No fim da infância, no curso da música/vida

No fim da infância. Capa. Reprodução
No fim da infância. Capa. Reprodução

 

No fim da infância [Grafatório Edições, 2019, 98 p.], de Arrigo Barnabé, reúne textos publicados, a grande maioria, no site e na versão impressa da revista piauí (em minúsculas mesmo, revisor! Obrigado!). A edição é um capricho, marca dos projetos gráficos da editora conterrânea do músico.

Ilustrado por uma série de fotografias de formação de Barnabé, o mosaico de textos compõe uma espécie de autobiografia afetiva, com as memórias do músico de vanguarda, que revela ter tido uma infância comum e triste.

Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio
Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio

Arrigo Barnabé narra com elegância e delicadeza, passagens de rara beleza e sensibilidade, como a decepção de descobrir um primo tocando acordeom, até então seu instrumento preferido. Como entre os meninos da família tudo o que desse opção de escolha era exclusivo de um ou outro, aquele então se tornou o instrumento do primo, empurrando-o para o piano, instrumento que até então ele achava sem graça.

Ou o arrebatamento que foi ouvir pela primeira vez o baião Assum preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Seu pai chegou com o disco, colocou na vitrola e o menino Arrigo ouviu até cair num choro convulsivo. Diante da vergonha infantil de estar chorando por uma música, guardou para sempre a mentira que contou ao pai: chorava por que o Santos, por quem passara a torcer recentemente, havia perdido, aquela tarde, para o Taubaté.

Integrante da fanfarra do Colégio Marista, onde estudava, Arrigo Barnabé, entre 120 meninos, tocou, no gramado do Maracanã, antes da decisão do Mundial Interclubes de 1963, quando o Santos de Durval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe sagrou-se bicampeão do mundo ante o Milan. “Mas isso aconteceu mesmo?”, pergunta-se, diante da rememoração da realização de um sonho.

Também comparecem ao volume memórias mais recentes, como um inusitado metrônomo de madeira encontrado no painel de um táxi que tomou no Rio de Janeiro, ou uma teoria sobre a alma paulista/na do carioca Paulinho da Viola, com versos desconcertantes de clássicos como Dança da solidão, Sinal fechado e Comprimido, este, um samba no qual o portelense cita Chico Buarque. Citação por citação, Comprimido comparece a Clara Crocodilo.

Obviamente não poderia ficar de fora seu disco mais conhecido, Clara Crocodilo (1980), além de sua primeira música gravada por Tetê Espíndola (Canção dos vagalumes, em 1978), sua decepção ao ouvir a melodia de Leãozinho, de Caetano Veloso, cuja letra ele havia adorado (“letra de música, não é para ler, é para ouvir”), o “encontro marcado com Tom Jobim” (“Quando terminou, ele perguntou: – Posso ouvir de novo? Esse foi o maior elogio que recebi em toda minha vida!”), a metamorfose de “José Carlos de Souza Neves, difícil e doce amigo” em Betha Pickles, tudo isto é trazido à tona em No fim da infância.

“O tema da metamorfose (…) está presente em diversos momentos da obra de Arrigo Barnabé”, anota o editor Felipe Melhado em Como nascem os crocodilos?, posfácio à obra. “Em 2005 ele compôs uma peça intitulada justamente A metamorfose. Em sua quase ópera Gigante Negão, de 1990, o tema também aparece, de certa forma, na transfiguração do protagonista Miolo Mole em Gigante Negão. E claro, a mutação é o tema central de sua obra-prima, o álbum Clara Crocodilo, sua estreia em LP, de 1980”, anota.

Estamos diante de nove textos em prosa de um dos mais inventivos artistas da música brasileira, embora, como é comum aos gênios, por vezes incompreendido e menos conhecido do que merece.

Neste caso, não é de se estranhar ou dizer que Arrigo Barnabé tenha se convertido em exímio escritor. A fagulha já estava lá, desde o princípio: foi apenas reunida agora, para deleite do fã-clube e, espera-se, a descoberta de novos curiosos.

O menino é o pai do cineasta

O editor Felipe Melhado exibe orgulhoso o singelo Novos Contos. Foto: divulgação

 

Rogério Sganzerla (1946-2004) “é um dos cineastas mais radicais e inventivos que o Brasil já teve”, nos lembra o editor Felipe Melhado, da Grafatório Edições (de Londrina/PR). Em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos, ele reconhece a importância de Sganzerla para sua formação em vários sentidos. Em parceria com a Míriade Edições (de Florianópolis/SC), de Gabi Bresola, acaba de ser publicado uma edição fac-similar de Novos Contos [2018], livro que Sganzerla publicou em 1954, aos sete anos de idade.

Você não leu errado: aos sete anos de idade. Um primor editorial, a caprichada edição vem num singelo envelope, com o livro (quatro contos de aspecto fabular, mas sem moral da história), selos aludindo a filmes e cineastas importantes como O bandido da luz vermelha (de Rogério Sganzerla, de 1968), A chinesa (de Jean-Luc Godard, que também completa 50 anos em 2018), Orson Welles e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, além da cidade catarinense de Joaçaba – onde nasceu Sganzerla. E Gabi Bresola.

O cineasta Rogério Sganzerla em ação, durante as filmagens de O signo do caos (2003), seu último filme. Foto: Marcos Bonisson

O livro foi descoberto pela conterrânea. “A Gabi conseguiu uma cópia do livro em xerox, conversou com a Helena Ignez [cineasta, viúva do diretor] e com as filhas do Rogério, a Djin e a Sinai [Sganzerla, atrizes], e elas toparam a brincadeira”, conta Melhado. “Desde o começo a Gabi tinha imaginado um livro fac-similar, impresso em tipografia, como na edição original. Nós da Grafatório já tínhamos feito algumas publicações tipográficas, e foi por isso que ela convidou a gente pra trabalhar juntos! É claro que eu fiquei entusiasmado, já que sempre admirei o Sganzerla”, continua.

Melhado comenta também as opções estéticas em torno dessa (re)edição: “Graficamente, tentamos nos aproximar o máximo possível da edição original. Utilizamos os tipos móveis e ornamentos tipográficos mais parecidos que encontramos, e também os papéis mais próximos. No texto mantivemos inclusive a grafia da época e alguns cacoetes da escrita, que talvez sejam do Rogério ou, talvez, do tipógrafo que montou o livro. Mas a edição também traz alguns elementos extras: uma recontextualização gráfica que faz referência às criações posteriores do Sganzerla (os selos, os carimbos no envelope…), e também um texto-depoimento da Dona Zenaide Sganzerla, mãe do Rogério, que hoje está com 99 anos de idade”.

“Junto no envelope vai um livro do Rogério. Esse faz anos. Foi no tempo que ele era o meu mais novo, com sete anos, em Joaçaba. Ele escrevia tudo o que era coisa”, começa. A carta, escrita à mão, e os contos nos dão ideia de como o menino Sganzerla já continha o cineasta, inclusive quanto à precocidade, basta lembrarmos que O bandido da luz vermelha, considerado sua obra-prima, foi filmado quando ele tinha apenas 22 anos.

“O Rogério sempre foi de todos eles [os filhos] o mais fora do sério. […] O Rogério saiu cedo de casa porque parecia que sempre estava ansioso, inquieto, não parava, não parava de inventar coisa. Quando ele foi estudar em São Paulo com dezoito anos, fazer filmes, aí também escreveu outros livros. Mas o Novos Contos foi o primeiro de todos. O dos papeizinhos, o das coisas que ele inventava”, finaliza a missiva materna.

“Pra mim, pelo menos, a decisão de publicá-lo tem a ver com revelar uma passagem desconhecida da vida do cara. Acho que reabilitá-lo nunca é demais. Precisamos sempre botar em cena, de todas as formas, pessoas com a atitude, o pensamento e a criatividade anárquica como a dele. Precisamos tornar esse tipo de potência sempre acessível, sempre à mão, inclusive na contemporaneidade problemática em que a gente vive”, alfineta Melhado.

“Além do mais, o próprio Sganzerla tinha bastante estima por essa criação super precoce que foi o livreto Novos Contos. Ele sempre mencionou o livro em diversas entrevistas, em muitos momentos. O Sganzerla tinha um interesse pela infância que é bastante estimulante. Ele considerava a criança como um criador por excelência, um ser livre, assim como os loucos e os poetas. Ele dizia que se alguém quiser investigar sobre o processo criativo, essa pessoa precisa levar em conta a infância. Porque a criança é um ser em permanente estado de criação, e isso parecia fascinar o Rogério. E me parece que esse era um estado que ele procurava cultivar permanentemente, durante toda a sua vida”, prossegue.

O envelope de Novos Contos contém ainda uma fotografia do menino Sganzerla, a reprodução de um autógrafo em que ele oferece o opúsculo, uma espécie de lembrança – no retrato ele aparece batendo palmas diante de um bolo onde se lê “Edifício Sganzerla” –, e os contos, curtíssimos, A rainha das flôres (mantendo a grafia da época), A bola do mágico, Paulo e seu carro e Os dois patos.

Certamente alvo de curiosidade, a obra deve agradar, pelo conteúdo e singeleza, admiradores do cineasta. “A família foi muito receptiva à ideia. A Helena Ignez e as filhas do casal, Sinai e Djin Sganzerla, gostaram bastante do resultado, nos disseram que ficaram emocionadas ao ver o livro. É lógico que isso nos deixou muito contentes também”, revela Melhado.

Novos Contos é o terceiro livro publicado pela Grafatório Edições – em parceria com a Miríade Edições –, que estreou com A hora da lâmina, de Paulo Leminski (esgotado), também marcada pelo capricho editorial. “A criação gráfica serve para intensificar a potência do pensamento e vida dos autores”, explica Melhado. E anuncia: “muita coisa já está no prelo”.