tem que passar por experiências nessa vida que te tirem do lugar.

Como você classifica o som de Jonnata Doll e os Garotos Solventes?
Rock Fortaleza

A pegada punk se sobressai em Crocodilo, que conta com participações especiais de Dado Villa-Lobos e Fernando Catatau, músicos que têm uma história com este universo, além da produção de Kassin. De que modo eles influenciaram na sonoridade do disco?
Na verdade, tem a produção do [Yuri] Kalil também, que é nosso parceiro e já tinha produzido o primeiro disco. Táxi foi a única música que construímos em estúdio a partir de sugestões da dupla de produtores. No geral, a ideia era tentar chegar numa coisa mais crua, com sinths sujos e pedais fuzz, a ideia deles era trazer o espírito do show. Só que eu tava vindo do interior, de um sítio que pertence à minha família, aonde passei parte da infância e lá passei meses só com um violão e apaixonado, tentando entender a psicomagia, superar a relação de dependência com a morfina e eu cheguei com algumas propostas acústicas e letras mais voltadas para o interior. Daí o Crocodilo ter esse lado mais introspectivo, que não tem muito a ver com a ideia original dos produtores – pelo Kassin acho que seria mais esporrento. Mas eles curtiram esse punk de Cheira cola urbano ao lado da balada acústica Quem é que precisa?. Na época também trouxe elementos de música árabe, pois fazia dança do ventre com a esposa do Kalil, a incrível bailarina Lenna Beauty, que participa no disco [backing vocal na faixa-título] e eu tava apaixonado por uma espanhola, minha namorada que dançava flamenco. O Kalil foi importante para me ajudar a mergulhar nisso, pois ele tem um projeto musical com a Lenna, chamado Cearábia, do qual fui convidado, que é influenciado por músicas ibéricas e ciganas. Então é isso: Crocodilo é um disco de um punk junk mergulhando no amor por uma espanhola de sangue cigano andaluz

Crocodilo foi gravado em Fortaleza e seu encarte traz um dicionário de gírias usadas no Ceará. No entanto não se pode rotulá-los de som regional ou coisa que o valha. Como vocês lidam com as barreiras, sejam elas geográficas, culturais ou de qualquer ordem?
É um regional pós-moderno. A Fortaleza que eu vivi era uma cidade moderna, mas ao mesmo tempo provinciana, em que o senso comum era o forró eletrônico dominando tudo, ser cool era saber dançar forró e pegar meninas com uma dança de acasalamento. Mas para mim, que cresci lendo gibis, dançando Michael Jackson e ouvindo Elvis com minha tia doidona – aquela que aparece no clipe de Esqueleto e Rua de trás [ambas do álbum de estreia, de 2014]: Tia Zú –, juventude era outra coisa, tinha a ver com se rebelar e não aceitar aquele som medíocre e machista, que exultava o modo de vida consumista. Então o forró me influenciou na medida que eu o negava e me tornava mais rocker, mais maldito. Era um dos poucos caras que ouvia rock na escola e essa minoria, quase não havia garotas, se unia e o laço de amizade era muito forte, pois só a gente se entendia. Mais na frente eu percebi que radicalismos são por natureza burros, eles servem a revolução e a luta armada, por que naquele momento você tem que acreditar que preto é preto e branco é branco, mas isso não é a realidade, o mundo não é binário, é um fluxo e não importa aonde vamos chegar e sim seguir em frente.

Por falar em Ceará, no mesmo ano em que vocês lançam Crocodilo, Alucinação, de Belchior, considerado por muitos o melhor disco já lançado por um artista cearense, completa 40 anos. Que lugar ocupam nomes como Belchior, Fagner e Ednardo para vocês, seja na memória afetiva, seja enquanto influência ou referência?
Belchior… tenho mergulhado no trabalho dele desde que me mudei para São Paulo e até cantei ao vivo algumas músicas dele. Nos momentos de solidão e perrengue, ele é o cara que ensina, pois ele estava lá no Sudeste, sem dinheiro, na rua, nos anos 60. Belchior é um herói, a trajetória dele não se contradiz e acho o máximo ele ter ido embora. Escuto ele como escuto um irmão mais velho. Ele e o Catatau, este sim mais próximo, meu irmão de arte. A música deles me ensinou também a fugir do previsível, o que não é fácil com a pouca habilidade musical que eu tenho. O Ednardo tenho ouvido ultimamente e percebi que dos três ele é o mais enigmático e melancólico, embora a melancolia seja uma marca do cearense, nosso maracatu é lento e fúnebre. Eu e o Edson Van Gogh – moramos juntos em São Paulo – chegamos ao arranjo final de uma música nova ao ouvir o álbum O romance do Pavão Mysteriozo [1974]. Traduzir-se [1981], do Fagner, é o disco que tenho ouvido dele, que mistura as influências espanholas e ciganas, tem participação do Paco de Lucia e Camaron de la Isla, exatamente o som que eu ouvia na época em que compus o Crocodilo.

Você soa bastante autobiográfico em músicas como Ruth: “estou livre, mas realmente… eu não tou feliz!/ quebrei tudo na tua casa só pra não ter que quebrar minha cara no chão/ você me deu amor de verdade e eu retribuí com traição”. Em tempos de superexposição em redes sociais, o artista precisa, cada vez mais, ser sincero?
Eu faço assim por que os artistas que me tocam são assim. Talvez minha maior referência sejam os escritores beats William Burroughs e Jack Kerouac, assim como o carioca João do Rio. A minha maior musa é a experiência! O que seria de Lou Reed, Belchior se não fosse a experiência que te faz gozar e queimar? Agora tem vezes que dou lugar ao que observo na vida, as histórias urbanas, os lugares. O terceiro disco da gente vai ser sobre a nossa relação com São Paulo, os lugares… O Vale do Anhangabaú e as pessoas que moram embaixo do Viaduto do Chá que eu conheço quando vou comprar “chá” com eles, por exemplo.

Falando em sinceridade e exposição, como você lida com o universo das redes sociais e com a internet como um todo?
Eu uso para divulgar o trabalho dOs Solventes e cada vez menos por motivos pessoais. Também curto a pornografia caseira. Mas no geral tenho uma atitude conservadora com essa parada de selfies e coisas do tipo.

2016 foi um ano conturbado, do ponto de vista político. A palavra da vez foi crise. Qual o seu balanço pessoal do ano e quais as perspectivas para 2017?
Esse ano foi o ano que os conservadores levantaram a voz, por que até então, eles não precisavam, eles já estavam no poder. Agora que eles o tomaram outra vez, que o velho liberalismo econômico é apontado como solução, como se ele não estivesse sempre aí, tudo que é considerado descartável – arte e cultura – vai deixar de ter apoio da sociedade estabelecida. Meu plano em 2017 é tocar nas periferias, na rua, continuar realizando festivais independentes, como o festival Volume Morto, em São Paulo, e Fortaleza Cidade Marginal, em Fortaleza, para formar público, pois o artista só precisa de seu público e queremos agitar as cidades, divulgar o Crocodilo, viajar e brilhar na noite da América do Sul!

Linguagem: vírus e vício/s de Burroughs

Burroughs. Capa. Reprodução
Burroughs. Capa. Reprodução

 

Burroughs [Veneta, 2015, 128 p.], de João Pinheiro, outro brasileiro de reconhecimento internacional, é um mergulho profundo na atormentada mente do escritor beat – o quadrinista já havia hqbiografado outro da geração, em Kerouac [Devir, 2011]. A impressão arroxeada do miolo da graphic novel lembra as provas mimeografadas da escola da infância.

“A linguagem é um vírus vindo do espaço”, determina um dos primeiros quadros da história. O big bang de William Burroughs (1914-1997) foi o assassinato de sua esposa Joan, numa brincadeira de de seu xará Tell.

A HQ retrata um Burroughs perseguido por fantasmas, escrevendo para fugir deles, seu processo criativo, o método cut up utilizado por ele, Mugwumps, drogas, alucinações, o famoso inseto de Kafka, sua bissexualidade, a interzona e o Almoço nu – levado ao cinema por David Cronenberg. Também estão lá a violência – sobretudo contra homossexuais – e a sociedade que a aplaude, aos gritos de “bandido bom é bandido morto”.

“Morfina, heroína, dilaudid, eucodal, pantopom, diocodid, diosane, ópio, demerol, dolofina, paufium… comi, cheirei, injetei, enfiei no reto… o método não importa, o resultado é sempre o mesmo: dependência”, revela a certa altura. “Foram 15 anos no vício. Aos quarenta e cinco anos de idade, me livrei da doença da dependência. (…) Registrei minhas alucinações em centenas de páginas que mais tarde seriam publicadas sob o título Almoço nu”, continua. E arremata: “A única coisa real sobre um escritor é o que ele escreve, e não a sua vida. (…) Sinto-me forçado à conclusão apavorante de que nunca teria me tornado um escritor… sem a morte de Joan”.

Burroughs é, em suma, a história da busca de seu protagonista, um artista que viria a influenciar gerações, por salvação através da literatura, sua única crença possível.

A guerra dO Imparcial contra Jean Wyllys

Deputado psolista volta a ser atacado por O Imparcial. Foto: portalmidia.net. Reprodução

O jornal maranhense O Imparcial voltou à carga hoje (30) contra o deputado federal Jean Wyllys (PSol/RJ), que protocolou projeto de lei que prevê a regulação da produção, industrialização e comercialização de maconha no Brasil, o que é bem diferente de propor o uso da erva, como estampou o jornal na manchete Deputado propõe uso da maconha (de 19 de março).

Em A guerra de Jean pela legalização, o periódico afirma que a matéria citada era de autoria da Agência Brasil, onde a mesma traz a seguinte manchete: Deputado propõe descriminalização do uso e produção da maconha. Percebem a diferença?

A colagem de releases, textos de assessorias e agências de notícias é prática cotidiana no jornalismo cometido no Maranhão desde sempre. Muda-se o título (às vezes) para engabelar o leitor mais desatento, mantém-se o texto, sem tirar nem por vírgula, e tem-se “outra” notícia, mesmo que seu conteúdo não condiga com a manchete.

Hoje o jornal “defende-se” dA fúria de Jean Wyllys contra a imprensa (outra manchete hodierna) alegando que o texto é da Agência Brasil – por que, na ocasião, não manteve o título da agência e/ou não lhe deu o devido crédito quando de sua publicação?

A página inteira [Política, 2] dedicada a “combater” Jean Wyllys e a maconha fecha-se com um perfil em que o deputado é tachado como alguém que “se diz defensor das minorias”. Lembremos que o psolista é o primeiro representante orgânico do segmento LGBT eleito para a Câmara Federal em tantos anos de história. Não é O Imparcial quem vai lhe dar, tirar ou atestar títulos. Cereja do bolo, ainda na página inteira: cinco políticos conservadores atacando o socialista e defendendo o jornal: Eliziane Gama (deputada estadual/ PPS), Pedro Lucas Fernandes (vereador/ PTB), Magno Bacelar (deputado estadual/ PV), Barbara Soeiro (vereadora/ PMN) e Afonso Manoel (deputado estadual/ PMDB).

O jornal afirma ainda que “O parlamentar foi procurado inúmeras [sic] ao longo da semana pela reportagem de O Imparcial para falar sobre o assunto, mas não quis se manifestar sobre o assunto [sic] em nenhum momento, sempre colocou a sua assessoria de imprensa para responder aos questionamentos [sic], os quais não foram respondidos em relação as [sic] críticas feitas a [sic] imprensa e ao imprenso [sic]”.

Só para lembrar: Jean Wyllys esteve em São Luís sexta-feira passada (28), ocasião em que participou de coletiva de imprensa na Quitanda Rede Mandioca e de Seminário Programático de Direitos Humanos de seu partido, no Sindicato dos Bancários.