Teatro fantástico

Cláudio Marconcine e Jorge Choairy em cena em Velhos caem do céu como canivetes. Foto: divulgação

 

A curta temporada de Velhos caem do céu como canivetes encerrada ontem (4) marcou seu retorno à São Luís, após circulação por cidades do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, pelo programa Petrobras Distribuidora de Cultura. A peça está há cinco anos em cartaz e inicio este texto com uma espécie de mea culpa: como é que eu nunca a tinha visto antes?

Essa, aliás, deve ser a reação de qualquer um/a que assista esta ou qualquer peça da Pequena Companhia de Teatro pela primeira vez – foi o impacto que me causou, por exemplo, a também ótima Pai e filho, baseada em Carta ao pai, de Franz Kafka. A de ontem é baseada no conto Um senhor muito velho com suas asas enormes, de Gabriel García Marquez. Para o segundo semestre de 2018 o grupo anuncia uma adaptação teatral de Jorge Luis Borges.

A transposição de gêneros marca o trabalho da Pequena Companhia de Teatro e uma característica interessante, tanto de Pai e filho, quanto de Velhos caem do céu como canivetes, é o livre exercício da imaginação de Marcelo Flecha, dramaturgo autor de ambos os textos. A Carta ao pai kafkiana, nunca enviada, é originalmente um monólogo, obviamente, por tratar-se de epístola – ainda que nunca enviada; no conto do colombiano, a criatura alada que cai em um quintal não fala.

São os diálogos a grande força do fazer teatral da Pequena Companhia de Teatro. Tanto Pai e filho quanto Velhos caem do céu como canivetes, ambas encenadas por Cláudio Marconcine e Jorge Choairy, são basicamente conversas. Mas não há espaço para conversa fiada na obra de Flecha, embora na segunda haja espaço para um humor, ao menos a quem se dispõe a rir de si mesmo – e que fecho sensacional!

Digo basicamente conversas, mas é necessário apontar que isto não significa descuidar de todos os outros detalhes que compõem a cena: cenário, figurino, maquiagem, vozes, trejeitos, trilha sonora, iluminação, tudo a serviço do texto, da atuação do par de atores. A Pequena Companhia de Teatro só é pequena no nome e no número de componentes – além do trio já citado completa o time a diretora de produção Kátia Lopes. Esta trupe não apenas faz teatro: acima de tudo, pensa teatro.

Uma criatura alada cai, não se sabe de onde ou de quando, no quintal de um catador de materiais recicláveis. O embate se inicia com a estranheza do anfitrião à força, que não sabe se seu hóspede é um anjo, um demônio ou um frango – alucinação possível motivada pela fome. Sem nada para comer ou dar de comer, é tão somente uma lata d’água que ele oferece ao curioso e improvável visitante.

Velhos caem do céu como canivetes tem um caráter distópico e metafórico: não somos nós mesmos este catador de materiais recicláveis, ex-artista plástico? Ex por que estes foram banidos no tempo da ação, um futuro, breve ou distante, ou a égide do ilegítimo, não sabemos precisar. Tudo é muito bem costurado na trama de Flecha e aqui e ali pipocam críticas à sociedade de consumo, a governos ilegítimos, religiões e a mazelas como a fome, num texto também sobre exílios: a criatura alada fora de seu habitat e o catador exilado de sua condição de pessoa humana, sem o básico para sobreviver. Mas que fala bonito, como reconhece o visitante. “Leio”, o anfitrião usa o mesmo verbo para responder a diversas perguntas daquele, citando livros e dicionários que também catava.

Longe de hermética, para ver ou entender a peça não é preciso ter lido o texto original no qual se baseia Velhos caem do céu como canivetes. Mas é necessário estar disposto/a a pensar, a refletir, condição válida em qualquer encenação da Pequena Companhia de Teatro, uma verdadeira escol(h)a de resistência, a começar pela opção de manter uma sede – e ali encenar, inclusive às segundas-feiras – no Centro Histórico da capital maranhense, quando muitos têm feito um percurso contrário, mas este é outro assunto.

Entre o riso e a desgraça, A cabeça do santo tem inspiração fantástica

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

Livro da cearense Socorro Acioli começou a ser moldado quando autora participou de oficina de contos com Gabriel García Márquez.

A publicidade do novo livro de Socorro Acioli – vencedora do Jabuti de literatura infantil ano passado, com Ela tem olhos de céu – tem sido feita toda sobre a oficina de contos ministrada pelo recém-falecido Gabriel García Márquez, de que ela participou. Faz sentido. Certamente sua participação no concorridíssimo evento do colombiano, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, ajudou a cearense a moldar seu romance A cabeça do santo [Companhia das Letras, 168 p., 2014; leia um trecho], cujas ideias iniciais foram concebidas ali.

O livro conta a história de Samuel, ateu que parte em direção à fictícia Candeia, no real Ceará, para atender ao pedido de sua mãe moribunda: encontrar seu pai e sua avó, que o rapaz não conhecia. Samuel torna-se o típico romeiro, perdendo tudo pelo caminho, até chegar à cidade, ser mal recebido pela mulher recomendada e ir parar na cabeça oca de um Santo Antônio largada no chão.

Esta a senha para o leitor adentrar uma série de acontecimentos entre o trágico e o cômico, que poderá leva-lo a relacionar a obra a, por exemplo, O auto da compadecida, de Ariano Suassuna.

A cabeça do santo. Capa. Reprodução

Não pensem os apressados, no entanto, que A cabeça do santo é mais do mesmo, cópia do que quer que seja, ou para iniciados – embora este blogueiro acredite que fará bastante sucesso entre os romeiros de Canindé (que batiza um capítulo do livro) e arredores. Socorro Acioli é hábil na construção de diálogos, na condução da trama, recheada de acontecimentos extraordinários em uma cidade de ar fantasmagórico, e em fazer rir da desgraça sem soar politicamente incorreta. Tampouco cabe tentar rotulá-la regionalista ou coisa que o valha.

À cabeça de Santo Antônio chegam vozes de mulheres que rezam em busca de maridos, casamentos, amores. É lá que Samuel encontra Francisco, seu primeiro amigo na cidade. À custa de uma chantagem, se utiliza do moleque que conhece todas as almas viventes daquele pedacinho de Nordeste para tirar alguma vantagem do que escuta.

Os “milagres” casamenteiros de Samuel logo chamam a atenção de romeiros de cidades vizinhas, meios de comunicação e políticos inescrupulosos, cujos planos são atrapalhados quando Candeia, de cidade quase abandonada, transforma-se em destino de turismo religioso.

Antes de tudo uma história de amor, A cabeça do santo deve alçar o nome de Socorro Acioli ao círculo dos grandes das letras nacionais.

Foto – A foto que abre este post compõe capa, lombada e contracapa de A cabeça do santo. É do fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos, de seu ensaio Na trilha do Cangaço – O sertão que Lampião pisou, vencedor do prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.

Cadernos de passado e futuro

Michel Laub mistura autobiografia, ficção e memórias em sua novela Diário da queda

POR ZEMA RIBEIRO

A palavra Auschwitz aparece muito em Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], quinto livro de Michel Laub. O autor esbanja talento para tratar de tema tão repisado na literatura e no cinema e ainda assim soar original.

Diário da queda, como entrega o título, é construído em forma de diário, não que saibamos o que o autor/protagonista estava fazendo tal dia e tal hora, mas pela estrutura, em notas breves, conduzindo uma deliciosa leitura.

Trata da descoberta de cadernos do avô e do pai e poderia ser a terceira geração de escritores de diário, tomadores de notas ou coisa que o valha, Laub construindo seu próprio diário a partir das experiências com as leituras dos anteriores, numa ficção confessional.

“As primeiras anotações nos cadernos do meu avô são sobre o dia em que ele desembarcou no Brasil. Já li dezenas desses relatos de imigrantes, e a estranheza de quem chega costuma ser o calor, a umidade, o uniforme dos agentes do governo, o exército de pequenos golpistas que se reúne no porto, a cor da pele de alguém dormindo sobre uma pilha de serragem, mas no caso do meu avô a frase inicial é sobre um copo de leite.” (p. 24).

O avô começou a tomar notas como uma enciclopédia sobre aquilo com que ia se deparando, um copo de leite, o porto, a pousada Sesefredo onde inicialmente se hospedou ao chegar ao país. O pai o faz como um exercício quando é acometido do mal de Alzheimer, como os habitantes da Macondo de Gabriel García Marquez, que anotavam nomes e funções de coisas para não esquecê-las.

Não há limites entre a autobiografia e a invenção na prosa de Laub: não sabemos onde começa e termina uma e outra. No fim das contas ele escreve uma bela carta/declaração de amor a uma quarta geração que vai chegar. Livro e autor merecem cada prêmio recebido até aqui.

[Essa nanoresenha (copyright by Joca Reiners Terron) saiu no Vias de Fato de junho. Leia o primeiro capítulo do livro aqui]