Socorro Mota (1955-2020)

Socorro Mota com José Antonio no colo em janeiro de 2017. Foto: Zema Ribeiro
Socorro Mota com José Antonio no colo em janeiro de 2017. Foto: Zema Ribeiro

 

A notícia me alcança pela tela do celular, para tristeza imediata: “tia Socorro se foi”, me escreve Luiza Fernandes, sister in soul, como a chamo desde que nos conhecemos, amiga e colega de profissão.

Entre as lágrimas que começam a rolar e a tentativa de responder sua mensagem com algo que não soe mais do mesmo – o que dizer nessas horas, não é? – penso que Luiza nunca mais ouvirá a tia chamando-lhe pelo apelido de “Maria Bonita” ou me dizendo “Maria Bonita vem aí”, avisando de alguma visita da sobrinha radicada em São Paulo à Ilha, e me vêm imediatamente à memória o sorriso franco e fácil de Socorro Mota (27/2/1955-14/5/2020), sempre elegantemente vestida, fosse para ir à missa ou visitar os amigos.

Foi assim desde sempre e é a lembrança que dela vou guardar. A professora, graduada em Letras, que me saudava de um jeito particular toda vez que nos encontrávamos. “Zema Ribeiro”, ela dizia, antes de apertarmos as mãos ou nos abraçarmos, e emendar alguma conversa sobre política ou outro tema do noticiário, as atividades culturais da Ilha, o gato Olaf, por quem nutria especial carinho, e José Antonio, meu filho, adorado por ela.

Penso no amigo Tarcísio, médico e amigo, irmão de Socorro, com quem habitualmente circulava pelas rodas de choro da cidade e outros eventos artísticos, ela superprotetora a controlar as quantidades de gordura ingeridas pelo doutor.

Católicas fervorosas, penso na comadre Rafaela, madrinha de José Antonio, com quem costumeiramente viajava, tirando alguns dias para merecidos descanso, diversão e compras.

Talvez Socorro aproveitasse as viagens também para colocar-se off line de tanta notícia ruim, sobretudo nestes tempos mais recentes, de um Brasil entristecido. Alguns seguem tratando irresponsavelmente o coronavírus que a vitimou como mera gripezinha. Difícil arriscar qualquer previsão sobre quanto tempo nossa agonia vai durar, mas uma coisa é tragicamente certa: ninguém escapará ileso da pandemia. Quando tudo isso passar, qualquer um/a terá perdido um conhecido, um amigo, um vizinho, um parente próximo ou distante, um artista admirado.

Socorro Mota se chama saudade. Eterna em nossos corações, os que tiveram o privilégio de conhecê-la e com ela conviver. Obrigado por tudo e sempre, minha amiga!

Feliz aniversário, Gisa Franco!

A grife do rádio e o Homem de vícios antigos nos estúdios da Nova 1290. Acervo pessoal
A grife do rádio e o Homem de vícios antigos nos estúdios da Nova 1290. Acervo pessoal

 

Gisa Franco é aquela voz que qualquer maranhense já ouviu no rádio e vai identificar quando ouvir ao vivo, pessoalmente, ainda que sem ligar imediatamente a voz à fisionomia, mesmo em tempos em que locutores podem ser vistos em transmissões simultâneas através das redes sociais.

Eu já a conhecia há muito tempo, ouvinte mais ou menos assíduo de programas como o Santo de Casa, na Rádio Universidade FM, e o Conversa à Beira-Mar, na Rádio Timbira AM.

Há quase quatro anos aportei na Timbira para com ela dividir o Conversa à Beira-Mar, até então diário e apresentado solitariamente pela Locutora, assim mesmo, com inicial maiúscula.

“Grife do rádio” é uma das expressões que uso até hoje para me referir a ela e exaltar suas qualidades profissionais, algo que me fez tremer: estaria eu à altura de dividir um programa com quem eu tanto admirava (e sigo admirando)? Sua postura acolhedora, ao receber alguém que nunca tinha feito rádio na vida, só reafirmou esta admiração.

Além de uma voz que eu ouvia quase diariamente, Gisa Franco logo se tornou, mais que colega de trabalho, uma amiga, irmã, quase sempre professora, às vezes aluna, às vezes mãe, às vezes filha, com quem troco alegrias e tristezas, angústias, delírios, conquistas, conselhos e confidências. Do alto de sua experiência, ela poderia ter achado estapafúrdia a ideia da direção da rádio de botar um “cabaço” para transformar, com ela, o Conversa à Beira-Mar no Balaio Cultural.

Talvez nada tivesse dado certo e eu tivesse desistido de fazer rádio se não fosse justamente sua disposição em trocar experiências, conhecimentos e amor pelo veículo cuja morte tantas vezes foi apregoada e que, mesmo com o advento de internet, das redes sociais e de suas telas virtuais, segue angariando ouvintes, despertando paixões e, muitas vezes, sendo nossa melhor companhia – que o digam estes tempos de quarentena.

Depois de certo tempo o Balaio Cultural e nosso convívio deixaram de ser diários. Por conta da pandemia e do consequente isolamento social, já faz quase dois meses que não a vejo pessoalmente, o que é sempre uma festa, seja quando é para apresentarmos juntos um novo programa ou para uma festa propriamente dita.

Sábado passado retomamos, cada um de sua casa, a apresentação do programa, com uma nova demonstração de aprendizado, nós descobrindo juntos e ao vivo as tecnologias que permitiram que cada um fizesse sua parte de onde está, sem colocar em risco a saúde de ninguém e seguindo, sob as bênçãos de Chacrinha – o programa parece uma bagunça, mas tem toda uma produção para chegar a isto –, firmes com o compromisso de fazer o melhor possível semana após semana.

Hoje (12) é aniversário de Gisa Franco. E este texto é uma tentativa de traduzir um misto de sentimentos que inclui afeto, amizade, carinho, admiração, respeito e, nestes tempos de isolamento, saudade. O abraço e os brindes ficam anotados na caderneta de fiado, para quando tudo isto passar. Pagarei com juros.

5 de maio, dia dela

Familiares e amigos/as presentes ao parabéns virtual. Captura de tela. Reprodução
Familiares e amigos/as presentes ao parabéns virtual. Captura de tela. Reprodução

 

Um passarinho pousou e o outro ficou olhando, nem de perto nem de longe, mas certamente desconfiado. “Essa água é boa?”, perguntou o segundo. “É sim, pode confiar, pode vir”, respondeu o que já se esbaldava, matando a sede numa tarde “quente pra caralho”, como diria o poeta Celso Borges, sobre qualquer tarde em São Luís do Maranhão.

A história dos passarinhos, com o diálogo e a dramatização dos mesmos, quem me contou foi minha namorada, com quem tenho me alegrado ao ver os passarinhos pousando para beber a água – água que passarinho bebe, pura, sem qualquer adoçante, para o bem da saúde dos beija-flores e outros que têm aparecido – em uma flor de plástico que dependuramos na janela da sala, antes de a quarentena não mais nos permitir sair para comprar supérfluos.

Se o “papo de passarim” (evoé, Zé Renato e Xico Chaves!) foi real ou é invenção de sua imaginação fértil não sei dizer. Mas atesto a veracidade mesmo sem tê-lo ouvido – eu não estava na sala quando se deu e temos falhado sistematicamente na tentativa de fotografar algum passarinho bebendo água.

Compartilho esta história da intimidade da quarentena por que hoje é aniversário de Guta Amabile, companheira que me adoça a vida com esse tipo de delicadeza e o mel de seus olhos, que me fazem passarinho sempre embriagado de beber em sua flor.

Insisto em falar em quarentena não para dar um tom melancólico ao texto – do piegas, impossível escapar –, mas para dizer o quanto tem sido um período de aprendizado e ressignificação: escrevo esta espécie de declaração de amor em prosa enquanto asso um bolo de maçã no forno.

Em tempos de normalidade, muito provavelmente teríamos comprado um bolo num supermercado, panificadora ou coisa que o valha. Ou seja, a quarentena tem nos tornado uma espécie qualquer de artesãos nas mais diversas especialidades. Como li outro dia numa rede social: uma geração de chefs está surgindo. Certamente há gente pirando, sem saber lidar com a situação, como li, também outro dia, também numa rede social: vai ser good vibes assim no inferno! Como tudo na vida, cada um lida de uma maneira, da maneira que quer ou que pode.

Obviamente este 5 de maio não saiu como o planejado, mas o que saiu como tal neste 2020 cujo roteirista está caprichando nas surpresas? Lógico que eu adoraria, após nossos expedientes e a aula dela, passar para parabenizar pessoalmente minha sobrinha Mayara, que também aniversaria hoje e, na sequência, encontrar parentes e amigos num bar. Mas termos que nos virar em casa mesmo não significa que o natalício dela tenha sido cercado de menos amor e carinho.

Pela manhã, por exemplo, conseguimos reunir virtualmente alguns parentes e amigos, entre os que iriam ou não ao bar, por um motivo ou outro. Entre os “parabéns a você” e sinceras declarações de afeto, vi a emoção em seu sorriso e me emocionei como se fosse meu próprio aniversário – mas a este cronista, no rumo dos 40, basta um por ano.

“A vida é a arte do encontro”, viva Vinícius, que certamente ergueria o copo, saudando-nos com um brinde e desejando felicidades, após ouvir a história de como nos conhecemos, provavelmente contada conosco sentados às mesas na mesma calçada em que a vi pela primeira vez, quando noutra tarde quente de domingo, vi-a passar, como se desfilasse e transformasse a Godofredo Viana numa passarela, ela desde então miss universo de meu coração.

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

Obra do acaso, este deus que nos rege desde então, hoje um camaleão po(u)sou na árvore que contemplamos “da janela lateral do quarto de dormir” (Lô Borges e Fernando Brant). Se ainda não tivemos sucesso em fotografar as avezinhas, com o réptil a história foi diferente.

Em tempo: o dia ainda não acabou, mas hoje já ouvimos duas vezes o Clube da esquina (1972), o antológico encontro de Milton Nascimento, Lô Borges e toda a patota mineira que deu nome ao disco e ao “movimento”, que tem sua música predileta na história da música popular brasileira: Um girassol da cor do seu cabelo (Lô Borges e Márcio Borges).

Feliz aniversário, Igor!

Com o amigo Igor de Sousa, o perro borracho DP. Foto: acervo pessoal
Com o amigo Igor de Sousa, o perro borracho DP. Foto: acervo pessoal

 

A primeira vez que eu “discotequei” na vida foi a convite dele. Ele namorava a Clara e a festa foi na casa dela. Era a despedida deles, que iam se mudar para Santa Catarina, onde ambos cursariam o mestrado.

O pai dele estava e elogiou algumas sequências, sobretudo quando eu descambava para a música maranhense – eu me equilibrando entre agradar os presentes, atendendo pedidos, e tentando rolar coisas estranhas, novas, diferentes, enfim, apresentar sons (que nem sempre agradam a todos). “16 toneladas”, “meu velho”, “o botafoguense” – ele também um –, como ele sempre se referia ao próprio pai, primeiro número com rosto e nome que conheci nas tristes estatísticas desta pandemia.

Conheci-o num destes acasos da vida. Eu trampava, à época, de assessor de comunicação na Cáritas Brasileira Regional Maranhão quando ele chegou, estudante de Ciências Sociais, para estagiar. À época, sua concentração total era em livros acadêmicos. Lia basicamente as coisas da área e afins.

Nos papos que não demoraram para acontecer, muitas vezes para além do expediente, entre minha casa e os bares da ilha, ele demonstrou interesse (e conhecimento) em poesia e prosa de ficção, além de música – do que minhas estantes eram abarrotadas. Trocávamos livros, discos e todo tipo de informação.

Exímio analista político, uma vez me ganhou uma grade de cerveja numa aposta: eu havia dito que, em determinada eleição municipal em São Luís, o PSol teria mais votos que o PSTU; ele apostou o contrário e bebemos juntos.

Adotei-o como a uma espécie de irmão mais novo, celebrando suas vitórias, sofrendo com a falta dos encontros quando ele andou morando fora.

“Fundamental!”, ele exclamava quando queria dizer que algo era muito bom. “Rapaz, esse disco é fundamental”, “fundamental esse livro”, etc., espécie de bordão que acabei também adotando.

Juntos éramos Los Perros Borrachos, com erro de espanhol e tudo, e juntos fizemos algumas entrevistas, como, por exemplo, as hilariantes entrevistas (ambas regadas a cerveja, como bons discípulos da patota do Pasquim que somos) de Marcos Magah e com os editores da revista Pitomba!, Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha.

Cato na memória estas lembranças, correndo o risco de soar autoelogioso ou de falar mais de mim que do amigo. Tirador de onda que só ele, acabou apelidado DP, depois de me dizer que o primeiro e-mail de sua vida, ainda ali pelo fim da infância, tinha as palavras desajustado e punk antes da arroba.

Hoje é aniversário de Igor de Sousa, amigo-irmão “fundamental”. Quero desejar-lhe feliz aniversário, apesar da tristeza que, espero, é momentânea.

Que tua gargalhada e gaiatice continuem a ecoar pelas calçadas e noites da ilha!

Tássia Campos e Ana Marques reverenciam Adriana Calcanhotto e Marisa Monte em “Onde andarás”

[release]

O show no Clube do Chico passeará por diversas fases das obras de duas das mais importantes cantoras e compositoras surgidas no Brasil nos últimos 30 anos

Desde o final da década de 1980, Marisa Monte e Adriana Calcanhoto consolidaram-se como duas das mais talentosas cantoras e compositoras surgidas no Brasil em todos os tempos. A carioca estreou em disco em 1988, com a explosão do hit Bem que se quis, versão de Nelson Mota para E po’ che fa’ (Pino Daniele); a gaúcha, dois anos depois, com Enguiço, disco do hit Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos), a que compareciam ainda regravações de nomes tão diversos como o conterrâneo Lupicínio Rodrigues, além de Eduardo Dussek e Roberto Carlos.

Não é exagero dizer que influenciaram todo mundo que veio depois, como o fizeram Gal Costa e Maria Bethânia mais de 20 anos antes. Versáteis, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte seguiram trilhas distintas, mas com obras com traços em comum: a permanente qualidade de seus discos e shows, as carreiras paralelas (Marisa com os Tribalistas e Adriana com o Partimpim, voltado ao público infantil, mas também encantando adultos), a constante presença na programação do rádio e o permanente diálogo com a poesia – Marisa trouxe Eça de Queiroz para sua Amor, I love you (parceria com Carlinhos Brown), Adriana musicou Ferreira Gullar e Mário de Sá-Carneiro e é parceira de Antônio Cícero.

Adriana Calcanhotto e Marisa Monte serão lembradas em um show dedicado a seus repertórios. As talentosas Tássia Campos e Ana Marques irão passear por várias fases de suas carreiras, entre grandes sucessos e músicas menos conhecidas. Na ocasião serão acompanhadas por Jhoie Araújo (violão sete cordas), Rui Mário (sanfona e teclado) e Richard (bateria).

Tássia Campos tem seu nome reconhecido como uma das cantoras mais requisitadas da cena MPB de São Luís. Tem no currículo, entre outros, os troféus “Revelação” e “Show do ano” (com o Trio 123), do extinto Prêmio Universidade FM, então a maior honraria da música produzida no Maranhão. Ana Marques, sócia-proprietária do Clube do Chico, reservava seus dotes artísticos apenas para amigos, em jam sessions após os shows da casa, mas resolveu, agora, colocar seu talento a serviço do público em geral. Já não era sem tempo.

Onde andarás, que dá título ao show, é parceria de Caetano Veloso com o poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016). A música já foi gravada por ambas, além de pelo próprio Caetano e pela irmã Maria Bethânia. Outros números do repertório da homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são Clandestino (Mano Chao), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Inverno (Adriana Calcanhotto) – gravadas por Adriana Calcanhotto –, Balança pema (Jorge Benjor), Dança da solidão (Paulinho da Viola) e Na estrada (Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Nando Reis) – gravadas por Marisa Monte. No fim das contas, o show, além de uma homenagem a elas, é também um tributo a seus parceiros e a compositores eternizados em suas vozes.

Serviço

Divulgação
Divulgação

O show Onde andarás – Homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte acontece no Clube do Chico (R. Uirapuru, 17, Parque Shalon), dia 2 de agosto (sexta), às 21h. Os ingressos custam R$ 20,00 (antecipados; R$ 25,00 na hora). Reservas pelo telefone: (98) 98113-5547.

Vieira inédito e festejado

Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro
Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro

 

Desde o último 9 de maio começaram as celebrações em torno do centenário do compositor Antonio Vieira (9/5/1920-7/4/2009) – a ser completado em 9 de maio de 2020.

Capitaneada por Helena, sobrinha do artista, e pelas produtoras culturais Tatiana Ramos e Márcia Carvalho, uma temporada de shows tem percorrido diversos espaços da cidade, escalando sempre um par de artistas para explorar majoritariamente o repertório inédito deixado pelo compositor.

A estreia aconteceu no Bar Latino (Praia Grande), com Inácio Pinheiro e Tássia Campos; no mês seguinte, Alexandra Nicolas e Josias Sobrinho comandaram a festa, na Feirinha São Luís (Praça Benedito Leite, Centro).

A banda que acompanha as duplas é sempre a mesma: ​Arlindo Carvalho (percussão, foi companheiro de Vieira no Regional Urubu Malandro e integrou, com ele, a primeira formação do Regional Tira-Teima, na década de 1970), Rui Mário (sanfona e teclado), Thiago Fernandes (violão sete cordas), Danilo Santos (flauta e saxofone), Sadi Ericeira (cavaquinho), Ronald Nascimento (bateria) e Davi Oliveira (contrabaixo).

Ontem (9) foi a vez de Edilson Gusmão e Lena Machado, que se apresentaram no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Revezando-se no palco, cada qual cantou meia dúzia de canções.

Edilson Gusmão abriu o show com Mulata bonita, primeira composição de Vieira, escrita quando ele tinha 16 anos. Destacou-se em seu repertório a interpretação do choro inédito Aquele rapaz, que versa sobre um homem que, abandonado pela mulher, entrega-se ao álcool. Mas as lentes de Vieira nunca são moralistas, pedindo-nos que não julguemos o personagem.

A crítica social que sempre marcou o trabalho do mestre – “era chamado de mestre por que era um mestre”, alertou o elegante Augusto Pellegrini, outro mestre, de cerimônias, da noite – compareceu ao repertório de Lena Machado em Zé do lixo, atentando para a pouca atenção dispensada pela sociedade aos garis.

Em sua interpretação para A pedra rolou, a cantora incorporou os graves e o bailado de Célia Maria, referência em interpretação e quando o assunto é a obra de Vieira, sempre reverenciado por ela.

No bis, o dueto dos artistas em Banho cheiroso, na base do improviso, parecendo antecipar a necessidade de um descarrego que exigiria o dia de ressaca, com os falecimentos de Paulo Henrique Amorim e Chico de Oliveira. Sinais de Vieira.

Em breve os áudios das apresentações serão disponibilizados em plataformas de streaming.

O comovente e fundamental Stanislaw Ponte Preta

Autoria desconhecida

 

“O forte de Stanislaw Ponte Preta era justamente extrair humorismo dos fatos, das notícias da imprensa. Leitores enviavam-lhe recortes de jornais, colaborando mais ou menos com a metade das histórias contadas no Festival de besteiras que assola o país. Pouco antes de morrer ele lançava um jornalzinho humorístico, chamado A Carapuça: era ele mais uma vez à procura de piadas concretas” (Paulo Mendes Campos).

Domingo passado, almoçando em casa de amigos, lembrei-me de quando aos 11 ou 12 anos de idade, num livro de gramática, li uma crônica em que Stanislaw Ponte Preta – ou Sérgio Porto: “O nome todo era Sérgio Marcos Rangel Porto” (Paulo Mendes Campos) – contava a história de um cidadão que, aficionado por livros, batizava todos os filhos com nomes relativos à sua mania, sendo pai de Prefácio, Tomo, Capítulo e assim sucessivamente, até que a esposa faz uma promessa: se viesse uma menina, batizaria de Maria. A menina vem e só ao ir registrá-la o pai descobre a promessa: para não contrariar a mulher nem a Nossa Senhora, batiza-lhe Errata Maria. Isto resumidamente, que lendo o próprio Stanislaw tem muito mais graça.

O fato é que passei anos até me reencontrar com este texto, em O homem ao lado (graças a Deus, as obras de Stanislaw e Paulo Mendes Campos, dois de meus favoritos, têm sido reeditadas sucessivamente – até por que o Febeapá continua atual, municiado cotidianamente por nossa imprensa e classe política).

Eu ainda nem conhecia a expressão comovido como o diabo, que já nem sei se dele ou de Paulo Mendes Campos, mas apaixonei-me imediatamente por Stanislaw Ponte Preta. Aos 11 ou 12 anos. Não sabia se achava mais engraçada a história do homem que batizava os filhos com nomes relacionados a livros ou o próprio nome do autor. Em minha cabeça de criança pairava a curiosidade: por que alguém escolhe um nome artístico mais complicado que o de batismo? Até hoje as prosas de Stanislaw Ponte Preta e Paulo Mendes Campos me deixam comovido como o diabo.

“Uma vez Vinicius de Moraes chegou depois de longa temporada diplomática nos Estados Unidos. Havia batido um longo papo com Louis Armstrong. No bar Michel, nas primeiras horas da noite, ainda portanto com pouco combustível na cuca, a ilustre orquestra não demorou a formar-se. Instrumentos invisíveis foram sendo distribuídos entre Sérgio, Vinicius, Fernando Sabino, José Sanz, Lúcio Rangel, Sílvio Túlio Cardoso. Eram o saxofone, o piano, o contrabaixo, o trompete, o trombone, a bateria.

“Não me deram nada e tive que ficar de espectador. Mas valeu a pena. A orquestra tocou por mais de duas horas, alheada das mulheres bonitas que entravam e até esquecida de renovar os copos. A certa altura Sérgio pediu a Vinicius que trocassem de instrumentos, ele queria o piano, ficasse o poeta com o saxofone. Feito. Só que os dois, compenetrados e desligados, trocaram de lugar efetivamente, como se diante da cadeira de Vinicius estivessem de fato as teclas de um piano. Foi a jam session mais surrealista da história do jazz.

“O humorista começou a surgir no Comício, um semanário boêmio e descontraído, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria. Mas foi no Diário Carioca, também boêmio e impagável, que nasceu Stanislaw Ponte Preta, que tem raízes no Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, e em sugestões de Lúcio Rangel e do pintor Santa Rosa. Convidado por Haroldo Barbosa, precisando melhorar o orçamento, Sérgio foi fazer graça no rádio, depois de passar um mês a aprender na cozinha dos programas humorísticos da rádio Mayrink Veiga” (Paulo Mendes Campos).

Não há outro adjetivo possível para Stanislaw Ponte Preta: gênio. Você mesmo já deve ter usado a expressão mais perdido que cego em tiroteio achando tratar-se de um dito popular: é invenção dele, que “fez rádio, cinema, televisão, teatro, show de boate” (Sérgio Augusto) e era “uma usina de expressões, gírias, neologismos, ditados e definições impagáveis – cocoroca, teatro rebolado etc. – que muitas vezes pareciam saídas da boca de um malandro” (Sérgio Augusto).

Por falar em invenção: “Fernando Pessoa inventou três heterônimos, Millôr escondeu-se atrás de quatro ou cinco pseudônimos, Sérgio contentou-se com um alter ego apenas, o suficiente para torná-lo o mais lido e citado gozador da imprensa brasileira nos anos 1950 e 1960 do século passado” (Sérgio Augusto). Além de ser nome fundamental para afirmarmos, ainda hoje, que o Brasil é o país da crônica.

Não bastasse tudo isso, foi Sérgio Porto quem – funcionário do Banco do Brasil por 22 anos, até decidir trocar o emprego dos sonhos definitivamente pelo jornalismo, que já praticava paralelamente ao ofício de bancário – descobriu Cartola lavando carros em um estacionamento. Levou o sambista ao produtor Pelão e este lançou, pela Discos Marcus Pereira, o elepê de estreia do autor de As rosas não falam. O resto é história.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho” (Paulo Mendes Campos). Falecido em 1968, aos 45 do primeiro tempo, ele completaria hoje (11) 94 anos.

O jazz brasileiro de Caymmi

Dorival. Capa. Reprodução

 

Vem de longa data o reconhecimento da sofisticação da música popular brasileira, uma das mais interessantes do planeta. Voltemos no tempo para permanecer no universo do homenageado, Caymmi, de quando sua O que é que a baiana tem?, interpretada por Carmem Miranda, integrou a trilha sonora do filme Banana da terra, em 1939, para gringo ver. Ou quando sua Doralice conquistou o Carnegie Hall e a bossa nova (com jazz) de João Gilberto (e Stan Getz) conquistou o mundo.

Dorival [2017], disco que reúne Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), André Mehmari (piano) e Nailor Proveta (saxofone e clarinete), “time dos sonhos, reunião de bambas, quarteto fantástico”, como assinala Joyce Moreno em texto no encarte, “levando a música de Dorival Caymmi, gênio da raça, a mares nunca dantes navegados”.

Individualmente os integrantes deste quarteto têm relevantes serviços prestados à música brasileira, aqui e no exterior – Dorival foi gravado no Rainbow Studio, em Oslo –, assim como o homenageado. Há quase 20 anos já haviam se reunido em disco, em Forças d’alma, como Tutty Moreno Quarteto. Agora, assinando pura e simplesmente com seus próprios nomes, credenciais que lhes bastam, presenteiam os ouvidos mais atentos com “uma daquelas provas de que o Brasil que o Brasil merece é possível”, para continuarmos citando Joyce.

Em 10 faixas abordam o universo criativo de Dorival Caymmi, dono de uma das obras mais particulares da história da música brasileira – Morena do mar e Milagre reaparecem na Suíte Caymmi, que traz ainda entre uma e outra, que se repetem, Dois de fevereiro. A abordagem é original, o baiano elevado a jazz, mesmo quando se trata do Samba da minha terra, sem perder a essência de brasilidade, a brejeirice, o clima praieiro. Entre outras, comparecem ao repertório Sargaço mar, João Valentão, A vizinha do lado e Só louco – se uma das forças da obra de Caymmi reside na lírica, é tanto o talento dos instrumentistas reunidos em Dorival que a supressão das letras não diminui o brilho e valor de sua obra.

Praia, mar, céu e Caymmi são evocados na arte que embala o disco, assinada pelo talentoso Gal Oppido. Não é o primeiro disco inteiramente dedicado ao cancioneiro caymmiano. Espero que não seja o último. O grande trunfo de Dorival é que os craques do time jogam para o conjunto. Aqui e ali sobressaem-se seus talentos individuais, mas não há vontade ou necessidade de um querer demonstrar maior virtuosismo que outro. O importante é re/embalar, em beleza diversa da original, a obra do gênio a quem escolheram acertadamente homenagear.

Constroem, a partir da desconstrução da obra de Caymmi, uma nova obra, com respeito e reverência, singela e comovente como o pai de Dori, Danilo e Nana inventou.

*

Ouça A vizinha do lado (Dorival Caymmi), com Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Nailor Proveta:

Best of

Para Belchior com amor. Capa. Reprodução
Para Belchior com amor. Capa. Reprodução

 

O desaparecimento do compositor cearense Belchior tem causado verdadeira comoção aos brasileiros, de maneira geral. Sobram especulações sobre seus motivos, apesar de anunciados ao longo de sua obra, e homenagens. Discos como Belchior Blues [2012], que destaca a porção blueseira de quem disse que “um tango argentino me vai bem melhor que um blue” [em A palo seco, de 1973], e Ainda somos os mesmos [2014], organizado pelo site Scream & Yell, além de shows – o Encontrando Belchior, de Tássia Campos, e a releitura do disco Alucinação [1976] por Gero Camilo –, e até mesmo bloco de carnaval: o Volta Belchior, de Belo Horizonte/MG. Sem contar os gritos e a hashtag #voltabelchior, que se irmanam aos gritos e hashtag #foratemer, para protestar contra o atual estado de coisas no Brasil.

Lançado na altura do aniversário de 70 anos do compositor, completados em 26 de outubro de 2016, soma-se a este lote de homenagens Para Belchior com amor [Miragem Editorial, 2016, 96 p.], livro organizado pelo cearense Ricardo Kelmer reunindo 14 escritores conterrâneos – inclusive ele próprio – em textos para 14 clássicos do bigodudo mais querido do Brasil. Há contos, cartas, ensaios, memórias.

O conto de Claudene Aragão para Coração selvagem [1977] imagina um encontro seu com Belchior. Escondido num lugar óbvio, o compositor acede vê-la e falar-lhe, ocasião em que revela ter mais de 300 músicas inéditas. Em determinada passagem, o personagem Belchior afirma, sobre seu desaparecimento: “Todas as respostas sempre estiveram nas minhas canções. Fui preparando isso por muito tempo, e nas minhas composições fui deixando pistas sutis do meu plano […]. Não me perdi. Não fugi. Não me escondi. Me permiti viver como eu queria. Afinal de contas, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”, citando trecho da composição revivida.

Também merece destaque o conto de Raymundo Netto, que recria, de forma bem humorada, o encontro de Belchior com policiais, como cantado em Fotografia 3×4 [1976]. Cai na brincadeira do nome inventado pelo compositor em entrevista aO Pasquim, quando entre várias lorotas, disse chamar-se Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes – esparrela em que cai também o organizador, ao citar o falso nome de batismo na orelha e numa pequena biografia do homenageado ao final do livro. O verdadeiro nome de Belchior é apenas Antonio Carlos Belchior, como afirma o jornalista Jotabê Medeiros, que lança este ano Pequeno perfil de um cidadão comum, biografia de Belchior em que trabalha já há alguns anos.

A jornalista Ana Karla Dubiela parte das lembranças de um show de Belchior no campus da UFSC em 1984, quando ela estava em lua de mel em Florianópolis, para recontar A palo seco. “Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem por que o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas”, lembra ela, que foi para o show, que “durou bem mais que as duas horas previstas”, “com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo”.

Alucinação [1976], por Thiago Arrais, e Apenas um rapaz latino-americano [1976], por José Américo Bezerra Saraiva, extrapolam o universo das canções escolhidas e do próprio compositor, espraiando-se por outras obras suas, de conterrâneos que buscavam o sucesso no mesmo período, e de artistas (da música ou não) com quem a obra de Belchior sempre dialogou. Com seu estilo peculiar Xico Sá recria Todo sujo de batom [1974] e Gero Camilo amplifica o drama familiar de Na hora do almoço [1971], enquanto Ethel de Paula, em Conheço meu lugar [1979], atesta: “eis que o nome Belchior, segundo o dicionário, significa exatamente isso: “Rei da luz. Rei luminoso”. Ou ainda o seu correspondente terreno, plebeu: “mercador de objetos usados; alfarrabista”. Um simples cantador das coisas do porão. Uma pessoa. E a palavra pessoa, nele, ainda soa bem”.

Ouça Alucinação, eleito por internautas e críticos do jornal O Povo, “o melhor disco cearense de todos os tempos”:

Uma homenagem honesta e inovadora

Romulo Fróes emula Nelson Cavaquinho em foto de Rodrigo Sommer. Reprodução do perfil do cantor no Facebook
Romulo Fróes emula Nelson Cavaquinho em foto de Rodrigo Sommer. Reprodução do perfil do cantor no Facebook

Nelson Cavaquinho (29/10/1911-18/2/1986) é dono de uma das líricas mais particulares da música popular brasileira. Sua obra é mórbida, permeada de morte e amores desfeitos – o que não deixa de ser uma espécie de morte.

Rei vadio. Capa. Reprodução
Rei vadio. Capa. Reprodução

Aos 30 anos de sua morte, o mangueirense recebe tributo à altura, de Romulo Fróes, admirador confesso: Rei vadio – As canções de Nelson Cavaquinho [Selo Sesc SP, 2016]. O cantor e compositor é um dos nomes mais festejados no cenário da música brasileira dos últimos 15 anos, como integrante do grupo Passo Torto ou em carreira solo, esta marcada, desde o início, pela reverência ao ídolo de cabelos prateados – em Cão [2006], seu segundo disco, já regravava Mulher sem alma [Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito], que volta a aparecer neste tributo.

Além da predileção por temas sombrios, outras características marcam a obra de Nelson Cavaquinho, quando interpretada por ele mesmo: seu jeito de tocar as cordas (de arame farpado) do violão, beliscando-as com dois dedos, como se usasse um alicate, sua voz fanha e rouca, forjada em álcool, tabaco e noites de sono perdidas, causam uma sensação incômoda em ouvintes desavisados ou neófitos. A “beleza difícil” que Romulo Fróes aborda em texto à guisa de introdução desta valorosa homenagem.

Certamente a mesma estranheza causada nele ao ouvir o ídolo pela primeira vez. Como acrescentar algo novo a obra tão singular? Um dos caminhos foi não se contentar com o óbvio: a homenagem de Romulo Fróes não é best of vulgar, mas um trabalho de pesquisa – marcado também pelo afeto – de quem conhece profundamente o terreno em que está pisando. Tanto que o disco traz o choro Caminhando, originalmente de Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia, com letra de Nuno Ramos e voz de Ná Ozzetti – que já dividiu disco com o Passo Torto –: “Essa rua era minha/ eu cantava sozinho/ no meio da praça/ e vencia sozinho/ com a minha cachaça/ mais o meu cavaquinho”, diz trecho da letra.

Nuno Ramos, originário das artes plásticas, é compositor importante no universo de Fróes, de quem é parceiro, e assina um baita artigo sobre o homenageado no encarte do disco – originalmente publicado no número inaugural da revista serrote [março/2009], do Instituto Moreira Sales.

Outros convidados são Criolo (em Luz negra, de Nelson Cavaquinho e Amancio Cardoso) e Dona Inah (em Eu e as flores, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), espécie de voz feminina de Nelson Cavaquinho, noutro sentido que não o atribuído se falássemos em Beth Carvalho e Clara Nunes, para citarmos duas de suas grandes intérpretes.

Outra opção estética de Fróes para evitar o óbvio foi adentrar o estúdio sem nenhuma ideia pré-concebida: os arranjos foram tomando forma no ato da gravação, o que garante às 14 faixas de Rei vadio o frescor do improviso, como se jazzificassem Nelson Cavaquinho, o que é fortemente percebido nas intervenções do saxofone de Thiago França.

Também comparecem ao excelente time de músicos nomes como Allan Abbadia (trombone), Curumin (bateria em Mulher sem alma), Guilherme Held (guitarra), Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (contrabaixo elétrico), Rodrigo Campos (violão, cavaquinho e guitarra), Wellington Moreira “Pimpa” (bateria e percussão) e a Velha Guarda Musical de Nenê de Vila Matilde (Clara, Irene e Laurinha, coro em Vou partir, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), entre outros.

Como a obra do homenageado, Rei vadio é um disco de tons cinzas, como entrega o projeto gráfico, cujas imagens são frames do antológico curta-metragem Nelson Cavaquinho [1969] de Leon Hirszman. Não é um disco para ouvidos acostumados com música fácil e descartável, mas fundamental para quem deseja compreender dois momentos distintos e importantes da música popular brasileira: a obra de Nelson Cavaquinho, contemporâneo de Noel Rosa (citado na letra de História de um valente, de Nelson Cavaquinho e José Ribeiro) e Cartola, para citarmos dois gigantes do samba, e esta turma nova, que já vem movimentando a cena há algum tempo, tem também uma voz particular, mas não tem vergonha de dizer o nome de seus ídolos.

Choro em dose dupla para celebrar aniversário de Pixinguinha

Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
"Jornada Chorística do Maranhão" acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação
“Jornada Chorística do Maranhão” acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação

Como já é tradição nos calendários musical e cultural de São Luís, será comemorado o Dia Nacional do Choro, homenagem ao nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (23/4/1897-17/2/1973), um dos mais importantes nomes do gênero e da música brasileira.

A data é celebrada a cada 23 de abril. A novidade em 2016 é que haverá duas festas: uma, a oficial, promovida pela Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), cujos corredores, tendo professores e alunos em várias formações, foram berço de diversos grupamentos. A segunda festa acontecerá na nova praça de alimentação do São Luís Shopping. Nesta, os músicos abriram mão de seus cachês, em favor do livro Chorografia do Maranhão, a ser lançado em breve. Ambos os acontecimentos são gratuitos e abertos ao público.

“Parte dos recursos para fazer o livro estão garantidos por edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão], outra parte foi arrecadada através de campanha de financiamento coletivo na internet, mais um pedaço está vindo da solidariedade dos músicos que se apresentarão no São Luís Shopping e há, ainda, promessas de empresas privadas. Ficamos muito felizes com a iniciativa do shopping e o gesto dos músicos. De pedacinho em pedacinho, a gente vai conseguindo contar estes importantes capítulos da história do choro e da música do Maranhão”, comenta Ricarte Almeida Santos, autor do livro, com este que vos perturba e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos.

A programação da Emem acontece dia 22 (sexta-feira), às 18h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Como em anos anteriores, a iniciativa homenageará um chorão local. Este ano será o bandolinista e cavaquinhista Roquinho, que curiosamente não está entre os 52 entrevistados pela Chorografia do Maranhão: o músico simplesmente negou-se a atender todos os insistentes pedidos de entrevista dos chororrepórteres – o que não lhe diminui o brilho, o talento e a importância para a cena choro local. O convite anuncia a “participação de instrumentistas, grupos de choro da cidade e artistas convidados”, destacando os grupos Instrumental Pixinguinha, Regional Tira-Teima, Chorando Callado e Os Cinco Companheiros.

No São Luís Shopping a comemoração acontece sábado (23), em dois turnos. A “Jornada Chorística do Maranhão”, como foi batizado o evento, terá o primeiro tempo ao meio dia, com Trio Feitiço da Ilha e Chico Nô, Suellen Almeida (flauta), Regional Deu Branco, Urubu Malandro e Instrumental Pixinguinha. O segundo tempo, que começa às 18h, contará com Os Cinco Companheiros, Quinteto Bom Tom e Anna Cláudia, Regional Camisa de Bolso, Trítono Trio, Danuzio Lima (flauta) e Regional Tira-Teima.

Do quintal ao municipal, como no título do livro de Henrique Cazes, e agora à praça de alimentação, o choro se renova e conquista novos espaços e público. Vida longa, com as bênçãos de São Pixinguinha.

Confira o encontro do Instrumental Pixinguinha com o Regional Tira-Teima em Cochichando [Pixinguinha/ João de Barro/ Alberto Ribeiro], durante a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes em 2013.

Roberto Farias e Murilo Santos serão homenageados no 8º. Maranhão na Tela

Festival acontece de 21 a 26 de março no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, com programação gratuita

A oitava edição do Maranhão na Tela acontece entre os próximos 21 a 26 de março, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, na Praia Grande. Já consolidado nos calendários cinematográfico e cultural da capital maranhense, o festival homenageia os diretores Murilo Santos e Roberto Farias, este às vésperas dos 83 anos que ele completa dia 27 de março.

Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução
Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução

Meia dúzia de filmes de Farias serão exibidos em cópias digitalizadas durante o festival, incluindo a “trilogia do Rei”: Roberto Carlos em ritmo de aventura [1968], Roberto Carlos e o diamante cor de rosa [1970] e Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora [1971]. O clássico Pra frente, Brasil [1982] será exibido na sessão de abertura do festival. Os outros títulos de Farias que serão exibidos na mostra que o homenageia são Assalto ao trem pagador [1962] e o documentário O fabuloso Fittipaldi [1974].

A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação
A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação

Novidade nesta edição, o que faz o festival se aproximar ainda mais do nome Maranhão na Tela, é a homenagem a cineastas maranhenses, começando, este ano, por Murilo Santos. “O nome do Murilo foi, desde sempre, o único que cogitamos para ser o primeiro homenageado maranhense. Ano que vem teremos uma lista, chegaremos a um consenso, mas esse ano é só dele”, declarou a idealizadora e produtora do Maranhão na Tela Mavi Simão, revelando ter sido consenso o nome do homenageado. “O Murilo tem uma importância histórica pro cinema maranhense que não tem similar. A forma como ele atuou e atua é única!”, continuou.

Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução
Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução

Murilo também terá seis títulos exibidos no oitavo Maranhão na Tela: Um boêmio no céu [1974], Tambor de crioula [1979], Quem matou Elias Zi? [1982], com trilha sonora e desenhos do irmão Joaquim Santos, Na terra de Caboré [1986], Marisa vai ao cinema [1995] e Fronteira de imagens [2009].

Mavi Simão avalia a evolução do festival ao longo das edições e o investimento constante em formação, uma característica do evento anual. “O Maranhão na Tela sempre teve um foco, um objetivo claro, que é o de contribuir para fomentar a produção local, e esse direcionamento acredito que dê uma solidez pro festival. Outro compromisso que me move é o de sempre tentar superar a edição anterior e assim vamos caminhando. O compromisso do festival sempre foi com o fomento e, dentro do meu parco raio de alcance, a melhor forma de fazer isso é investindo em formação. O conhecimento inquieta as pessoas”, afirmou.

Sobre o atual momento vivido pelo cinema no Maranhão, particularmente no que tange a notícias recentes como os anúncios do governo estadual de uma escola de cinema e um edital para o audiovisual maranhense, ela comemora: “Estamos vivendo um momento ímpar, um antes e depois da produção audiovisual maranhense. Agora sim, vislumbro mais concretamente a inserção da produção local na cena nacional. E a escola vai ter um impacto enorme nesse processo! Finalmente temos um governo que reconhece a importância estratégica do audiovisual”.

Cartaz de Quase memória. Reprodução
Cartaz de Quase memória. Reprodução

Além das homenagens, o Maranhão na Tela terá uma vasta programação com aproximadamente 350 títulos, entre pré-estreias, estreias, retrospectivas e animações. Na primeira categoria estão Quase memória, de Ruy Guerra, baseado no livro de Carlos Heitor Cony, Um filme de cinema, de Walter Carvalho, Para minha amada morta, de Aly Muritiba, e Prova de coragem, de Roberto Gervitz, com atuação de Áurea Maranhão.

A mostra Maranhão de Cinema, uma das que compõem a programação do Maranhão na Tela, tem 36 filmes, divididos em duas categorias: uma competitiva, com títulos inéditos, e uma retrospectiva, com obras que marcaram a produção audiovisual no estado nos últimos 40 anos – destaque para a filmografia de Murilo Santos. A curadoria é assinada por Mavi Simão com o diretor Josh Baconi e Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande, que abrigará a maior parte da programação desta oitava edição do festival, realização da Mil Ciclos Filmes, com patrocínio da Oi e da Rede de Óticas Diniz, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e apoio cultural da Oi Futuro.

Sobre destaques da programação, Mavi preferiu não se comprometer, tamanho o envolvimento e o cuidado com cada detalhe da produção. “Cada filme, cada curso, cada convidado, cada espectador faz o festival ser como é. Tô aqui pensando e não consigo destacar algo ou alguém em especial. Tenho uma relação passional com o Maranhão na Tela, tudo o que acontece a cada edição é especial pra mim”, finalizou.

Serra de Almeida recebe homenagem de amigos por seus 80 anos

O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos
O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O flautista Serra de Almeida completa, nesta sexta-feira 13, 80 anos de idade, metade deles dedicados à flauta, que aprendeu a tocar já quarentão, como revelou à Chorografia do Maranhão, no depoimento que abriu a série, publicada entre março de 2013 e maio deste ano no jornal O Imparcial.

Há 26 anos o são-bernardense integra o Regional Tira-Teima, mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, prestes a lançar (finalmente) seu (aguardado) disco de estreia – incluindo, no repertório, alguns choros de autoria de Serrinha, como é carinhosamente chamado pelos colegas de grupo e por uns mais chegados.

Não poderia haver melhor forma de comemorar a data que com uma roda de choro à altura do talento do mestre. É o que acontecerá hoje (13), às 20h, no terraço do Hotel Brisamar, onde o Tira-Teima costumeiramente se apresenta às sextas-feiras. Mas esta tem sabor especial, por razões óbvias.

Ao grupo, cuja formação atualmente se completa com Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro e voz), Luiz Jr. (violão sete cordas), Henrique (percussão) e Zé Carlos (percussão e voz), se somarão as participações especiais de Anna Claudia, Augusto Pellegrini, Carlinhos da Cuíca, Carlinhos Veloz, Fátima Passarinho, Celson Mendes, João Pedro Borges, Juca do Cavaco, Zequinha do Sax, Zé Luiz do Sax e Osmar do Trombone, além da presença de Bernardo Serra, irmão do homenageado.

Fisicamente, Serrinha lembra o lendário Copinha, mas sua predileção é por Altamiro Carrilho. Merece destaque sua memória prodigiosa: é capaz de tocar incontáveis choros sem qualquer estante à sua frente. Quem quiser comprovar, eis aí uma ótima oportunidade.

A produção não informou o valor do couvert artístico.

Carmen Mirandivando

Já descalça, Alexandra Nicolas presta reverência aos grandes que lhes escoltam. Foto: Rivanio Almeida Santos
Já descalça, Alexandra Nicolas reverencia aos grandes que lhe escoltam. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O sucesso das duas edições anteriores de RicoChoro ComVida já haviam consolidado em definitivo o espetáculo mensal no calendário cultural da capital maranhense. Sábado passado (3), o grupo Urubu Malandro, com os reforços de Rui Mário (sanfona) e Fleming (bateria), e, antes, o DJ Joaquim Zion, já haviam aquecido o público, quando a cantora Alexandra Nicolas subiu ao palco, em tons de rosa e azul dos pés à cabeça, para homenagear Carmen Miranda, que confessou ser sua maior influência musical.

As várias preocupações da artista – figurino, pesquisa e seleção de repertório etc. – fizeram merecer, à sua apresentação – e ao projeto como um todo –, o epíteto de espetáculo, literalmente. O público, sempre acostumado a vê-la cantar descalça, deve ter estranhado o salto alto decorado que calçava para ser estrela ao lado de astros nada distraídos, para contrariar uma canção que não cantou.

Subiu ao palco dançando, provocante, Diz que tem [Vicente Paiva e Aníbal Cruz], dando pistas do que seria a noite dali por diante. Seguiram-se Disseram que eu voltei americanizada [Luiz Peixoto e Vicente Paiva] e O samba e o tango [Amado Regis], quando ela confessou: “meu repertório é à base de alegria e amor, por isso eu estou aqui, são a base de tudo o que faço”. Então tá explicado!

Vieram Tico-tico no fubá [Zequinha de Abreu], Teleco-teco [Marino Pinto e Murillo Caldas], Bambo de bambu [Almirante e Valdo Abreu], em que botou a plateia para cantar e bater palmas, e E o mundo não se acabou [Assis Valente]. Até que ela tirou os sapatos, botou-os em cima do tamborete, e confessou: “é uma honra calçar esse sapato, mas eu já cantei muito calçada”, riu e fez a plateia sorrir. “Esse sapato é quase uma pessoa, então vai ficar aqui à disposição de quem quiser tirar foto”, continuou. Já estavam todos entregues aos encantos de Alexandra e de sua homenageada.

Quando cantou Quem é [Custódio Mesquita e Joracy Camargo] lamentou a ausência de um par para duetar – na gravação original da música, Carmen Miranda dialoga com Grande Otelo –, prometendo-o para uma próxima ocasião. Arlindo Carvalho (percussão), Osmar do Trombone, Juca do Cavaco e Domingos Santos (violão sete cordas) vez por outra interagiam fazendo-lhe um divertido coro.

Após Camisa listada [Assis Valente], Alexandra louvou a existência de outras Carmens na música brasileira, destacando os nomes das Ritas Lee e Benneditto, Ná Ozzetti e Ney Matogrosso, todos de sua admiração.

A Meu rádio e meu mulato [Herivelto Martins], seguiu-se Na cabecinha da Dora [Antonio Vieira], externa ao repertório da “pequena notável”. “Carmen Miranda me contou em sonho que só não gravou essa música por que não conheceu Seu Vieira. Eu acredito nisso. Eu não podia deixar também de prestar essa homenagem, pois ele [o compositor] está aqui”, disse, apontando para o afoxé – usado por Fleming durante o show – pousado num banco, o que seria do artista – um dos fundadores do Urubu Malandro –, não fosse seu falecimento em abril de 2009.

Com o choro que dá nome ao grupo [Urubu malandro, de Pixinguinha, João de Barro e Louro], aliás, Alexandra Nicolas encerrou, apoteoticamente, sua primeira incursão no palco do Barulhinho Bom, que abriga o projeto RicoChoro ComVida. Aos aplausos e gritos de “mais um” em uníssono, respondeu com mais uma dose de O samba e o tango, fazendo jus à letra: “eu canto e danço sempre que possa”.

A festa continuou, com canjas de Anna Cláudia – que anunciou lançamento de disco novo para breve –, Tássia Campos – que dividirá com Cesar Teixeira e Marcos Magah o palco do Baile da Tarja Preta, de aniversário de seis anos do jornal Vias de Fato, dia 14 de novembro, no Porto da Gabi – e Joãozinho Ribeiro – que lembrou o centenário de Orlando Silva e se apresenta dia 10 de outubro (sábado), na programação de aniversário do Laborarte (em sua sede, na Rua Jansen Müller, 42, Centro). Joaquim Zion garantiu a necessária prorrogação, quando os insistentes, qual este cronista e(m) boas companhias, já em pé, dividiam-se entre o som, os últimos goles e doses, o papo e arriscar um ou outro passo.

Com devoção e elegância Silvério Pessoa volta a visitar Jackson do Pandeiro

Cabeça feita. Capa. Reprodução
Cabeça feita. Capa. Reprodução

 

Silvério Pessoa é descendente musical direto de Jackson do Pandeiro, de cujos genes nunca negou a influência. Desde Fome dá dor de cabeça (1998), único disco que lançou como integrante do Cascabulho, banda de seu início de carreira, já estava impregnado do Micróbio do frevo – ali Jackson do Pandeiro já comparecia ao repertório, com 17 na corrente (Manoel Firmino Alves e Edgar Ferreira). Não à toa, depois, batizou seu segundo disco Micróbio do frevo (2003), inteiramente dedicado ao repertório do mestre – antes, inaugurando sua bem sucedida carreira solo lançou Bate o mancá – O povo dos canaviais (2000), dedicado ao repertório de Jacinto Silva.

Agora volta à carga com este Cabeça feita – Silvério Pessoa canta Jackson do Pandeiro [2015, R$ 25,00 na Livraria Poeme-se], em que buscou aproximar-se da sonoridade original das gravações do homenageado, tanto no uso dos instrumentos quanto no puxar dos “erres”. O repertório não se limita a um “best of”: embora músicas mais conhecidas gravadas por Jackson do Pandeiro formem a maior parte do repertório, Silvério também foi buscar lados b do cantor.

Forró, frevo, xote, coco, rojão, samba: à primeira vista o disco pode parecer predominantemente junino – e acertadamente o fará quem usá-lo como trilha sonora em festas do período –, mas, como toda a obra do homenageado, pode ser ouvido o ano inteiro. Parte do que se ouve em Cabeça feita já foi ouvida também em recriações de outros intérpretes, caso da faixa-título (Sebastião Batista da Silva e Jackson do Pandeiro), gravada por Gal Costa em Profana (1984), Forró em limoeiro (Edgar Ferreira), por João Bosco em 1995, A ordem é samba (Jackson do Pandeiro e Severino Ramos), por Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede em Vagabundo (2004), além de, entre outras, Casaca de couro, por Zé Ramalho, e Na base da chinela, por Geraldo Azevedo com o grupo Cascabulho, estas últimas em Jackson do Pandeiro revisto e sampleado (1999), tributo coletivo ao rei do ritmo.

Com repertório tão vasto e tantas releituras, é justamente a devoção o que torna original a ourivesaria musical em torno do nome do paraibano Jackson do Pandeiro empreendida pelo pernambucano Silvério Pessoa. Nem capa e encarte, repertório menos ainda, soam óbvios. O maestro Spok (saxofone) é o convidado de Coco social (Rosil Cavalcanti), que ajuda a traduzir a elegância e o cenário em que posa o cantor na capa do disco: “ele é pernambucano, do canavial/ veio pro salão, é social”, diz a letra, sobre as origens e a chegada do coco aos salões e colunas sociais.

Cabeça feita repagina 24 músicas em 15 faixas, nas quais Silvério Pessoa é acompanhado por Raminho (zabumba), Luis Carlos (triângulo, congas, pandeiro, tamborim, maracás e ganzá), Renato Bandeira (viola de 10 cordas e violão), Israel Silva (contrabaixo), Vanessa Oliveira (coro), Pepê (violão de sete cordas, cavaquinho e banjo) e Dudu do Acordeom.

Ao repertório não faltam músicas de duplo sentido, de um tempo em que seu uso exigia alguma inteligência do ouvinte: o pot-pourri que reúne Vou de tutano (José Cavalcante e José Gomes Filho), Xote de Copacabana (Jackson do Pandeiro), Xarope de amendoim (Paulo Patrício e Severino Ramos) e Cremilda (Edgar Ferreira), além de Quadro negro (Rosil Cavalcanti e Jackson do Pandeiro).

Silvério Pessoa não joga conversa fora em Cabeça feita, como adverte a letra da faixa-título: “sou cabeça feita/ não jogo conversa fora/ se o papo é legal eu fico/ se não serve vou embora”. Disco festivo e inteligente, de cujo baile nordestino o leitor, festivo e inteligente idem, não cansará, mesmo após gastar todo o repertório e sandália.