Verdade e fantasia: João do Vale para crianças

O voto popular deu a João do Vale o merecido título de maranhense do século XX. O cantor e compositor, um dos mais importantes do Brasil em todos os tempos, é tido como um dos pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês – que gravaram suas músicas.

Cantador de coisas simples, imortalizou em suas composições sua terra e sua gente. Minha história, comovente autobiografia musical, é um ótimo exemplo.

João do Vale – Mais coragem do que homem [Edufma, 1998], biografia escrita pela jornalista Andréa Oliveira, há muito está esgotada. Não é disputada a tapas e a peso de ouro em sebos simplesmente por que não se encontra.

Ela conviveu com o ídolo durante seus últimos anos. Após o sucesso no sul maravilha, João do Vale retornou para sua Pedreiras natal, no interior do Maranhão, para reencontrar a vida simples que tanto o inspirou, o pé no barro do chão, o dominó com os amigos na esquina, o Lago da Onça e a Rua da Golada, Mané, Pedro e Romão, imortalizados em clássicos como Pé do lajeiroPisa na fulô e a já citada Minha história.

João – O menino cantador. Capa. Reprodução

Apaixonada pela vida a obra de João do Vale, Andréa Oliveira volta a seu personagem no infantil João – O menino cantador [Pitomba!, 2017, 36 p.], em que busca contar para crianças a/s história/s do artista, valorizando sua infância.

“Era uma vez”, começa o livro, evocando a clássica abertura dos contos de fadas. O livro nasceu do desejo de Andréa Oliveira, autora ainda de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão (2003), de contar a história de João do Vale aos filhos, à época ainda crianças – entre a ideia e a publicação foram sete anos.

A autora mescla a precisão jornalística e seu compromisso com a veracidade dos fatos ao universo fabular. Garante às crianças, como ela declarou em entrevistas, os direitos à verdade e à fantasia, no que o próprio João do Vale foi um craque.

Em meio à narrativa de Andréa Oliveira, trechos de músicas de João do Vale (não há quem não se pegue cantando ao ler) e ilustrações do artista plástico Fernando Mendonça, cuja simplicidade certamente despertará o interesse das crianças em produzir suas próprias ilustrações, “completando” as originais do livro – o projeto gráfico é do cantor e designer Claudio Lima. Literatura, música e artes plásticas redescobrindo, para as novas gerações, a importância do autor de Estrela miúda e Na asa do vento.

A narrativa é linear, acompanhando João do Vale desde sua infância até o falecimento, passando por sua ida ao Rio de Janeiro, de carona em caminhões, o trabalho na construção civil, as primeiras gravações, o sucesso, a resistência à ditadura militar – do que o clássico Carcará é metáfora exemplar.

Mas engana-se quem pensa que a história tem final triste: a autora atesta, com razão, que João do Vale permanece vivo, prova disso é sua obra, até hoje cantada e assobiada por muitos, e este livro, cuja beleza e delicadeza reavivam a memória do artista – este realmente merece ser chamado de “popular” – e, além de comover os que já lhe conhecem, certamente despertará o interesse dos que porventura ainda não.

Num tempo em que em geral crianças interessam-se mais por celulares e tablets que por livros, João – O menino cantador tem também uma difícil tarefa de conquistar novos leitores. Que, curiosos, poderão voltar aos eletrônicos para descobrir João do Vale através do youtube e de outros aplicativos.

Serviço

A noite de autógrafos de João – O menino cantador, de Andréa Oliveira, acontece nesta quinta-feira (1º. de junho), às 18h30, na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio – Sesc/Senac (Av. dos Holandeses, Calhau). Haverá pocket show com Ivandro Coelho interpretando repertório de João do Vale. Publicado pela editora Pitomba!, o livro tem apoio do Sesc/MA

Fernando Mendonça inaugura exposição logo mais na Galeria Hum

Carranca pontilhada em azulejos, uma das peças da exposição

FM é rádio, mas são também as iniciais de Fernando Mendonça, artista plástico maranhense radicado no Rio de Janeiro desde a década de 1980. Aos 50 de idade o artista, que nunca perdeu os laços com a terra natal, inaugura exposição em que homenageia a capital maranhense por seus controversos 400 anos.

“É uma mostra para marcar a data. É a minha parcela de contribuição com o movimento cultural da cidade. Além de tudo, completo 50 anos de vida, sendo mais de 30 dedicados à pintura”, diz o artista sobre o caráter comemorativo da exposição.

FM Upaon Açu + 400 será aberta hoje (25), na Galeria Hum (Rua Um, 167, São Francisco), às 19h. As cercas de 60 peças que compõem a exposição, entre nanquins, aquarelas e acrílicos, começaram a ser concebidas em maio passado, especialmente para esta ocasião.

PT de Sarney deixa Marlon Botão de fora da propaganda eleitoral gratuita

A dobradinha Lula/Sarney é a principal responsável pela atual esquizofrenia do Partido dos Trabalhadores. Se a situação já é(ra) muito ruim no plano nacional, o quadro piora se nos detivermos ao Maranhão, onde o PT sempre se caracterizou pelo combate à oligarquia local.

Em 2010 o Diretório Nacional do partido do então presidente da República passou por cima de tudo e todos, impondo apoio do PT à então candidata Roseana Sarney, filha do presidente do Senado, contrariando a maioria local, que havia decidido pelo apoio à Flávio Dino (PCdoB) para a disputa pelo Governo do Maranhão. Dois anos depois foi fácil ter a maioria, com vitória folgada do ex-comunista e atual vice-governador do Maranhão Washington Oliveira sobre o deputado estadual Bira do Pindaré, com o cearense disputando as eleições com apoio da oligarquia que um dia combateu (ou ao menos dizia combater).

E se digo que a dobradinha Lula/Sarney foi a principal responsável por isso, não estranhem: não é a única. Vantagens individuais, cafezinhos, anuidades, empregos e promessas outras também deram uma ajudinha.

A questão agora é que não dá para falar pura e simplesmente que Fulano de Tal é candidato do PT. É necessário esclarecer que Beltrano é candidato do PT antissarney e Ciclano é candidato do sarno-PT.

Explico: este blogue, por exemplo, apoia a candidatura de Nelsinho, do PT antissarneyista. O número dele é 13.555, a quem interessar possa. Outro candidato do mesmo campo, digo, do PT antioligárquico, é Marlon Botão, 13.200, outro bom nome para a Câmara Municipal. O primeiro é professor de educação física das redes públicas municipal e estadual, mestre de Capoeira, ligado ao Laborarte; o segundo, Relações Públicas, com atuação em assessorias no movimento sindical. Mas, bem, isto aqui não é horário eleitoral gratuito nem este blogue recebe para fazer propaganda, vamos ao que interessa.

Recebo, estupefato, a notícia de que Marlon Botão teve seu programa de tevê censurado na primeira semana de propaganda eleitoral gratuita. O motivo: não querer atrelar seu nome ao do candidato à prefeito da oligarquia Sarney, o citado Washington Oliveira, tido como “cerca velha”, à boca miúda, por diversos outros nomes que, no entanto, não tiveram a coragem e a postura de Marlon Botão, Nelsinho e uns poucos outros, de não pedir votos ao vice-governador que quer ser prefeito.

Ambos têm apoio do deputado estadual Bira do Pindaré, outro nome do PT que não se rendeu ao modus operandi oligárquico, o que certamente incomoda bastante as hostes petistas. “Sarney sabe que temos o apoio do deputado federal Domingos Dutra e do deputado estadual Bira do Pindaré e quer impedir a nossa presença na Câmara dos Vereadores”, analisa Marlon Botão no texto que recebi por e-mail de um amigo comum.

O diretório municipal do PT em São Luís havia sido notificado sábado (18) para garantir a participação do candidato no horário eleitoral; no sábado seguinte (25), ontem, o notificado foi Marlon Botão, pelo “juiz Fernando Mendonça, nos autos da Representação 87211/2012, proposta pela Coligação “Juntos por São Luís”, para responder, em 24 horas, sobre o pedido de retirada de matérias do seu site de campanha com a concessão de direito de resposta e aplicação de multas”, também de acordo com o texto recebido por e-mail.

A coligação alega que a responsabilidade pela gravação dos programas é do PT. Marlon Botão diz que outros candidatos o fizeram por conta própria, incluindo a gravação de externas. Cabe lembrar que o candidato é sócio de uma produtora e tem condições de elaborar seu próprio material. Ele disse que não aceitará censura e que irá lutar por seu direito (veja a seguir o programa censurado).

Flores, letras & músicas: um buquê de emoções

As flores de Fernando Mendonça não são de plástico, mas não morrem. Eram o jardim suspenso nas paredes a perfumar nossos olhos – os ouvidos também o seriam, em sequência. Cuidado, flores!, a exposição, preparava o terreno, fértil, como adubo para poesia & música, com que nos depararíamos em instantes.

O poeta Fernando Abreu diz um poema e Nosly, violão em punho, ouve, a plateia pequena, idem. Ao fim, o músico entoa uma versão musicada do texto lido pelo primeiro. Monótono? De jeito nenhum.

"Para uma grande dama": na versão musicada por Nosly, o poeta Fernando Abreu desfila um rosário de estrelas cinematográficas
Letra & Música, show de bolso poético-musical, como entrega o título, apresentado pelos parceiros ontem (31), no Cine Ímpar – subaproveitado espaço para se fazer arte em São Luís – não ficou, no entanto, na sequência poema-versão musicada/cantada.
 
Fernando Abreu leu poemas de aliado involuntário [Êxodus, 2011] e Nosly revezou-se entre músicas inéditas – parcerias de ambos – e canções gravadas em seu disco mais recente, Parador [2011], entre as quais Você vai me procurar (mais uma parceria deles), Versos perdidos (Nosly, Zeca Baleiro e Fausto Nilo) e a faixa-título (Nosly, Gerude e Luiz Lobo).
 
Esta última, cantada por eles mais a poeta Lúcia Santos, convidada especial da noite, que despiu as lentes verdes dos olhos da atriz pornô – primeiro poema que leu ao subir ao palco – e declamou mais alguns poemas do livro novo do letrista. O refrão, ensinado na hora por Nosly ao público, que certamente já o conhecia, foi cantado em uníssono pelos presentes.
 
O espetáculo é curto e tem sabor de quero mais. Inevitável, em casa, re-mergulhar no livro e disco que se fundem no palco para dar origem a Letra & Música. Olhos, ouvidos, mente e coração agradecem.

Para uma grande dama

Os olhos verdes
da atriz pornô

quando dançam fora de órbita
disparam no céu incolor

lampejos
de uma arte rara

flashbacks
de tragédia grega
e teatro nô

sacerdotisa fast-food
a preferida do imperador

Os olhos verdes
da atriz pornô

são duros como
os olhos da virgem

não cabem
no discurso marginal

sua obra é sua moral:
pura vertigem

Os olhos verdes
da atriz pornô

anulam toda teoria
longe das luzes & ohos vorazes
despem as lentes verdes de contato
e encaram nus a luz do dia.

*

Poema de Fernando Abreu, de seu novo livro, aliado involuntário [Exodus, 2011]. O poema virou música, pelas mãos de Nosly, com quem o poeta divide o palco em Letra & Música, espetáculo poético-musical-plástico com as participações especiais de Lúcia Santos e Fernando Mendonça, que inaugura, na ocasião, a exposição Cuidado, flores!, além de dar uma canja no palco, ele que já assinou projeto gráfico de disco de Nosly (Nave dos sonhos) e, músico bissexto, já musicou coisas de Fabreu. Detalhes no Overmundo e/ou no cartaz abaixo:

Em tempo: o poema que batiza este post não está em Parador, disco novo de Nosly, que traz outra parceria da dupla: Você vai me procurar.

Em tempo 2: ainda escreverei acá sobre aliado involuntário e Parador. Questão de tempo.