Obituário: Bebé

 

Há mais de 10 anos ouvi falar pela primeira vez em Bebé: ao lado de Wilson Zara e Gilvandro Martins, seu nome aparecia entre os autores de Zaratustra, canção inspirada na obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra.

“Aborrecido de minha sabedoria/ desci a montanha solitariamente/ carregando os anos seculares/ e os rios que nascem/ nas linhas da palma da minha mão/ abelha enfastiou-se do mel/ o sol baixou às profundezas/ retornei ao meu corpo-espírito/ e voltei a ser homem”, começava a letra. Filosoficamente, fazendo jus à obra inspiradora, continuava: “tudo tem o seu ocaso/ da imensidão dos astros/ ao brilho frágil de uma vela/ tudo é vão/ outro corpo em minha cama/ uma rosa na janela/ minha torpe consciência/ o que é o homem, senão, uma ponte entre o animal e o super-homem”.

Depois conheci sua Fátima, uma verdadeira pérola, incluindo todas as licenças poéticas ao longo da letra, que transcrevo completa a seguir, gravada, entre outros, por Daffé e Tom Cléber: “Esses teus olhos prateados/ feito o céu todo estrelado/ é tão bom de se olhar/ neles tem tantos segredos/ que de olhar inté dá medo/ mas me faz assossegar// Se pra eu ele espia/ meu cabelo se arrepia/ bate forte o coração/ me contento em só olhar/ esses olhos cor de mar/ que nunca vão ser meus, não// Ai, meu Deus, eu não desejo/ dela o corpo, nem os beijos/ só peço uma coisa só:/ não deixe nunca eu viver/ longe desses olhos que/ faz minha vida melhor”

Só estas três obras-primas já lhe valeriam lugar entre nossos grandes compositores. Incluo na conta, Beijo e beliscão, outra parceria com Zara, em cuja companhia Bebé aparece cantando, no vídeo que abre-ilustra este post, por ocasião de uma participação do artista no extinto Terça Cultural, projeto outrora sediado no auditório do Memorial Maria Aragão, na praça homônima, em São Luís.

Mais de cinco anos se passaram até conhecê-lo pessoalmente. Pessoalmente é modo de dizer: fui jurado do III Festival João do Vale de Música Popular, produzido por seu parceiro Wilson Zara, em dezembro de 2008, quando existia o Circo da Cidade – ainda não era chamado Circo Cultural Nelson Brito nem havia sido varrido do mapa. Na ocasião Bebé levou o troféu de melhor interpretação, por sua Reticência. No geral, a música ficou em segundo lugar no certame.

Bebé tinha aparência frágil. Cantou sentado, acompanhando-se ao violão, salvo me traia a memória, as muletas encostadas na cadeira, para agilizar sua saída do palco após sua apresentação – não andava sem elas, vítima de paralisia infantil.

Nascido Raimundo Alberto Teixeira Moraes (1º de fevereiro de 1963 – 19 de julho de 2015), Bebé faleceu no último domingo, vítima de leucemia. Grajauense, venceu várias edições do FEMUG, um outrora famoso festival de música de sua cidade natal, por que passaram nomes como Luís Carlos Pinheiro, Daffé, Wilson Zara, Neném Bragança e Clauber Martins, entre outros.

Bebé deixa a viúva Larissa Barros e três filhos: João Ramon, Raimundo Alberto Teixeira Moraes Segundo (o artista não usou Filho ou Junior, como é usual, ao registrar o filho do meio) e José Felix. Seu corpo foi sepultado segunda-feira (20) no Parque da Saudade, no Vinhais, na capital maranhense.

Dicy Rocha no Palco MPB

A cantora Dicy Rocha estreia hoje, no Bombô Thematic Club, o projeto Palco MPB, que levará ao palco daquela casa recém-inaugurada na Praia Grande, shows de música popular brasileira, como lhe entrega o batismo, com artistas locais e de outros cantos do país.

Ainda não conheço o Bombô, mas conheço as pessoas envolvidas na empreitada, e torço por sua longevidade e dos projetos que por ali já estão sendo realizados e por aqueles que ainda serão inventados. Por uma revitalização cultural na Praia Grande, meio abandonada de uns tempos pra cá.

O show de hoje promete ser nada menos que um luxo. A começar pela cantora, que volta aos palcos após o nascimento do filho Sião – uma exceção foi a participação no show comemorativo de 35 anos do LP Bandeira de Aço, em maio passado. A continuar pela banda que lhe acompanha: Fofo (bateria), Hugo Lima (violão e guitarra), João Paulo (contrabaixo), Josemar Reis (percussão) e Rui Mário (teclado e sanfona). E como se já não sobrasse luxo e talento, as participações especiais de Criolina, Preto Nando, Lena Garcia e Lena Machado.

Atenção especial para os dois últimos nomes, o par de Lenas: com a Garcia imperatrizense e Helyne Carvalho, Dicy venceu a terceira edição do Festival João do Vale de Música Popular, organizado pelo cantor Wilson Zara, no Circo da Cidade – este blogueiro integrava o júri. A Machado, hoje ludovicense adotiva, aniversariou na última quinta-feira (15) e promete um presente aos presentes. Pelas presenças – perdoem a redundância – no palco, não só ela.