Dançando “Eva”

Nina Santes é a estrela do próximo vídeo da série “Dançando as canções do álbum Eva”, de Ligiana Costa. Foto: divulgação

Certa vez galhofei numa rede social: “no jornalismo, só não confie em uma coisa: prazo”. Obviamente era uma piada, sem graça, até, reconheço. De lá para cá, muita coisa mudou, e há muito mais do que desconfiar, não no Jornalismo, aquele que ainda merece esse nome, ainda mais com letra maiúscula, mas no entorno, no submundo do que se disfarça de e colabora para levar fascistas ao poder.

Não sou exemplo, absolutamente, no cumprimento de prazos. Um amigo me pergunta, por exemplo, se já escrevi a resenha dum disco que me entregou. Às vezes leva meses maturando, fico ouvindo o disco repetidamente no som do carro, enquanto me estresso com motoristas mal educados no trânsito de São Luís, mas não só. Costumo sentar para escrever com o texto quase pronto na cabeça, sai de uma sentada – às vezes interrompida por um ou outro afazer doméstico, método que só fui aprender depois que nasceu José Antonio.

Às vezes sequer consigo escrever e não tem nada a ver com o disco, livro, filme ou o que seja ser ruim ou não merecer atenção de minha parte. Tem mais a ver com não querer dizer qualquer coisa de qualquer jeito. Não parece, mas resta em mim certo capricho, a despeito de não passar roupas há quase dois anos.

Ano passado, a cantora Ligiana Costa lançou o ótimo “Eva – Errante voz ativa”, um disco só de vozes, um dos grandes álbuns do pandêmico 2020, sobre o que demorei a escrever. Outro dia ela me botou em contato com um assessor, que tem me enviado sistematicamente releases sobre a nova ideia maravilhosa da cantora: oito bailarinas gravaram, em suas casas, durante o isolamento social, performances para as faixas do disco.

O resultado é muito interessante, reapresentando-nos “Eva” sob nova perspectiva. Um disco feito majoritariamente por mulheres, sobre mulheres – agora também dançado por mulheres –, mas não apenas para mulheres.

Tenho acompanhado os vídeos quando publicados e no mais recente, Rosa Antuña dança “Ná”, com que Ligiana homenageia Ná Ozzetti – já é o quarto vídeo e só agora consegui escrever, para tornarmos ao nariz de cera com que abro o texto. Na próxima segunda-feira (11), estreia a performance de Nina Santes para “Lilith e Eva” (Ligiana Costa/ São Yantó).

Também me chamou bastante a atenção o videoclipe solar em que Grécia Catarina performa “Nice”, declaração de amor de Ligiana à sua companheira, música que abre o disco – minha faixa predileta de “Eva”, confesso – e inaugurou a série.

Todos os vídeos podem ser assistidos nos perfis da cantora no youtube e instagram.

Se liga nas lives!

Como eu já disse aqui, a onda agora é live!

Hoje (30), no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, tive a honra e o prazer de conversar com Juliano Gauche. Amanhã, às 16h, ele se encontra com Tatá Aeroplano para uma live que eu reputo histórica: o encontro de dois dos mais talentosos artistas de sua geração. Vale muito conferir!

A quem perdeu o programa, eis a íntegra, incluindo o anúncio de outras lives muito interessantes por estes dias. Na TimbirAlive de quinta que vem conversarei com Jotabê Medeiros. Não percam!

Divulgação
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O reencontro do poeta com a cidade

Não que poesia careça de explicação, não é disso que estou falando, mas a melhor definição de seu novo livro é o próprio Celso Borges quem dá. Os versos impressos na contracapa – e que o abrem – anunciam: “o futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista/ mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”.

O título do livro é mantra que martela a cabeça do poeta, que já havia usado a frase do italiano Carlo Levi como epígrafe em XXI (2000), seu primeiro livro-disco, que inaugura a trilogia A posição da poesia é oposição, continuada com Música (2006) e completada com Belle Epoque (2010).

O futuro tem o coração antigo [Pitomba, 2013] é um livro de poemas curtos, que marcam o reencontro de Celso Borges com sua São Luís natal, após 20 anos de São Paulo – ele voltou a morar aqui em 2009 e em rápida apresentação, divide sua existência em três blocos, as três cidades de São Luís em que viveu: a primeira entre 1959 e 1989, a segunda, a mudança para São Paulo, e a terceira o retorno, período em que foram concebidos os poemas deste novo livro.

Celso Borges não é saudosista, “antigamente era antigamente e era muito pior”, já disse num poema [A saudade tem seus dias contados, que fecha Belle Epoque]. Mas em tempos de instagram e toda tecnologia do mundo recorre a recursos, digamos, rudimentares, para compor seu novo livro: O futuro tem o coração antigo é datilografado e ilustrado por retratos da cidade realizados através da técnica pin hole. Sua poesia, sincera e marcante, prescinde de ferramentas e técnicas. Exige, sim, seu coração de homem antenado com a realidade, batendo no compasso do ofício pelo qual foi escolhido – poeta!

Em preto e branco juntam-se os poemas de Celso Borges às fotografias dos alunos de Eduardo Cordeiro no IFMA, sob o design de Luiza de Carli, que já havia materializado ideia do poeta na revista Pitomba, de que é um dos editores.

Seu reencontro com a cidade – sem mágoas, expectativas ou juízos de valor – não faz do livro obra para iniciados – ou faz? Qualquer um que tenha nascido, vivido, passado (ainda que rapidamente) ou ouvido falar de São Luís poderá apreciá-lo – como à cidade, sob algum ângulo. E mesmo quem não conheceu Faustina ou A vida é uma festa – evento semanal ainda na ativa –, o Cine Éden do passado ou o Box idem, poderá extrair beleza dali, o que O futuro tem o coração antigo transborda. Foi Fabiano Calixto ou Marcelo Montenegro – dois poetaços – quem disse uma vez, não faz tanto tempo numa rede social, que Celso Borges faz os livros mais bonitos do mundo?

Há várias maneiras de lermos este O futuro tem o coração antigo. Como um longo poema. Como vários poemas curtos. Como pílulas poéticas, cartões de visitas, guias para um passeio pelas cidades, que São Luís é várias, mesmo se nos contentarmos com a clássica divisão cidade nova versus cidade velha, as pontes por sobre o Rio Anil, este também um personagem, unindo a São Luís horizontal com a vertical. Ou ainda como um álbum de fotografias que retrata São Luís entre o belo e o feio, o casario tombado pelo patrimônio histórico e o prestes a tombar pela falta de conservação por parte de proprietários e poderes públicos irresponsáveis, os buracos que se tapam e reabrem a cada chuvisco, o esgoto a céu aberto, os cartões postais, a São Luís real, de verdade, pura poesia. Mesmo quando trisca em política, o que temos de mais nojento desde sempre, o autor soa poético, o que talvez lhe explique a alcunha de homem-poesia com que o tratam os amigos.

Mas a intenção aqui não é estabelecer um manual de instruções para o livro. Cada um o apreciará à sua maneira, difícil mesmo será quem não o faça – haverá?

Depois da volta de Celso Borges à Ilha, o Cine Roxy, quase em ruínas e então exibindo apenas filmes pornôs, tornou-se o Teatro da Cidade de São Luís – embora velhos como este blogueiro ainda prefiram chamá-lo pelo antigo nome –, hoje palco de importantes acontecimentos no cenário cultural da capital maranhense, o que inclui o lançamento de O futuro tem o coração antigo, amanhã (21), às 19h, com entrada franca. Na ocasião o livro será vendido por R$ 30,00 e haverá a exibição de um vídeo, o teaser abre-ilustra este post, realizado por Beto Matuck e Celso Borges.

O futuro tem o coração antigo e o passado tem lugar certo em nossos corações. Sem nostalgias baratas ou gratuitas, que pra frente é que se anda, “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, como disse outro poeta cujo futuro foi abreviado. Um pé no passado, outro no futuro, a poesia de Celso Borges é um espaço-lugar em que a cidade não para no tempo – para o bem e/ou para o mal, “a cidade só cresce”, sem saber onde vai dar, sem saber se é desta vez que a serpente vai acordar.