“Botei todos os fracassos nas paradas de sucesso”

Durante o período de isolamento social imposto pela pandemia da covid-19 participei de dois editais/concursos: o de minicontos do Itaú Cultural, cujo texto com que concorri já compartilhei por aqui com os poucos mas fiéis leitores; e o 8º. concurso de poemas das farmácias Pague Menos.

Não ganhei nem um nem outro (neste último nem algum prêmio em dinheiro para os cinco primeiros lugares, nem a participação na coletânea para os 100 primeiros); mas roubo o verso de Caetano Veloso, de uma de minhas faixas prediletas [Épico] de um de meus discos prediletos [Araçá azul, de 1972] do velho baiano, para mostrar-lhes o poema com que concorri, já que não escrevo nada para gavetas, sejam poemas, letras de música, matérias, reportagens ou entrevistas, não necessariamente nessa ordem.

O poema é, obviamente, dedicado a Guta Amabile, com amor, e o título decorre do tema da edição do concurso este ano, “Viva plenamente”.

AMOR PLENO

Andar pela calçada,
nós dois de mãos dadas
sentindo os pingos da chuva
molharem as lentes.
Beijo-te e tudo embaça
e no banco molhado da praça
sinto-me vivendo plenamente.

A vida só faz sentido
se vivida com intensidade.
De você, quero amor,
passado ficou na saudade.
Dor se cura com remédio,
aventura cura tédio,
mas ficção não cura realidade.

Por isso digo agora
o que quero para sempre.
Quero o teu amor
para poder viver plenamente.
Nada adianta pelo meio:
você, minha metade, me faz cheio.
Contigo eu quero ser eternamente.

This is true

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

Há alguns dias saímos em missões por shoppings e Rua Grande para fazer uns “mandados” da mãe dela, cumprindo rigorosamente o isolamento social imposto pela pandemia de covid-19.

Entramos em diversas lojas e, munidos das especificações, procurávamos roupas para a sogra, com a vida à distância, como requer o momento, facilitada pela comunicação via aplicativos de bate-papo.

Numa delas saquei o celular e fotografei o vestido colocado em frente ao corpo, por cima da roupa mesmo, espécie de meio-manequim vivo. Encaminhei a foto à sogra e comentei com a filha: tua cara tá ótima! Rimos.

Só depois me toquei que no vestido está escrito “isto é verdade” em inglês, mais uma dessas coincidências (Deus ou acaso, chamem/os como queiram/os) com que a vida tem nos presenteado desde que a vi pela primeira vez.

Minha modelo predileta surgiu assim para mim naquela tarde quente de domingo cuja história já devo ter contado muitas vezes para amigos íntimos e outras tantas aos poucos mas fiéis leitores. Aliviava o calor com uma cerveja gelada quando ela passou na calçada defronte o Botequim da Tralha, os paralelepípedos da Godofredo Viana transformados em passarela. Não era concurso de miss por que em meu coração ela é hors concours.

O faro detetivesco que de algum modo me deu o jornalismo se responsabilizou pelo resto: perguntar quem era, tão linda, e correr atrás e contar com um pouco de sorte. A vida é gangorra ou montanha russa, com seus altos e baixos – tê-la ao lado torna os obstáculos mais fáceis de transpor, apesar do sedentarismo mútuo, entre horas vendo séries, arrumando (e vendouvindo) livros e discos, cuidando de plantas, botando água para garantir a visita diária e colorida dos passarinhos com seu barulhinho bom, não necessariamente nessa ordem, nesse quase um ano.

Ambos tomamos café sem açúcar e o fim da xícara guarda a porção mais amarga, dada a proximidade com a borra. Esse texto, intencionalmente mais doce que guaraná Jesus, poderia aumentar as taxas de glicose dos leitores, ainda mais os ressacados numa manhã de sábado – como misteriosamente não está o autor.

Na falta de fecho adequado, aproveito para mostrar um poema que escrevi para ela há um tempo, que o parceiro Gildomar Marinho me deu a honra de musicar – está em seu novo disco, Estradar, a (quase) inédita Amor ateu (é a terceira música do vídeo, começa aos 6’17”; tentei programar, mas o youtube está me pregando alguma peça; peço que pulem aí manualmente, mas quem quiser ouvir as três, está valendo também).

Reencontro

Retrato: Guta Amabile
Retrato: Guta Amabile

És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho, nos ensinou um antigo compositor baiano, sobre o tempo.

Ontem ele veio me visitar, após meses nos falando apenas por videochamadas, imposição do isolamento social, por sua vez imposto pela pandemia da covid-19. Novos tempos, novos hábitos.

Distância não é sinônimo de ausência.

Mas as videochamadas não me permitiam perceber o quanto meu filho cresceu nesse tempo. Como está comprido, admirou-se a avó, que, no passeio ligeiro com ele, levei para visitar, ela também há tempos sem vê-lo pessoalmente.

Ele riu o trajeto inteiro, para minha surpresa – achei que fosse estranhar mais, diante da quebra da rotina. Em casa, da janela lateral do quarto de dormir, vimos a ponte e suas luzes com seu trânsito como se (já) estivéssemos em dias normais, vimos a árvore e as plantinhas; infelizmente não vimos os passarinhos, pois já era noite.

Brincamos um pouco com um Cebolinha “vintage”, um boneco que eu tenho desde que tinha mais ou menos a idade do menino, um boneco que você abaixa a aba do boné e ele muda as feições – são quatro, do alegre ao zangado. Como o menino, que da gargalhada mais gostosa, muda para o aborrecimento, a reivindicar os vídeos com as músicas que tanto aprecia.

Deu tempo de verouvir Vanguart, Beatles, Partimpim e os Muppets relendo o Queen – juro que a rima não foi intencional (mas as coisas se deram exatamente nessa ordem).

Saindo de casa apenas por extrema necessidade, vejo muita gente a descumprir as normas sanitárias de uso de máscaras ou distanciamento social – certamente gente que não perdeu nenhum parente ou não sentiu saudade de um filho.

A onda agora é live!

Recebi o honroso convite para participar ontem (26) de uma live com tema-slogan “Direitos culturais, sem perder a ternura jamais”, organizada pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entidade de que fui assessor de comunicação e presidente.

A live não foi alive, mas também não chegou a ser dead. Explico: problemas técnicos e motivos de força maior impediram sua transmissão ao vivo. A conversa foi gravada e já está disponível nos canais e redes sociais da SMDH.

Além das participações especiais de um cachorro latindo na rua durante minha fala de abertura e de Rose Teixeira, esposa de Joãozinho Ribeiro, ele, um dos convidados da live, ao lado de Zeca Baleiro, com as presenças também de Dicy e João Simas, mediados por este que vos perturba, conversamos (eles também cantaram) sobre direitos e políticas culturais, pandemia e isolamento social, a aprovação na Câmara dos Deputados da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc (na mesma “tarde noite” em que conversávamos), a cadeia produtiva da cultura e, obviamente, o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

A quem interessar possa, aí está o vídeo com a íntegra do papo. Ele é finalizado com Equinócio, composição de Elizeu Cardoso que Dicy gravou em seu disco Rosa Semba, o que destaco para anunciar que, amanhã (28), noutra live, o compositor, cantor, escritor, webradialista e professor (olha o respeito com seus alunos!) é meu entrevistado no TimbirAlive, que a Rádio Timbira AM está transmitindo em seu instagram (@radiotimbira), sempre às 17h, às terças (saúde, com Aécio Macchi e Amanda Couto se revezando na apresentação), quartas (esporte, com Quécia Carvalho) e quintas (cultura, com Gisa Franco e Zema Ribeiro, também em revezamento). Como diria o Gabriel DCastro, faça como seu time: não perca!

Divulgação
Divulgação

Há uma luz que nunca se apaga

The Smiths. officialsmiths.co.uk/ Reprodução
The Smiths. officialsmiths.co.uk/ Reprodução

 

Registro esta história pelas conexões envolvidas, tantos anos passados. Não fosse a quarentena, talvez fosse um texto que não passasse da ideia de escrevê-lo.

A memória é uma ilha de edição, nos ensinou Wally Salomão. E Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida.

Apresentando hoje o Balaio Cultural, na companhia de Gisa Franco, remotamente, eu em minha casa, ela na dela, tive a honra de saber da audiência do amigo Nilsoaldo Castro Silva, o Capu, direto de Rosário/MA. Daqueles amigos que, como comentei com ele, pouco antes de o programa começar, mesmo que a gente demore a se ver, quando nos encontramos novamente parece que estamos continuando uma conversa interrompida ontem.

Foi Capu quem me apresentou The Smiths. Dois cds, totalizando 28 faixas, os dois volumes de uma coletânea do grupo britânico formado por Morrissey (voz), Johnny Marr (guitarras), Andy Rourke (contrabaixo) e Mike Joyce (bateria), os dois primeiros os compositores do repertório.

Eu era um adolescente com meu macarrônico inglês do colégio, mas conseguia, ouvindo os discos, acompanhar, por vezes sem saber o que diziam, as letras nos encartes, posteriormente dispensados: não demorei a cantar sem precisar ler músicas como This charming man e The boy with the thorn in his side, até descobrir There is a light that never goes out, minha preferida desde sempre.

Corta para a vida adulta, alguns meses atrás: a primeira vez em que ela veio ao apartamento em que hoje moramos, no comecinho do namoro, pediu: bota uma música. Eu já sabia que ela gostava de rock e arrisquei justamente There is a light that never goes out e, para minha surpresa, ela revelou a coincidência: trata-se também de sua faixa predileta do grupo.

Fiquei pensando nisso tudo enquanto apresentava o programa e combinei com Gisa Franco de tocar a música e oferecê-la a Guta Amabile. Mas acabei me embananando e mandando a música errada para o operador de áudio – a esta altura Francisco Nunes já substituía Vitor Nascimento –, que tocou The boy with the thorn in his side. Já era! A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior, já nos diria Belchior.

Como tudo se conecta e eu não queria perder a história – ou melhor, as histórias, das conexões e dos erros – faço este breve registro, oferecendo aqui a música certa.

Não sem antes lembrar de Leminski, em cujo poema erra uma vez nos ensina: “nunca cometo o mesmo erro/ duas vezes/ já cometo duas três/ quatro cinco seis/ até esse erro aprender/ que só o erro tem vez”.

Diário da quarentena (mal e porcamente ilustrado)

Desenho de Zema Ribeiro
Desenho de Zema Ribeiro

Para Elizeu Cardoso, grande contador de histórias (e estórias)

Uma das coisas que mais tenho feito nesta quarentena é abrir e fechar janelas. São Pedro ameaça e, mesmo com a chuva fina, fecho a janela de modo a evitar molhar a sala e os quartos do apartamento. Às vezes levantar para fazer isso vale a pena, às vezes a chuva dura nem cinco minutos e lá vou eu abrir tudo novamente.

Há pouco aconteceu isso e, ao reabrir a primeira janela, deparei-me imediatamente com uma cena infelizmente nem tão inusitada no Brasil de 2020, em que dinossauros ajoelham-se para esperar meteoros, baratas votam em inseticidas e há toda a sorte de pessoas que, como diria o poeta Reuben, comprovam a existência da viagem no tempo: há muitas cabeças do século retrasado neste.

Um motoqueiro subia a rua em que moro com um passageiro na garupa; este, usava o capacete corretamente e zuniram tão rápido que não tive tempo de saber se era homem ou mulher – o que pouco importa para este relato.

O piloto usava um capacete com a viseira aberta, o que, por si só, configura infração de trânsito. Mas não foi isso o que me chamou a atenção: para fora do capacete, pendia, pendurada em apenas uma orelha, uma máscara, dessas que há mês e pouco passaram a fazer parte de nosso guarda-roupa diante da pandemia de coronavírus.

Li, outro dia, numa rede social, algo como “máscara no queixo é o novo capacete no cotovelo”. Não estava com o celular na mão, logo, perdi de fotografar a cena, emblemática de nossos tempos – ao menos foi o que considerei.

Abertas as janelas, sentei-me e arrisquei um desenho. Indagado sobre o que eu estava fazendo, contei toda a história acima a ela, destacando, no desenho, as hachuras, que representam os visores dos capacetes e a malfadada máscara.

Ela, obviamente também reconhecendo a minha falta de talento para desenhar, afirmou: “esse capacete do piloto ficou parecendo um pato”. Não perdi a piada, com que ela concordou e ambos rimos: “deve ser mesmo, algum pato da Fiesp, desses que ainda vão em carreata contra o isolamento e, apesar de tudo, ainda defendem o boçal que ocupa o Palácio do Planalto”.

Isolamento social. São Luís, 17 de abril de 2020

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: GUTA AMABILE

Por absoluta necessidade, precisamos sair de casa hoje. No trajeto, enquanto eu dirigia, ela, com o carro em movimento, fotografava. Era assustador ver o número de pessoas nas ruas, em descumprimento às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Governo do Estado do Maranhão. Nem de engarrafamento na Jerônimo de Albuquerque escapamos.

Feiras, supermercados, bancos: tudo extrapolando o limite do razoável na presente situação, imposta pela pandemia de coronavírus.

É preciso reconhecer: em um supermercado fomos barrados; ela tentou entrar para acessar o caixa eletrônico, mas estava sem máscara. A rede de supermercados se adapta ao disposto no último decreto do governo estadual sobre o tema.

O isolamento social não é uma questão de opinião ou ideológica: é, cientificamente comprovado, o melhor método de diminuir a proliferação do vírus. Não é questão de “eu acho”.

Não sei onde iremos parar, num tempo em que o formato da Terra é posto em questão, um ministro é demitido por fazer o seu trabalho e o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro segue demonstrando sua absoluta incapacidade de lidar com o assunto – qualquer assunto.

Não sei onde iremos parar enquanto a população não tomar consciência e fazer a sua parte, salvando a si mesmo. Aqui, reconheça-se, o governo tem feito seu papel, vide o drible que Flávio Dino deu em Bolsonaro e Donald Trump, ao adquirir respiradores da China.

Como vovó já dizia: esse povo está brincando com a cor da chita! Fica em casa, disgranha!

Agência da Caixa Econômica Federal na Av. São Marçal, João Paulo
Agência do Banco Itaú na mesma avenida
Feira do João Paulo
Parada de ônibus na mesma avenida
Feira do João de Deus
Tráfego intenso na Av. Jerônimo de Albuquerque

 

Agência da Caixa Econômica Federal na Av. Kennedy, onde também é intenso o comércio e serviços de peças automotivas, com a quase totalidade dos estabelecimentos abertos