Uma lufada de alegria, beleza e inteligência

[Com as bênçãos de Celso Borges e Otávio Rodrigues, baita honra e enorme responsabilidade ter recebido o convite para escrever o release oficial deste disco lindo, que chega às plataformas no próximo dia 30]

Maestro Tiquinho em sessão de gravação de "Trombonesia". Foto: Paola Vianna
Maestro Tiquinho em sessão de gravação de “Trombonesia”. Foto: Paola Vianna

O apelido no diminutivo usado como nome artístico não traduz, de cara, a grandeza de Marco Aurélio de Santis. Maestro Tiquinho, como acabou ficando conhecido no meio musical, é um desses arquitetos da música popular brasileira cujo nome quase nunca figura nas placas de inauguração das obras, mas está lá para quem quiser ver e ouvir. Fossem os meios de comunicação mais dispostos ao aprofundamento e os ouvintes em geral mais curiosos, o trombonista seria merecidamente mais conhecido.

De Chico Science a Gal Costa, passando por Chico César e Zeca Baleiro, além de Elza Soares, Marcelo Jeneci, Jorge Benjor, Seu Jorge, Gilberto Gil, João Donato, Tom Zé, Erasmo Carlos, Nando Reis, Skank, Tião Carvalho e Papete, entre outros, além de bandas que integra/ou – Professor Antena, Clube do Balanço, Karnak e Funk Como Le Gusta –, pelo leque é possível perceber a abrangência de seu trombone elegante.

"Trombonesia". Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera
“Trombonesia”. Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera

Tiquinho acaba de lançar o aguardado e merecido disco solo de estreia, “Trombonesia”, título que evoca o encontro de seu conteúdo: o trombone do mago com a poesia, pelas vozes dos dub poets André Abujamra, Celso Borges, Chico César, Fernanda Takai e Zeca Baleiro, convidados mais que especiais que contribuem para o brilho e a brisa dessa tertúlia poético-musical. O álbum foi realizado através do Edital de Apoio à Criação Artística – Linguagem Reggae – da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

““Trombonesia” não é apenas o nome do álbum, mas uma palavra que nasce para unir sons, artes e estilos, sem usar de estereótipos ou padrões definidos”, afirma ele, ao mesmo tempo ourives e alquimista. Produzido por BiD, gravado ao vivo no estúdio Space Blues por Alexandre Fontanetti, e mixado por Victor Rice, todos magos em seus ofícios, o disco é arejado e ensolarado, com ecos de nomes como Don Drummond, Joseph Cameron, Nambo Robinson, Rico Rodriguez e Vin Gordon, para citar alguns de seus colegas de instrumento, em cujas fontes certamente Tiquinho bebeu para embriagar-nos.

Se aqueles foram fundamentais para o que acabamos por chamar de “clima” ou “mística natural” do reggae jamaicano, Tiquinho navega com desenvoltura por estes m/ares, aproximando Jamaica e Brasil – o sopro do paulista de Bauru nos leva a voar e pousar precisamente em São Luís do Maranhão, não à toa alcunhada Jamaica brasileira.

Mas tudo isto é pouco para tentar entender, explicar, rotular ou traduzir sua sonoridade (o que, na verdade, é tarefa impossível): ao mesmo tempo você está em um clube de reggae, em uma festa de sound system, em um baile black. O tempo é tema recorrente no repertório e os tons afogueados do projeto gráfico (de Gian Paolo La Barbera) ajudam a entender imediatamente que a coisa é quente.

Tiquinho assina todas as composições e arranjos do disco, em que é acompanhado por Edu SattaJah (contrabaixo elétrico e acústico), Rogério Rochlitz (piano acústico, órgão Hammond e piano elétrico), Che Alexandre Caparroz (bateria) e Simone Sou (percussão em “Oriente-se”). Em tempos de “duelo de eu e ego” (como salienta Chico César no canto falado de “Oriente-se”) “Trombonesia” é uma lufada de alegria, beleza e inteligência, estes ingredientes de brasilidade que alguns tristes andam querendo caçar nestes tempos de trevas – que Maestro Tiquinho e suas boas companhias teimam em iluminar. Para sorte e felicidade nossa! Jah bless!

Serviço: lançamento de “Trombonesia“, disco solo de estreia de Maestro Tiquinho. Dia 30 em todas as plataformas digitais.