Música instrumental no Sesc Amazônia das Artes

João Pedro Borges faz passeio por escolas do violão brasileiro. Josué Costa, vencedor do I Festival de Violão do Piauí, se apresenta na sequência

João Pedro Borges conversou com exclusividade com o blogue sobre apresentação de amanhã (23). Foto: Rivanio Almeida Santos
João Pedro Borges conversou com exclusividade com o blogue sobre apresentação de amanhã (23). Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Violonista e professor de música, João Pedro Borges, 67, é um nome fundamental para o violão brasileiro, que ajudou a divulgar inclusive fora do país. Entre o fim da década de 1970 e boa parte da de 80, Sinhô, como também é conhecido no meio musical, integrou um capítulo fundamental para a renovação do choro no Brasil: a Camerata Carioca, do maestro gaúcho Radamés Gnattali.

A bagagem e as histórias são muitas. Musicalmente, boa parte poderá ser conferida em concerto que o músico apresenta amanhã (23), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca, dentro da programação da Mostra Sesc Amazônia das Artes.

Sinhô, que recentemente percorreu o Brasil ao lado do violonista gaúcho Daniel Wolff, numa série de concertos pelo projeto Sonora Brasil, também do Sesc, apresentou-se na última edição da Mostra Sesc Guajajara de Artes, ao lado da cantora Célia Maria, em outubro do ano passado. Sobre estar mais uma vez escalado para uma programação da instituição, ele comentou: “Desde o Sonora, mantenho excelentes relações com o Sesc e é com grande prazer que participo da sua extraordinária programação. Representar o Maranhão no Sesc Amazônia é uma distinção que muito me honra”.

O concerto do maranhense será seguido pelo de Josué Costa, às 20h, no mesmo palco. O piauiense venceu o I Festival de Violão do Piauí, cujo júri era formado, além de João Pedro Borges, por nomes como Turíbio Santos e Guinga. “É um jovem violonista muito talentoso e que nos deixou impressionados quando venceu aquele concurso. Estou curiosíssimo para ver como está “a Fera” neste momento”, elogia.

Eventos como os citados, de que Sinhô participou, demonstram a valorização da música instrumental pelo Sesc. Pergunto-lhe o que falta para que isto seja mais corriqueiro e pauta dos poderes públicos e da iniciativa privada. “Creio que a excessiva politização da vida brasileira e da maranhense em particular, sempre acaba levando as chamadas políticas públicas para o campo suspeito das disputas pelo poder. O primeiro mundo há muito nos dá o exemplo de como integrar o público e o privado criando um mercado independente onde a música instrumental vive dos seus méritos. O Sesc, preenchendo uma lacuna brasileira, tem desenvolvido projetos que contemplam a música não comercial e de mais difícil acesso, tendo em conta os critérios da indústria cultural”, respondeu.

Como repertório de sua apresentação ele anuncia “um passeio pelo violão brasileiro, juntando patriarcas como [Heitor] Villa Lobos, [Ernesto] Nazareth, Radamés Gnatalli e figuras marcantes como João Pernambuco, Garoto e Paulinho da Viola. O programa mostra as relações de influência entre eles e registra mudanças rítmicas, harmônicas e sociais da vida brasileira”, antecipou.

Após sua participação no Sesc Amazônia das Artes, João Pedro Borges irá ao VI Festival de Violão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O festival acontece de 21 a 25 de setembro e, além do maranhense, terá concertos gratuitos de Marco Pereira, Turíbio Santos e Egberto Gismonti, entre outros.

Encontros e reencontros musicais na 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes

Noite dedicada ao choro promoverá reedição de recital com João Pedro Borges e Célia Maria, além do encontro inédito, no mesmo palco, dos grupos Regional Tira-Teima e Instrumental Pixinguinha

Realizado há cerca de 10 anos, o Recital de Música Brasileira protagonizou o encontro de um dos mais respeitados violonistas brasileiros em todos os tempos, João Pedro Borges, também conhecido pela alcunha de Sinhô, com uma das mais belas vozes já ouvidas na música popular brasileira, Célia Maria.

Na ocasião, o palco do Teatro Arthur Azevedo foi o escolhido para o espetáculo, em que ao par somava-se ainda um regional. A apresentação deixou saudades em quem esteve na plateia e/ou viu trechos pela internet ou pelas tevês Câmara e Senado, que reprisaram-na, colaborando para a aura mítica de que hoje goza o Recital.

Ainda que em menor escala, uma reedição do show será apresentada na Noite do Choro, domingo que vem (27), às 19h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), dentro da programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

A Noite do Choro promete também ser um acontecimento inesquecível: além do Recital de Música Brasileira, o espaço destinado ao mais brasileiro dos gêneros musicais no evento promoverá o encontro inédito, no mesmo palco, tocando simultaneamente, dos mais tradicionais grupamentos de choro do Maranhão: o Regional Tira-Teima e o Instrumental Pixinguinha.

Certamente será também a noite dos encontros, dos reencontros. Nela o verso do poeta centenário ficará incompleto: só não haverá desencontros. Marque com seu amor, marque com seus amigos, e vá prestigiar este bom punhado de talentos do choro e da música brasileira produzidos no Maranhão. Como apregoa um radialista especializado no assunto: “pra gente de qualidade”.

Histórias – João Pedro Borges, também conhecido como Sinhô, é um dos mais importantes nomes do violão brasileiro. Foi professor de, entre outros, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Guinga e Raphael Rabello. Integrou a Camerata Carioca, liderada pelo gaúcho Radamés Gnattali, grupo definitivo para a renovação do choro no Brasil, entre o final da década de 1970 e início da de 1980. Participou de discos fundamentais do gênero, como Tributo a Jacob do Bandolim [Camerata Carioca, 1979], Valsas e Choros [Turíbio Santos, 1979], Vivaldi e Pixinguinha [Camerata Carioca, 1980], Mistura e manda [Paulo Moura, 1983] e Noites Cariocas [vários, 1989]. Sua discografia inclui ainda A obra para violão de Paulinho da Viola [1985], em que executa repertório do autor de Sinal Fechado acompanhado do próprio e César Faria.

Conhecida como “a voz de ouro do Maranhão”, Célia Maria ainda é menos conhecida do que merece, seja no Maranhão ou fora dele, dado seu inegável talento. Nascida em São Luís, Cecília Bruce dos Reis, adotou o nome artístico para poder, então adolescente, cantar escondida dos pais. Sua carreira artística iniciou-se ainda na infância em concursos de calouros promovidos por emissoras de rádio em sua cidade natal. Morou no Rio de Janeiro onde respirou a efervescência cultural do famoso restaurante Zicartola, com cujos proprietários conviveu, Dona Zica e Cartola, além de nomes como Zé Keti e Nelson Cavaquinho, entre outros da fina flor do samba brasileiro. Em seu disco de estreia, de 2001, intitulado simplesmente Célia Maria, registrou obras de nomes como Chico Maranhão [Meu Samba Choro], Cesar Teixeira [Lápis de Cor], Antonio Vieira [Ingredientes do Samba], Bibi Silva [Lágrimas], João do Vale [Na asa do vento], Edu Lobo e Chico Buarque [Beatriz] e, entre outros, Joãozinho Ribeiro, que naquele ano levou o troféu do Prêmio Universidade FM de melhor compositor, por Milhões de Uns. A produção e os arranjos de Célia Maria ficaram a cargo de Ubiratan Sousa. Seu segundo disco está finalizado, tendo sido produzido e arranjado pelo violonista Luiz Jr., e deve chegar às lojas em 2014.

O Regional Tira-Teima é o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão. Suas origens remontam ao final da década de 1970, quando participaram do antológico Lances de Agora [Discos Marcus Pereira, 1978], de Chico Maranhão, gravado em quatro dias na sacristia da secular Igreja do Desterro, no bairro homônimo do centro histórico da capital maranhense. O único remanescente daquela formação é Paulo Trabulsi (cavaquinho). A atual completa-se com Francisco Solano (violão sete cordas), Zeca do Cavaco (cavaquinho), Serra de Almeida (flauta) e Zé Carlos (percussão). O Tira-Teima está em estúdio, gravando seu disco de estreia.

O Instrumental Pixinguinha foi pioneiro ao lançar, em 2005, Choros Maranhenses. O disco de estreia do grupo era o primeiro trabalho inteiramente dedicado ao choro gravado no Maranhão. E foi além: todo o repertório é de autoria de chorões locais, de membros do grupo e chorões fundamentais para a consolidação do gênero por estas plagas, a exemplo de Zé Hemetério e Nuna Gomes, entre outros. Formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), por professores da instituição, o grupo toma emprestado o apelido-nome artístico de Alfredo da Rocha Viana Filho, um dos mais importantes do choro em todos os tempos. Domingo sobem ao palco Raimundo Luiz (bandolim), Juca do Cavaco (cavaquinho), Domingos Santos (violão sete cordas), Nonato Oliveira (percussão) e Paulo Oliveira (flauta).

O compositor, cujo sesquicentenário de nascimento é comemorado em 2013, será homenageado em ambos os repertórios da noite

RepertóriosRecital de Música Brasileira – Choros e Canções, o primeiro espetáculo da Noite do Choro na 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, foi pensado para mostrar ao público um momento de formação e afirmação da música brasileira, sendo dividido em duas partes. Na primeira, João Pedro Borges executa sozinho, choros de autoria de Heitor Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, João Pernambuco e Garoto.

“Não são nomes escolhidos à toa, as peças destes compositores dialogam entre si: Villa-Lobos homenageou Nazareth, que homenageou João Pernambuco e Garoto acaba sendo meio que o resultado daquilo tudo que o choro se tornou”, explica Sinhô, também professor da EMEM.

Na segunda parte do espetáculo, Célia Maria, acompanhada pelo violão dele, desfila um repertório que vai de Azulão (parceria de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira) a Piano na Mangueira (de Chico Buarque e Tom Jobim), passando por, entre outras, canções como Senhorinha (parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro), O Velho Francisco (Chico Buarque) e Sinhá (parceria de Chico e João Bosco), além de um tema inédito de autoria de João Pedro Borges (Porto Errante).

O segundo show, a reunião inédita de Tira-Teima e Pixinguinha no mesmo palco, fará um passeio por clássicos do gênero. Serão 10 de nossos melhores instrumentistas executando uma espécie de “o melhor do choro”, aquelas que não podem faltar em qualquer roda – e discografia – que se preze.

“Faremos um repertório conhecido e popular, pra cima”, promete Juca do Cavaco. Raimundo Luiz antecipa alguns títulos: Vibrações (Jacob do Bandolim), Brejeiro (Ernesto Nazareth), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo), Delicado (Waldir Azevedo), Naquele Tempo (Pixinguinha) e Doce de Coco (Jacob do Bandolim). “Isso é só para terem uma ideia”, afirma, em parte agradando antecipadamente aos chorões de carteirinha, em parte deixando algum mistério no ar.

Pelos momentos mágicos que certamente proporcionará, a noite de domingo que vem já está na história.

Serviço

O quê/ quem: Noite do Choro. Dois espetáculos musicais: o primeiro, o Recital de Música Brasileira – Choros e Canções, com João Pedro Borges (violão) e Célia Maria (voz); o segundo, o encontro inédito dos grupos Regional Tira-Teima e Instrumental Pixinguinha.
Quando: 27 de outubro (domingo), às 19h.
Onde: Praça Nauro Machado (Praia Grande).
Quanto: grátis.
Classificação livre. O espetáculo integra a programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.