José Sarney e sua síndrome biográfica

José Sarney continua obcecado com a ideia de fraudar a história e reinventar sua biografia. A ladainha do mitômano já é conhecida. O livro de Regina Echeverria, por exemplo, lançado há um ano, foi uma evidente compilação de patranhas.

O último ato decorrente desta síndrome, veio à tona no último dia 27 de março. Nesta data, foi anunciado na TV Guará (repetidora da Record News, no Maranhão), a estreia do programa Avesso, trazendo “uma entrevista com José Sarney”, cuidadosamente divulgada (e depois repercutida) no sempre governista O Imparcial. O entrevistador, propagado com relativo estardalhaço, foi o escritor, cronista e teatrólogo Américo Azevedo Neto, confrade do entrevistado na Academia Maranhense de Letras (AML).

No discurso de Sarney, no lugar do ex-presidente da ARENA, aparece de súbito “um democrata”; em vez do afilhado e ex-correligionário de Vitorino Freire, surge um “oposicionista firme e corajoso”; o notório corrupto torna-se o intelectual de “prestígio internacional”; um inescrupuloso e burlesco Odorico Paraguaçu posa de “estadista”; o aliciador odiento e vingativo se disfarça numa figura “generosa” e “sem ressentimentos”; o aliado visceral de torturadores é “quase um comunista” e o protetor de latifundiários assassinos, quer se passar por um “cristão radical”, a “nossa” Madre Teresa de Curupu…

Quanto à tertúlia na TV Guará, a emissora do opulento Roberto Albuquerque (agora, bem cevado pelo governo Roseana e por “generosas” empresas), ninguém falou da famosa “universidade da fraude”, nas urnas de “Zé meu filho”, nas diabruras do desembargador Sarney Costa, nas velhas chicanas jurídicas, no golpe de 64, no AI-5, na construtora Mendes Junior, nos ilícitos junto ao Diário Oficial, no processo contra Ribamar Bogéa e Freitas Diniz, na Lei de Terras, nas baixarias do Jornal de Bolso, na brutal grilagem ocorrida no Maranhão, nos inúmeros assassinatos no campo, na Fazenda Maguari, na tortura, no atentado contra Manoel da Conceição, na inflação de quase 100% ao mês, no desastre da Nova República, na CPI da Corrupção, na distribuição de concessões de TV, no Caso Reis Pacheco, do Convento das Mercês, etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc.

A entrevista foi apenas uma sequência das velhas e surradas mentiras do entrevistado, que a TV Guará “esqueceu” ser hoje uma das figuras mais desmoralizadas do Brasil (uma chacota, de cabo a rabo do país). Ao final, não podia ser diferente, ficou tudo muito ruim… Num programa batizado como Avesso (o oposto, o outro lado), o que se viu nesta edição de estreia foi mais do mesmo: a velha propaganda sarneyista que não convence rigorosamente a ninguém.  Como disse o ex-senador Artur da Távola, sobre o discurso de Sarney no “Caso Lunus”: “A montanha pariu um rato…” E acreditem!: hoje, é bem possível que até Dona Marly tenha vergonha deste tipo de presepada do filho do desembargador…

E roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão…

[Editorial publicado no site do Vias de Fato. Detalhe curioso pra quem não tiver se ligado: Américo Azevedo Neto é pai de Emílio Azevedo, um dos editores do jornal, cuja edição de março já está nas melhores bancas da Ilha. Honra em colaborar com um jornal em que o departamento comercial não se sobrepõe à redação, em que laços políticos e/ou familiares não interferem na informação e na verdade; a charge de Nani eu já havia publicado aqui]

Chico Discos: um bar

Ao contrário do que muita gente é induzida a pensar o Chico Discos é um bar. Explico: quem diz isso é o próprio Francisco de Assis Leitão Barbosa, o Chiquinho, seu proprietário, em entrevista ao jornal Vias de Fato, em sua edição de março, que saiu da gráfica quinta-feira passada (22).

Uma entrevista hilária concedida ao colega de redação, copo & alma Emílio Azevedo, nosso redator-chefe, editor, gerente e quantas outras funções “a dor e a delícia” de parir este jornal às ruas mês após mês exigirem.

Chico, desde antes de eu conhecê-lo, e já se vão mais de 12 anos, ele uma dessas amizades qual uísque, que melhoram com o passar dos tempos, sempre foi, como este blogueiro, “um homem de vícios antigos”, sempre comprando muitos discos, livros e dvds. Não raro nos encontrávamos no saudoso Bar de Seu Adalberto, um dos “bares pequenos” que ele cita na entrevista e onde costumávamos beber (e onde A vida é uma festa começou), cada qual com uma sacola debaixo do braço num doce e saudável exercício de fazer inveja um ao outro, exibindo mutuamente nossas mais recentes aquisições literárias, musicais, cinematográficas, afetivas, enfim.

Chico diz que seu bar, localizado no segundo andar de um casarão na esquina das ruas Treze de Maio e Afogados, no centro de São Luís, não passa disso: um bar. Nega as charmosas denominações de “centro cultural”, “casa de eventos” e outras pomposas honrarias. O fato é que ele começou vendendo livros e discos usados e locando dvds, atividade que abandonou em sequência. Hoje em dia vende cervejas, cachaças e outros alcoóis, petiscos, tira-gostos e o que mais nós, chegados a um grogue, tanto gostamos.

Quinta-feira passada (22) estive lá. Participando do Papoético, que acontece semanalmente, sob organização de Paulo Melo Sousa, o primeiro à esquerda, na foto acima, feita a meu pedido por Andréa Oliveira, esposa de Celso Borges, o terceiro. O segundo sou este que vos tecla e o quarto o músico André Lucap, que na semana anterior iniciou uma temporada de shows no bar.

Preciso deixar a cretinice e a preguiça de lado e aparecer mais no Chico Discos, bar em que, ao lado do Bar do Léo, sinto-me bastante à vontade, em casa mesmo. No Papoético em que a foto que ilustra este post foi feita acontecia o lançamento da Campanha Estadual de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e outras entidades do Comitê Estadual de Combate à Tortura.

Além do Papoético (às quintas, 19h30min, grátis) e da temporada de Lucap (uma sexta-feira por mês, R$ 10,00 o ingresso; este blogue avisará da próxima edição e seu autor estará na plateia), também o cineasta Beto Matuck tem organizado aos sábados (19h, grátis) a sessão Encontro com Cinema, seguida de música, com pesquisa de Eduardo Júlio (eles não estão na foto, mas também encontrei ambos, quinta passada).

Finalizo recomendando a leitura da entrevista, hilária, repito, de Chiquinho, no Vias de Fato, já nas bancas, que traz ainda dois textos meus, já publicados aqui e aqui.

O Monstro Souza no Programa do Jô

Coautor de O Monstro Souza com Bruno Azevêdo, Gabriel Girnos desenhou o personagem principal no sofá do gordo, especialmente para a ocasião.

Há muito eu não esperava pelo Jô. Ontem valeu a pena. Que o maior escritor do Brasil, opinião de ninguém menos que Xico Sá, seja conhecido pelo Brasil.

Para quem perdeu, a entrevista tá aí embaixo, cortesia da querida sempre leitoratenta Thayane.

Jô Soares entrevista Bruno Azevêdo

Desculpem o em cima da hora, mas só soube há pouco, no intervalo da novela: autor de Breganejo Blues – Novela Trezoitão e O Monstro Souza – Romance Féstifud, o escritor maranhense Bruno Azevêdo é um dos entrevistados de hoje (12) do Programa do Jô, logo mais, na Globo.

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Sonhei que voltava às estradas, mas desta vez não tinha 15 anos e sim mais de 40. Só tinha um livro, que levava em minha pequena mochila. De repente, enquanto ia caminhando, o livro começa a arder. Amanhecia e quase não passavam carros. Enquanto jogava a mochila chamuscada em um canal, senti que minhas costas coçavam como se tivesse asas.

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Um sonho-poema-em-prosa de Roberto Bolaño (foto) traduzido por Ronaldo Bressane no Pernambuco deste mês. O suplemento traz ainda uma entrevista com Lourenço Mutarelli, entre outras coisas bacanas.

“Problemas causados pela Vale têm a conivência dos governos”

Entrevista que o sindicalista Novarck Oliveira concedeu a este blogueiro e a Emílio Azevedo para o Vias de Fato de fevereiro, a história vocês já conhecem: a edição do mês passado saiu apenas este mês etc., etc. etc., motivos de força maior que o “conselho” está buscando resolver.

A versão da cabeça abaixo é ligeiramente diferente da versão impressa do jornal. Lá alguma coisa se perdeu pelas idas e vindas de e-mails entre redação, edição e revisão. Nada, no entanto, que comprometa o resultado final.

No início deste ano de 2012, a Vale – antiga companhia Vale do Rio Doce – ganhou o prêmio de pior empresa do mundo. Esta anti-homenagem ocorre todos os anos, desde 2000 e é conhecida como o “Nobel da Vergonha”. A indicação foi feita por um grupo de ambientalistas e organizações sociais, formado pela Rede Justiça nos Trilhos, a Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale, o International Rivers e a Amazon Watch. O prêmio, anunciado durante o Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça), é entregue por duas ONGs: Greenpeace e Declaração de Bernia. É a primeira vez que uma empresa brasileira passa por este desgosto.

Segundo as entidades as razões para a premiação da Vale foram “as repetidas violações dos direitos humanos, condições desumanas de trabalho, pilhagem do patrimônio público e pela exploração cruel da natureza”. A eleição é feita pelo voto direto e qualquer cidadão do mundo pode votar. Do Maranhão, muita gente votou e fez campanha. Ao todo foram mais de 25 mil votos para a Vale. A empresa japonesa Tepco, responsável pelo desastre nuclear de Fukushima, ficou em segundo lugar.

Diante deste fato importante e simbólico, o Vias de Fato resolveu ouvir Novarck Silva de Oliveira, diretor de Comunicação e Política Sindical do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias dos Estados do Maranhão, Pará e Tocantins (STEFEM), uma das instituições que apóia a Rede Justiça nos Trilhos. Novarck é funcionário da Vale há 28 anos e atualmente é também diretor de Formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no Maranhão.

Leitor e ouvinte voraz, Novarck frequenta regularmente as reuniões do Narcóticos Anônimos (NA) – “limpo” há 12 anos, hoje, aos 47, fuma cerca de 40 cigarros por dia, “de filtro amarelo (são mais fortes)” – e já teve um bar, assuntos que ele também aborda na entrevista concedida aos jornalistas Emílio Azevedo e Zema Ribeiro, do Vias de Fato. O paraibano de Campina Grande, torcedor do Treze daquela cidade, destaca, entre seus autores prediletos, releituras e leituras atuais nomes como Aldous Huxley, Mia Couto, Victor Hugo e Máximo Górki. Na música, entre coisas novas e outras nem tanto, tem sempre no som nomes como Ceumar, Vander Lee, Chico Buarque, Pink Floyd, Smiths, Mônica Salmaso, Scorpions, Gênesis e Guns’n Roses, entre outros. Leia a seguir a entrevista. Continue Lendo ““Problemas causados pela Vale têm a conivência dos governos””

Baleiro, ímpar, íntegro

“Adoraria fazer algo aí, especialmente pra essa ocasião [os 400 anos de São Luís], mas diante do contexto político da cidade e do estado, não posso tomar parte. Confesso que às vezes sinto uma certa vergonha da situação social e politica do Maranhão. Temos vocação para a riqueza e somos miseráveis. Temos uma cultura exuberante e nossos artistas morrem à míngua. Temos um patrimônio arquitetônico único e a cidade de São Luís é só ruínas. Triste!”

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Afiado e certeiro, Zeca Baleiro em entrevista a Samartony Martins nO Imparcial de hoje (28) [Impar, p. 1]. Com participações especiais de Nosly e Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões) o cantor e compositor faz show acústico no Teatro Arthur Azevedo na próxima terça-feira (31), às 20h30min. O espetáculo, beneficente, se dá em prol da finalização da construção da Casa da Acolhida Nossa Senhora da Graça (Rua Touro, nº. 10, Recanto dos Signos, Cidade Operária), em São Luís.

“Só espero poder morrer sentindo o cheiro dos meus livros…”

A frase acima foi dita pelo jornalista (cultural) Daniel Piza, em março de 2008, em entrevista ao colunista da Folha João Pereira Coutinho. O primeiro comentava seu “otimismo” em relação aos livros: que eles não acabariam etc. Mais à frente, na mesma entrevista, o autor de Jornalismo Cultural [Editora Contexto, 2003] afirmaria: “Quando olho para meus livros, CDs e DVDs, penso: quanta coisa boa para (re)viver!”.

Aos apenas 41 anos, Daniel Piza faleceu ontem, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). O sepultamento acontece amanhã (1º.) de manhã. Leia o obituário na Folha.

A Guerra dos Mundos em revista

Ou melhor: na revista.

Já está disponível para leitura e download (comum e/ou para ipad) a edição número 4 da revista Overmundo (novembro/dezembro/2011). Nela, entre outras matérias interessantes, assino uma acerca do lançamento de Outubro de 71 – Memórias fantásticas da Guerra dos Mundos, organizado pelo professoramigo Francisco Gonçalves, sobre o que também já escrevi acá en el blogue; em breve publico aqui as entrevistas que fiz com o time de pesquisadores de Chico, a dele, ao fim da matéria na revista.

Aos poucos mas fieis leitores deste blogue desejo uma fantástica leitura.

“Todo homofóbico é uma bicha enrustida”

 

Zé Celso em As boas

José Celso Martinez Corrêa, nas Páginas Negras da Trip #204, de outubro/2011.

Trem musical, Parador de Nosly encosta amanhã (29) na estação Arthur Azevedo

Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: “Iniciou a vida artística em 1984 na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão.// Residiu em Minas entre os anos de 1986 e 1995, onde integrou a Orquestra de Violões do Palácio das Artes. No ano 2000 lançou pela gravadora Dabliu o cd Teu lugar, no qual interpretou várias composições de sua autoria, entre elas, Brinco, Noves fora e Japi, as três em parceria com Zeca Baleiro; Coração na voz (c/ Nonato Buzar e Gerude); Gueno (c/ Glauco Barbosa) e June, parceria com o poeta Celso Borges, entre outras.// No ano de 2003, ao lado de César Nascimento e Mano Borges, apresentou-se no “Projeto Prêt-à-porter”, com direção artística de Sérgio Natureza, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.// Em 2010 lançou o cd Nave dos Sonhos, no qual figura a faixa-título composta em parceria com o também maranhense Nonato Buzar, disco lançado em show homônimo no Bar Severyna, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro. No show contou com a participação dos músicos Ney Conceição (baixo), Kiko Continentino (teclados) e Victor Bertrami (bateria).// Entre seus diversos parceiros destacam-se os letristas Celso Borges, Tibério Gaspar, Chico Anísio, Fausto Nilo e Sérgio Natureza, além do compositor e sambista carioca João Nogueira.”

Do texto do encarte de Parador [ouça na Rádio UOL], assinado pelo parceiro-produtor Zeca Baleiro: “Parador é o terceiro disco de Nosly, compositor maranhense que já zanzou por muitas plagas sem fixar-se em nenhuma – São Luís, Rio, Belo Horizonte, Düsseldorf… Como seu conterrâneo Gonçalves Dias, Nosly vive no exílio, no abandono apaixonado da música, urdindo canções como quem tece num tear seu artesanato de afetos, sua teia de ritmos (…)// Sem mais delongas, digo: Nosly é um craque inquestionável da sempre nova (e muito viva) canção brasileira”

Parador abre com a regravação de Aquela estrela (Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu) e fecha com Maria Luiza (Nosly), único tema instrumental do disco, homenagem à mãe do compositor. Entre as 13 faixas, parcerias, regravações e inéditas.

Amanhã (29), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, acontece o show de lançamento de Parador (2011), novo disco de Nosly, produzido por Zeca Baleiro (mais sobre o show no release escrito pelo parceiro Fernando Abreu). Abaixo, a entrevista exclusiva que o músico concedeu ao blogue, por e-mail.

ENTREVISTA: NOSLY

ZEMA RIBEIRO – Nosly, como foi sua infância e em que momento você sentiu que ia ser músico, que ia viver de música?

NOSLY – Nasci em Caxias/MA, em agosto de 1967. Sou o sétimo filho de uma família de 10 e carrego o nome do pai, Nosly. Cresci ouvindo muita música boa, música de qualidade, orquestradas e interpretadas por grandes nomes. A minha primeira lembrança, eu deveria ter talvez quatro ou cinco anos, foi colocar na “radiola”Agostinho dos Santos cantando Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran). Depois, com sete, me divirtia com os instrumentos musicais (xilofones, saxofones, clarinetes etc.) que ganhava na época de natal. Acho que os meus pais, de alguma maneira, já identificavam meu interesse pela música. Só lá pelos 13 é que pintou o violão na minha vida. Daí foi paixão à primeira nota.

Parador pode ser considerado teu disco mais pop, embora nunca descartável, como acentua o parceiro Fernando Abreu no release de divulgação do show de lançamento. Como foi sua gestação? O disco começou a ser idealizado no começo do novo milênio, mas por conta da agenda do Zeca [Baleiro, produtor do disco] e a minha decisão de passar um tempo na Europa, foi sendo adiado, até, finalmente em 2010, partirmos pra por em prática e realizar o sonho antigo. Muitos e-mails trocados com o Zeca até chegarmos a esse repertório que aí está. Compus algumas coisas especialmente pra esse cd, como por exemplo Oh, baby perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Apesar de doer (Nosly e Vanessa Bumagny). Muitas idas e vindas, São Luís, São Paulo, São Luís, até a conclusão e lançamento em maio deste ano.

O que o público ludovicense pode esperar do show de lançamento do disco, que contará com a participação especialíssima de Toninho Horta? O show tem como base o repertório do cd e toco ainda algumas músicas do primeiro [Teu lugar] e do segundo cd [Nave dos sonhos]. A banda é sensacional: VICTOR BERTRAMI – BATERA, NEY CONCEIÇÃO – BAIXO e KIKO CONTINENTINO – PIANO [grifos dele]. O Toninho é amigo desde 86, quando eu participei do I Seminário Brasileiro da Música Instrumental, realizado em Ouro Preto. Considero o Toninho um dos maiores violonistas, guitarristas do mundo, além de consagrado compositor, grande ídolo, desde o tempo que ouvia o Clube da Esquina. Melhor agora, depois de tantos anos de amizade, poder estreitar mais ainda nossos laços musicais e contar com a presença dele no show. É uma honra pra mim e acredito que será também para o público que vai nos prestigiar.

Parador traz uma série de parcerias, com nomes como Celso Borges, Fausto Nilo, Fernando Abreu, Olga Savary, Vanessa Bumagny e Zeca Baleiro, entre outros, o primeiro e o último aqui listados talvez os mais antigos, parceiros desde o começo da carreira. Como se dão essas parcerias? Como é lidar com essa pluralidade? Cada parceiro tem sua importância e admiro todos eles, pois a parceria nasce antes, no coração da gente, só depois vira música. Já compus de n maneiras distintas, não dá pra prever nem premeditar, tudo nasce como deve ser, naturalmente. Recebo letras de música, poemas, ideias de melodias, enfim cada caso é um caso. O importante mesmo é que o momento seja pleno e que a ideia venha à cabeça. Tive a honra de compor com grandes nomes da MPB, como Nonato Buzar, Chico Anysio, João Nogueira, Tibério Gaspar, Sérgio Natureza, Zeca Baleiro, Chico César, Fausto Nilo, Luis Carlos Sá, Celso Borges, Fernando Abreu, Gerude, Luis Lobo, Olga Savary, Lúcia Santos, Cláudia Alencar, enfim, a lista é longa e sempre cabe mais um. É muito bom poder compartilhar momentos e afinidades e a parceira é a junção dessas duas coisas.

Como foi trabalhar com o parceiro Zeca Baleiro assinando a produção? Foi muito prazeroso trabalhar com o Zeca. Já fizemos tantas coisas juntos no passado, que facilitou nesse agora. Temos muita afinidade, crescemos juntos e ouvimos muita música naquelas tardes de Monte Castelo. Além disso, nossa concepção é bem parecida, embora cada um tenha sua maneira particular de evidenciar isso. Pra resumir, foi uma beleza fazer esse cd produzido por ele, pelas ideias que dividimos e pelo despojamento sobre qualquer sentimento de vaidade que pudesse macular esse nosso encontro.

Faixas como Oh, baby, perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), I’ll be over you (Steve Lukather e Randy Goodrum) e So I’ll have to say I love you in a song (Jim Croice), têm um acento brega, seja pela temática romântica da primeira, a segunda uma balada original que aqui ganha versão reggae e a terceira por ter tido uma versão em português gravada por um ídolo do gênero, Fernando Mendes. Sobretudo em relação às duas últimas, como se deu a escolha para que entrassem no repertório de ParadorApesar de ter ouvido na infância Odair José, Fernando Mendes, Amado Batista, Wando etc., tudo aquilo soava natural, era rotulado de brega, mas isso já tomou outra conotação dos dias de hoje. Tanto é que grandes nomes  da MPB continuam gravando esses compositores ditos brega até hoje. Nada foi intencional, recebi a letra do Zeca pela internet, via e-mail, daí apenas dei vasão ao sentimento do momento. Melodia não tem hora pra acontecer e nem se sabe como vai ser. Você sente e põe no violão. Quando gravamos não tivemos essa preocupação de fazer um acento como se fora brega. Quisemos sim, fazer rememorar alguns timbres dessa época que caíram em desuso. Seria, pois ,uma retomada de algo que foi bom e se perdeu durante um tempo e que agora temos a chance pelo menos de registrar à nossa própria maneira e entendimento.

A faixa-título é uma homenagem a um tio teu, em cuja casa tu moraste, no Rio de Janeiro. Composta em parceria com Gerude e Luis Lobo, também dá a ideia de um Nosly cosmopolita, que já morou inclusive na Alemanha, onde foi gestado outro disco teu, o anterior Nave dos Sonhos. Qual o melhor lugar em que você já morou, seja por aspectos pessoais, mas sobretudo musicais? É muito bom ser cidadão do mundo, falar quatro línguas, sair em busca do aprimoramento, da melhora que todos almejamos. Belo Horizonte é bem marcante na minha vida. Tenho saudades de lá. O Rio de Janeiro, especialíssimo, e tenho sangue carioca: meu pai era carioca. Foi muito importante pra mim o tempo que vivi lá. E por último Düsseldorf, na Alemanha, onde vivi por cinco anos maravilhosos. Fica difícil apontar essa ou aquela cidade, cada uma tem sua medida de importância em meu coração. E quanto aprendizado!

Como você analisa o cenário da produção musical do Maranhão hoje? E no seu caso particular, é mais fácil ser reconhecido aqui, sua terra, ou lá fora? Claro que se você está num grande centro, São Paulo, Rio, BH etc., você tem mais oportunidades de mostrar seu trabalho, não tem o que comparar. Quanto à produção local, acho que fazemos música de altíssimo nível, lindas poesias, letras, lindas melodias que poderiam com certeza embalar corações mundo afora. Basta, pra que isso aconteça, oportunizar, formar plateia e ocupar espaços ociosos com bons espetáculos, seja de música, teatro, poesia, artes plásticas, dança, enfim, qualquer manifestação cultural com que o povo se identifique. Na Europa, tenho público cativo, são três cds editados lá. No Brasil, minha música é ouvida de norte a sul. Vivo em busca do reconhecimento, não importa onde seja, onde esteja. Se o povo quer me ouvir, lá sempre estarei.

Semana Sérgio Sampaio #4

Por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982), de Sérgio Sampaio, pelo selo Saravá, de Zeca Baleiro, este blogue ofereceu a seus poucos-mas-fieis leitores a Semana Sérgio Sampaio, que se encerra com este post, que traz a entrevista, inédita, que Rodrigo Moreira, autor da biografia Eu quero é botar meu bloco na rua (2000, esgotada), concedeu a este blogueiro, por e-mail, em 10 de abril de 2007.

Não há merchandising na parada: a Semana Sérgio Sampaio é a soma de forma e ocasião de eu desovar material inédito que ficou na gaveta. Penso que Sampaio e seus fãs mereçam! Espero que tenham gostado (tirei daqui o recorte que abre o post).

ENTREVISTA: RODRIGO MOREIRA

ZEMA RIBEIRO – O que te levou a escrever a biografia de Sérgio Sampaio?
 
RODRIGO MOREIRA – Bem, eu sempre fui fã, e como todos os demais fãs, não muito esclarecido sobre como foi mesmo a trajetória dele. Isso fez crescer a curiosidade, que aliada à vontade de fazer algo por seu resgate, acabou me levando a começar a pesquisa, cerca de dois anos depois de sua morte.

Quais as principais dificuldades enfrentadas? Na verdade, eu até que tive sorte, pois logo no início de tudo conheci Sérgio Natureza, amigo e parceiro dele, que já tinha delineado o projeto de resgate Balaio do Sampaio. Ele facilitou bastante meu trabalho, me apresentando diversas pessoas importantes na vida de Sampaio, como familiares, ex-mulheres, músicos, produtores etc. Minha maior dificuldade foi mesmo não ter conhecido Sérgio Sampaio pessoalmente, talvez se tivesse sido amigo dele eu pudesse ter muito mais informações.

A que você credita o quase total desconhecimento dele por parte da população brasileira? Bem, ele realmente não chegou a se tornar um artista conhecido em larga escala, apesar de ter tido uma música de sucesso que marcou época, que foi o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua]. Acredito que o fato daquele sucesso não ter tido uma continuidade, uma permanência maior, ele acabou sendo esquecido, ficando apenas na memória de uma parcela mais retrita do público, que são os fãs, que acompanharam e curtiram suas outras obras e foram aos seus shows ao longo dos anos.

Qual a importância de iniciativas como o Balaio do Sampaio, de Cruel e de tua biografia no sentido de preservar a memória de Sérgio Sampaio e de torná-lo conhecido das gerações mais jovens? Na realidade, todas essas iniciativas não foram isoladas, foram meio que interligadas. Primeiro foi o cd, depois minha biografia, ambos correndo paralelos, e mais à frente o Cruel, a pilastra definitiva do resgate. Pelo menos pra mim tudo faz parte de um mesmo projeto (de uma mesma ideia pelo menos), que foi o Balaio do Sampaio. Acho até que deveríamos ter criado um logotipo, ou coisa assim, que estampasse as capas desses trabalhos. Bem, acho que todo esse esforço serviu para, ao menos, chamar a atenção de parte da mídia e do público para a obra que o Sérgio deixou. Inclusive ele estava inédito em cd até a época que saiu o Balaio (1998), depois disso o Charles Gavin editou em cd o primeiro disco (na época troquei informações com ele, na realidade chamei sua atenção para o Tem que acontecer, já que ele estava trabalhando na ocasião com os arquivos da Continental/Warner, mas ele acabou fazendo o primeiro disco). Depois saiu uma coletânea (Warner 25 anos), que contém todas as músicas do Tem que acontecer, mais algumas raras músicas de compactos.

Ficção e realidade em corda bamba sobre o oceano

Em março do ano passado o escritor Luís Cardoso esteve no Brasil para lançar o romance Requiem para o navegador solitário [Língua Geral, Coleção Ponta de Lança, 303 p.], seu primeiro livro publicado no Brasil – de 2007, aportou por aqui em 2009. Noites de autógrafos no Rio de Janeiro e em São Paulo com aquele que é considerado o mais importante escritor de Timor Leste – país-ilha onde também se fala o português –, cujas obras já foram traduzidas para o alemão, francês e inglês, entre outras.

Prosa de alta voltagem poética, personagens fortes marcam as páginas do Requiem: a própria ilha natal de Cardoso e a doce e inocente Catirina, que cresce com seus dramas, como o povo timorense querendo apenas recuperar o que é seu.

Aproveitando a passagem do escritor pelo Brasil, Zema Ribeiro entrevistou-o, ainda em março de 2010, por e-mail. Talvez os mistérios dos mares das páginas de Cardoso possam explicar o porquê de a entrevista ter permanecido inédita por mais de ano e meio. Vias de Fato recupera-a e presenteia seus leitores (optamos por manter a grafia com que o autor respondeu ao e-mail com o bloco de perguntas enviado).

Cardoso esteve no Brasil ano passado. "Requiem para o navegador solitário" é seu primeiro título publicado aqui
ENTREVISTA: LUIS CARDOSO
POR ZEMA RIBEIRO

Vias de Fato – Para começar, gostaria que você falasse de sua infância. Nasceu em Timor Leste, mudou-se para Portugal com que idade? Com quantos anos a literatura entra na tua vida, seja como leitor e/ou escritor? Luís Cardoso – Nasci em Timor-Leste, no dia 8 de Dezembro de 1958, numa localidade chamada Cailaco. O meu pai era enfermeiro e tinha que se deslocar de uma localidade para outra, pelo que pude contactar com vários idiomas e vários povos no território que hoje se chama Timor-Leste. Mas, o local com que mais me afeiçoei foi a ilha de Ataúro. Para onde as autoridades mandavam os presos políticos. Assim o fizeram os portugueses, os japoneses e os indonésios durante as ocupações. Em 1975 fui para Portugal para continuar os estudos. Uma vez terminado o liceu ingressei no curso de medicina. Contudo, esta opção não se revelou a mais acertada: consigo aguentar melhor as minhas dores do que as dores de outros. Desta forma, depois de um ano a estudar medicina optei pela Silvicultura. A invasão de Timor pela Indonésia deu-se na altura em que estava em Portugal. Comecei a fazer parte da Resistência Timorense e mais tarde da sua Frente Diplomática. A literatura entrou muito tarde na minha vida. Só quando cheguei a Portugal tive oportunidade de ler as obras literárias de vários escritores portugueses e estrangeiros. Mas a escrita aconteceu muito cedo, desde os tempos da escola primária, quando tinha que fazer as minhas redacções e as de um colega, filho de um desterrado português que tinha uma padaria. Normalmente fazia duas versões do mesmo tema, uma para ele e outra para mim, e recebia como recompensa um pão com manteiga. Um bem apenas acessível aos endinheirados. Posso dizer que foi a escrita que, pela primeira vez, me deu a ganhar o pão.

Quais as suas principais referências literárias, livros a que você sempre volta para novas leituras? Infelizmente não pude ler os livros dos grandes mestres da literatura na altura em que toda a gente o fazia. Simplesmente porque não chegavam a Timor. As autoridades coloniais portuguesas não o permitiam. Na infância o único livro que me deram a ler foi a Bíblia. Releio muitas vezes.

Você é tido como o primeiro romancista de Timor, última colônia portuguesa a deixar essa condição. Você citaria algum outro escritor timorense de destaque? Cito o poeta Borja Costa, a quem eu chamo de Pablo Neruda timorense. Foi morto pelos indonésios no dia da invasão em 7 de dezembro de 1975. Também faço referência a um outro poeta desconhecido que se chama Jorge Lautém.

Como é morar em Portugal e ter sido um dos ativos militantes pró-independência do Timor? Morar em Portugal foi uma opção. Libertada a Pátria, libertei-me da Pátria. Sou um homem livre, sem que contudo tenha abdicado da minha identidade timorense. Timor hoje é um país independente, onde há democracia e os cidadãos são livres de escolherem o que pretendem fazer das suas vidas. Alguns dos meus colegas dos anos da Resistência elegeram a política como actividade principal das suas vidas. Eu escolhi a literatura e viver fora do meu país foi uma opção, como a de muitos brasileiros que vivem na Europa, nos Estados Unidos ou na África. Ser cidadão de um país não quer dizer que se tenha de viver amarrado a um território.

Como ocorreram as negociações para o lançamento de seu livro no Brasil, pela Língua Geral? É o primeiro livro publicado no Brasil. O contacto foi feito pelo meu colega e amigo José Eduardo Agualusa [romancista e contista angolano, contemporâneo de Cardoso, autor de Estação das chuvas e As mulheres do meu pai, entre outros].

Há no romance certa tendência ao poético, seja na construção dos parágrafos, por vezes deixando, no bom sentido, confuso o leitor, se a fala é a continuação da fala de determinado personagem ou da narradora, seja nos nomes dados aos gatos e mesmo no imaginário de navegantes que permeia o enredo. Você escreve poesia? Não, não escrevo poesia. Mas gosto e adoro poesia. Leio mais poesia que romances. Os meus escritores preferidos são mais poetas que romancistas. Cito os portugueses António Lobo Antunes, que embora escrevendo prosa é um grande poeta, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ruy Cinatti, os timorenses Borja Costa e Jorge Lautém, os brasileiros Manuel Bandeira e Drummond de Andrade.

Quanto há no livro de ficção e de realidade? Há personagens reais que povoaram sua infância e adolescência? Em Timor a ficção e a realidade confundem-se. Muitos desses personagens povoaram a minha infância. Navegadores solitários, aventureiros, presos políticos, antropólogos que um dia aportaram em Timor. Mas também outros seres fantásticos que povoam o fabuloso imaginário timorense.

Você já visitava o Brasil, vez por outra, e agora volta como escritor, para lançar um livro. Que novas impressões leva do país? O Brasil é tão grande e tão pujante que se renova com uma velocidade estonteante. Para o conhecer é preciso ter tempo. Das outras vezes que estive no Brasil também não tive oportunidade para o conhecer bem, uma vez que a minha prioridade era tentar convencer o Itamaraty que a independência de Timor não era uma utopia, fora dos parâmetros do pragmatismo económico.

Em Requiem, cada gato, além de um nome, substantivo, recebe um adjetivo. Que adjetivo definiria melhor Luis Cardoso? Talvez amigo. Deve ser por isso que adoro ouvir a Canção da América do Milton Nascimento.

[Vias de Fato, agosto/2011]

Clipping

Dando um sinal de vida, duas materinhas que andei publicando por aí, estes dias.

Com Emílio Azevedo entrevistei Ricarte Almeida Santos (visto acima em clique deste que vos bafeja) para o Vias de Fato de agosto. Íntegra da entrevista aqui.

E para o Jornal Pequeno escrevi sobre as reivindicações de parte da população luziense por uma estrada de 62 km, que conduz os moradores do povoado Campo Grande à sede e vice-versa. A matéria saiu domingo (4) no JP, também com fotos minhas (acima, cruzes sinalizam mortes ocorridas em acidentes no citado percurso). Versão pré-edição aqui.